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sábado, 25 de março de 2017

A transmutação


Quando Cacilda deu por si, após um curto período de sensação de irrealidade, percebeu que se transformara numa árvore do jardim em frente de sua casa.
Permaneceu de braços levantados, curiosamente sem esforço, e pernas bem metidas na terra, como quem tem medo de se mexer em uma situação de perigo. Não conseguia discernir sons nem imagens, mas a agitação do ar trazia-lhe muita informação óbvia e outra que ainda não sabia bem interpretar, o mesmo acontecendo às subtis vibrações do solo que lhe faziam tremelicar as pernas.
«O que terá acontecido?», surgiu na nebulosa da sua consciência, o que lhe transmitiu um instante de confiança, por, ao menos, perceber que dispunha dessa capacidade de controlo de si. «Talvez tenha tido uma quebra de tensão quando me levantei. Ou já estava a tomar banho? Não me lembro.»
Era uma chatice, de qualquer modo: entrava às 10 no supermercado e não estava a ver como podia chegar a horas. Felizmente que no início do dia havia poucos clientes e talvez as colegas conseguissem aguentar o serviço sem grandes complicações. Mas do raspanete da chefe não se ia livrar.
Avaliou a situação com mais detalhe. Era mais do que as pernas o que tinha enterrado. Percebeu a pressão da terra até ao alto da anca, o que um leve roçar das ervas que lhe tocavam veio confirmar. Para baixo, era humidade e tensão firme. E uma certeza de imobilização. Para cima, secura, agitação do ar e vibração luminosa. Com esta vibração vinha um conforto de ganho de energia. Não enchia quaisquer pulmões, mas a sensação de plenitude respiratória era real.
«Estou com a pele muito rugosa», percebeu. «Então as partes da barriga e do peito estão bem escamosas. Peito, salvo seja. Está mais espalmado do que quando me deito de costas. Só se forem aquelas elevações junto à confluência dos braços mais baixos. Caramba! Se tiver de aplicar cremes a este corpanzil todo, tenho de trazer a prateleira inteira», gracejou com a situação.
Percebeu o carro dos do 3º andar a arrancar. «Ainda bem que não me viram.» Pouco depois, a vizinha da cave a passear o cão. «Se se aproximar, é capaz de reconhecer a tatuagem em forma de coração que tenho ao fundo das costas... Não, acho que nem olhou. E se o cão me vem urinar ao troço… Faço o quê? Atiro-lhe com umas pétalas? Nem sequer ainda tenho vagens rijas… Ai a minha vida!»
Percebeu pela primeira vez o toque múltiplo do que deveriam ser insetos. O primeiro pensamento foi de incómodo, mas pouco depois toda aquela azáfama por sobre o seu corpo, se lhe podia chamar isso, tornou-se confortável e até sensual.
«Sensual, como? Aonde fui buscar esta ideia?», admirou-se. Então percebeu que o seu sexo estava distribuído por uma miríade de pontos do seu corpo, onde as abelhas se atarefavam na recolha de pólen, o que lhe transmitia múltiplas sensações de regozijo. «Devo estar a fazer uma linda figura, de múltiplos braços no ar a agitar pequenos sexos coloridos, entusiasmada com os toques de quem chega, entra, deixa sémen de outras árvores que nem sequer conheço e se vai embora sem um beijo de despedida...» Sorriu-se com o próprio gracejo, mas duvidava que algum outro ser o tivesse notado.
Ser caixa no supermercado era muito cansativo e mal pago, mas tinha essa particularidade de permitir o contacto com muitas pessoas. Durante uma jornada de trabalho trocava palavras, sorrisos, olhares e toques de mãos com dezenas de mulheres e homens. Desde os gatões aos velhadas. Fora lá que conhecera o último namorado, da lista que já ia longa e mal sucedida. Fora assim num toque casual, na entrega do troco em moedas em que algumas tinham caído e houvera risos e troca de gracejos. Ele devia ter gostado, porque quando voltava procurava sempre a caixa dela. E voltava cada vez com mais frequência. Enfim, o costume, em tudo. Ao fim de uns meses a viverem juntos, arranjou uma desculpa esfarrapada de que precisava de espaço. «Espaço… Ele é que devia estar aqui para sentir o que é falta de espaço para as pernas.»
«A esta hora já deram pela minha falta. Vou ter de inventar qualquer coisa com a saúde da minha mãe. Lá se vai um dia de salário! E se isto se prolonga? Quem virá à minha procura? Não será a minha mãe, com certeza, que fica pesarosa quando não lhe atendo o telefone, mas mal sabe onde moro. E os ex-namorados foram de vez.»
Com o avançar do dia e do calor, os festões olorosos de flores brancas, pendentes dos múltiplos ramos da acácia bastarda em que Cacilda se transformara eram uma atração irresistível para muitas dezenas de abelhas e besouros. Ela não lhes resistia, antes se expunha, num deleite físico de entrega, à orgia que os insetos representavam. Nunca se entusiasmara com a ideia de ter sexo com mais de um homem, mas certa vez acontecera. Não gostara. A ilusão de excitação acrescida gorara-se em grande medida. Era muito membro para dar atenção, muito físico e pouca alma, egoísmo a dobrar.
«Será que vou passar aqui a noite? Deve estar frio.» A noite foi estranha. Com o entardecer veio uma espécie de sufocamento. As folhas já não recebiam luz, já não lhe transmitiam energia. Teve medo. Então, paulatinamente, recomeçou a “respirar” com conforto, expirando o que a estava a entupir. Frio não sentiu muito, só um ténue encarquilhamento das folhas. Deixou-se entorpecer, num sossego de que tanto precisava.
O novo dia trouxe-lhe a perceção ténue, fluida, da absorção que se produzia nos recônditos que os seus membros inferiores alcançavam. E a primeira ideia de imobilidade subterrânea também era falsa: impercetivelmente, as suas extremidades tateavam, sondavam e deslocavam-se milimetricamente para a humidade. E bebiam. «Ali, pelo menos, a pele deve estar bem hidratada.» E quando a orgia floral recomeçou, intuiu claramente os movimentos ínfimos que se produziam dentro das suas corolas. E esse conhecimento trouxe-lhe uma alegria que nunca tinha podido sentir — a de que ia ser mãe. Percebeu a evidência do processo de chegada dos frutos. Daí a uns dias, não podia ainda calcular quantos, ia “parir” vagens cheias de sementes. Era de uma grande ironia o que lhe estava a acontecer. E de certo modo trazia algum consolo às injustiças da vida. Ia gerar centenas de filhos, poucos meses depois da constatação dramática de que lhe tinha cessado o período. E não cessara por estar grávida, que já não estava com um homem havia quase um ano. «Nem tudo é mau», alegrou-se. Aliás, avaliando bem, quase tudo naquela situação era melhor do que na sua vida. Não precisava de ir aturar a chefe e toda a gentalha consumista. Não precisava das angústias de esperar por um homem, nem das humilhações de ser preterida ou rejeitada. Não precisava de se angustiar com o envelhecimento da sua mãe. Só ainda não tinha certeza se ia conseguir habituar-se a passar a vida sem sair do mesmo sítio. Muitas vezes, da janela do seu 2º andar, contemplara a acácia e a lamentara exatamente por esta imobilidade forçada. Mas, talvez, algumas vezes tivesse invejado a sua exuberância de flores e frutos, inconscientemente, pelo menos. Seria esta transformação um “castigo” por aquele pecado de inveja?
Esta lembrança e as conjeturas bizarras que lhe acudiam, trouxeram-lhe, no momento, uma suspeita assustadora: «E se tudo isto não passa de imaginação, de ideias na minha cabeça? Será que estou à janela a imaginar que sou uma acácia? Lembro-me de, há muitos anos, ter andado “cismática”.» Assim, explicava-se a sensação de irrealidade que experimentara antes de se ver transformada na acácia. Concentrou-se na hipótese, mas daí a pouco pareceu-lhe tão ou mais bizarra do que a própria transformação. «Mais provavelmente sou uma acácia que pensa que pode ser uma mulher na janela do 2º andar a imaginar-se acácia», riu-se, o que, desta vez, transmitiu uma ténue agitação a algumas das suas folhas. De qualquer modo, não havia como saber. Esta constatação foi o primeiro passo do necessário processo de habituação ao seu estado e de aceitação da ideia.
Com a chegada do verão e as cigarras a fazerem vibrar o ar que envolvia o seu corpo carregado de vagens pendentes, como uma mãe cheia de filhos, mais do que resignar-se à sua condição, abraçou-a com todos os ramos da sua fronde.

Joaquim Bispo

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Imagem: Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909.
Museu de Artes Aplicadas, Viena, Áustria, 102 x 195 cm.

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(Este conto recebeu uma Menção Especial «pelo seu realismo mágico e muita criatividade» no Concurso Literário da AFEMIL — Academia Feminina Mineira de Letras —, Belo Horizonte/MG, Brasil, em 2016)

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[Esta é a minha humilde homenagem a Kafka e à sua obra “A Metamorfose”, publicada há 102 anos, e que se tornou uma das mais importantes obras de referência da Literatura contemporânea.]

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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