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domingo, 22 de outubro de 2017

Neivinha do Apito, ou O Diastema (M)Oral



Dela era uma lacuna no sorriso, um vão peculiar, e ao querer suor e paixão do esposo gritava o buraco em assovio alto; caiu a Neiva de boca nele, assim falava a gente dos apartamentos, e mesmo os cães calavam-se nas madrugadas de pele quando eram conquistados por aquele nhi-nhi-nhi. Delícia de sensação, era a crença de todos, pois enquanto ela sorvia o marido o universo revela-se harmônico e bom. Até Luciano, velho resmungão do último andar, acalmava-se ao escutar o silvo, a seus gatos confidenciando,

Essa mama com fé de mártir.

Neiva era jovem e se esvaía em carne branca. Os quadris aumentavam a impressão dos pés e joelhos tortos, e as pernas, grossas, contrastavam com a cintura fina e os seios pequenos. No rosto de olhos curiosos seguia uma expressão meiga, ingênua, posta em descrença quando arregaçava os lábios e mostrava o vão superior – vão que alcançava, além dos ossos, a alma. Bela, recatada e do lar, do silvo não havia segundo, nem menos, para começar: entre calor, entre chuvas, iniciando o assovio de Neiva cessavam sons e rumores e os movimentos abreviavam-se ao mínimo, o infinito exibindo um elo devasso em sua ordem; também o trânsito minguava e fugia longe, como se existissem momentos também estimados pela sorte ou sob sua guarda.

Vencia seis anos o casamento, o noivado, a inocente sobreposição das mãos, mais os males, alegrias e opostos, e provação nenhuma foi isso. Provação foi Neiva ir ao dentista, decidida a colocar um artefato odontológico de molas e borrachas; haveria de fechar o buraco, o vão, e o especialista, homem reto, retilíneo e religioso, reconhecendo a tentação da fissura, aceitou por renovar o sorriso e o pudor de quem previa a perdição. Em casa, vaidosa e segura de eliminar um defeito, sorriu para o marido. Ele nada disse, ficou mudo; quem era para julgar pouco? À noite, sob lençóis onde silhuetas se formavam, onde iriam se formar, Neiva o devorou em silêncio. Gafanhotos soaram acima da sucção, assim como as conversas e batidas nos corredores, e o casal, sentindo isso, a violência sobre o encanto, de certa forma soube que a realidade jorrara ali.

Nos primeiros dias, moradores e animais estranharam o sossego, a renúncia do apito; então aceitaram a ordem recente como a de sempre, verdadeira, afinal aquele guincho sexual constrangia valores e consciências, denunciava vontades obscuras e há muito rejeitadas. Melhor a quietude, conjecturavam, e esqueciam o esôfago de Neiva, instrumento digno das grandes orquestras naturais. Uma semana e já ignoravam suas melodias de outrora, e quanto mais obliteravam as lembranças mais a vida inclinava-se à frente: ruas escureciam no auge da tarde, brisas violavam janelas e arbustos. Entristecidos, a menor sensação crescia com intuito de equilibrar os estímulos ausentes, e logo embates surgiam nas escadarias e estacionamentos subterrâneos. Eram vislumbradas aparições, perfis brancos e luminescentes encaminhando-se ao fosso dos elevadores, risos enigmáticos surgindo na extensão das garagens; ocorreram invasões, assaltos, sentenças jamais ditas e que anunciavam uma rotina ordinária, fora da pacífica ordem criada por Neiva e seu esposo. Os dois também se enfrentavam, dia sim e dia não, e ao final das batalhas reconciliavam-se e choravam juntos, questionando o porquê das ofensas, agressões.

Nessa época ela já se livrara do maquinismo dental; o vão, fechado, era devaneio de ontem. Acostumaram-se a discutir durante o café da manhã e, num desses, cuspindo manteiga e leite, Neiva levantou-se da mesa. Ante um comentário jocoso acerca de suas pernas, ante a irritação do ventre, arremessou uma vasilha contra o marido: furiosa por errar, correu em sua direção, mas resvalou e caiu, com o rosto ofendendo as cadeiras. Passou manhã e tarde nos braços do esposo, falando de acontecidos e supostos, e quando na cama, à noite, beijaram-se eles mesmo do sangue verter. Neivinha desceu e desceu visando à desforra – e ao absorvê-lo maltratava o silêncio, puxava forte, exigia do pescoço; cada ir e vir mesclava êxtase e dor, e agindo assim um dos dentes da frente caiu.

Vendo-o escorrer pela virilha rabiscada em pelos, ela persistiu, negando a educação e as leis criadas por fracos e confusos, e ouvindo acima dos suspiros apaixonados o apito que voltava a soar graças ao sacrifício do osso.


Essa noite, todos dormiram bem.





sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Fatos e Boatos

Fato que Adalgisa andava apaixonada por Jadson Batista. Fato que a família não se agradava do namoro. Fato que Jadson Batista se emplastrava de brilhantina para esconder a carapinha rente e esbranquiçava a pele para entrar na arquibancada do Fluminense, seu time do coração. Boato que Jadson era um Zé Ninguém.

Fato que Jadson Batista acabara de receber o espadim de aspirante da Escola Naval. Boato que pretendia seguir carreira em Marinha e chegar ao almirantado. Fato que a autoconsciência de que sua cor e sua origem tinham tudo para lhe deixar a ver navios no meio do caminho.

Fato que Jadson Batista também andava apaixonado por Adalgisa. Boato que, apesar do desagrado, os pais de Adalgisa - ele escriturário do Banco do Brasil, ela do lar -  proibiam encontros do casal. Fato que eles até sucumbiram ao namorico, desde que Jadson Batista se apresentasse sempre com a farda da Escola Naval. Boato que não passavam do portão, onde alguma intimidade possível era ousada. Fato que desfilavam os dois pela rua, exibindo-se à vizinhança maledicente. Boato que janelas eram fechadas ao passar do casal atrevido improvável. Fato que Marechal, o vira-lata da família, ficava de sentinela no portão. Boato que rosnava ao menor sinal de mãos insidiosas mútuas.

Fato que o namoro esquentou, a ponto de Jadson Batista cogitar pedir a mão de Adalgisa em casamento numa cerimônia simples na casa da iminente noiva, diante da família contrariada. Boato que a mãe de Adalgisa dera um faniquito ao saber da intenção do ritual do noivado. Fato que acabou aceitando a ideia a contragosto, apenas com uma fisgadinha de decepção no peito.  Boato que o pai de Adalgisa expressou que não se sentiria à vontade diante dos pais de Jadson Batista, ele ferroviário, ela costureira no Engenho Velho. Fato que o casal trocou torcer o nariz por engolir sapo.

Boato que o rapaz seria um mestiço insolente a dar um golpe numa branquela bem-nascida. Fato que os pais de Jadson Batista se sacrificaram pela educação do filho único, a ponto de transformar o estudioso menino num dos mais graduados aspirantes da turma de 1951. Boato que se rebelava contra os que lhe chamavam de “pó de arroz”, “beiço gordo” e “telha brilhosa”. Fato que sempre fora um rapaz humilde, resignado e envergonhado de suas origens e seus antepassados.

Boato que os pais de Adalgisa deprimiram por desgosto da filha. Fato que se preocupavam com seu futuro.  Fato que a menina sempre fora uma estudante ordinária, uma normalista preguiçosa e não suportou madrugar num trem para dar aulas nos cafundós de Senador Camará, lugar estranho à sua casa de altos e baixos na Tijuca. Fato que detestava alunos. Boato que tinha sido exonerada pela Diretora da Escola. Fato que largara o magistério para se dedicar ao lar. Fato que restava aos pais rogar à Santo Antônio por um marido provedor que lhe mantivesse vida boa, confortável e estável.

Boato que o estrabismo de Adalgisa enxotava pretendentes. Fato que driblava a confiança dos pais nas domingueiras dançantes e se entregava a qualquer pé de valsa, quando impulsionava suas coxas ao ritmo do bolero aos entre pernas pulsantes dos rapazes. Boato que num muro escuro atrás do clube alguns parceiros de dança sentiam os glúteos rebolantes de Adalgisa, que recebia colossos rijos no único orifício que lhe permitia preservar virtude. Fato que a recorrência se dava era num beco igualmente escuro atrás do Grupo Escolar. Boato que os pais sabiam e faziam vista grossa. Fato que os ares angelicais de Adalgisa efluíam pureza e sonsice. Boato que os rapazes que conheciam seus glúteos rebolantes comentavam a façanha entre si. Fato que juraram segredo sob pena de nunca mais repetirem deliciosa transgressão.

Boato que Adalgisa era decantada à boca pequena como uma desmiolada desfrutável. Fato que depois de conhecer Jadson Batista desistira das domingueiras, dos boleros e do esfregar dos glúteos rebolantes nas pélvis dos pés de valsa, no beco escuro atrás do Grupo Escolar. Boato que, indignados, os saudosos do beco teriam dado com a língua nos dentes, a ponto de fazer Jadson Batista sabedor das travessuras de Adalgisa. Fato que temiam que o aspirante perdesse humildade e estribeiras, e lhes aplicasse uma sova de espadim e golpes de artes marciais aprendidas na Marinha.

Fato que Jadson Batista acreditava na pureza da amada. Boato que ela sonhava rebolar
seus glúteos rente às entrepernas de Jadson Batista. Fato que, por mais que lutasse contra vontades ardentes, não queria expor suas vergonhas antes da hora certa.

Fato que, diante do fiasco no magistério, os pais investiram na dona de casa prestimosa que Adalgisa poderia ser. Fato que a matricularam em cursos de bordados, crochê, corte, costura, pintura de louças, boas maneiras e culinária. Boato que seus fracassos se revelaram absolutos em todas as disciplinas. Fato que, pelo menos na cozinha, Adalgisa habilitou-se em sobremesas, doces, petiscos amanteigados e licores. Fato que para abrilhantar o dia do pedido de casamento resolveu a moça preparar um licor para servir ao iminente noivo e familiares, como prova de sua vocação para mulher prendada.

Boato que os pais a obrigaram a caprichar no licor, para embriagar o rapaz, a ponto de lhe fazer perder a compostura e estragar sua pretensão em desposar filha tão angelical. Fato que sugeriram à filha, que além do licor de teor alcoólico moderado, oferecesse café, limonada, biscoitinhos amendoados e petiscos.

Boato que estariam insones os pais com a possibilidade de desposar a filha com alguém que não frequentava seus sonhos. Fato que haviam se conformado e agradecido a Deus por um oficial de Marinha ter se interessado pela filha de poucos recursos do intelecto, em vias ter seu barco encalhado pelo destino.

Fato que o licor demoraria 10 dias para ficar no ponto. Boato que havia pressa para o momento solene. Fato que Adalgisa colheu a tempo jabuticabas no quintal e as colocou num pote coberto por aguardente. Boato que, dia seguinte, a mistura tinha se transformado num delírio licoroso, daqueles que prendem casais de maneira afrodisíaca, capaz de provocar calores nas intimidades de ambos e ímpetos de se imiscuírem num bolero ritmado intenso e infinito. Fato que dez dias depois, aí sim, a poção licorosa ganhou a propriedade do desejo, confirmado pelas sucessivas colheradas que
Adalgisa enfiava no pote e as levava aos lábios de olhos fechados, sem que não sentisse uma queimação igualmente licorosa que lhe encharcava a calçola. Boato que tenha se deixado levar por dedos inquietos, a ponto de urrar e gemer impudicícias, cujos crescentes áis, áis, áis profundos tenham transposto o muro do quintal da casa ao lado, despertando horrores e inveja na vizinha que esticava lençóis no varal.

Fato que a poucas horas da cerimônia, numa tarde fresca de um sábado, Adalgisa provou o licor e voltou a sentir a queimação subindo pelas anáguas da saia rodada. Boato que tenha recorrido aos dedos salientes para aplacar o fogo e produzir gemidos notáveis à vizinhança.

Fato que à chegada de Jadson Batista e dos pais, o casal anfitrião se portou com protocolar gentileza e encaminhou as visitas à sala de estar, onde um console estilo Luís XV, coberto por um caminho de linho branco e bordados, exibia licoreira, bule, jarro de refresco, cálices, xícaras, copos e pequenas baixelas de biscoitinhos amanteigados de amêndoa e folheados de parmezon.  Boato que a mãe de Adalgisa fitara os convidados da cabeça aos pés, sem esboçar sorrisos ou feições de simpatia, certa
de que oferecia pérolas aos porcos.

Fato que depois das lengalengas iniciais, Jadson Batista proferiu o esperado pedido olhos nos olhos do pai da noiva iminente. Boato que Adalgisa tenha se antecipado ao “sim” do pai e atirado a recém pedida mão entre as pernas de Jadson Batista, quando, movida pela embriaguez licorosa e o desejo despudorado, proferiu um “aqui está a minha mão no nosso espadim, meu amor”.

Fato que o resignado pai da noiva não titubeou e após a afirmação solene sugeriu à filha que servisse o licor. Boato que Adalgisa sentiu sua recôndita caverna em brasa e passeou a língua entre os lábios, ora de olhos fechados, ora de olhos abertos, contemplando sôfrega o homem que ali lhe devolvia o olhar como se prometesse a lua, as estrelas, o diabo.

Fato que, licor servido, os convidados ergueram cálices. Boato que o pai de Adalgisa saudara o licor de jabuticaba como néctar da “fruta negra, cor dos braços que ajudaram a construir o Brasil e que agora até guardiões de nossos mares já são, quem diria? ” Boato que os convidados se indignaram com o sarcasmo e deixaram a casa bufando, espatifando cálices e bibelôs.  Fato que os quatro pais e os noivos brindaram à nova família que ali nascia.

Boato que a data do casamento fora adiantada. Fato que a cerimônia foi povoada de elegâncias e emoções. Boato que a mãe de Adalgisa tenha se debulhado em lágrimas de tristeza. Fato que, se chorou, foi para demonstrar alegria. Boato que tenha levado um beliscão do marido na beira do altar, exigindo-lhe modos de mãe de noiva diante dos convidados.

Fato que a saída dos noivos se deu por um túnel formado de espadas empunhadas por oficiais de Marinha engalanados. Boato que os pés de valsa, saudosos do beco interrompido, ao invés de atirarem arroz aos nubentes, jogaram punhados de feijão preto no rosto do agora marido, que os cuspiu de volta aos agressores, desenbanhando o espadim e iniciando o bafafá na porta da igreja. Boato que a turma atrevida fugiu pela rua aos gritos de: “pó de arroz! ”, “beiço gordo! ” e “telha brilhosa! ”.

Fato que o casal entrou num Cadillac amarelo enlaçado de fitas rosas, em cujo rabo de peixe foram amarradas diversas latas vazias de Toddy e banha de porco.  Boato que Adalgisa segurava o espadim de Jadson como um troféu. Fato que lenços acenavam e mais arroz eram atirados como água  santa
a abençoar os pombinhos.

Boato que seis meses depois nasceu-lhes um menino. Fato que foram pais de Jadinho. Boato que
se maldizia o tempo da gravidez. Fato que entre talcos, alfinetes de fralda e cueiros, havia potes de brilhantina e que na cabeceira do casal nunca faltava licor de jabuticaba.

Fato que os quatro avós exibiam o neto orgulhosos pela vizinhança e em perfeita harmonia.
Boato que passavam pó de arroz nas bochechas do menino antes do passeio. Fato que Marechal
teria surtos de ciúme, mordendo quem se atrevesse fazer festinha ao pequeno.

Assim foi contado um recorte da história de Adalgisa e Jadson Batista. Fato que construído por fatos que viraram boatos e boatos que viraram fatos, aos quereres de quem conta e de quem lê.
O resto é boato. Ou fato.





terça-feira, 17 de outubro de 2017

adentra - poema de Marina Rima

  

adentra

 

tudo que está entre o dito
e o que ainda não se disse
e não foi visto em nenhum filme do woody allen
e ainda precisa de corpo
massa densidade densidura
precisa de um bom vivant
para botar em versos e em reversos
e fazer reverberar
tudo isso, que está escondido
no reino das palavras
onde se entra em silêncio
e se bebe do elixir da mudez
onde se dança com os signos
e se retira os sapatos, para evitar os ruídos
esse lugar,
o caminho do -1 ao 1
onde tudo que é vivo
se perde, para ser só verbete
o reino ensurdecedor dos significantes
insig ni fi ca dos
somos





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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se

Apagada. A vela sobre o tijolo quebrado agora é cera derretida. De um branco sujo, gosmento. Janela afora, só um pouco de uma luz distante impede a escuridão de ser inteira. Mas não é claridade bastante que ela consiga enxergar da pouca altura do seu corpo que nem alcança um metro ainda. Os pés descalços caminham devagar até a porta sem tranca. No corredor comprido, o escuro é pior. Ela volta, com medo do bicho-papão. Com medo de tudo. Quer a mãe. A mãe que saiu no começo da noite. A mãe que só vai voltar amanhã. 

A mão miúda quase esmurra a madeira vagabunda da porta. A voz quase grita. Ela toda quase enfrenta o corredor escuro para procurar a escada. Ela quase. Mas se lembra da mãe dizendo: Aqui não pode gritar, não pode chorar. Quando a mamãe sair, tem que ficar quietinha. Senão vem um monte de homem mau pegar você. 
Não, ela não pode gritar.
Faz pouco tempo que elas moram ali. Que a mãe entrou escondida nesse prédio grande e escuro. E subiu muitas escadas sujas cheias de um cheiro ruim e de gente esquisita. 
Agora, nossa casa é aqui, disse. 
Faz pouco tempo que elas começaram a passar o dia na rua, pedindo dinheiro no sinal, comida nos restaurantes. Sem conseguir muita coisa. 
As pessoas não ajudam mais. Vou ter que me virar. Foi assim que a mãe falou. 
Agora, a mãe sai todas as noites. Sem ela. Vai se virar. E lá fora não tem ninguém para escutar o choro dela fungado de medo. Para ouvir ela dizer baixinho Mamãe, mamãe, volta mamãe! Para ela avisar que a vela apagou. Só os homens esquisitos que ficam nas escadas.
Se ela ficar quietinha no canto do colchão sem forro encostado na parede, se fechar os olhos para não ver o escuro, se for uma menina boa que não chora, se esquecer o estômago que é só falta, se não sentir o frio que ultrapassa o pano fino e furado enrolado no corpo, se tampar aquela boca de dentro que conta para a sua cabeça uma história que ela não quer ouvir: 

Cadê a mamãe? 

Mamãe foi trabalhar. 

Eu acho que ela foi embora. Deixou você sozinha.

Não foi, não! Ela me deixou com os anjinhos. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador... Mamãe, mamãe, eu não sei o resto! Volta, mamãe! Vem me buscar! Cadê os anjinhos, mamãe?

Se ela conseguir sair dali sem passar pelos homens esquisitos na escada. Se ela conseguir fugir da história ruim que está ecoando dentro dela: A mamãe não vai voltar… A mamãe não vai voltar. Se ela conseguir subir no caixote que está bem embaixo da janela da cozinha. Se conseguir abrir a janela. Se conseguir subir no parapeito. Se conseguir voar. Como os anjinhos. 








domingo, 15 de outubro de 2017

esmola


Os primeiros passos atrapalharam-se-lhe no roto das alpargatas e num pedaço de nastro imundo que lhe sobrou do interior dos trapos que lhe serviam de calças.
Dormira ali mesmo, e já não fazia tempo para dormir, assim, tendo por tecto, não as estrelas e o céu muito negro e alto, como semelhavam os céus de Estio, mas este céu de chumbo a querer desabar.
Desramelou-se com dois dedos da mãe esquerda que, com a outra mão, ele colocou ao ombro o bornal que lhe servira de travesseiro, e foi seguindo pelo caminho de terra e pedras soltas que levava ao povoado. O corpo seco, muito erecto, parecia buscar uma antiga dignidade, uma perdida juventude. Levou a mão ao bolso do casaco que ele mesmo remendara: pontarelos negros a segurarem restos de uma sarja que já fora azul. Tome, diziam-lhe, e ele agradecia e nem reparava se era o seu tamanho. Desagradecido, dir-lhe-iam se recusava. As criadas, sobretudo elas, eram altivas e cruas. Ele aceitava tudo de olhos baixos. Hoje, teria sorte de encontrar quem lhe desse um naco de pão e umas azeitonas. Tirou do bolso o que seria de comer pois que meteu à boca. Era um courato ressequido que saberia a ranço e com ele foi entretendo o estômago. Na esquina caiada de um muro de quinta, buscou a porta de serviço. Aguardou uns instantes. Não tocou. Raramente o fazia. Antes aguardava que alguém da casa entrasse ou saísse. E ali estava. Remexida na saia que roçava a soca de madeira, surgiu na azinhaga uma rapariga. O toucado e o avental diziam que era serviçal e ele estendeu a mão, os olhos por terra e, quando a rapariga estava a dois passos da entrada, balbuciou, sempre de olhos baixos: um niquinho de broa pelo descanso de todos os da casa. A rapariga desviou-se dele e, murmurando, um salve-o Deus, abriu a porta e passou para dentro o corpo roliço e mais a cesta que trazia no dobrar do braço. E fechou a porta e o fechar-se da porta deixou no ar um ruído seco.
Ele ficou ali, de pé, hirto numa espera que desejava pródiga em esmola, e foi mirando, distraído de si e daquele ficar ali esmolando, os pormenores da pedra rosada que contornava a porta, cantaria talhada por mãos de artista. Demorou os olhos na corda esculpida: tão parecida que semelhava, embora fosse pedra. Estava nisso, quando a mesma rapariga apareceu ao postigo. Notou-a gaiata. Espreitando na janelinha estendia-lhe um pequenino embrulho: papel gorduroso que ele recebeu nas mãos em concha, balbuciando que Deus abençoe a todos nesta casa, e já a rapariga se recolhia fechando a portinhola sem ruído.
Espreitou o papel amassado de ter servido outros embrulhos e sorriu-se a olhar o pedaço generoso de pão de centeio e os ossos ainda salpicados de peles de borrego. Percebeu que era borrego pelo cheiro, e o estômago pediu-lhe um pedaço. Aquietou-o aspirando fundo aquele odor de comida e tirou um pedacinho de miolo do pão que colocou na língua a chupar-lhe o doce. Comeria o resto mais logo. Comeria quando percebesse se aquele lhe devia servir de almoço ou se seria mais sensato deixá-lo para a ceia. E meteu o embrulho no bornal esburacado que trazia ao ombro. A aquietar aquele alvoroço do corpo a tentá-lo, buscaria água na fonte que havia antes de despontar o casario do povoado; e colheria fruta nalgum galho dependurado num valado. Ameixas que ainda as haveria nas árvores. E foi seguindo caminho, vagaroso, a cismar nos figos que nem sobrariam, pecos, nas figueiras. Colheria de bom grado, uns quantos. 
imagem Mendigo de Mihaela Mihailovici 2013





quinta-feira, 5 de outubro de 2017

pranto


chora o céu de setembro
pelos trabalhadores desempregados
pelo massacre dos porongos 
há tanto tempo comemorado
pelos índios exterminados 
por atrapalhar o agronegócio
por todo o lixo depositado
embaixo dos tapetes de luxo

chora o céu de setembro 
pelos moradores de rua 
pelo poeta abandonado 
que morreu nos braços da chuva 
pela devastação da amazônia 
pela censura à manifestação artística
pela fome que voltará ao subúrbio
por todo ódio que interrompe a vida

chora, oh céu de setembro





segunda-feira, 2 de outubro de 2017

HOMEOPATIA - parte I








Droga

Achava a sua vida uma droga. Passava os dias a base de Prozac, uísque e Rivotril para se esquecer disso.



Promoção

A nova droga seria infalível: traria euforia e viciaria de forma imediata, escravizando seus usuários. Seria parcelada em doze vezes no cartão ou em falsas promoções. Seu nome? Consumismo.



Luto

Ninguém entendia o vestido preto que ela usava diariamente até o marido violento aparecer morto. Agora ela tem motivo.





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

SOPRO


Não se lembrava de quantos anos tinha quando ganhou sua espingarda de chumbinho. O primeiro pássaro morto por suas mãos levou-o às lágrimas, constrangendo-o diante do severo olhar paterno. Mas, depois de muito lutar contra o próprio arbítrio, acostumou-se a caçar pardais e colibris incautos, estivessem eles em pleno voo ou zelando, no conforto de seus ninhos, pelas crias mal saídas dos delicados ovinhos.

Perdera ainda cedo a empatia pela vida das criaturas que não partilhavam de sua imagem e semelhança. Em seus ombros bubalinos feitos para transportar cadáveres, pendurava jovens raposas como mórbidos troféus. Também desaprendera a chorar e não conhecia mais o arrependimento.

Quando homem feito, matar pequenos animais acabou tornando-se uma tarefa molesta. Não. Não se tratava de piedade. Era mais uma sensação de pouco valer à pena tirar a vida de criaturas vulneráveis, incapazes de revidar. Muito cedo o pai dera-lhe a missão de manter o rebanho livre do ataque dos predadores. Nenhuma ovelha deveria ser trucidada caso se desgarrasse de suas iguais. Assim, passara a abater as onças da região. Era um caçador dos melhores. Mas, antes de tudo, um pastor. Sempre que os grandes felinos se aventuravam sobre o rebanho, mirava uma das pintas castanhas e, após o tiro fatal, divertia-se com a fuga desastrada e inútil através da mata que circundava o pasto onde as ovelhas se espremiam umas contra as outras, tolas, como toda vítima (Dia e noite, guardadas por um pastor incansável e de pontaria extraordinária, aquelas tolas ovelhas).

A dedicação daquele moço não se devia à fragilidade do rebanho e nem à busca por aprovação paterna. A bala fumegante nunca errava o destino porque seu trajeto orientava-se pela sanha mortal de um matador. Assistir à vida escoar do corpo de suas presas causava-lhe prazer sexual, sentia uma quentura libidinosa excitar seu sexo sempre que um grande felino tombava morto, a língua posta para fora da boca ensanguentada enquanto o abdome trabalhava para nada. A morte de um passarinho jamais entranharia em seu íntimo tão divina sensação de poder, de autoridade superior até mesmo àquela exercida por seu pai.

Um dia, despertando com olhos suplicantes de um sonho terrível, o velho implorou para que ele se tonasse um homem bom. Um homem bom. Bom em quê? Na caça? No pastoreio? Era bom em tudo o que fazia. Tudo. Mas, não era isso. Seu pai falava de outra bondade. Todavia, como ser bom? O que é ser bom? O que vem a ser essa coisa gasosa, sem forma, intangível, chamada bondade? Trata-se de uma condição do caráter? Será um hábito adquirido? Ou a bondade é um estado de espírito? Não. Não saberia ser bom. Como ser bom a despeito das coisas sombrias que sentia, apesar da falta de remorso a cada lobo-guará surpreendido por seu rifle, cada gato selvagem degolado por sua faca de caça? Sabia-se mau, sentia-se mau e acostumara-se a ser mau. Ser bom era um pedido impossível e uma aspiração irrealizável.

Mesmo assim, tentou fazer dormir o assassino e acordar dentro de si o melhor dos homens. Era tarde. Quanto mais desejava ser bom, maiores se moviam em sua direção as correntezas de sangue e vísceras, as carcaças esfoladas, as bocarras abertas, os ventres expostos. Jamais seria bom. Jamais. Não depois de ter zombado de toda a vida esmiuçada por suas mãos.

Enlouquecido, o rifle atravessado sobre as costas, largou o pai delirante sobre a cama e correu pelo pasto tropeçando nas ovelhas, fazendo-as correr como nunca haviam fugido nem mesmo do mais selvagem dos predadores.

Ao avistar o irmão roçando a lavoura que não saciava os apetites de um pai carnívoro, atirou-se aos pés fraternos.

O que há? Qual a razão desta correria? Abateu-se sobre ti alguma desgraça?

Anda, toma de minha arma. Esfacela-me o crânio que abriga um monstro!

Enlouqueceste? Por que eu ferir-te-ia?

Tu és meu irmão! Acaba de vez com minha angústia, senão carregarás por toda a vida o peso de meus crimes!

Teu crânio não abriga monstro algum, mas, decerto, também não acolhe mais a razão...

Faz!

Não! Percebe a gravidade do que pedes! Por que eu seria executor de meu próprio irmão?

Ai, ai, ai. Não posso ser bom. Não sei ser bom. E agora me parece a bondade a mais preciosa das coisas terrenas. Não quero viver sem experimentá-la. Tu és tão virtuoso. Lavras o campo e fazes a vida rebentar das sementes, enquanto atraiçoo os animais da selva. Anda, liberta-me com tua benevolência ou tornar-me-ei o carrasco do mundo!

O que direi ao pai quando ele perguntar por ti?

 Sem olhá-lo nos olhos, afirma que não me viste.

Mas, Abel...

Atira, Caim!


Emerson Braga






terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cadê o meu aluno Leonardo?

Durante quatro ou cinco anos, logo depois de formada, lecionei Língua Portuguesa na rede pública de ensino do DF. Dei aulas de literatura, interpretação de texto, redação e gramática — tudo junto no currículo, teoria e prática — para alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio (que naquele tempo ainda se chamavam Primeiro e Segundo Graus), em escolas das queridas Taguaiorque e Ceilândia, metrópoles do Quadradinho.

Ainda me recordo com carinho de alguns dos meus meninos. Tenho até hoje guardados, num baú da saudade e da poeira, alguns bilhetinhos e redações que eles fizeram para mim, a meu pedido ou espontaneamente, inclusive homenagens pelo Dia do Professor e aniversário.

Foi um tempo difícil, de alergia respiratória e rouquidão constantes para esta professora, mas de sensibilidade manifesta e de grande aprendizado. Não se pode negar que a sala de aula é um laboratório incrível, tanto do humano quanto do desumano. Convive-se com o afeto sincero e a atenção, mas também com o desdém, a injustiça e a ineficácia.

Sempre me pareceu que o professor é um ser impotente em potencial, que às vezes, muito de vez em quando, acaba conseguindo transformar, incentivar, melhorar alguma criatura, alguma família. Interessante: cada classe se destaca por algum tipo de teimosia. E há tanto as birras boas, produtivas, engraçadinhas, encantadoras, quanto os caprichos que enervam e esterilizam. Há sempre alunos adoecendo e outros sarando os professores.

Mesmo não atuando mais como regente há tantos anos, continuo interessada no papel de alunos e mestres. As memórias da educação, minhas experiências no ensino não me largam. Fico imaginando como estão hoje aquelas crianças e adolescentes com quem convivi de forma tão próxima durante um bom tempo de nossas vidas. As criaturinhas tagarelas encontraram um caminho próspero? Ou, bem ao contrário, tomaram o rumo fácil da droga, do crime, da miséria? Experimentaram algum amor sincero? Constituíram família? Fizeram amizade com a leitura? Ainda estudam? Escreveram ou ainda hão de bordar suas próprias histórias? Vivenciaram algum sucesso nos estudos e na profissão? Como têm se saído diante de qualquer simples vitória e diante de toda crua derrota do dia a dia? Será que aqueles meninos e meninas de outrora estão saudáveis? Felizes? Será que ainda estão vivos, apesar de toda a morte que lhes tem sido oferecida amiúde?   

Em especial, queria saber de um aluno lá da 6ª Série C da Escola Classe 6 de Ceilândia que estudou comigo em 96 ou 97. Magro, alto, bigodinho escuro, ele já era moço, e não mais criança. Sentava-se sempre na última fileira, meio disfarçado sob o boné preto. Bi ou trirrepetente de ano. Escrevia errado, como a maior parte dos colegas; mas era diferente, muito diferente de todos os outros. Órfão de pai e mãe, mas a tia havia lhe apresentado uma grande biblioteca. Tinha muitos livros em casa. Era culto o menino. Aos 16 anos, já havia lido Machado de Assis e Augusto dos Anjos! Descria de tudo, principalmente do amor e da felicidade. Pessimista, quase niilista, dava um jeito próprio, em todas as redações, em todos os diálogos, de realçar o poder da morte, da desesperança, do suicídio, do fim, da falta de jeito. Escrevia histórias cabeludas com uma beleza desgraçada, de vocabulário rico e estilo singular. Aquele garoto que teimava em se achar um nada significava tanto pra mim! Eu elogiava sua inventividade e tentava reanimá-lo para o belo, mas ele preferia (só sabia) retratar o negativo, o horror. Naquela época não se falava em depressão; mas a melancolia profunda estava lá, ardendo em seus poemas e narrações, em sua vida. Acho que seu prenome era Leonardo, mas não garanto.

Durante muito tempo acreditei naquele garoto, roguei sua conversão. Pedi que ele não se calasse nunca e bradasse com palavra e corpo e atitude. Ainda penso nele, mas não me lembro de seu rosto. Sei que era uma bela e comovente face negra de abandono. Adoraria revê-lo ainda em vida para uma conversa cheia de riso e de lágrima. Iria com prazer ao lançamento de seu primeiro futuro best-seller. Era um poeta excepcional, e eu queria continuar ouvindo sua voz de lirismo sombrio que perturbava.

A vida é estranha. Apresenta muita presença para logo transformar em ausência. O professor vai se despindo de si para carregar estradas. Por preconceito, vaidade ou desejo de independência, diz que não pode se ligar totalmente aos alunos, mas vive juntinho, sofrendo a história de cada um deles. A cada ano, lamenta o conteúdo não cumprido, o corte abrupto, o ano mal-acabado, seus Leonardos necessitados de salvação, a saudade sem chave. Entristece por não acompanhar o porvir dos alunos. E é sempre a mesma dúvida que grita: Será que eu compartilhei com eles o meu melhor? O meu mais ou menos? O meu pior? A minha esperança neles resultou em quê?


Maria Amélia Elói





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Os ardis de Amaltescher


Amaltescher é uma colónia penal alucinante — sei que dificilmente me vão entender. Na altura, eu pertencia à célula de Lisbuhan dos Albertianos — um movimento que tinha como referência os ensinamentos teóricos de Leon Battista Alberti e propugnava uma imaginária com a excelência representacional dos chamados pintores do século XV da era antiga. Éramos quase todos ex-estudantes de arquitetura que, por uma razão ou outra, nos tínhamos tornado representadores. «Com efeito, foi do pintor que o arquiteto tomou as arquitraves, os capitéis, as colunas e tudo o que faz o mérito dos edifícios» — argumentávamos a quem manifestasse estranheza pela opção que tomáramos. Usávamos quase sempre tecnologia eletrónica, mas, às vezes, preferíamos os métodos e os suportes analógicos, como adesão superlativa às práticas obsoletas dos criadores de imagens de há oitocentos anos, como Piero della Francesca ou Durer. A esta veneração interpúnhamos o filtro da naturalidade. Rejeitávamos as artificialidades, ainda que perspeticamente corretas, como os trompe l’oeil, mas abominávamos especialmente tudo o que indiciasse intenções de manipulação do espírito, como as deformações de El Greco, evidentes, ou as de Michelangelo, subtis.
Era esta recusa do artificialismo que nos levava a abdicar das representações holográficas, apesar da sua popularidade e da facilidade de criação que os equipamentos de última geração proporcionavam. Apenas a representação a duas dimensões perspeticamente inatacável, composicionalmente deleitosa e de matização venusta era o desafio que sempre procurávamos ultrapassar. E mensalmente fazíamos o nosso próprio certame expositivo — uma fila de ecrãs a todo o comprimento parietal de uma ala no centro discente, matizado com um ou outro suporte arcaico. Era a nossa vaidade e a nossa coragem. Percorríamos a exposição vezes sem conta em pequenos grupos a admirar e a criticar o que víamos. Os aspetos que nos mereciam apreço eram invariavelmente brindados com uma citação do De pictura, de Alberti, que quase todos sabíamos de cor: «O maior trabalho do pintor não é fazer um colosso, mas uma história.»; «Não vejo caminho mais seguro do que observar a Natureza.» Qualquer desatenção perspética, qualquer deformação ou incoerência detetada, era apontada de braço estendido e alvo de sarcasmos ruidosos, evocando aos gritos a norma hereticamente transgredida: «Esperamos que uma pintura pareça em relevo e que ela se assemelhe o mais possível aos corpos reais»; «Numa história, é preciso que todos os corpos se harmonizem pela estatura e pela função.» Quando o caso era grave, chegava-se frequentemente à execução sumária da obra e até a algumas vergastadas decididas pelo Coletivo Albertiano e aplicadas pelo Veteranus Albertianorum.
Só me alonguei nesta explicação para que percebam o contexto por detrás do que aconteceu e me deem razão no que fiz. Nessa noite tinha ido alimentar-me com dois colegas a um fornecedor alimentar, numa zona fora das nossas rotas habituais. A certa altura reparámos que havia umas quantas pinturas analógicas nas paredes, supostamente para as adornar. Levantei-me e fiz o giro de análise. O que vi não podia deixar-me mais irritado: eram umas pinturazinhas a tinta biótica, representando edifícios arcaicos das zonas reservadas, até com um apreciável tratamento lumino-cromático, mas… O ignorante que produzira aquilo nunca tinha ouvido falar em ponto de fuga — o rudimento dos rudimentos perspéticos. As linhas das cimalhas apontavam para uma zona do céu e as linhas dos lintéis das janelas e das portas apontavam para uma zona do piso a meio da rua. Chamei os meus colegas e, com a constatação daquela aberração representacional, começámos a lançar citações de Alberti: «Imaginar sempre uma linha transversal cortada por uma linha perpendicular, a fim de determinar na pintura uma posição fixa do ponto de vista.» A ira crescia dentro de nós. «Para um corpo retangular feito de ângulos retos, não se podem ver, com uma olhada, mais do que duas superfícies contíguas tocando o solo.» No auge da exaltação, peguei no forco da pasta proteica e desatei a esburacar aquelas indignidades. Logo um dos alimentários, um velho enrugado de cabelo pintado — que eu soube mais tarde que era o executante responsável — correu para mim, a tentar segurar-me os braços. Percebia-se que procurava defender aquela imundície. Não pensei ou talvez tenha pensado no que havia a fazer. Espetei-lhe o forco com força na lateral do pescoço. O que se seguiu nublou-se na minha memória, mas sei que senti uma grande serenidade, como quando se faz o que se espera de nós.
O processo judicial foi rápido e resultou num veredito cruel: ostracismo em Amalteia. O juiz devia ser um pós-picassiano: não teve em conta a atenuante de eu ter livrado a sociedade daquelas enormidades. Aliás, nem sequer proibiu o velho — que sobreviveu — de continuar a pintar. Tentou ainda dissolver a comunidade albertiana, mas isso não conseguiu. A ideia que a animava era mais intensa e íntima que a mera brandura conjuntural. Sei que o grupo continua a reunir-se, a espalhar os ensinamentos albertianos e a aprofundar a ligação entre os membros. Como tenho saudades do grupo e desses tempos! A vida em Amalteia era de uma crueldade sem nome, sobretudo para um homem com a minha preparação mental.
Amalteia ou Júpiter V é um dos satélites mais próximos de Júpiter. Minúsculo, é desde há uns quarenta anos usado como colónia de reeducação. Uma da dezena fora do planeta-mãe. O juiz não podia ter escolhido mais “acertadamente” o local de cumprimento da sanção. Claro que foi devido ao parecer do Conselho Normalizador que estudou o meu caso. Para me fazer sofrer. Tendo em conta o meu percurso de educação e de vida, as minhas escolhas, o meu pensamento, o que sou. Aquele mundo não fazia sentido. Depois de lá chegar, percebi muito bem por que há quem lhe chame Amaltescher, em referência ao alucinado criador de representações absurdas, irrealidades em imagem — Escher.
Com uma gravidade extremamente baixa, é um misto de anacronismos anatómicos, paradoxos geométricos e sobrepopulação. Tudo embebido num éter transparente, viscoso mas respirável, que deforma a perceção das formas. A fauna é variada, mas infinitamente metamorfoseável, quase fluida, resultado de evolução em condições de subgravidade. Como se percebe, é um mundo avesso a tudo em que acredito — rigidez, precisão, previsibilidade —, pelo que me era extremamente penoso viver ali. Era como se aquele mundo me estivesse continuamente a desmentir, a agredir, a humilhar. Nas primeiras semanas, eu e o grupo que chegou comigo, fomos obrigados a caminhar insensatamente numa espécie de sem-fins, para nos adaptarmos às condições singulares de gravidade e ilusão ótica. Durante horas incontáveis descíamos escadarias, sempre a descer, sempre a descer, mas não chegávamos a pisos inferiores — mantínhamo-nos no mesmo nível do edifício. Cruzavam-se connosco reeducandos de um grupo mais avançado, que subiam as mesmas escadas, interminavelmente. Mais tarde, passámos para um “nível” mais difícil: eram torres, edifícios, estruturas “impossíveis”, em que colunas da frontal do edifício sustentavam as traseiras do piso acima; em que cúpulas, a um tempo, eram abóbadas depois; em que escadas a ligar andares baixos e altos pareciam poder ser percorridas quer na sua parte de “gravidade normal”, como de “gravidade invertida” ou “lateralizada”, isto é, havia a ilusão de se poder caminhar tanto pelas paredes como pelos tetos.
Imaginem o que isso fazia à minha sanidade mental. Chamarem-lhe “reeducação” é de uma maldade obscena. Apetecia-me gritar: «Está bem, já percebi, estúpidos pós-naturalistas, já vi as vossas armadilhas surrealistas, mas não pensem que alteram a minha maneira de pensar. Na minha Terra é o rigor albertiano que explica a realidade. Isso é o que tenho de mais íntimo, de mais pessoal. Não se pode converter alguém que não queira. As inquisições descobriram-no pelo cansaço. Podem continuar com os paradoxos, que eu não abdicarei da minha certeza!»
Mais tarde passei para o “convívio” com outros seres. Chamar-lhes seres é arrojado. Pareciam-me mais materializações ilusórias de formas de seres do meu planeta, como se aquele satélite captasse o meu pensamento, o interpretasse e o representasse. De maneira totalmente “herética”, para usar a minha tão cara terminologia albertiana. Um sofrimento intelectual permanente. Uma tortura. Uma impiedade. Cruzavam-se uns com os outros num trânsito compacto e inextricável. Continuamente alteravam as formas de modo a cruzarem-se sem se tocar. Os seres que passavam como um grupo de tartarugas, mais à frente já eram lagartos e depois abelhas, borboletas, aves, peixes. Em sentido contrário deslizavam cavalos, aves, peixes, formigas. Mas nas transições passavam por formas desconhecidas para mim, embora me fizessem lembrar formas da Terra. A única regra parecia ser a de evitar espaços vazios. Alguma diferenciação de cor era o fugaz alívio percetivo, ao permitir distinguir a demarcação entre seres.
Descobri a vulnerabilidade do sistema, por acaso. Todas aquelas formas eram bastante paradoxais e incongruentes, mas eram neutras, inócuas, quase decorativas. Discorrendo, pensei que o tormento de lhes estar exposto só era penoso intelectualmente. Bem pior seria se, além de aberrantes, aquelas formas fossem assustadoras, como as de Bosch. Automaticamente, visualizei um pormenor de uma pintura dele: um homem com uma cobra enrolada às pernas a ser engolido por um enorme sapo com botas bicudas. A este pensamento inquietado, uma forte flutuação do fluido imersor transmitiu-se às formas imediatamente. Os peixinhos a metamorfosearem-se em aves mudaram para peixes monstruosos, de bocarras assustadoras cheias de dentes, em vias de devorar pássaros de aspeto jurássico; cavalos não apenas deformados ganharam desfigurações doentias, tumores e pústulas, enquanto escaravelhos repugnantes lhes devoravam o pus. De repente, todo o espaço que me circundava era uma representação alucinante e amedrontadora das Tentações de Santo Antão.
Suspeitando do que acontecera, rapidamente me controlei. Fora muito evidente que a perturbação se devera à influência do meu pensamento. Outras experiências com evocações de obras de De Chirico e Dali convenceram-me disso. Mais tarde, percebi que a chave não era apenas a evocação, mas alguma perturbação de medo ou inquietação, no meu espírito. O que não acontecia com outras emoções. O que havia a fazer? Como poderia aproveitar aquela singularidade ambiental em meu proveito? Talvez… A ideia fulgurou no meu espírito: treinar-me para sentir apreensão, receio, medo, mas por imagens que me agradassem.
Pensam que é fácil? Havia que evocar imagens como A Virgem dos rochedos, sugestionar-me para sentir medo delas e, quando o fluido imersor gerasse o universo sereno e deleitoso da imagem, conseguir manter um sentimento de medo, enquanto tentava fruir aquela paz. A ambivalência de sentimentos necessária tornava a experiência extenuante, devido à concentração exigida. A princípio, o fingimento não resultou, mas depois tornei-me eficaz a interiorizar medo no meu espírito. Quando o consegui, pude sentir a harmonia, o apaziguamento, em ambientes de Piero della Francesca ou de Da Vinci. E de vez em quando, permitia-me uma incursão em Botticelli. Mas era de mais. O medo construído começava a misturar-se com alguma aversão verdadeira. Então regressava a Ticiano, a Giorgione. Parecia que tinha conseguido escapar dos paradoxos e das aberrações. Parecia que conseguira burlar o sistema. Nada de mais errado.
Muito tempo depois, apercebi-me da armadilha. Cada vez era mais fácil recear as imagens de que gostava. O fingido ia passando a sentido. A certa altura, já sentia medo genuíno até da placidez de Bellini. E atrás da emoção incómoda de medo vinham sentimentos de desagrado, de asco, de rejeição. Sofria muito. Evocar uma imagem, mesmo a mais deleitosa, era equivalente a experimentar emoções de náusea e ódio. Paradoxo puro. Não tinha descanso. Não tinha para onde fugir. Nem daquele mundo nem de mim. Estava desesperado.
Certo dia, recebi uma ordem de transferência. Não sei por que motivo, tinham resolvido comutar-me a reeducação em Amalteia para guarda no Museu do Renascimento em Lisbuhan. Conclusões e decisões do Conselho Normalizador... Não sei se tenho razões para me alegrar. Deambulando pelas galerias repletas de obras de arte, tenho um só truque; não para burlar o sistema, mas para sobreviver: limito-me a caminhar de olhos no chão, para não vislumbrar sequer as obras expostas. Não posso ver, não posso espreitar, não posso permitir que o meu olhar caia sobre alguma. Não posso sequer imaginá-las. Tento manter vazio o espírito, sempre ameaçado pelos terrores e os paradoxos imagéticos de Amaltescher. Assim sobrevivo.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: M. C. Escher, Relatividade, 1953.

* * *





domingo, 24 de setembro de 2017

Microconto premiado - Concurso Escambau (CE)






quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A mais breve história de amor

           

Amo rabada suculenta,
javali e picanha sangrenta,
bucho, mocotó e dobradinha,
língua, isca de fígado bem cortadinha,
moela, torresmo, foie gras,
cassoulet, sarapatel, vatapá,
caruru, pato ao tucupi,
miolo à doré, magret de canard,
paella, sardinha e pirarucu,
miúdos graúdos no angú,
pied de couchon, caviar,
feijoada, cozido de Portugal,
einsbein, bratwurtsbacalhau,
vôngole, escargot à provençal
goulash, labskaus, vaca atolada,
ovas, salsicha na macarronada,
tutu, feijão tropeiro, porcheta,
churrasco e feijoada,
de cordeiro a crocante paleta,
matambre, cupim, galinhada,
de porco, pernil e joelho,
frango à passarinho, caçarola de coelho,
linguiça, chouriço, boudin,
cochinillo, coq au vin,
leitão à pururuca, assado de costela,
paio, kassler, alcatra de panela,
galeto ao primo canto, galinha de cabidela,
molhos pardo, carbonara, bolonhesa,
spaghetti ao ragu de calabresa,
alheiras caseiras, carne seca no pastel,
ovos com bacon, picadinho de quartel,
escalope à milanesa, T-Bone aqui na mesa,
bisteca florentina, parrillada argentina,
pão com mortadela, salaminho e carne assada,
ceviche, sushi, mariscada,
carne de sol em manteiga de garrafa,
siri, guaiamum, caranguejo de tarrafa,
torta capixaba, lula alentejana,
brachola e bife à parmegiana,
moqueca de cação, barbatana de tubarão,
vieiras, polvo, ostra, mexilhão,
lagosta, cavaquinha,
lagostim, camarão.

"Jantarzinho lá em casa?
Você escolhe, lindeza!".

Ela se sentiu ofendida.
Ilusão mais curta da vida
Me passou carraspana. Era vegana.

Melhor assim, já é passado.
Alface me faz mal danado.





domingo, 17 de setembro de 2017

O rochedo



Fonte: https://africannum.com/





O rochedo leva
o mar para o céu:
estrelas de sal.




















sábado, 16 de setembro de 2017

Dias de contagem



A morte, essa curiosidade. Que lambe devagar como amante tímido, como bicho de rua. Essa vontade de rostos que só a saudade traça. O medo nervoso das doenças ruins, dos acidentes ruins, da velhice ruim sendo ofuscado por uma euforia que se apresenta em convite. Um relembrar de fatos bobos, tristes, bons. A mãe das fotografias velhas, com roupas estranhas (tudo é estranho quando se é passado). O pai de uma tristeza encolhida, disfarçada, das que burlam o faro dos que pressentem, o dó dos que percebem. Um irmão mais novo, um gato escaminha, um avô caduco, uma amiga de infância, um homem bom, uma mulher desperdiçada. 
Tanta gente ida. A balança em desnível frenético. Mais um corpo, mais um corpo, mais um corpo, mais um copo. Cheio de aguardente e soluços. Despedidas. Abraços, palavras, terços recitados para a audiência ávida por ritos, para a plateia de olhos sujos, de inveja funda, de pouco sentimento. A amargura cavando um oco nas entranhas. Os dedos tesos amassando a fronha. O choro seco de quem aprendeu a se aguar só por dentro. 
A morte, esse lugar sem instruções. Onde estão as criaturas do meu afeto. A vida, esta passagem estreita, autofágica. Coleção de ausências. Eu, quarto semiesvaziado. Travando na garganta as faltas. Esfregando as carnes sem calor. Absorvendo o derredor desabitado que confunde e desampara. E a solidão desaforada que insinua crenças em visões de eternidade. 
Por hoje, vou procurar moedas. Limpar, polir. Que a paga de Caronte precisa estar sempre pronta. Para o dia que não sei. 







sexta-feira, 15 de setembro de 2017

mulheres


a mãe da gente,
dizia: assim que tenha esta roupa lavada, e nem sabia de quem eram as duas camisas de linho e os dois pares de ceroulas mais um lenço, tudo branco, tudo encardido e apenas o lenço com um riscado em volta num azul tinteiro, e era eu, ainda sem idade de ir à escola: tenho tanta fome, senhora, e o olhar dela escorregava, de lá, de onde lavava a roupa de um e outro, como lhe escorregaria o sabão sobre a pedra onde desencardia, esfregando as peles dela nas ceroulas e lençóis e cueiros de onde já tinha tirado os restos de caca. O olhar dela a correr para me dizer: espera e cala-te, rapariga, ou apanhas, e já eu a deixar silenciar o estômago e a escorregar-me pelo muro baixo, uma parede que segurava as águas do tanque naquele lavadouro público. Os olhos dela e, atiçando-os, o grito do costume: vai ver do teu irmão, Maria Thereza, cuida que não se perca por aí o menino.
e as outras,
as que eram capazes de carregar duas ou três arrobas; capazes disso e de não perder o equilíbrio na tábua estreita com que, balançando-se do balanço das ondas, descarregavam, disto e doutra coisa, os barcos que se chegavam a terra e ficavam quase encalhados na ribeira.
Load (Lavadeira), óleo por Honoré Daumier (1808-1879, France)
Mulheres robustas no rosto e nas ancas e nos braços, e no bucho das pernas que nem se adivinhava debaixo das saias a encimarem um tornozelo ossudo e uns pés sempre descalços. Pés achatados que numa vida inteira o mais que veriam seriam umas socas de cabedal destratado.
Mulheres de seio farto e cabeleiras longas. De vez em quando, saiam-lhes, de sob os lenços, madeixas muito negras. Varinas e ciganas, diziam delas, não fosse pelos olhos tão da cor do mar e da cor da ribeira, em dias de bonança. Uma cor tão do céu que se diria nem terem cor própria e apenas reflectirem a cor dominante daquilo em que poisavam.
umas e outras
pariam e, se lhes não morriam, carregavam os filhos 
e pela vida inteira os ouviam: tenho tanta fome, senhora.





terça-feira, 5 de setembro de 2017

mergulho



transito 
pela orla do teu íntimo
num ritmo 
que transcende o entendimento
navego 
pelas águas do teu leito
e o meu peito 
não segura o que há por dentro
mergulho 
no fundo de um plano lúdico
impudico 
não prendo a respiração
e então 
eu me afogo no teu gozo
e morro 
em alguma margem do teu corpo





sábado, 2 de setembro de 2017

TEMPERANÇA


Às vezes, meu caminho é de areia
Viscosa
Ardilosa
Movediça
Lodo que aprisiona quem tenta dele escapar.

Às vezes, eu pego a areia
Umedeço
Ajeito
Modelo
E construo um lindo castelo, banhado de espuma do mar.

Mas às vezes eu apenas a observo
Nas dunas
Nos lençóis
Nas tempestades
E deixo que ela escolha qual face vai me mostrar.





sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Agenda encontrada numa ribanceira da Serra do Açor


Dia 10/8/16
Mais uma vez — como todos os verões — vim passar duas ou três semanas na minha terra, esta lindíssima vila de xisto e granito no vale do Alva. Como é bom rever e reviver as paredes de setenta centímetros da minha casa rústica e a sua frescura interior. E espero encontrar os amigos e os familiares, mesmo os emigrados, que “obrigatoriamente” aparecem no verão. Todos querem aproveitar a reunião inusitada para animar a vila com festas, encontros e comezainas.
Como desde há três anos, vou a um almoço dos nascidos em 1944, à semelhança do que fazem os nascidos noutros anos. O almoço é o pretexto para o encontro e a partilha da alegria de estar (ainda) vivo. Reveem-se os conhecidos, reconhecem-se as parecenças antigas por baixo das rugas modernas dos que vêm pela primeira vez, atualiza-se a fisionomia que cada um guarda do outro.

Dia 14/8/16
O Nunes está todo encarquilhado. A Georgina agora é loira.
Lembras-te daquela vez que te abri a cabeça à pedrada? — perguntou-me o Ramos.
Lembras-te de me fazeres serenatas, mais o Manel da biciclete? — tentou a Marisa.
As lembranças são um amontoado de tralha pessoal inútil, falsificada pelas ruminações, em que não consta a maior parte dos registos que os outros guardaram. Lembro-me dos folhos da Matilde, na igreja; lembro-me das reguadas que apanhei por causa do Zé Caçoila. O resto? Sei lá! Deve ter acontecido, se eles o dizem... O mais importante mesmo deve ser o encontro com pessoas do mesmo grupo etário. Ainda que não nos lembremos uns dos outros, temos lembranças no mesmo contexto, porque vivemos no mesmo ambiente, em certo tempo, mas, se calhar, o mais importante é que somos da mesma idade. Como estamos a viver a nossa reforma, a nossa velhice galopante? Vivemos para o futuro ou do passado?
Vocês viram ontem a chuva de estrelas cadentes? ― lançou um tipo de cabelo branco, mas ainda farto, quase à minha frente.
Quando? Ontem? Não soube de nada! ― disse uma. ― Eu à noite vou para a caminha ― respondeu outro. ― Chuva… ― desdenhei eu. ― Estive uma hora num caminho escuro da serra, mas só vi umas cinco.
Aquilo é um espetáculo fabuloso, não achas? ― prosseguiu o aficionado sideral, dirigindo-se-me decididamente.
Acontece todos os anos por esta época, não é? ― comentei, tentando mostrar algum conhecimento. ― Parece que são meteoritos que vêm da constelação de Perseu.
Não é bem assim ― contestou ele, sem alarde. ― São restos da cauda de um cometa que passou por aí.
Interessas-te por astronomia? ― perguntei, meio que para fazer conversa.
Eu interesso-me por tudo ― afirmou, categórico. ― Tem de ser, se não quero deixar enferrujar os neurónios.
Os outros tinham-se entretanto alheado da conversa, que se tornara nossa, e falavam dos colegas que tinham morrido, desde o último almoço.
Já viste o que nos espera, se não nos soubermos precaver? ― insinuou, apontando os circunstantes com o queixo.
No resto do almoço, tornou-me seu cúmplice num discurso de meias palavras, que se tornou enfático quando, após os pratos quentes, deambulámos pelas mesas dos queijos e dos doces:
Convence-te! Nós pertencemos à praga grisalha que só atrapalha. Cada vez somos mais a papar reformas. Que país é que aguenta isto? Passeamos, banqueteamo-nos, consumimos e não produzimos nada, já viste? Que planeta é que suporta isto? Não há recursos que aguentem. Somos uma praga.
Recebemos reformas, mas trabalhámos para elas ― tentei argumentar.
Mas agora somos uns inúteis. Uma sociedade bem organizada, sem tolerar desperdícios, devia descartar esta praga.
Mas isso é fascismo! ― indignei-me. ― Felizmente que a esperança de vida aumentou! Querias instaurar uma espécie de eutanásia por caducidade de prazo da validade produtiva?
Olha, porque é que não vens almoçar connosco um dia destes? Tenho um refúgio paradisíaco nos altos da serra do Açor. Podíamos falar deste e doutros assuntos aliciantes que ameaçam a Humanidade.
Apesar da minha relutância inicial, dei por mim a sentir uma curiosidade genuína pelas ideias dele e pelo modo de vida que levaria no tal refúgio serrano.


17/8/16
Às onze apresentei-me em Vide e fui conduzido por um trilho de terra batida que serpenteava pelas faldas da serra até desembocar numa espécie de côncavo arborizado com umas vistas de tirar o fôlego. O local parecia uma quinta de experimentação pecuária e botânica. Vários animais estavam confinados a espaços criteriosamente concebidos, em microambientes bióticos, com plantas específicas para cada animal. Alguns pareceram-me ligeiramente mutantes, como um, semelhante a um pequeno urso, que se alimentava de cenouras.
Conseguimos produzir cenouras com um alto teor de proteínas. A carne vai tornar-se um bem escasso num mundo como o nosso ― argumentou o Martins, o nome do meu insuspeito amigo de infância.
A esposa tinha preparado um almoço delicioso, com beringelas que sabiam a salsichas alemãs, beterrabas amarelas, com sabor a pato, e carne de cabrito que sabia mesmo a cabrito… Com sabor a vegetais, havia outras iguarias muito desleixadas pela maioria dos produtores agrícolas: figos de cato, juncos e fatias de uma espécie de meloa vermelha.
A conversa decorreu animada, mas encaminhou-se para rumos totalmente inesperados, apesar da conversa no almoço dos contemporâneos.
São versados em teorias da conspiração. Afirmam que os governos mundiais estão tomados por interesses estranhos, e que usam muitas técnicas de condicionamento. Dizem que os aviões dos governos espalham químicos na atmosfera, para nos tornar dóceis; que estão a ser aplicados “chips” nos recém-nascidos para monitorização de tendências antissociais; que existem muitos extraterrestres no planeta a preparar a invasão, com a conivência dos governos; que eles querem invadir o nosso planeta, porque ainda não conseguem produzir a carne que os nossos animais produzem com tanta facilidade.
Eu reagi, mais divertido do que assustado:― Mas por que é que vocês suspeitam disso tudo? Têm alguma prova de qualquer dessas teorias?
Então o meu amigo de escola primária, de quem eu não me lembro, abriu-se em revelações, talvez por achar que eu não iria acreditar nele, talvez porque não tinha nada a temer. Disse que, na verdade, ele e a mulher são extraterrestres; que estão na Terra outros duzentos mil; que a vida no seu planeta se tornou assustadoramente claustrofóbica, devido à praga grisalha que lá se tornou quase imortal; que a absurda quantidade de carne necessária à alimentação de tanta gente obrigou-os a socorrerem-se de outros mundos; que a obtenção de carne humana é a prioridade atual, dado o seu sabor sofisticado, parecido com o do cabrito, mas queixou-se da imprevisibilidade do fornecimento proporcionado pelas guerras.
Eu estava abismado, mas arrisquei uma piada, para amenizar a situação:― Caramba! Ainda bem que eu já não sou novo e que a minha carne deve ser rija. Só se fosse para ensopado de bode...
Eles não riram com a piada, ou antes, pareceu-me detetar um ténue e síncrono sorriso a iluminar-lhes o rosto. A conversa alongou-se ainda por várias horas, apesar de alguma inquietação latente minha, mas eles continuaram simpáticos e hospitaleiros. De tal modo que aceitei o convite para jantar e dormir aqui esta noite, neste paraíso natural e incrivelmente sossegado.
Estou a ficar com sono, mas não quis deitar-se sem registar os eventos deste dia incrível, enquanto ainda estão frescos. Amanhã podia não me lembrar.

Joaquim Bispo

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Imagem: Fernando Botero, Casal, 1999.

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(Este conto integra a coletânea A Arte do Terror — Volume 4, da Elemental Editoração, 2017, pp. 174–176.)


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