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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Desbunde

Ela é toda abundância. Completa, inteiriça. Exceto a popa tímida, desenxabida, quase côncava na banda esquerda. E sente-se, por conta da  depressiva nádega, qual camelo manco, um nada quase, desabundante de tudo.

Certamente o espelho trabalha para Camila enxergar nele refletidos, com realce, os lindos lábios carnosos. Quando alaranjados cintilantes, eles trazem calor e alegria a qualquer ambiente. Quando adentram o bar da esquina da nossa rua, aliciam este homem, despeitam aquela mulher. Difícil se esquivar daquela boca convite. Mas Camila sorri um pouco só na chegada e logo se retrai, limpando o batom no guardanapo. Sempre preocupada com o pequeno defeito traseiro, não valoriza os encantos que lhe vão à frente.

Não se alegra, por exemplo, com o belo casal de seios que porta na fachada: unidos, parceiros, vultosos, aprumados. Um exagero! Para uma senhora de quase 50, dádiva das mais preciosas. Quando usa decote, escandaliza formosura. Mamas jovens, túrgidas, deliciosamente protuberantes. Mas ela não se beneficia da situação. Vai repetindo atitudes pessimistas, mergulhada no drama da deformidade posterior, negando-se à alegria, ao amor-próprio. Recolhida, Camila arqueia as joias e desiste da luta.

Conta também com dois braços firmes e funcionais e duas pernas grossas, torneadas na boniteza. Movimenta-se com desenvoltura, carregando pesadas sacolas do mercado até a casa. Despede-se de mim num aceno delicado que deixa exibir os belos tríceps na cava da manga da blusa. Carnes pregadas que não despencam, ano após ano, sem pelanca, estria ou celulite. Mesmo assim, muito nova desistiu de aceitar abraços. Preferiu o exílio da cama vazia. Nutre preconceito incurável contra si mesma. Ofende-se sempre, envergonhada pelo naco ausente, e não aceita elogio.

Há uns três anos, fez procedimento estético tópico. Mas o silicone enxertado não aderiu. A almofada acessória zangou. O vão ficou um pouco mais fundo e deixou Camila arisca. Agora ela quase nem se arrisca a cumprimentar os colegas.

Eu só queria aproveitar as festas de fim de ano para lhe dizer que há problema mais insolúvel no mundo. “Tem gente com fome”, “Tem gente sem água”, “Tem gente em guerra”, “Tem gente sem dente”, “Tem gente sem caráter”, “Tem gente que não presta”, “Tem gente que já morreu”, “Tem gente que perdeu a bunda inteira”. Eu só queria lhe mostrar as tantas virtudes. “Você canta”, “Você escreve”, “Você cozinha”, “Você está viva”, “Seu direito é lindo”. Mas não funciona. A vizinha continua teimando em se reduzir à parte defeituosa, contrariada com a lacuna na banda esquerda. Sofro por não lhe confessar meu maior segredo: adoraria me divertir naquela retaguarda assimétrica, naquele playground sugestivo dela. Peno porque ela se menospreza e não me dá espaço.

Sob nenhuma luz, às escondidas, ou diante da vizinhança, multidões, pisca-pisca, vaga-lumes, queima de fogos, sol a pino, eu seria o homem mais pleno, mais feliz do mundo se pudesse desfrutar do exagero divinal, da abundância que é Camila.


Maria Amélia Elói





domingo, 25 de dezembro de 2016

A insuspeita sensualidade da massa


A razão porque os homens não são vistos mais vezes na cozinha a preparar rissóis, pastéis de massa tenra, filhós, pizas, folhados é, provavelmente, porque ainda não descobriram as virtualidades sensuais da manipulação das massas.

Roberto não acolheu com muito entusiasmo a determinação da mulher de que nesse ano iriam passar o Natal com os pais dela, numa aldeia perdida das Beiras, mas um par de horas antes do almoço de dia 24 já estavam junto da mãe de Vanda a vê-la amassar as filhós. Juntava o fermento dissolvido em água morna à farinha peneirada, que formava um grande monte a um lado da masseira, e ia misturando pouco a pouco o azeite morno e as três dúzias de ovos batidos. Quando a massa parecia muito lassa, juntava mais umas mancheias de farinha; se começava a ficar pesada e difícil de manipular, acrescentava mais líquidos ― ovos, azeite, sumo de laranja, aguardente. Por fim, vinho do Porto. Dona Rosália metia os punhos fechados dentro da massa, com energia, ora um ora outro, pegava numa ponta esparramada de um lado e dobrava-a por cima do resto, voltava a empurrar e a esmurrar, voltava a repuxar pontas para o meio, num sovar diligente e enérgico. Os seios fartos dançavam-lhe por dentro das roupas grossas, cobertas pela eterna bata de florinhas, num ondear marcado pelas marés da massa a que Roberto não era indiferente. A operação parecia uma luta deleitosa, sem fim nem propósito utilitário, mas aos poucos a pasta lisa, carnal e maleável como barriga de mulher, ia crescendo a um lado da masseira. Mais um pouco de azeite sobre aquela nudez macia recordou-o de um jogo erótico com a mulher, que uns anos antes acrescentara um pico de excitação ao momento. «Quem sabe se com ovos batidos…» Por fim, misturados todos os ingredientes nas quantidades intuídas, o bolo, polvilhado com uma última capa de farinha, rotundo, alvo e sensual como nádega de mulher, foi acomodado a um lado por Dona Rosália, coberto com panos e um cobertor, para manter a tepidez necessária para a massa levedar. Por baixo da masseira, uma braseira acesa.
A irmã de Vanda e o marido só chegaram depois de almoço. Roberto gostava deles, por razões diversas: Miguel era um companheirão, sempre disponível para uma piada picante; Cláudia, um doce.
Ao fim da tarde, com a massa das filhós quase a transbordar da masseira, reuniram-se todos na cozinha velha ― um espaço que mantinha uma lareira antiga semicoberta por uma chaminé de grande tiragem. Na pedra do lar, vários cavacos acesos a aquecer uma caldeira de cobre, meia de óleo, sobre uma trempe.
Curioso por experimentar, Roberto ofereceu-se para tender as filhós. Sentado num banquinho baixo perto da caldeira, com uma tábua de cozinha sobre os joelhos, separava um punhado de massa, de um alguidar para onde tinha sido transferida, rolava-o nas mãos a formar uma bola e esticava-o com os dedos sobre a tábua até conseguir obter um círculo de uma grossura uniforme de um dedo e um palmo de largura. Então, com uma carretilha em ziguezague, como era tradição, aplicava ao interior uns cortes, para uma fritura eficaz, e largava a filhó suavemente no óleo fervente. Do outro lado do alguidar, a cunhada também tendia. Miguel com um espeto geria a fritura e tirava do óleo as filhós já fritas. Vanda distribuía-as por cestinhos e caixas, enquanto Dona Rosália as polvilhava com açúcar e mantinha as crianças longe do lume e do óleo quente, deixando-as também pôr o açúcar. O Senhor José, o patriarca, ia administrando o fluxo de lenha, para manter uma chama contínua, mas não excessiva.
O primeiro contacto de Roberto com a massa foi de surpresa. Não estava habituado àquela deliquescência oleosa e a sensação de mãos sujas retraiu-o. A maleabilidade sugestiva foi a primeira sensação estimulante. Depois, a textura e a densidade carnais tomaram conta dos seus sentidos. A massa macia e moldável transmitia às terminações nervosas das suas mãos sensações de grande carga sensual. A ilusão de tocar e manipular partes de um corpo feminino era muito real e perturbadora. Como bola, a massa dava a ilusão de seio, macio e deformável; como superfície, lembrava pescoço, barriga, interior de coxa. Os sentidos sabiam-se enganados, mas rejubilavam, contentes e subconscientes.
Enquanto manipulava a bola de massa entre as mãos, permitiu-se imaginar que metia as mãos por dentro das roupas da cunhada, ali mesmo ao lado, e tocava, agarrava, apertava-lhe os seios, fiado na incapacidade de ela e os circunstantes lerem o pensamento. Esta impunidade furtiva acrescentava um patamar de excitação ao seu desatino. Alguma coisa no seu corpo se inteiriçou. Felizmente, a tábua de estender as filhós protegia-o de maiores embaraços.
As pessoas não conseguem ler os pensamentos umas das outras, mas estão muito habituadas a ler os pequenos sinais da linguagem corporal. Talvez o cunhado de Roberto lhe tivesse notado a respiração mais apressada ou algum esgar mais libidinoso no rosto, ou talvez já conhecesse as delícias da manipulação da massa. Ao vê-lo entretido com a bola de massa entre mãos, provocou, irónico e risonho:
Essas são boas, mas eu gosto mais das outras!
Roberto sentiu-se corar, mas logo resolveu assumir:
Claro, as outras é que enchem a alma. Mas mais vale uma destas na mão que duas das outras... na caixa… ― concluiu, rindo.
Todos pareceram perceber e riram animadamente, exceto as crianças, sempre atentas:
Eu também quero das outras ― clamaram ambas.
Ah, vocês querem das outras filhós com aguardente? Ainda não têm idade ― trapaceou Dona Rosália. ― Mas arranjo-vos algumas com canela.
Estava lançada a brincadeira brejeira. Pouco depois, Cláudia, com uma expressão maliciosa, produzia um rolo com a massa, em vez de uma bola. As chalaças marotas não se fizeram esperar, a que não faltou a clássica demonstração da flacidez, sempre risível, que a massa ilustrava na perfeição.
Esta não vai lá, nem que lhe mostre as amígdalas ― gracejava, enquanto suspendia o pedaço cilíndrico de massa sobre a boca aberta.
Então, meninos! Hoje é noite de Natal… ― reclamava a matriarca, pouco à-vontade com tanta brejeirice à frente dos genros e das crianças.
Mas o ambiente era de pândega descontraída. Roberto prosseguiu, sugerindo carícias preliminares, ao estender as filhós. A frequente necessidade de abrandar a massa, molhando as pontas dos dedos em azeite, acrescentava realismo às manobras lascivas. Em crescendo, encontrou relações sugestivas entre os cortes da carretilha e alguns aspetos da anatomia íntima feminina:
Esta tem os lábios em ziguezague. Se calhar, dá dentadas. Agora, morde; agora grita! Agora, morde; agora grita... ― ria, visivelmente divertido, espicaçando o cunhado.
Mostra, tio, mostra! ― pediam as crianças, curiosas.
Roberto correspondeu, mimando uma bocarra, com a filhó aberta a meio:
Fujam, que esta é das famintas e vai-vos comer!
Miguel, entretanto, aceitou o repto malicioso de há pouco, retirando da caldeira uma filhó suspensa do espeto pela “anatomia íntima”.
Esta até ficou tesa, quando viu um espeto de meio metro!
A brincadeira e a correspondente risota prosseguiram até que a massa no alguidar se esgotou. Era a altura de lavar e arrumar tudo e de saborear as filhós com calma, acompanhadas de jeropiga. Depois do bacalhau e das couves do jantar, foram ver a fogueira ao largo da igreja e voltaram para distribuir as prendas, pois já ninguém aguentava as crianças. Antes do deitar, aconchegaram o estômago com mais umas filhós e uns copinhos de jeropiga. Era um remate perfeito.
O patriarca da família estava intimamente feliz. Não era todos os anos que conseguia ter toda a família junta. Já deitado, percebeu gemidos abafados vindos de dois pontos distintos do casarão familiar. Música para os seus ouvidos. Chegou-se a Dona Rosália, amoroso, insinuante, atiçado.
O que é que te deu hoje, Zé? ― fingiu reclamar ela.
Acho que é das filhós! ― sussurrou vaidoso, mentindo com toda a sonsice que a ocasião exigia. ― As tuas são as melhores ― acrescentou, fazendo deslizar os dedos ávidos pelas sinuosidades da massa que tão bem conhecia, pronta a ser amassada.

Joaquim Bispo
* * *
Imagem: Moniz Pereira (1920–1989) [pintor; cenógrafo na RTP], [Título temporariamente desconhecido], 1980.
Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações, Lisboa.
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(Este conto integra a coletânea, coordenada por Isidro Sousa, Boas Festas — Antologia de Natal, Silkskin Editora, Lisboa, 2015.)
* * *





sábado, 24 de dezembro de 2016

SÉRIE TROVAS PREMIADAS DE EDWEINE LOUREIRO (IV)






quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Estrábico



Era estrábico. Tinha esses olhos tortos, cada qual para o contrário, e quando os movia era como se duas bolotas rolassem e colidissem num funil. Cresceu assim, o vesguinho filho da Vera, e malgrado concatenasse e ordenasse o universo de fora em perfeita imagem de dentro, vivia Nestor batendo o mindinho dos pés na quina da cama, do armário e das portas. Doía, doía muito, mas isso de se machucar, apenas, pois quanto ao defeito aceitava-o com tal charme a ponto de açoitarem as línguas,

– Esse nasceu para ser vesgo.

Diga-se, também, que de frente nenhum dos olhos fixava-se diretamente em algo ou alguém, precisando ele ficar de lado para existir, nos outros, a convicção de que enxergava através de uma linha reta; só assim, visto o perfil, deixavam de julgá-lo um tarado cujas perversões ou ideias enviesavam as pupilas. 

Sua mãe, Vera, mulher bonita de mil carnavais, afeita à ideia de hierarquia e mérito, carma, sofreu antes de enfim aceitar o estrabismo do filho; quis de tudo para corrigir o defeito, de tudo e mais, e fracassou. Enquanto chorava, Nestor sorria, de receber a Tia e, animado, falar,

– Tia, Tia, a senhora é tão bonita que me embaralha os olhos.

E todos riam.

Adolescente, exercitando a culpa, Nestor avistou o uso da imprecisão: olhava para onde queria e ninguém desconfiava, a intenção oculta pelo falso erro. Olho para onde quiser, falava ele: para as coxas, a bunda, o rosto das mulheres, e isso sem parecer um maníaco – ou não um maníaco diferente, pois poucos julgavam a confusão de olhares como se alheia ao equilíbrio mental. Além do mero espreitar, tinha uma tara, paixão manifesta por decotes. Muito quis saber o porquê dessa compulsão, imaginando a origem dela no estrabismo; se assim for, bendito seja o defeito, sentenciava. Vera, ante tal questão, ante o interpretar de ângulos e o irritar-se com a obsessão do filho, almejava corrigi-lo; ao ouvir sobre um curandeiro, chamou Nestor – iriam visitá-lo. Ele piscou forte e disse: jamais, sua primeira decisão de homem. Se fosse mulher o curandeiro, e se fosse mulher das minhas, quem sabe – e seguiu tateando a beirada, perscrutando o vão.

Maior, homem de vinte anos, conquistava amantes cujos seios extrapolavam o limite da pele e do mal senso. Já a mãe implicava com as meninas, arruinava os namoros, seja por ela, elas ou por ele, pelo ciúmes ou loucura. Nestor brigava, discutia, reclamava, e daí anunciava mudanças e separações – ou um provável suicídio. Vera acalmava-o, confiante,

– Há de chegar a mulher perfeita para você, meu filho. 

Quando Nestor estava para desistir do compromisso e virar ermitão, surgiu Claudevania.

Morena creme, tinha seios regulados por leis superiores, carne que ascendia ao metafísico, além do geométrico. Vera, conhecendo-a, investigou a moça de cima a baixo, primeiro com reprovação e, fixando a fresta desconfiada dos olhos no decote, naquela fissura prevista pelo livro do apocalipse, sorriu. Era outra, santa, e o confirmavam os dias e semanas essa nova mãe, pacífica de falar,

– A Claudevania, adorei a Claudevania, ouvia Nestor, julgando-a submissa e encontrando em sua última ameaça a explicação para esta postura.

***

Anos nasceram, engatinharam e caminharam enquanto se amavam. Noivaram, dele esconder a aliança em um bolinho de aipo frito e ela partir um dente. Convergiram os destinos, logo, com o casal no altar. Vera, alegre e satisfeita, fotograva, e orgulhava-se tanto do filho como de Claudivania (ela nunca lembrava-se a pronúncia correta). Claudevania, chorando, o carvão da maquilagem borrando a pele, exultava um orgulho de rainha empossada, de tradição que continua. Já Nestor era outro, e, de terno e cabelo curto, presença militar, assemelhava-se a empresários ou pastores de igreja, o estrabismo agora curado de tanto focar naquele decote que, como os poderes antigos e divinos, transfiguravam a carne.





terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O cego de Caxambu

Sujeito gentil o meu avô.  Diziam que escolhia as palavras e premeditava gestos,
apenas para não magoar involuntariamente alguém. Tenho ótimas lembranças de sua
voz pausada, sua elegância esguia, suas mãos conciliadoras.

Por algumas vezes, passamos férias familiares em Caxambu, quando veranear numa
estação de águas era como tomar sol na pérgula do Copacabana Palace, só para
espiar uma ou outra starlet de Hollywood dentro de um maiô atrevido. O glamour
dos tempos vencidos transbordava.

O hotel em Caxambu era muito chique. Foi o palácio onde a Princesa Isabel se
hospedava, quando precisava tirar férias do Conde D’Eu, suponho, ou revitalizar
sua distante juventude nas fontes milagrosas do Parque das Águas.

Havia regras pitorescas no hotel. Só se jantava de terno e gravata e as damas
cuidavam de não repetir o mesmo vestido do jantar anterior, embora joias pudessem
ser alternadas noite sim, noite não.  Não que houvesse alguém para fiscalizar
os figurinos na porta, mas a simples transgressão do vestuário era motivo de
olhares reprovadores e cochichos maldosos entre os hóspedes.

Assim como o figurino das distintas senhoras, o cardápio ousava na variedade
obrigatória. Foi nessa época em que eu, menino de 11 anos com pescoço envolto
por uma gravatinha borboleta, conheci o purê de batata doce com iscas peito de pato,
a sopa de brócolis pedaçuda, o arroz com amêndoas e a truta amanteigada, couves de
Bruxelas cortejando um assado de vitela, o sorvete de caramelo e o Ile Flottante,
segundo meu avô, nome metido a besta dos ovos nevados, um pudim de claras batidas
que flutua sobre um denso creme de baunilha salpicado de raspinhas de casca de limão.

Foi nessa época também em que cai de amores pelo pecado da gula – ou da luxúria
gastronômica – e dele nunca mais me desgrudei.  Até hoje aprecio o prazer do degustar
como um orgasmo permitido em público.

O hotel hospedava Don Pablo D’Alvear, um cego ibérico, bem gordo e careca,
cuja gravata não descia além do umbigo e os botões do paletó surrado jamais
encontravam suas casas. Era uma figura fora do contexto de distinção e finura
que o hotel exalava. Mas não era um figurante. Todas as quartas feiras, assim
que as portas do salão do jantar se fechavam, abria-se a sala de música, onde
alguns dos recém-jantados hóspedes bebericavam digestivos em torno de um
piano de cauda. Pois ao lado desse piano, Don Pablo D’Alvear se metia a cantar ópera.

Não que varasse a noite com árias incompreensíveis, mas para um menino de 11 anos,
três minutos de cantoria era o bastante para puxar meu avô para o salão de bilhar,
onde menores só poderiam entrar acompanhado de seus responsáveis.  E mesmo fascinado
pelo bailar das bolas coloridas sobre o feltro verde, era perseguido ao longe pelas
extensões vocais insuportáveis do cego.

Certa noite, quando esperávamos no hall principal o abrir do salão do jantar,
do alto de uma escadaria larga de passadeira vermelha presa ao chão por frisos dourados
– a Princesa Isabel deve ter rolado a escada, pensei, por isso o tapete com garras
de segurança – surge o cego com sua bengala nervosa.
Meu avô, o gentil cavalheiro, tratou de subir os degraus e dando o braço a Don Pablo
descobriu que de espanhol o cego não tinha nada.

- Me larga! Conheço essa escada há mais de 30 anos!

Meu avô desceu a escadaria balançando a cabeça com um sorriso amarelo.
Nós e alguns hóspedes ao redor ficamos constrangidos com a cena, e mesmo
torcendo para que Don Pablo se estabacasse, acabei por admirar a desenvoltura
impressionante do cego em lidar com degraus. Mas um pensamento não me poupou:
desce escada melhor do que canta o desgraçado.

Outro ritual sagrado em Caxambu era caminhar até o Parque das Águas depois
do café da manhã, sempre com meu inseparável companheiro avô. Numa dessas
manhãs frescas e azuladas de Minas, vimos o portão da garagem de uma casa
aberto para calçada, e não para dentro da casa, como reza o bom senso.
Meu avô comentou a burrice de quem tinha projetado aquela ameaça ao pedestre,
mas mal prosseguimos a prosa sobre o absurdo, vimos Don Pablo D’Alvear aparecer
na esquina e caminhar com sua bengala nervosa em direção ao portão.

Meu avô parou e segurou meu braço. Apertou minha mão e atravessamos a rua.
E ficamos de camarote prontos a assistir o desastre iminente.
E lá veio o cego farejando com a bengala o seu suposto tranquilo e desenvolto caminhar.
Não deu outra.

Schcalablouft.

E foi Don Pablo ao chão. Primeiro caiu de costas, perdendo óculos e bengala.
E depois de soltar um urro de opereta bufa, virou-se de bruços tentando se levantar.
Mas a barriga não deixou. Bateu pernas e braços como se nadasse no seco.

Pela primeira vez, vi meu avô soltar uma gargalhada estrondosa. Ria e segurava
as entranhas como um ordinário de botequim. E ainda me bateu nas costas,
com uma alegria descomunal.

- Olha lá! Parece um mata borrão!

Saudade do meu avô. O cavalheiro que descobri um ser humano como outro qualquer.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Beethoven e o Telessexo - Por Manoel Herzog (convidado especial)


“Sex Call-Center, boa noite, com quem falo?
“Ludwig van.”
“Boa noite senhor Lúdi, hoje estamos tendo uma noite promocional, estamos disponibilizando: vozes louras, disque 1; índias, disque 2; asiáticas, disque 3; outras etnias disque 4.”
Desde uma Europa branca, erudita e cansada, desejoso de uma voz negra-blues-singer-gospel, disquei o quatro.
“Certo, senhor Lúdi, ainda fala comigo. Que tipo de etnia o senhor estaria desejando?”
“Na verdade uma voz negra, que case bem o ritmo com minha linha melódica. Questão de harmonia.”
“Certo, senhor Lúdi, vamos estar direcionando o senhor para a atendente Sarah. Bom divertimento. O número de seu cartão de crédito, por favor.”
Durante a operação tive a satisfação egóica de sempre que ligo no telefoda – ouvir uma composição minha.
“tananã – nanã – nanã – nanã
tanananã – tanananã…”
Para melhor compreensão do meu Für Elise aplique à onomatopeia acima a melodia do caminhão de gás.
Superado o entrave burocrático, fui direcionado à voz mais exuberante que já vi. Claro, me venha dizer que não se vê uma voz e eu contesto, a partir da sua linha limitada de raciocínio tampouco se gozaria no sexo só por ouvir, e a gente goza. Nunca tinha visto, visto mesmo, uma voz tão exuberante quanto a de Sarah.
“Sarah Vaugham, boa noite, com quem estou falando?”
“Ludwig van.”
“Ai, que nome lindo, amor. Estou ficando molhadinha só de estar ouvindo a sonoridade.”
‘É, vagabunda? fala pra mim, você deve ter um bundão gostoso, gostoso pra gente encher a mão.”
“Claro, amor, estou tendo uma bunda enorme, perfeita, só pra você. Esteja me batendo, me dando tapinha gostoso.”
Sarah tinha uma voz exibicionista, sabia de seus recursos vocais, arrasava na perfomance. Me fez esquecer por momentos minha solidão, minha reclusão, meu mundo matemático de música exata, remeteu a uma África ancestral às melodias européias, ensinou ritmo, batida, axé, remelexo. Fez esquecer o escroto do meu sobrinho fanqueiro, que sou obrigado a criar porque o pai morreu de desgosto. Sou pedra dura, comigo ele se fode, vai acabar enlouquecendo, antes ele do que eu, ainda se mata esse puto. Esqueço com Sarah da minha personalidade difícil, minha misantropia, minha reclusão, esse quarto de silêncios.
“Conta pra mim, neguinha, que que você está fazendo agora.”
“Estou estando peladinha pra você, amor, estou me tocando gostoso.”
“Nossa, tô peladão também. Tocando as teclas do meu piano mágico, ebony and ivory living together.”
“Isso, amor, esteja tocando, esteja tocando gostoso, aaaiiiiii.”
“Goza, goza, gostosa.”
“Vou estar gozando, vou estar gozandooooo.”
“Eu idem. Gozei, tchau.”
O preço da ligação é absurdo e, satisfeita a necessidade do instinto, nada justifica postergar os minutos telefônicos pra nada. Não há cigarrinho a dividir no telefone, não há comunhão no pós-venda.
Findo o ato, sempre me vem essa noia. Um arrependimento por viver, um vazio da alma, um vácuo de sons puros, um ruído de engarrafamento a poluir meu silêncio musical. Os gerúndios da atendente de telemarketing, lembrados, me faziam engulhar, e vi que a vida, o sexo comercial, a superficialidade das relações humanas submetidas ao mercado, eram tudo uma grande duma merda. Foi a partir daí que comecei a ficar progressivamente surdo. Os psicólogos chamam isso “ouvido seletivo”.





sábado, 17 de dezembro de 2016

Mapa - Poema de Diana Araújo Pereira (Em português e espanhol).



MAPA
Com pés de índio não pise no tapete branco. Com pés de negro não chegue na sala principal. Com este sorriso duvidoso não me olhe nos olhos que os tenho em segurança que os quero à salvo de dúvidas ou dores. Já passei pela ponte da incerteza. Cruzei o umbral dos tempos duros e gastos. Como à mesa e uso adequadamente os talheres. Sei manter a maquiagem e a máscara. Fecho os olhos de noite e conto as ovelhinhas brancas. Durmo tranquila depois de rezar. Hoje o mundo está organizado e meus passos caminham sem vacilar pelo mapa. O mesmo mapa que me deram no berço, que me fizeram tragar no leite, e que aprecio comodamente da janela ou da internet. Ah! E canto bem as canções que enamoram ou tranquilizam. Com esforço aprendi os lemas perfeitos com os quais permanecer de pé com os quais lavar o rosto antes de deitar com os quais descansar do susto cotidiano de existir do lado de cá.


MAPA

Con los pies de indio no me pises la alfombra blanca.
Con los pies de negro no me alcances la sala principal.
Con esta sonrisa dudosa no me mires a los ojos
que los tengo seguros
que los quiero salvados de dudas o dolores.
He pasado ya el puente de la incertidumbre.
He cruzado el umbral de los tiempos duros y gastados.
Como en la mesa y uso adecuadamente los cubiertos.
Sé mantener el mantel y la máscara.
Cierro los ojos de noche y cuento las ovejitas blancas.
Duermo tranquila después de rezar.
Hoy tengo organizado el mundo
y mis pasos caminan sin vacilar por el mapa.
El mismo mapa que me dieron en la cuna,
que me hicieron tragar en la leche,
y que aprecio cómodamente
desde la ventana o la internet.
Ah! Y canto bien las canciones que enamoran o tranquilizan.
Con esfuerzo aprendí las perfectas consignas
con que mantenerme de pie
con que lavar la cara antes de acostarme
con que descansar el susto cotidiano de existir por acá.


In Horizontes Partidos, Artepoética Press, N. York, 2016.






sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Casa de repouso


Gosto daqui. Deste silêncio que só é rompido por sons rotineiros. Os ruídos da TV na sala grande; o chiado das panelas na cozinha iluminada; o barulho das chaves pesadas, trancando as portas à noite. Gosto dos bancos no gramado. Sempre me dão a sensação de que estou num jardim inglês. E que a qualquer instante distraído serei Elinor ou Marianne Dadhwood, talvez a própria Austen pensando aborrecida sobre o desprezo de Mark Twain ou rindo da afirmação de Margareth Oliphant de que seus cenários se repetem em todos os livros. Não importa. Desconheço mulher da minha geração que não tenha desejado despertar amor em Edward Ferrers.
Em qualquer cenário.
Meu lado razão também gosta daqui. Das conversas diárias, dos hábitos recorrentes, da segurança do sono protegido pelos cães, meus cães — gosto de pensar, sem medo de competir com ninguém por seu afeto. Só lamento que durante o dia fiquem presos no canil. Mas à noite Olavo, o vigia, me deixa brincar um pouco com eles antes de ir dormir.
Chuck, o pastor belga, gosta de afagos leves ao lado das orelhas. Mais que isso e ele se afasta das minhas mãos, discretamente. Cleópatra, uma rotweiller imensa, me dá a barriga para que eu lhe faça cócegas e eu fico imaginando se não fará o mesmo caso um ladrão pule os muros. Ginger, a labradora que rebola ao caminhar, chega perto, me cheira fungando, depois se vira de costas e senta-se pesadamente em um dos meus pés. Fiquei sabendo que tentaram treiná-la para ser guia de pessoas cegas, mas ela não se adaptou porque é muito agitada. Minha garota rebelde. Sherlock, um velho dobermann, é o único arredio. Só me olha de longe. Não é um olhar perigoso, mas sinto que falta química entre nós. Respeito isso. Em cães, em gente. 
Goretti não vem hoje. Está de folga. Mas me emprestou dois livros e uma lupa para eu não ter a desculpa de deixar de ler porque meus óculos estão fracos. Cem Anos de Solidão e Estórias abensonhadas.  Já li e já li. Mas não lhe direi. Detestaria desapontá-la. Desde que ficamos mais próximas, e eu lhe contei sobre minha paixão pela leitura, ela se esforça em descobrir meus autores preferidos para me trazer uma, duas vezes por semana livros que toma por empréstimo na biblioteca pública. Tenho certeza de que Goretti é solitária. Sim, eu sei, apesar de separada, ela mora com a mãe, tem filhos, família grande. Mas é solitária. Que solidão não é quando falta companhia, mas quando insiste um vazio que nunca se preenche. Só os que afundam e flutuam alternadamente nesse abismo sem fundo se tornam gentis. E seguem gentis, mansos, esperando qualquer paraíso que tenha o calor de um abraço, de um agradecimento sincero. Goretti é assim. Acho que por isso me preocupo com ela e com o segredo que enxergo em seus olhos cor de mato. Os mansos me assustam. São possibilidades incertas. Podem ceder e ceder a vida toda, mas sempre haverá um momento de revolta. E desses momentos só se sabe que causam estragos.
Por que será que me sinto inquieta quando Goretti está de folga? Ela cuida de mim desde que vim para cá. Conhece meu jeito, minhas manias. É uma profissional como poucas. Atenta aos medicamentos, organizada, mãos firmes e delicadas para aplicar uma injeção ou pegar uma veia. Acho que gosta de mim. Eu gosto dela. Tem praticamente a idade dos meus filhos, mas é muito mais madura do que eles. E mais amorosa.
Olavo está me encarando, pensando se interrompe ou não meus pensamentos. Quer me avisar que os cachorros estão impacientes, esperando carinho. Os rabos abanando me cumprimentam como leques vertiginosos, convidando aos nossos rituais noturnos. Sozinhos nesta parte do jardim, eu e os cães em conversa intraduzível. Mas, hoje, há mais alguma coisa. O rapaz continua me encarando, aflito.
< A senhora tem um minuto, D. Ágata? >
Tenho vontade de soltar uma gargalhada, mas me contenho; poderia ofendê-lo. Olavo, assim como Goretti, é dessas criaturas especiais que encantam pela simplicidade. Não há subterfúgios, segundas intenções ou estratégias no seu modo de ser e de se relacionar com as pessoas. Sim, rapaz, eu tenho minutos, horas, semanas. Tempo demais para ouvir o que você vai me dizer, apesar de pressentir que não ouvir seria melhor. Na verdade, eu não quero saber nada do que você veio me contar sobre essa gente trancada como marginais, sobre esses corpos despejados em meio a pilhas de remédios e ao falso conforto dos seus quartos mobiliados com mentiras de última geração. São vidas inúteis. E não me lembro de sentimento mais humilhante do que se sentir inútil. Perceber que as pessoas se calam quando você chega, que inventam coisas para manter você bem longe delas, que bocejam enquanto você fala, que nada do que você faça tem valor para ninguém.
Olavo me fala do que eu já imaginava. Que esta noite alguém quer deixar de viver. E ele me pede que intervenha, que impeça. Eu me pergunto se conseguirei. Tenho horror à morte, essa trapaceira sem-vergonha. E de imediato o que me vem à cabeça são os versos do moçambicano: “Morre-se nada quando chega a vez; é só um solavanco na estrada por onde já não vamos. Morre-se tudo quando não é o justo momento, e não é nunca esse momento". Queria conhecê-lo. Vi-lhe a foto: uma cara comum. Mas eu romperia madrugadas ao seu lado, ouvindo poemas e contos magníficos.
Vamos, pensamento, se aquiete. Preciso ouvir Olavo, porque é certo que alguém deseja morrer hoje. Alguém que roubou um vidro inteiro de comprimidos.
< Quem pegou os comprimidos? >
Ele me olha, magoado. Percebe que eu não estava escutando sua história importante.
< Olavo > — digo, sem mentir — < Quando se chega à minha idade, é inevitável que a gente se distraia com frequência. Qualquer coisa nos leva para longe dos fatos. >
No mesmo instante, a mágoa se transforma em carinho. E me sinto mal por saber que manipulei sua bondade para me livrar da minha falta.
< O Sr. Juarez. Roubou o vidro de calmantes. A senhora acha que ele vai tentar... vai tentar ... >
Vai. Talvez já esteja tentando, neste instante, ou talvez prefira esperar que as enfermeiras façam a checagem noturna para só depois sentar-se na beira da cama, pensar por um momento na família, nos amores, fazer suas últimas orações, pedindo perdão, convencer-se um pouco mais sobre a proposta sem aval de que tudo será melhor num outro mundo, e engolir a overdose programada.
Antes de me apressar para dentro de casa, despeço-me dos cães, essas criaturas magníficas que compreendem tudo. Eu não quero ir. Não gosto que acontecimento algum atrapalhe as minhas noites tranquilas. Mas a iminência da morte não é mesmo coisa para se gostar.
Juarez não está na sala de jogos. Nem perto da televisão onde três senhoras e duas enfermeiras esperam a novela começar. Cada hóspede tem o seu próprio aparelho de TV instalado no quarto, mas a maioria prefere assistir aos programas na companhia uns dos outros. Sigo rápido até a ala masculina e paro na porta de um quarto igual a todos os outros. Duas batidas. Nenhuma resposta. Pode ser muito tarde. Desta vez, seis ou sete batidas mais fortes. Não há mesmo resposta. Hesito, com a mão na fechadura. Não quero encarar o irreparável. Mas tenho que fazer isso. Com a mão trêmula, abro a porta, agradecendo às regras que não permitem chaves ou trancas nos quartos. O escuro é quase total.
< Juarez? > — digo, me aproximando da cama onde o vejo deitado.
Mas ele não se vira. Não consegue. O efeito dos comprimidos já está adiantado e eu escuto seus gemidos baixos. Aperto a campainha insistentemente e crio coragem para olhar novamente para aquele homem deitado. Seus olhos, mesmo semicerrados, estão com medo. Por quê? Por quê?, pergunto baixinho; e, por um instante, tenho a impressão que o escuto dizer: Chega. Tento segurar sua mão magra, de ossos salientes, mas ele entra em convulsão. Os dois enfermeiros chegam para tentar ajudá-lo e eu me afasto para não atrapalhar. Há muito não tem vida neste quarto.
No corredor, rostos curiosos me perguntam o que houve. Não quero falar. Eu ainda converso com Juarez em pensamento para tentar entender por que hoje, por que tão sem sinais. Vou para o jardim, mesmo sabendo que estou no contrafluxo das pessoas. Preciso dos cães que estão agitados do lado de fora, sentindo a movimentação anormal da noite. Ou talvez seja o cheiro da morte. Assim que saio, Ginger é a única a roçar a minha mão com o focinho. Chuck e Cleópatra estão em posição de alerta, orelhas levantadas e olhos fixos no interior da casa, reverenciando mais uma partida. Não vejo Sherlock, mas talvez seja a minha visão deficiente que não consiga distinguir o seu pelo negro na escuridão. Olavo não se lembrou de religar as luzes externas e tudo o que faço é ouvir a respiração dos bichos.
Quando alcanço o banco, estou estranhamente desalterada. E só percebo as lágrimas quando uma delas me chega à boca. Juarez está morto. Decidiu tudo em silêncio, como fazem os que não têm dúvidas. E as tardes de jogos de cartas e as noites de novela e as conversas naquele mesmo banco não existem mais. Assim, num repente, expondo a fragilidade do tempo. 
E logo hoje que Goretti não veio. Eu queria muito que ela estivesse aqui. Para me dizer que desta vez não deu. Não, não deu. E daí? Que inferno isso! Eu não tive culpa. Eu nunca perdi nenhum deles. Mas desta vez não fui capaz de enxergar os gestos de despedida, o silêncio anormal, os olhos de fim. Ai, meu Deus, como eu estou cheia disso! Morte desgraçada. Como eu te odeio.
< D. Ágata, a senhora está bem? > — Olavo se preocupa com o meu silêncio.
< Estou sim, meu amigo. Só um pouco triste. Foi a primeira vez que eu... que eu não consegui chegar a tempo, sabe?>
Ele me olha com carinho. Não sei se entende realmente o que eu sinto. Que o que me consome não é a morte de Juarez, mas o meu atraso.
< A senhora já contou quantos foram?>
< Como?>
 < Quantos estão vivos graças à senhora. >
Na verdade, nunca me ocorreu contar. Seis, ele me diz. 
Marta, minha amiga de infância. Câncer de intestino. Uma lâmina que sumiu do ambulatório. E uma conversa sobre céu e inferno, sobre um deus a quem ela se curvava, sobre o pecado da morte provocada. Meses mais tarde, já em fase terminal, me confessou que não se arrependia de ter esperado pela “morte certa”, porque iria se encontrar com o seu deus. Muito tempo depois, eu ainda a invejava pela sua fé. Por essa crença em paraísos e anjos que torna tudo mais fácil.
Heloísa. Coração fraco. Marido e filhos mortos num acidente de avião. Ela sobreviveu por causa do trabalho que a reteve por um dia. Durante o enterro da família, o primeiro AVC, que a colocou para sempre numa cadeira de rodas. Não andava porque não queria, diziam os médicos. Não, doutores! Não andava porque não tinha para onde ir, para quem ir. Um frasco de remédio de pressão desapareceu do carrinho de enfermagem. Encontrei-a sentada ao lado da janela, comprimidos enfileirados no parapeito, mãos na cabeça. Deu trabalho. Mas, no fim, deixou-se convencer pelo argumento de que um único movimento errado neste mundo seria capaz de mandá-la para bem longe dos filhos, dos pais, do marido naquela outra vida que ela tinha como certa. Até hoje a vejo na sala, olhos sem viço, fingindo assistir à TV ou lendo livros que nunca termina. E me pergunto se não teria sido melhor deixá-la fazer o que queria e ainda quer. Mas então a escuto ao piano, nos fins de tarde, tocando Chopin, seu predileto. E vejo que ela está em paz com o seu tempo de espera.
Leonora e os rins que não funcionavam. Uma noite longa convencendo-a a largar a faca com que pretendia cortar os pulsos. Leonora e seu transplante bem sucedido, poucos dias depois. Por aqui, uma história feliz nunca é esquecida.
Ernesto. Abandonado pelos filhos por causa do alcoolismo. Sem visitas. E o veneno de ratos roubado do galpão no fundo do jardim. Uma noite de argumentos nos quais ele acreditou mais do que eu. Meses mais tarde, apaixonou-se por uma massagista que atendia aqui. Casaram-se e ele montou uma clínica para ela. Nunca mais bebeu.
Mas falta alguém. Duas pessoas, pelas contas de Olavo. Sim, sim. O enfermeiro da ala masculina. Natal do ano passado. Dívidas, muitas dívidas, e um filho pequeno cujo único desejo era ganhar uma bicicleta. Subiu até o alto do prédio sem que ninguém notasse. Ginger notou. Com ele, não teve conversa. Teve bicicleta. Uma coleta no fundo da minha bolsa o resgatou do telhado. Mas ele não sabe que fui eu; se ofenderia. 
Falta alguém. A minha memória está cansada; não tenho mais lembranças disponíveis. Mas Olavo me conta uma história que eu ainda não sei. De uma mulher infeliz que queria morrer para escapar do marido violento. E que um dia, num jardim cheio de cães, escutou quando uma velha senhora leu em voz alta: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Então, eu estava certa. Goretti e seus olhos cor de mato têm mesmo um segredo.





segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

teto


destilo teu veneno
num colírio
e pingo nos meus olhos
o escuro
misturo duas gotas 
com absinto
e encho a minha cara
contra o muro
retorno depois 
de perder os sentidos
sedento por vagar
pelo teu mundo





sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OUTONAL




Pensei em te escrever uma elegia
Que não tivesse só tristeza e agonia
Mas o pranto se instalou em minha pena
E acabou por inundar o meu poema.

Pensei então em invocar as belas flores
E enfeitar com suas pétalas minhas dores
Mas o outono se instalou em minha pena
E acabou por murchar o meu poema.

Percebo então que a poesia já está pronta
E meus rabiscos se assemelham aos amores:
São instáveis, passionais, de faz-de-conta,
Cantam no palco o calar dos bastidores.





quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Flora

aperreio de um entanto que se quer no arrimo
a vontade de ser perto é por tudo o que importa
o momento deveria ceder ao repentino indício 
grassar sobre nós a força indistinta dos incêndios
devaneio ser tragado pelos seus intervalos
venha ao meu gorjeio feito o último encarne
guardo o receptáculo de te ninar as inquietações
abrace-me com a índole dos infindáveis
relampejo de vida que me abocanha pelo vínculo espiralado
a anistia além de todos os meus emblemas
não há oráculo que prestidigite nosso absurdo
você é a liturgia da minha sobrevivência
abrase-me na ventura dessa carapaça celeste
te habito na amplidão de um passarinho


[Imagem: Jules Lefebvre - Flora]