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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ONIROMANCIA


Eu tive um sonho.

         Sonhei que, ansioso para dar a primeira e mais prazerosa mijada do dia, eu cambaleava pela casa. De olhos fechados e calções arriados até a altura dos joelhos, fiz com que o som do jato de urina contra a água do vaso descerrasse minhas pálpebras. Olhei sonolento para a sombra da girafa, encolhida e mal acomodada por detrás da cortina de plástico. Como uma súplica, sua cabeça deslizou para fora e então vi que ela estava com sede. Antes de escovar meus dentes, permiti que o mamífero artiodátilo ruminante de estimação esticasse o pescoço por debaixo de meu braço e tragasse o fio de água que escorria da torneira. De língua rugosa e desastrada, também engoliu os comprimidos caídos na pia.

Sim. Em meu sonho eu criava uma girafa, e isso não me causava nenhum embaraço. Ela vivia em meu banheiro e demonstrava estar mais à vontade ali do que jamais estaria nas savanas africanas. Gostava da umidade, da acústica, do escuro.

         Acordei sobressaltado com a extravagância do que me parecera uma cena cotidiana, familiar, quase enfadonha. Uma girafa e eu, assim, como um labrador e seu dono cego, companheiros há décadas, enfastiados por toda uma vida em comum. Nada entendo de simbologia e pouco me lembro das aulas de semiótica. Uma figura saída de um safari etíope — desajeitada, com cascos que deslizavam sobre os ladrilhos — deve ter algum significado para a psicanálise ou para os esotéricos da Nova Era. Quem sabe também tenha um para mim. Entender o sonho talvez forneça algum sentido para minha vida tão reta e plana, tão limpa e seca. Tão breve.

O que me diz a girafa? Sua sede, o que indica? E o fio de água? Os comprimidos? Qual o significado de um animal ungulado entre um chuveiro e um vaso sanitário? É um enigma. Se eu decodificar sua linguagem obscura, talvez seja premiado com um fim mais próximo da luz, de um milagre. Um desfecho olhado lá de cima.

Desde que acordei hoje, senti que, interpretado o sonho, também estariam traduzidas minha própria existência e sua misteriosa razão. Durante todo o dia ocupei-me em desvendar a charada de Hipnos e Morfeu. Logo eu. Eu que quase nunca. Ou nunca.

“As girafas possuem um sistema vascular responsável pela maior pressão sanguínea do reino animal.” Não sei onde li isso e nem mesmo se é um dado confiável, mas passei parte do meu dia acreditando que, durante meu asseio, eu sofreria um aneurisma. Bobagem. Nada na vida é tão fácil.  

Desalentado, passo as duas mãos por meu rosto e sinto ácaros passearem por ele. A pele áspera. A barba por fazer. Levanto do sofá e caminho até o espelho disposto na parede feia de minha sala. Observo meu pescoço magro, longo, amarelado e comido de sarcomas. Ainda ontem estas nódoas castanhas não eram tantas. Encaro minha febre e meus calafrios, minha dor de cabeça e meus olhos submersos, meu suor e minhas câimbras musculares. O exame aberto sobre o tapete da sala, como uma planta carnívora.

Tenho sede. Sei onde estão os comprimidos. E, bem aqui ao lado, é meu banheiro.


Emerson Braga





quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Doendo

É muita dor demais além da conta. Tudo dói. Doem todos. E tanto! Ali fora, cá dentro, em rede, macro e microcospicamente, de súbito, com link, ordinária. Uma desgraça crescente lateja, estrala, sufoca, oprime, ulcera o espaço físico, psicológico, social. Pra sempre? Padecimento pandêmico nas galáxias?

Há dores registradas em várias mídias; outras secretas, anônimas. Umas expostas ao extremo, outras carecendo denúncia. Pequenas aflições exaltadas, grandes torturas menosprezadas. O sentimento público. O espetáculo privado da dor. Nas artérias e nas telas. Não faltam protagonistas, espectadores, sentinelas. Sobram roteiristas e algozes. Espelhos, poltronas e guilhotinas estão ocupados. Potência máxima. Soçobra a raça humana.

O calo, a cárie, a alergia, a seca, a enchente, o vício, o abandono, o cansaço, a fome, o Zika, o carcinoma. Corrupção, preconceito, incultura, injustiça, terror, censura, abuso, amasso (daquele ruim), desabraço. O desvio da merenda, o rompimento da barragem, a microcefalia, o pânico, a morte e a danada da saudade.

Na madrugada insone, a turba chora feito bebezinho com gases. Essa cólica habita em tanta casa e atende por tanto nome! E não convém julgá-la, enumerando critérios. Angústia não se mede. O castigo é o próprio absinto.

Como assegurar, por exemplo, que uma criança que perdeu o cãozinho sofre menos que aquela cortada no vidro? A criança violentada poderá sorrir novamente? Parir gêmeos doentes dói mais que não poder ter criança? Enterrar o filho pequeno é pior que ver a mãe vegetando na UTI? Perder a função comissionada é mais sofrido que não ter emprego? Ser obesa pesa mais que passar fome? Há causa aceitável para o suicídio?

Por que alguns motivos de aflição são levados mais em conta que outros? Qualquer penar merece terapia? Qual dor é digna de prontuário? Qual deve ser ignorada? Há sempre culpados? Por que tantas vítimas? Carrasco e escravo não se confundem, às vezes? Convém sorver a tristeza dos outros? É desrespeitoso aconselhá-los a parar de sofrer? E se eu decidir suspender meus doendos? Não seria de bom tom acordar o perdão e revesti-lo de glória?

O cenário apresenta paliativos contra esse negro quadro, mas ainda inocentes. Analgésicos estéreis, antibióticos salpicados, lágrimas calmantes, unguentos caducos, terapias rasas, devoção aguada. Assim, a cura pode até acenar, mas gora, excitando superbactérias da tristeza mórbida.

Quem está realmente preocupado com a agonia alheia? A compaixão por si só resolve alguma coisa? Como ser solidário e, ao mesmo tempo, ficar imune a tão pungente contágio? A propósito, alguém quer ser curado? Nacos diários de alegria poderiam revolucionar a praga depressiva atual? Vale ignorar os números e notícias das tragédias para se abster um pouco delas? Vale sofrer tanto, já que morreremos todos? Convém esperar, imóvel, o fim desse tempo malsão? Ainda rola a opção pelo otimismo?

Deram poder excessivo à dor. Apoiaram sua legitimidade. Abaixo assinaram seu arbítrio e autoridade. Cassaram (cassamos) nosso direito à alegria. O sofrimento se generalizou. Estamos todos ardidos, bolorentos, dolorosos. Ou — quem sabe? — mais quebradiços que outrora. E quando doemos, acabamos também por magoar outrem. Doemos até sem sentir, ruminando mágoas!

Assim sem remédio nem palavra pra dizimar tanta dor, termino o meu texto cabisbaixa, impotente, pulsos retorcidos: a LER (Lesão por Esforço Repetitivo) atrapalhando o meu ESCREVER. 



Texto que ganhou o 1º lugar no 3° Concurso Internacional de Literatura da ALACIB (Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil) na categoria Crônica Adulto.





terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Mestre


No dia em que comerdes desse fruto,
se abrirão os vossos olhos;
e sereis como deuses,
conhecendo o bem e o mal.
Gn 3,5

Professor, quando é que nos mostra as suas últimas pinturas? ― lançou Gisela, juvenilmente provocadora.
Não as trago para a faculdade, Gisela, que são muito grandes ― gracejou o professor de Pintura III ―, mas terei muito gosto em mostrá-las no ateliê da minha casa de Sintra.
Tinha uma daquelas figuras tutelares que impressionam algumas alunas ― sobre o alto, barba, cabelo grisalho farto e um pouco revolto ― e, sobretudo, dava gosto ouvir as suas aulas. Fora da sala, adornava-lhe as mãos ou o queixo um cachimbo, donde se escapava um aroma de tabaco Mayflower.
E quando é que o professor lá está a pintar? ― avançou a aluna, interessada.
Aproveito todas as tardes de sábado. Apareça! A morada vem na lista ― disse o professor, a despachar.
Então, posso lá passar no próximo sábado, com o meu namorado? Ele também gosta muito de pintura. É de História d’Arte.
Com certeza, Gisela. Terei muito prazer em vos receber. Até lá!

*
O mestre já tinha esquecido a promessa da aluna, quando ouviu a campainha.
Entrem! ― convidou. ― Sejam muito bem-vindos.
É o Januário, o meu namorado; Jorge Ávila, o meu professor de Pintura ― apresentou, Gisela. ― Estou um pouco emocionada. Visitar o ateliê de um pintor como o senhor!
Cumprimentos feitos, Ávila levou os convidados a visitar o pequeno pavilhão onde pintava e lhe servia de armazém.
Aqui já não tenho nenhuma das minhas obras mais antigas. Iam beber bastante ao neorrealismo.
Nós conhecemos, professor. Estão em todas as obras de referência da pintura do século XX.
Depois vieram essas, com influências das colagens de Matisse; e estas, em cujos traços marotos se adivinha alguma inspiração na fase “minotauromáquica” de Picasso, não acham? Não que eu o reconheça, oficialmente ― ironizava o pintor, rindo.
Gosto mais das suas, professor, talvez por serem mais esquemáticas ― avaliava Gisela, em tom aprovador. ― O Picasso é demasiado explícito para o meu gosto.
Olha aquela, Gisela! ― Divertido, Januário apontava para uma tela, onde era evidente um coito sobre um fundo de linhas de projeto de arquitetura.
Nesta zona ― continuou Ávila ― estão as poucas que restaram da fase neoexpressionista, baseada na mancha e na gestualidade da pincelada. A partir daqui, são coisas muito recentes, quase todas neofigurativas.
Tanto nu, professor!
O nu transmite mais facilmente a essência do Homem ainda não contaminado pela civilização. Além disso, a roupa fixa uma época à cena e impede que a sua mensagem seja vista como um valor intemporal.
Aquela paisagem no cavalete é no que está a trabalhar?
Sim, é um esboço de fundo de Éden para uma série sobre a Criação ― uma encomenda de um particular. Nesta tela, em especial, vou representar Adão e Eva, no momento exato em que Eva já deu uma dentada na maçã e Adão inicia a primeira dentada, isto é, o instante em que “toda a humanidade” acede ao conhecimento que lhe estava vedado ― um momento muito especial. A Gisela é que faria uma excelente Eva ― o cabelo liso, comprido e louro, os olhos azuis, um certo ar de pureza primordial.
Fazer de modelo para si?... ― O tom de suave crítica não evitou um lampejo no olhar de Gisela.
Não me interprete mal. Eu só estava a fazer uma avaliação de conformidade estética. Longe de mim pedir-lhe que pose para mim.
Quanto tempo é que demora a pintar uma tela deste tamanho?
Espero acabá-la em duas ou três tardes de sábado.
Mas, tinha de me despir, não?
Claro, é a Eva; mas os olhos de um artista são como os de um médico ― seletivamente focados nas questões técnicas. O que avaliam são perspetivas, linhas de contorno, sombras, tonalidades cromáticas. Mas não quero que se sinta pressionada.
O que achas, Januário? ― perguntou Gisela ao namorado.
Se te sentes à vontade…
Eu estou muito segura do meu corpo e, às vezes, tenho fantasias de posar para um grande artista, cujo nome e mestria valorizassem o modelo. Achava piada dar comigo, um dia, na exposição de uma grande galeria.
O Januário não quer experimentar, também? ― perguntou o pintor. ― Eu preciso de um Adão, e o seu perfil adequa-se ao que eu procuro ― cabelo preto, que podemos desgrenhar um pouco, barba… Deixe-a crescer mais!
Eu? ― surpreendeu-se Januário. ― Eu não sei se tenho coragem.
Não custa nada, é como estar numa praia de nudistas. E ainda ganham uns trocos para a discoteca. A tabela! Mas, como disse à Gisela, estejam à vontade para recusar. Não ficarei contrariado se optarem por não posar para mim. Eu sou pela transparência de processos e pela liberdade de decisão.
Com tal franqueza, os jovens não recearam experimentar uma atividade que, pela peculiaridade e pela aura cultural, os entusiasmava interiormente. Começaram nesse mesmo dia. O pintor colocou-os na posição pretendida: Eva, à direita, estendia o braço e oferecia uma maçã, já mordida, à boca de Adão, que esticava o rosto e lhe ferrava os dentes. O seio direito de Eva mostrava-se generosamente exposto envolvido pelos cabelos; o esquerdo deixava transparecer apenas a sombra rosada da aréola encimada pelo mamilo. Os sexos estavam patentes na sua candura virginal. A cena ressumava uma sensualidade imaculada.

*
No sábado seguinte, o casal chegou cedo e autoconfiante. Tinha gostado da experiência, porque a incomodidade própria da exposição fora atenuada com duas paragens para chá e torradas, em que se trocaram ideias sobre questões de verdade e representação. Surpreenderam-se de encontrar na tela o rosto de Ávila, pintado como Deus, no limiar do jardim do Éden.
Por definição, Deus está presente, embora não seja visto ― explicou o pintor. ― Sabe o que vai acontecer, ou não conhecesse Ele a natureza humana, que espicaçou com a proibição de comer daquele fruto.
A pintura ia adiantada. Acreditava-se que podia ser acabada ainda nesse dia. No regresso do primeiro intervalo, porém, Ávila deu sinais de incomodidade. Soltava monossílabos em surdina e fazia alguns curtos gestos de impaciência.
Algum problema, professor? ― perguntou Gisela, a quem não escapara a perturbação do pintor.
Eu devia ter previsto isto. Não consigo obter o efeito que quero.
Quer que corrijamos alguma posição?
Não, estão muito bem. Esqueçam! Acho que esta pintura não se vai concluir. Eu já sabia!
Não diga isso, professor! Há alguma coisa que possamos fazer?
Poder, podem, mas eu não me atrevo, sequer, a falar nisso. Esqueçam! Vamos terminar.
Diga o que precisa, professor, seja o que for. Sem saber é que não podemos ajudá-lo.
Não, não! É impensável. O que eu precisava é que Eva tivesse um orgasmo comigo.
Gisela e Januário entreolharam-se silenciosos. O pintor continuou:
Pronto, já disse, mas não é um pedido, muito menos uma proposta. Aliás, estou envergonhadíssimo. Desculpem! Acabou. Vamos ficar por aqui.
Ao fim de uns momentos, Gisela quebrou o silêncio só matizado com os sons de Ávila a arrumar os acrílicos e a lavar os pincéis:
Importava-se de explicar, professor?
A questão é de autenticidade, do brilho no olhar, que só se consegue com uma condição física específica, a da excitação sexual orgástica ― começou o mestre, após alguns momentos. ― Eva soube que a maçã era boa, acabou de experimentar esse prazer. O seu rosto deve refletir esse entusiasmo, um empolgamento que convença o seu companheiro. Adão deve ver no olhar de Eva algo melhor do que o Paraíso. Isso deve transparecer no quadro. Eu preciso de apreender esse brilho, essa centelha de divino que se desprende da alma e brota no olhar, no momento do delírio orgástico. E não o posso apreender, na sua incomensurabilidade, se não estiver, eu próprio, a viver em comunhão essa emoção que nos liga ao supra-humano. A sua compreensão é da área do sensível e não do racional. Se não conseguir transmitir para a tela a transcendência do desejo no seu auge, a banalidade da obra está garantida. Não vou mostrá-la.
O mestre calou-se, preparando-se para arrumar a tela. Os jovens olhavam-no, como se esperassem alguma outra conclusão ou estivessem a processar o que tinham ouvido. Depois, Gisela aproximou-se do namorado e conferenciou com ele em surdina:
«O que é que achas? Parece-te sincero? O que havemos de fazer?»
«Não sei.»
«E se eu fosse para a cama com ele?»
«Não sei… Eras capaz?»
«Acho que sim. É apenas sexo… E tu, não te importas?»
«Hum! É chato! Mas o corpo é teu.»
«Não ficas zangado comigo?»
«Não... Vai lá.»
Comunicaram a decisão ao pintor que recebeu a informação com calma e sisudez. Voltou a colocar a tela no cavalete e pôs os materiais à mão. Ficou um momento a avaliar a tela, depois disse a Januário:
Relaxe um pouco que nós não demoramos. Se quiser, pode voltar a ensaiar a posição e focar-se mentalmente no ato de trincar a maçã.
Foi o que Januário fez. Nu, sozinho no ateliê, ferrou os dentes na maçã — ao de leve, saboreando, como quando se experimenta pela primeira vez —, tentando entrar no espírito da cena bíblica, anunciadora do conhecimento. Revelou-se-lhe, então, o perfeito simbolismo da maçã, ao ouvir, não distantes, os gemidos de prazer que Eva soltava.

Joaquim Bispo
* * *
Imagem: Lucas Cranach "o Velho", Adão e Eva, 1531.
Museus do Estado, Berlim.
*
(Este conto integra a coletânea, coordenada por Isidro Sousa, A Bíblia dos Pecadores — Do Génesis ao Apocalipse, EuEdito Edição de Autor, Vila Nova de Gaia, 2015.)
* * *







segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SÉRIE TROVAS PREMIADAS DE EDWEINE LOUREIRO (II)






sábado, 22 de outubro de 2016

Jandirinha, Jandirão



 Dela ouviu Clesley o nome, primeiro: Jandirão. Novato, seria essa a colega de sala. Conjecturava uma fêmea avantajada, repleta de curvas e carnes, mas, ao conhecê-la, desilusão: era pequena, ruiva, reta e sardenta, cabelo liso chegando aos joelhos. “Crente”, falou o gerente Volnei. “Crentíssima. Mas esse é o nosso Jandirão”, pontuou, e com uma piscadela suspeita afastou-se dali para buscá-la e apresentá-la.

Nos dias seguintes estranhou os apelos, afinal muitos a chamavam pelo diminutivo e uns pelo oposto. Respeitoso e sério, indagou à Jandira sua preferência,

“Ora, cada um me chama do que preferir”, disse ela.

Ouvindo a resposta Clesley examinou sua expressão, morta, com os olhos semifechados, de animal selvagem e sonolento. “Bom, vou chamá-la de Jandirinha”, resolveu, “é mais feminino, além de corresponder à figura; melhor assim”. Então era Jandirinha para cá e Jandirinha para lá, e tornaram-se chegados, confortáveis na presença e, acima de tudo, existência um do outro. Brincavam, insultavam-se, e, além de colegas, julgavam-se amigos. Entretanto há no tempo um certo desânimo para com o presente e o hábito, desânimo cheio de vaidades competitivas, femininas, que resulta em rivalidade e surpresa. Dito isso, pouco passou-se em rotinas e viu-se ele agachado, selando caixas, quando Jandirinha surgiu; era a mesma, pequena e magra, cílio de gente, e surpreendeu-o, novamente, seu olhar, agora aberto e fixo.

“Clesley, preciso de ajuda no arquivo morto”, disse ela, declinando as margens das palavras e significados, menos um. Quietos, caminharam rumo ao depósito, e ouvindo-a suspirar fundo, exalar com força e abraçar-se como se desamparada, inquiriu se estava bem.

“Sim, tudo ótimo”, falou Jandira, abrindo a porta.

Envolveu-os a atmosfera quente do lugar, como se de suor, toca de animal. Ele entrou primeiro, e acostumando-se ao breu, porta fechada atrás, foi atacado: atirou-se ela combinando beijos, abraços, e num laço de língua encurralou-o entre desejo e culpa. Clesley cogitou fugir, mas suas intenções eram alheias, subordinadas a forças maiores. Jandira jogava-o de lá para cá com a maestria dos judocas, determinando por fim que se encontrasse sentada em cima de um balcão. O tempo, breve ali, curto ali, mal chegara a minuto, e tal calor de mulher o deixara homem, e grande. Afagando-o, demorou a livrar-se da calcinha e subir a saia; Clesley a tudo assistia, num transe de presa a ser abatida; abertas as pernas dela, concedida a entrada cujo negrume era visível mesmo na escuridão, disse ele, ajoelhando-se,

“JANDIRÃO!”





quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A SANTA INÊS

Nunca se ouviu de Inês um palavrão sequer. Nem mesmo quando fraturou o dedo
mindinho do pé esquerdo na quina do armário, situação de explosão verbal extrema,
quando até freiras são perdoadas. Aguentou a dor da topada ao seu jeito, proferindo
um “ái” discreto e doído, seguido de um “droga” gemido e sincero.
Foi socorrida pelo estressado marido Antônio Rui e ainda deu sinais
de sua grandeza.

- Fica tranquilo, meu bem, toma um remedinho para acalmar e me leva no colo. 

Assim é Inês. Vida inteira de tolerância, placidez e delicadeza, desde os tempos do
colégio católico, até se formar com louvor em respeitados MBAs de finanças
e gestão empresarial.

Santa criatura, o equilíbrio em pessoa. Nunca se desesperou com os filhos, um casal
quase adulto, ajuizado e independente. Nunca brigou feio com o marido, contrariando
o senso comum de que briga e casamento nasceram um para o outro. Tampouco, não
eram dados a arroubos de paixão e sexo, comportando-se os dois na cama como um
reloginho de previsibilidade, minimalista na quantidade e na qualidade da função,
suficientes porém cumpridores.

Braço direito financeiro de um grupo comercial, Inês não levantava a voz no trabalho,
como nunca xingou no trânsito, nunca saiu da linha, nunca perdeu a cabeça, a compostura,
as estribeiras. Apesar de conservadora, admirava uma frase de Che Guevara:
hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás.

Leitora voraz e curiosa, tinha na cabeceira A Arte da Guerra de Sun Tzu, onde consolidou
suas convicções de que as batalhas podem ser vencidas sem que necessariamente se dispare
um tiro contra o inimigo.

Mas que inimigo? Não há quem não admire Inês. Sua voz calma de massagista de shiatsu
soava como música ambiental de consultório de dentista.

- Dona Inês, o presidente não aprovou as planilhas. 
- Deixa, Cidinha, que eu converso com ele.

Entrava na suntuosa sala do todo poderoso da empresa e voltava horas depois com as
planilhas aprovadas, as questões resolvidas, tudo encaminhado. Sem sustos nem adrenalina.

Em casa era a mesmo diapasão, o mesmo jeito de encarar a vida e levar a rotina adiante,
a despeito de qualquer imprevisto.

- Mãe, a Creusa teve um piripaque, foi embora e não deixou nada para o jantar.
- E pra quê existe telefone, minha filha?

Em menos de meia hora, a mesa estava posta com um jantar do providencial restaurante
da esquina. Depois da sobremesa, comandava a família na lavação dos pratos, com a
felicidade de um comercial de margarina ou de um desenho animado antigo de Walt Disney.
E seguia Inês seu curso, como um rio calmo que banha as pedras, dia após dia, com
sua delicadeza rotineira.

- Dona Inês, o presidente não aprovou as planilhas.
- Deixa, Cidinha, que eu converso com ele.

Mais uma vez, entrou firme e serena na sala suntuosa do todo poderoso da empresa.

- Sente-se, Dona Inês.
- Obrigado, Dr. Conrado.
- Dona Inês, por esta planilha, estamos indo pro buraco. E não venha com sua voz 
de Fada Sininho me dizer que estamos irremediavelmente indo pro buraco, porque 
não podemos ir para o buraco, não vamos pro o buraco, não herdei uma empresa do 
meu pai para levá-la pro buraco….
- Mas eu não posso inventar números, Dr. Conrado.
- Pois invente, Dona Inês! Sonegue, Dona Inês! Falsifique, Dona Inês! Deixe de 
ser certinha, Dona Inês. Vira a mesa, Dona Inês!

Inês levantou-se, foi até a entrada da sala como uma pluma que flana.
Trancou a porta e deu meia volta. Olhou bem para os olhos do chefe, segurou a
mesa pelas bordas e, com a calma de uma gueixa e uma força de lutador de sumô
-  incompatível com sua compleição física -  levantou o pesado tampo de mogno.
E literalmente virou tudo sobre o chefe. Foi computador, foi porta retrato,
foi papelada, foi copo d’água, xicrinha de café, celular, telefone, pasta, livros,
relatórios, luminária, tudo, tudo que estava na superfície tombou solenemente
em cima do poderoso Dr. Conrado, que, estático na poltrona de espaldar alto,
também virou de pernas para o ar.

- Sou obediente, Dr. Conrado. E para concluir, vai pra $#%#@@#&&&, 
seu ##$$#@#$@###&! 

Naquela tarde, Inês chegou em casa mais cedo do que o habitual, antes do lusco fusco.
Passou direto da sala para o quarto, sem fazer barulho. Enfurnou-se na hidromassagem,
num banho de longas horas, espumante, revigorante. Os filhos nem perceberam que a mãe
estava em casa, jantaram sozinhos e sozinhos se recolheram. Quando o marido finalmente
apareceu na suíte, um susto:

- Inês? Você a essa hora?
- Mandei o ##$$#@#$@###&  do Conrado para $#%#@@#&&&!

Antonio Rui arregalou os olhos.

- O que você disse?
- Isso mesmo que você ouviu. Mandei o ##$$#@#$@###&  do Conrado para 
$#%#@@#&&&!
- Repete, amor.
- Mandei o ##$$#@#$@###&  do Conrado para $#%#@@#&&&!
- Continua, amor, continua… você fica linda dizendo essas coisas…
- Mandei o ##$$#@#$@###&  do Conrado para $#%#@@#&&&!

E Antonio Rui entrou na banheira de roupa e tudo. Foi se despindo ali mesmo,
entre espumas e águas revoltas. Um espetáculo de amor feroz e sexo selvagem explodiu
na hidromassagem, como uma fonte romana viva, eufórica, iluminada. Os dois continuaram
pela cama, noite adentro, lençóis aos avessos, madrugada nascendo, raios de sol nas
frestas da janela, filho tossindo, despertador tocando, cachorro latindo, carros
saindo na garagem, o dia útil lá fora mostrando a que veio, e nada, nada foi capaz
de deter aquele vulcão em erupção.

Exaustos, caíram no sono mais que abraçados, grudados, entrelaçados nus como
uma trança de gente. Nem ligaram para rotina que batia às portas, para o dia a
dia inclemente, para a vida que fervia além daquelas paredes.

E enquanto isso, do alto do Olimpo, Eros e Afrodite brindavam os amantes
redescobertos. Tão fogosos quanto restaurados.






terça-feira, 18 de outubro de 2016

FORA DO LUGAR





As palavras insistem em sair, mas há tempos não viram dinheiro.
Viraram, algum dia?
Elas pedem continuam pedindo vazão e eu me atrapalho porque não tenho nem como dar-lhes o que solicitam.
Tenho que continuar tenho que continuar tenho que lutar e prosseguir só não sei com o quê.
Não sei mas ainda assim tenho que continuar com seja lá o que for que possa me manter viva e de pé enquanto as águas vão subindo e a inundação já passou do meio das costas.
Eu que gosto tanto das águas agora queria a terra e não o ar. A terra e seu cheiro a terra e sua cor avermelhada a terra e sua dureza sua sabedoria sua firmeza seu carinho.
A água só está me levando para mais fundo e não sei mais se consigo emergir ou se ficarei para sempre em seus territórios e um dia serei resgatada os olhos arregalados os cabelos arrepiados brancos perdido o sentido de tudo o mundo desgastado e distante.
Talvez seja isso se a terra não vier me buscar antes. Mas não para me levar embora. Tento me aproximar dela abaixar-me e tocá-la mas ela refuga. Ainda. Terei que conseguir subjugá-la para que ela possa então agir e me fazer terra elemento levantar e olhar para o ar de frente sem o queixo caído sem as lágrimas coladas à pele sem o desespero que já nem mais cala fundo. Ele transborda.
O chão não está aqui. Ou está mas apenas provisoriamente debaixo da cama que assenta meu corpo de bruços enquanto escrevo sob o sol. Mas não sei por mais quanto tempo. O próximo mês. Terei como arcar?
O DIU está fora do lugar, é preciso arrumá-lo. Muitas coisas estão fora do lugar, é preciso arrumá-las. Tenho forças, ainda? Estamos todos aqui presos numa coisa que fazemos e não serve mais. O que nos restará? Será que um dia servirei para fazer sorvetes que aplaquem o calor? 
O pouco sempre me foi suficiente e achei que o importante era isso. O pouco. Fazer o que se quer o que se sabe o que se gosta de fazer. Nunca achei que esse pouco fosse minguar até sumir na insuficiência.
Posso, sem armas, revoltar-me? Tenho forças para isso? Tenho tempo, ou preciso correr para tentar ganhar o troco para continuar respirando o ar que ainda resta e tentar conseguir o ar de amanhã?
O gato quer brincar, é preciso distraí-lo. A criança quer saber da Via Láctea e da vida que um dia parece ter havido em Marte. Podemos, sem foguetes, nos tornar marcianos?
Os quarenta chegam logo nem posso mais dizer que se avizinham senão que correm a cavalo. E eu, conseguirei me segurar em pé?
Para onde nossa incapacidade nos deixará fugir?





segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Balada da Negra Noite - Poema de Gabriela Silva

Balada da Negra Noite





Negra Noite, Negra Noite És de sonho Nada podes Contra o insone dia Teus olhos escuros E o cabelo de constelações São devaneios Para o poeta Negra Noite, Negra Noite És breu Tão pouco fazes Sombra ao radioso sol A ti o poeta dedica O tempo do ócio As horas perdidas O vão das ideias Negra Noite, Negra Noite Contigo deitam as estrelas Grávidas de luz Cheias de eternidade No mar espelhas teu rosto A historia do tempo E do amor à poesia Tão cheia de sons Negra Noite, Negra Noite Sendo tudo, és nada Que o dia o poeta mantém Em dourado laço Não reges o campo Nem o trabalho És apenas o espaço Descanso dos encontros Negra Noite, Negra Noite Não te acanhes, tão pouco... Hás de ser sempre desejo Do que não esconde o dia E teu corpo arrefece o solo Desfaz securas Espreita o tempo Para pensar o amanhã Negra Noite, Negra Noite Espera o cometa Que te rasgue as entranhas Sem olhar para trás O dia encobre ainda o poeta É dele o sono e o acordar Como a foice e a pena Tangíveis, amarrados às mãos Negra Noite, Negra Noite Desce teus olhos sossegados O bem ao coração retorna Sonhar é tua sina Ao dia deixa as roupas no varal A colheita da fome O caminhar da vida A espera da morte.





domingo, 16 de outubro de 2016

Decomposição


Chaos, de Jenot Jean Marie

O olho vermelho me encara. Despudorado. Exige que eu fique imóvel, me cessa, me vigia. Sem me tocar. A língua preta pela qual deslizo passos que não são dos meus pés está quente. O movimento dissimulado deste corpo de metal, quase imperceptível, é somente rebeldia. Provocação ligeira. O olho vermelho me ignora. Ele sabe que não vou desobedecer. Conhece o que me impede. O medo do  castigo. Das punições que paralisam. Dos açoites que chicoteiam em desproporção os erros. 
O movimento das formigas pelas veias da cidade me faz cócegas. Pequenas carcaças picando a minha carne-armadura. Pequenos monstros que seguem rotineiramente, tediosamente traçados e linhas. Eu escapo das coisas retas. Sou a assimetria dos bueiros enferrujados escondendo a podridão dos dejetos. Sou as torres dos arranha-céus que lembram bicos desbotados de tucanos. Ferro e ferro.
O olho vermelho me liberta. A seu comando, sou novamente fuga. Sigo em direção ao sol. É só para lá que me ensinaram a ir. Para trás, paisagens-construções vão se tornando pontos e traços e círculos e chapéus de bruxa. Esfumaçados. Crayons semiapagados pela borracha de algum criador dividido entre o construir e o destroçar. 
A língua que desliza agora sob as solas gastas dos meus sapatos migrantes é serpente lenta. Não me faz mal. Piso o seu couro áspero, mas ela não arma o bote. Ela sabe de mim. Que sou passante. Que tenho medo de pecados e de sinas. Que não é preciso peçonha para derrubar o meu corpo irresistente de ossos e sangue.  Que basta me hipnotizar como aos pássaros que ela faz tombar dos galhos, sem grito e sem gemido, até a morte consumada. Mas ela não me quer. 
É de cimento insosso e cinza o chão que me sobra. Meus pés-esquadros traçam perpendiculares entre as trilhas de abandono que vou reconhecendo no trajeto. Nem metal nem solados se interpondo entre a minha pele e as superfícies. Apenas pés descalços através dos quais escoo à força o choro dos meus olhos cansados de ver demais.  Quero os meus olhos secos. Estancados de sangradouros e tempestades que se anunciam escandalosos em convulsão de soluços. Secos para enxergar os riscados invisíveis da vida que respira atrás das portas. Para observar equidistâncias. Para antever no papel a arquitetura insidiosa que cria espaços de dominação e miséria. Para antecipar explosões multidirecionais de ferro, concreto, sêmen e pólen — multiplicando e contrapondo gente e opressão. Quero a visão destoldada. Sem montanhas blindando o céu. Sem linhas separando gente e gente. Sem tanto ou nada. 
No chão de terra, meus pés impressentidos. Corpo de folha bailarina. De bicho que não faz barulho. O caos se desconverte.  O olho vermelho chora. 





sexta-feira, 14 de outubro de 2016

dois tiros





Ele tinha-lhe trazido um pacote de cerejas. 
Um pacote daqueles com riscas encarnadas sobre fundo mate.
Pacotes em papel grosso que hoje diríamos papel reciclado, mas era apenas papel grosseiro. Folhas lisas, acinzentadas, para enrolar uma quarta de sabão ou de toucinho; mas se fosse meio litro de grão de bico ou um decilitro de feijão manteiga, já o material era aviado dentro dum pacote semelhante àquele que ele lhe trouxe com um quilo de cerejas derramando. Um pacote que ela recebeu entre as mãos estendidas, ainda ele dizia: toma, vamos comê-las ali no cais.
Se fosse o tempo das castanhas assadas, ele teria trazido uma dúzia delas num cartuxo feito, por mãos hábeis, dum pedaço de papel de revista ou de jornal.
E ficaram sentados na beira do cais, as sandálias dela balançando tirinhas brancas sobre um rio da cor das nuvens rosadas por ser à hora do ocaso.
E comeram cerejas, algumas tiradas da boca dele, pela boca dela, outras tiradas da boca dela, pela boca dele e, nisso, arrastando beijos e babando-se, cada um mais apaixonado do que o outro.
Saborearam, assim, o doce dos frutos que homens e mulheres vinham vender em carros traccionados pelas mesmas mãos que os teriam apanhado de madrugada. Gente da serra, e ele e ela a degustarem, ali no cais, as cerejas que essa gente tinha colhido: ele e ela com os dedos a ficarem borradas de vermelho, os mesmos dedos com que acenariam ao táxi, e as bocas deles a parecerem bocas de um palhaço que tivesse acabado a cena e se desmaquilhasse.
Eles rindo e trocando beijos ainda no banco de trás, depois de terem dito, a olhar os olhos do homem pelo rectângulo diminuto do retrovisor: para a Estefânia, por favor; deixe-nos no Largo.

***

Ela lembrar-se-á que as montras na rua do Arsenal já estavam iluminadas, e ele dirá que não sabe se o carro subiu a rua do Alecrim ou se seguiu outro caminho. 
Mas ambos estarão de acordo em afirmar que a corrida foi rápida, que o táxi terá feito o trajecto mais curto. 
E nem dirão, por desnecessário, que iam encostados um ao outro e de mãos dadas. 
Como, também, ela não contará, mas há-de recordar-se, que ele, a certa altura do trajecto, lhe colocou a outra mão sobre as pernas nuas, descobertas da saia de pregas que subira até quase às virilhas pela posição de estar sentada: uma saia que era azul escura a rasar-lhe os joelhos, quando andava.
 Era a tarde em que tinham decidido que casariam em Janeiro no dia em que ela faria vinte anos.
Diriam aos pais, quando fizessem a chamada das quintas-feiras: sempre à mesma hora, e sempre no mesmo dia, todas as semanas. Ele e ela, juntos na cabine, munidos de moedas e, do outro lado, os pais dele numa aldeia perto de Braga, se atendessem primeiro, e, de seguida, os pais dela que viviam a dois quilómetros de Tondela.
E iam dando beijos um ao outro.

***

Nenhum deles saberá contar.
Que iam entrar na Pastelaria Vitória junto à qual o táxi os tinha deixado: fiquem já aqui que isto hoje está complicado, tinha dito o homem a parar o carro e a desligar o taxímetro.
Que ele tirara a mão das pernas dela, quando o taxista falou, isso, ela não contaria mas havia de sorrir por se lembrar.
Que havia muita gente nos passeios, e que sim, que era uma multidão, confirmariam ambos.
Que tinham percebido que eram manifestantes e que havia cavalos e mais policia e que, por isso, tinham guinado passos para a pastelaria, também tinham dito.
E que não tinham chegado a entrar, que tinham surgido os tiros e mais não sabiam, dirão, um e outro, a serem inquiridos.

***

Não tinham morrido, por sorte, disseram todos, médicos incluídos.
Que ela, teve aquela perfuração no pulmão esquerdo que durou, sangrando, todo o mês de Maio; e ele teve a contusão no ombro pelo choque do disparo: de raspão, diziam todos e, no entanto, rasgara-lhe as carnes. Uma cicatriz de palmo, e muitos pontos: dezoito, disse-lhe a mãe que veio lá do norte com o pai, a deixarem tudo para vê-lo.
E tinham sido levados para o hospital sob prisão.
E tinham sido interrogados como se fossem eles os criminosos.

***

Nunca houve resultado: apenas que os disparos eram de uma Walther P3 porque a bala, nela, fora retirada de entre duas costelas e a dele ficara incrustada algures na pastelaria, e a polícia tinha resgatado, uma e outra.

***

- Que sorte que não te tivesse apanhado o pescoço ou o rosto - assim choramingou a mãe dele, por várias vezes.
Os pais dela tinham-se mantido sem lágrimas nem comentários e tinham conseguido que, no dia seguinte, lhes tivesse sido retirado o mandato de prisão.

***

Hoje passaram muitos anos.
Eles não tinham esquecido, mas nunca falavam nisso.
Hoje, Mariana, tem nas mãos um ramo de malmequeres brancos com uns salpicos de verde e, preso nele, um cartãozinho onde escreveu: saudade dos meus pais.
E o Jorge trouxe a filha de seis anos e os dois deitaram um bocado de terra nas covas do avô e da avó.  

***

Foi no regresso a casa, um apartamento espaçoso na Pascoal de Melo, logo ali ao Largo da Estefânia. Moraram aí desde que se casaram num Janeiro muito frio. 
Já nem trabalhavam nos arquivos da Imprensa Nacional, mas tinham lá ido e, no regresso, apanharam um táxi.
 - Eu vinha devagar a descer a rua do Salitre - assim disse o taxista, ainda em choque.
Tiveram morte imediata, um e outro, foi o diagnóstico.
Que tinham sido dois tiros da mesma arma: uma Walther P3, diriam os peritos.
Dois tiros, um a seguir ao outro: nele, o primeiro, desfizera-lhe a nuca; nela, o segundo, trespassara-lhe a cabeça.











quarta-feira, 5 de outubro de 2016

infinito íntimo



deixemos o final pra depois
pois antes é preciso sonhar
correr com os olhos fechados
perder o medo de arriscar

deixemos o melhor pra depois
tornou-se imprescindível lutar
nadar contra essa corrente
que prende ao invés de soltar

deixemos o amanhã pra depois
e as horas até um pouco mais
vivamos o agora infinito
no grito dos dias normais





domingo, 2 de outubro de 2016

DE CAMÕES A CAMINHA (OU "TRATADO DE UM ACHAMENTO")









De Camões a Caminha,
Mil passos, mil caminhadas.
De sertões e travessias,
De serões e melodias.

De Camões a Caminha,
Cartas de descobrimentos.
De naus, de velas, de ventos,
De epopeias e lamentos.

De Camões a Caminha,
Mil rimas de ões e de inhas.
De barões e indiazinhas,
Libações e entrelinhas.

De céus pra tu contemplares,
De bússolas, mapas e ares,
De mares pra nós nos perdermos,
De leitos pra tu me encontrares.