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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

AS VITALINAS



        Cícera acordou sobressaltada e agarrou o peito como quem segura um pássaro ferido. Marilda, deitada na cama ao lado, riu do desassossego da irmã e fingiu pouco interesse ao perguntar se havia sido o mesmo sonho. Sentando-se com dificuldade no gasto colchão de estopa, Cícera confirmou a suspeita fraterna com um aceno de cabeça. O pesadelo que perturbava suas poucas horas de sono havia se repetido.
         ― Ciça, um dia tu me conta que diacho de sonho é esse? ― quis saber a mais jovem das idosas, enquanto calçava as sandálias que mal enxergava com seus olhos miudinhos.
         ― Te preocupa com o manto da santa, Dindinha. Depois do café, vou preparar o altar. Pirru já chegou pra varrer a casa e passar o pano? ― perguntou incomodada, certa de que o rapaz que lhes ajudava nos afazeres domésticos havia se atrasado.
         ― Sei não ― respondeu Marilda esfregando as pernas. ― Acordei com teus bodejo. Anda, te sacode que o dia hoje vai ser comprido.
         Na pequena Cabo Amaro, todos conheciam e respeitavam as irmãs Alvarenga, últimas descentes de uma família que emprestava o nome à pracinha da cidade. Cícera e Marilda eram tão velhas quanto as lendas locais, amalgamavam-se ao folclore e causos transmitidos às novas gerações de contadores de história. Muito se falava sobre a natureza dócil e solteirice de ambas, mas poucos sabiam a verdade.

         A mais velha delas, Cícera, fora destinada ainda menor de idade a casar com um comerciante local, mas se apaixonou por outro homem, um boiadeiro dono da viola mais afinada das redondezas. Rapaz sem posses nem instrução ― porém fino no trato com as senhoritas ―, devotava suas melodias à jovem Marilda, irmã mais moça daquela que lhe dirigia sincero afeto.
         Coronel Alvarenga, pai das moças, jamais permitiria que uma de suas graças caísse nas mãos de um violeiro que nem sequer tinha um pé de pau para lhe fazer sombra. Depois de casar a primeira, desposaria a mais nova com Jesus Cristo. Nem mesmo seus filhos homens possuíam autonomia para contrair núpcias com aquelas que bem entendessem. Todos se dobravam à vontade do pai e torciam conformados pela melhor das sortes. Mas sorte é uma coisa que muito cedo as mulheres sertanejas descobrem que não existe.

         ― No dia do meu casamento com o Seu Quaresma do Depósito, tu aproveita pra fugir com o Barreto, Dindinha ― pediu Cícera com franqueza, segurando junto ao colo as mãos da irmã.
         ― Não posso, Ciça ― protestou Marilda deitando a cabeça nas pernas de sua única amiga e confidente. ― Eu num vou fugir com o homem que tu ama, criatura.
         ― Mas que só tem vista pra ti ― constatou Cícera com um sorriso e uma lágrima. ― Eu também vejo o jeito que tu olha pra ele, Marilda. Já faz tempo que vocês se enamoraro... Seu Quaresma já tá velho, talvez ele seja bom pra mim.
         ― Bom? Se ele fosse bom não fazia gosto nessa maldade. Mana, vamo jurar uma combinação? Tu não casa com o carrasco e nem eu com a Santa Igreja. Será pecado querer mais da vida do que um hábito, um marido ou a garupa do Barreto? Ele é bonito, tem duas estrela onde era pra ser os olho, mas só ia servir pra encher o bucho de uma de nós duas de menino. Se tu desfizer teu noivado, eu rejeito o capuz e o limpel. Sou devotada à minha fé, mas num quero ser freira.  
         ― Arra! Tu só pode ter comido pirão e tomado banho no açude. Papai bota nós pra fora de casa e deserda a gente. Já pensou?
         ― Que seja. Por essas banda, mulher já nasce mesmo sem nada. Quem tomaria conta da nossa herança seria outro homem, mesmo? Que serventia tem isso? Primeiro, a gente precisa ser alguém na vida, mana. Melhor fugir daqui, procurar um trabalho, se matricular numa escola. Essas coisa do amor pode ficar pra depois. Arriégua. Será que pra tudo nós há de necessitar de um macho? Tem que fugir com um pra escapar do outro? Galdino, Carlito e Bonifácio tão estudando pra ser doutor, enquanto a gente só estuda pra escrever carta e ler a bíblia. Quero fazer diferente dessas abestada daqui de Cabo Amaro, minha irmã. Vamo ganhar o lote, cair na estrada.
         ― Tu tá é doida, Marilda! ― exclamou Cícera com um brilho no olhar, encantada com o sonho sibilante que facilmente a seduziu.
         ― No jantar de sexta-feira, tu rejeita o Quaresma. E pode deixar que eu mesma trato de dispensar o padre Vivaldo ― concluiu Marilda, beijando a testa da irmã.
         Como haviam planejado, fizeram. O pai quis surrá-las, amaldiçoou-as, mas não as expulsou de casa. Manteve-as ali, sob o junco de sua brutalidade por todos os anos em que ainda se manteve sadio. A mãe nada dizia, não as acarinhava nem protegia, também envergonhada pela desfeita de ambas. Por anos foram impedidas de sair e, se o fizessem sem o consentimento paterno, os peões tinham autorização para arrastá-las pelos cabelos de volta à fazenda.
         O tempo passou e os velhos morreram. Os irmãos Alvarenga venderam a propriedade e retornaram à capital, onde já viviam há anos. Deixaram para as duas vitalinas ― assim as chamavam ― apenas a casa na Rua do Passo Largo. Ali viveram por todos os dias, uma em função da outra: Dois fantasmas cândidos que espiavam através da janela da sala o perambular sem destino dos vivos.

         ― Será que fizemo certo em convidar o pessoal do terreiro de Mãe Rainha pra participar da novena desse ano, Marilda? ― perguntou Cícera, receosa de que as carolas da região boicotassem o tradicional evento.
         ― Nossa paróquia tá sem padre pra se opor. Errado era deixar outra vez de fora do festejo gente que também é devota de Sant’Ana ― concluiu Marilda com um muxoxo.
― Ficou linda a manta que tu bordou, Dindinha. Não duvido que nossa protetora permita que tu alcance uma graça logo depois da procissão ― elogiou Cícera agarrando-se ao braço da irmã, enquanto admiravam as feições da estátua de gesso.
         ― Sei não. Faz tempo que peço a mesma coisa e a santinha não me atende ― falou Marilda com enfado.
         ― E que pedido tão impossível é esse? Tu ficou ambiciosa com a idade? ― brincou Cícera enquanto ajeitava a coroa na cabeça da imagem.
         ― Só conto se tu me disser primeiro que sonho é esse que te desgraça o sossego ― barganhou, mais preocupada que curiosa. ― A gente já tá muito velha. Daqui a pouco uma de nós morre. De repente eu tenho remédio pra tua aflição, não sei... Ande, me diga!
         Cícera agarrou os próprios braços como se uma dor a atravessasse. Não tinha mais jeito, não poderia levar aquele fantasma pavoroso para a sepultura.
         ― Toda noite eu sonho que papai vivo, Dindinha ― revelou Cícera com os olhos marejados. ― Que ele me faz casar com o Quaresma e que te manda pro convento. Nós duas nunca mais se encontra... Nunca mais!
         ­― Nosso pai tá morto e enterrado, Ciça. Essa graça Sant’ana já me concedeu faz tempo ― disse Marilda muito séria, abraçada à irmã. ― Venha, deixe de bestagem.
         ­― E teu pedido? Vai me dizer o que é, não? ­― cobrou Cícera, feito uma criança que não se esquece do prometido.
         Marilda passou uma das mãos pelo rosto irmão e, por trás dos sulcos e rugas, buscou enxergar o semblante da menina com a qual crescera.
         ­― Cicinha, tá com uma ruma de tempo que eu venho implorando pra santinha fazer tu parar de acordar com um susto. Mas acho que ela anda ocupada pras banda de Alagadiço Novo, onde ela tem uma capela, num sabe? Minha irmã, hoje nós vamo dividir a mesma cama. Vou vigiar teu sono, pra tu dormir em paz.
― E se papai aparecer? ― calculou Cícera com um arrepio.
Marilda então ajeitou os cabelos em um gesto impetuoso. Com as mãos postas sobre a cintura, lançou o queixo para trás e intimou:
― Nós uma sova nele, rouba o cavalo e a viola do Barreto e vai simbora de Cabo Amaro cantando uma moda bem animada.

Emerson Braga
        






quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Colcha de Retalhos #17

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


O TEMPO DAS PAIXÕES

A todo momento, há algumas paixões despertando
E outras, em fuso horário diferente, indo dormir




TODO DIA

— Eu passo o dia todo esperando ela aparecer.
— Que triste isso...
— Não é triste não... Triste, só quando ela não vem.




AMPARO

Na desforra, até ouso blasfemar
Mas no desespero, rezo fervorosamente
Quando estou para baixo, ter um santo ajuda




BALEADO

Quando chegava em casa cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas
Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações






segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O tempo dos rebuçados


O primeiro encontro foi como uma caixa de rebuçados. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. Mas também de uma das primeiras responsabilidades: a escola.
Nos dias de primavera, Orlando, de botas com sola de borracha feitas no sapateiro, palmilhava bem cedo os três quilómetros do caminho entre muros que separava a queijeira, onde morava com a avó, da escola da aldeia, cruzando-se com carros de bois, grupos de mulheres a caminho das hortas, um rebanho a atravessar de um terreno para outro. Se estava frio, apressava o passo a contornar uma ou outra poça de água, mala com cadernos a tiracolo, uma mão a aquecer-se no bolso, a outra a pegar no cabazinho da merenda. Daí a pouco, as letras, as contas, as brincadeiras de recreio e o almoço debaixo de uma olaia, com os outros dois miúdos que também vinham dos campos.
No regresso, o conforto do calor e da falta de pressa convidavam-no a alongar-se em observações da natureza: o lagarto verde esparramado ao sol que, não conseguindo intimidá-lo abrindo a boca vermelha, se esgueirava para um buraco das paredes; o rendilhado de alguns penedos; as poupas, os cucos, os pintassilgos. E a estranheza do mundo do tic-tic-tic ritmado dos canteiros, alguns bem jovens, em alguma das pedreiras adjacentes ao caminho. Um mundo que não era de rebuçados.
Um dia encontrou vinte e cinco tostões no recinto da romaria que o caminho atravessava. Rapidamente se esfumaram em rebuçados embrulhados em estampas de jogadores de futebol.
De inverno, a ida para a escola era mais monótona e mais simples. Era só atravessar o casario, desde a casa da avó, na aldeia. No regresso, a brincadeira com a restante criançada nos quintais e nos casarões familiares. Ao domingo, catequese à tarde e talvez apanhar moedas pretas e rebuçados lançados de alguma janela ou varanda no fim de um batizado. Os dias corriam sem preocupações, com pouca relação uns com os outros. E, de repente…
O primeiro encontro com ela foi como receber uma caixa de rebuçados. A festa era de carnes, da matança do porco e respetiva comezaina. A família alargada habitual estava reunida em casa de um tio por este motivo. Segurar, matar, limpar e desmanchar um porco exigia o concurso de vários homens. E o trabalho de lavar as tripas, preparar os recheios e encher com eles as farinheiras, as morcelas e as chouriças exigia o concurso de várias mulheres. Para também prepararem o banquete para todos aqueles adultos e respetiva miudagem.
Daquela vez, o tio convidou também uma família colateral, que não costumava estar presente neste acontecimento anual em casa de cada tio. E ela apareceu, linda e discreta. Devia ter mais um ano do que Orlando e era muito diferente das outras meninas que orbitavam o mundo dele. As outras eram como que irmãs, na proximidade de parentesco e nas brincadeiras estouvadas. Delfina — esse o seu nome —, não. Ela era outro mundo. Um mundo de arranjo e delicadeza. Os cabelos — oh, os cabelos —, caíam penteados, lisos, a terminar numa volta, sobre os ombros. Os olhos seriam castanhos como os cabelos? Eram suaves e sorriam. A compostura do vestido de golinha, apertado por um cinto do mesmo tecido, também tocou Orlando. E a graça e simpatia que irradiava deslumbraram-no durante toda a tarde.
Ninguém faz planos para se apaixonar, muito menos um menino de oito ou nove anos. Sabe que os homens e as mulheres se casam, mas não sabe muito bem por quê. E calcula que um dia também casará. Talvez por gostar de alguém.
A única experiência que Orlando tivera nesse campo não correra bem. A inconfidência de uma tia, à janela, quando passava Acilda, uma morena de trança, denunciara o seu enlevo encoberto: — Olha, vai ali a tua esposada! A consequência foi a humilhação de um “Querias-me?! Pff…” que a morena lhe lançou quando o encontrou a caminho da escola e o deixou infeliz, a suspeitar que casar, ainda que gostando, era mais difícil do que parecia.
Orlando não falou a ninguém, sobretudo à desbocada tia, da perturbação que a recente conhecida lhe provocara. Não sabia dizer se era amor — aquilo de que os adultos falavam — o que sentia. Não sabia dar-lhe um nome. Sentia, sim, uma alegria íntima e serena, que não se manifestava por cabriolas, mas também uma inquietação, um temor de não conseguir aprofundar aquela afeição. Sentia ternura e um querer bem que não sentira, talvez, por ninguém.
Nas suas orações antes de adormecer, passou a lembrar e interceder por aquela criatura doce e bela por quem estremecia. O máximo de harmonia com ela vislumbrava-o numa atualização da estampa pendurada por cima da sua cama: ambos de mão dada na travessia de uma ponte frágil sobre um rio caudaloso, mas protegidos por um anjo-da-guarda.
Por aqueles dias, Orlando recebeu uns três ou quatro rebuçados. Logo decidiu que um seria para ela, para lhe oferecer, como prova de bem-querer. Por uma lamentável desatenção das forças celestes, porém, Delfina adoeceu. Orlando, de rebuçado no bolso, não encontrou a estremecida do seu coração nos dois dias seguintes.
No terceiro dia, no regresso à escola depois de almoço, tão alheado ia que automaticamente fez o que não queria: desembrulhou o rebuçado e meteu-o na boca. Chegou a sentir-lhe o doce. Espantado, desagradado consigo próprio, retirou-o da boca, como blasfémia. O rebuçado era para ela, estava prometido em intenção. Tinha de lho entregar, ainda que lhe apetecesse continuar a saboreá-lo.
Resolveu entrar na venda do pai de Delfina e confiar-lhe o rebuçado para ele lho entregar. Temia, no entanto, que algum cliente percebesse o enamoramento no seu gesto e fizesse algum comentário que o envergonhasse. Ganhou coragem e entrou, mas a venda estava vazia. Mesmo o pai de Delfina devia estar lá para dentro. Pensou chamá-lo, mas isso já ia além da sua coragem.
Deixou o rebuçado, embrulhado e um pouco agarrado ao papel, em cima do balcão de mármore e saiu em direção à escola. Não era isto que tinha idealizado, mas cumprira a promessa, tanto quanto conseguira.
No regresso, entrou na venda, mais uma vez deserta. O balcão estava limpo. Nem sinal do pequeno volume roliço do rebuçado. Teria Delfina chegado a recebê-lo? Pouco provável, concedeu. Com certeza que o pai o tinha deitado fora, sem suspeitar da sua importância.
Quando voltou a vê-la, já tinha passado uma semana ou duas e o enamoramento, por falta de alimento, murchara. Casar devia ser muito mais difícil do que parecia. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. O que parecia importante num dia esquecia-se alegremente no dia seguinte. O futuro é que traria a compreensão da importância de cada coisa. Talvez.

Joaquim Bispo

* * *

Imagem: do filme Aniki Bóbó de Manoel de Oliveira

* * *
(Este conto obteve o 5º lugar, na categoria Conto, no I Prémio Literário Pescaria (Brasil), de 2015.)
* * *







domingo, 24 de janeiro de 2016

SÉRIE: TROVAS PREMIADAS (IV)







sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Historinha de tapetes

Eu aprendi rudimentos de tapeçaria e fui fazendo um tapete só para mim. Bem colorido, com contornos de ostras, de maçã madura e de letras cursivas. Era para ser um tapete de dimensões necessárias, um por um, em que eu pudesse sentar confortável e sorrir. Sempre fui bem pequena por fora, mas por dentro... não sei como é possível ser tão espalhada. Pensei em aumentar o tapete, para o caso de um dia a imensidão interior resolver saltar ao lado de fora e para poder receber os amigos, os simpáticos e os desconhecidos. Eu sempre quis fazer coisas bonitas, mas o meu melhor foi esse tapete de lã fina, que era para não ser dividido e virou um convite a quem quisesse se acomodar.

Um dia eles começaram a chegar. Acho que gostaram do meu tapete, mas jamais entenderam o tom convidativo de nenhum dos meus atos. Então, primeiro eles cortaram as beiradas do meu tapete. E riram nas salas de portas fechadas. Depois, jogaram terra e pedras no meu tapete. Conseguiram sujar a minha roupa azul. Continuavam rindo, agora pelos cantos, cobrindo a boca com as mãos.

Eles vieram muitas vezes, fizeram várias tentativas. Não sei o que tinham contra o meu tapete. Um dia eles puxaram com força e o tiraram de mim. Enrolaram, pisaram em cima. E agora já não disfarçavam mais o riso. Gargalhavam alto e apontavam os indicadores em minha direção. Mas eu tinha uma ideia fixa nesse negócio de tapete e tive uma ideia muito boa. Brilhante, mesmo: passei a descrever o meu tapete para eles. Contei dos detalhes, das cores de que eu mais gostava, de como fazia para colocar cada fiapo de lã nos buracos da tela. Dessa vez eles não riram. Tenho a impressão de que se zangaram realmente comigo pela minha atitude. Mandaram- me parar.

Daí eu pensei que deveria estar fazendo errado, que meu relato estava saindo em voz muito baixa e esse era provavelmente o motivo da irritação deles. Eu não desisti. Meu-tapete-tem-ondas-amarelas-e-três-ostras-redondas, comecei a dizer, aos gritos. Senti meu rosto quente na terceira bofetada, um pouco antes de perder a força de berrar. Fizeram-me calar. Mas eu havia feito o tapete mais bonito do meu mundo e desejava o reconhecimento alheio, precisava da acolhida deles para acreditar no meu talento excepcional de fazedora de tapetes, para convencer a mim mesma dessa tão rara competência artesanal, e o olhar furioso deles estava me sufocando como quando as crianças amarram acidentalmente sacolas do supermercado na cabeça e obstruem a entrada do ar pelo nariz e pela boca e quando o instante entre a agonia e o fim já durara mais do que o suportável, eu.

Eu pensei em fazer um tapete ainda mais bonito e confortável. E a experiência que adquiri fazendo o primeiro tapete me deu condições de arranjar os fios de lã de um jeito novo. Fui pensando, pensando, pensando cada linha desse outro tapete, e pensando com tanta força que o tecer mental quase fazia barulho. Terminei tão rápido que eles nem perceberam a trama. Estavam indo embora e um vento fez os cabelos da nuca de alguns deles arrepiar. Deram a volta, correram até mim e já sacavam canivetes dos bolsos quando levantei voo e sumi de suas vistas. Renderam-se ao tapete mais bonito que já haviam visto e não tinham a menor ideia de que poderiam fabricar os seus próprios tapetes mais bonitos do mundo.





quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Presente

Quarenta e três anos, trezentos e sessenta e três dias e algumas horas. Daqui a dois dias farei quarenta e quatro. Difícil imaginar que tanto vivi. Besteira! Sou jovem ainda. Volta e meia me pego feito um velho falando. Velho aos quase quarenta e quatro? Muitos começam realmente a vida nesta idade, porém, sempre pensei que não vingaria trinta e cinco. Pura intuição, longe da racionalidade que um estatístico como eu deveria se possuidor. Quase acertei quando uma crise de apendicite me pegou de surpresa dois meses após o meu trigésimo quinto aniversário. Vi a cara da morte. De qualquer forma, eu falhei nas previsões. Estar vivo é a prova. Sou um Nostradamus de araque, um profeta de quinta categoria, Ainda bem.
Nunca consegui fazer um embrulho que preste. Sem jeito mandou lembranças. Sou uma negação com trabalhos manuais, não sei trocar uma tomada. O Jorge, porteiro do prédio, é que me salva nestas situações domésticas. Sou bom mesmo é com a cabeça. Números. Sou uma calculadora ambulante.
Mas está muito do mal feito este pacote. Benza Deus! O papel está amarrotado, as dobras mal feitas, a fita adesiva que prende as extremidades parece ter sido aplicada por uma criança. E o que dizer do barbante frouxo? Pura vergonha! Mas o que está dentro é o que conta. Em verdade, vale mesmo é a intenção. Oswaldo na certa vibrará com a minha lembrança. Sujeito solitário o Oswaldo, o pobre! Sem amigos, sem esposa, mal troca umas palavras com os colegas da repartição. É só aquele vai e vem, da casa para o trabalho, cinco vezes por semana, onze meses por ano. E o mês de férias? Oswaldo se trancafia trinta dias no apartamento. Que vida medíocre e sem expectativas!  Coitado do Oswaldo... Carece de saber que no mundo alguém se preocupa com ele. E calhou desse alguém ser eu. Amanhã, mal ou bem feito, postarei o pacote nos correios. Certamente, ele ficará exultante com o regalo.
***

Quarenta e quatro anos. Cerca de dezesseis mil e sessenta dias, fora os anos bissextos. Deixe-me fazer a conta exata. Um ano possui trezentos e sessenta e cinco dias e oito horas. A cada quatro anos, um dia. Salvo engano, onze dias extras. Dezesseis mil e setenta e um dias! E o de hoje é o do meu aniversário. Isto é o que importa. Mas como os correios estão demorando! Postei a encomenda antes de ontem e até agora nada! Os serviços dos correios já foram mais elogiáveis. Será que eu errei o endereço? Não... Não cometeria tamanha estupidez. Conferi o CEP? Deixe de bobagem, Oswaldo. Você sabe muito bem qual é o CEP! A campainha! Certamente é o porteiro Jorge com o meu presente! Espero que o pacote mal feito tenha resistido afinal, sou um desajeitado em habilidades manuais. Feliz aniversário, Oswaldo! Quarenta e quatro primaveras! Dezesseis mil e setenta e um dias! Vai ter bolo? Feliz aniversário para mim! Feliz aniversário, pobre, patética e solitária criatura...





quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

HISTÓRIAS ROUBADAS

Uma mulher de 40 anos se casa com um viúvo bem-sucedido, pai de um filho pré-adolescente,
ainda inconformado com a perda da mãe. No processo penoso e diplomático de conquista da
confiança e do possível amor do enteado, acontece o inusitado, o inexplicável, o incontrolável:
a mulher é surpreendida por uma ensandecida atração carnal pelo menino, que por sua vez,
com a sexualidade em riste, alimenta o tesão recíproco. Parece um caso escabroso de pedofilia
e perversão, daqueles em que a gente esbarra nos noticiários, e que quase sempre acabam em escândalo, quando não em tragédias acachapantes. Mas tudo isso é fruto da imaginação de Mario Vargas Llosa, expresso poesia e erotismo no romance "Elogio da Madrasta."

Por que isso agora? Porque não consigo pensar em outra coisa senão em histórias extraordinárias
de amor e sexo, consequência angustiante da fase insegura meu processo criativo, prestes
a materializar meu primeiro romance - "Corações Entre Pernas", Bookstart - que orbita neste universo e que já está em finalização na editora. Vale acrescentar que no momento também estou enfeitiçado pelos requintes invejáveis das tramas da eterna "Ligações Perigosas", que agora me vicia pela TV.

É sempre assim. Começar a escrever uma história todo mês – ainda mais num período quando festividades e bebericagens se superpõem - é de dar frio na barriga e palpitações de tamborim.
Enrolo o máximo que posso, chacoalho o mouse, passo um paninho na ameaçadora tela em branco,
sopro farelinhos entre as teclas, troco a fonte das letras, bato pernas pelo Google,
opero manobras ridículas para dar tempo ao tempo, até que uma ideia, uma mísera inspiração que seja, se aproxime e se enrosque em mim.

Enquanto ela não vem, caio na armadilha das lembranças de tantas histórias entulhadas no sótão
do inconsciente e resolvo revisitar uma antiga crônica que cometi há tempos. Nada mais atual
para este meu momento de lacuna criativa confessa. Tais histórias esfregam na minha cara a inveja
de seus férteis criadores, na inocente e descabida pretensão de que eu poderia - ou gostaria -
de ter sido um deles.

Na sequência da madrasta tarada, aparece um Nelson Rodrigues decantando a desventura de um
homem que, ao sair do trabalho, passava na casa da amante, onde se locupletava na cama e
na lauta mesa posta. Desconfiada, a mulher oficial resolve em silenciosa vingança preparar
supremas iguarias para o jantar tardio. Covarde, o sujeito jantava duas vezes. Uma rabada antes
e um bobó depois, macarronadas e seguidas bacalhoadas, estrogonofes e imediatos vatapás.
Tudo cabia no estômago enfastiado do infeliz, vítima de uma duplicidade amorosa da qual
não conseguia se desvencilhar.

Não digo o final. Procurem "O homem que jantava duas vezes",
conto da série "A vida como ela é", obra tão contundente e humana quanto, por exemplo,
uma história ácida de Rubem Fonseca, que me persegue em momentos de vazio na imaginação.
Trata-se de um jovem casal recém-casado, que vai em lua de mel para um acampamento
nas margens de um rio no Colorado. Mesmo tendo bem vivido o sexo prévio, a lua de mel
é um desastre. O rapaz perde totalmente o desejo pela mulher, uma patricinha afetada,
passa a agredi-la com o desprezo sexual e se instala o tormento. A cada dia, não se
reconhecem mais. O casamento mal começou e já vive a iminência de um desastre
até que o rapaz vê a mulher saindo do sanitário rústico do acampamento com um rolo
de papel higiênico na mão. Sem que ela perceba, vai até lá e vê: uma formação cilíndrica
semi-submersa, portentosa, repugnante. E a partir da simbologia do extremo da intimidade,
o desejo reacende. Transam a transa das transas sem parar, como humanos e animais que são.

Forte, esse Rubem Fonseca, não? Mas não mais que Sófocles que escreve um Édipo que mata o pai
e tem relações sexuais com a mãe, sem saber o quanto essa história daria pano para manga.
Na esteira do mote, vem um filme com Marcello Mastroianni, que faz o papel de um homem que
20 anos depois volta a uma vila para reviver um amor da sua adolescência. Claro que não encontra
a mulher, mas para não perder a viagem, tem um caso com uma ninfetíssima Natasha Kinsky.
E no auge dos orgasmos múltiplos, desconfia que ela é sua filha, fruto daquela tal paixão
deixada para trás. Doideira. Quer outra?

Maria Eduarda e Carlos Eduardo se apaixonam. Vivem um amor intenso até que descobrem
que são irmãos, numa trama genial de Eça de Queirós. Agora quem me aparece é Machado
de Assis, com sua indecifrável dúvida sobre a fidelidade de Capitu e, logo depois, Jorge
Amado me cutuca com a história de uma mulher mais feia que o diabo com dor de dente,
que atraía os homens mais bonitos da cidade, fenômeno justificado pelo fato de a mulher
possuir uma "vagina chupeta", "em cujas profundezas havia um anjo a chupitar".
Vale esclarecer que a primeira palavra da sutil descrição do autor não é vagina,
mas aquela mesma, de rima rica com chupeta e de despudorada sonoridade.

Coisas de Jorge Amado, o mesmo que presenteou o mundo com o caso da cozinheira
que prevaricava com o fantasma do primeiro marido. E por aí vai meu pensamento,
bloqueado pelos amantes de Verona, pelo fetiche da Belle de Jour, pela comovente Madame Butterfly, pelo persistente amor dos tempos do cólera, pela impossibilidade da paixão
de um gorila por uma loura, pela felicidade engolida numa neblina de Casablanca.

Enredos e fábulas de amor e sexo me atropelam como um trem desembestado,
mas ideia nova que é bom, nada. Chego ao momento de entregar os pontos.
Meu processo criativo não passou da primeira fase - fracassei ao primeiro beijo -
e me curvo diante do assalto de tanta ficção já escrita e bem escrita. Peço desculpas
a quem me lê pela falta de imaginação, e aos citados, pela usurpação.

O que me consola é que, se a inspiração me derrubou, pelo menos, acho que sugeri
algumas histórias formidáveis, que podem ser visitadas ou revisitadas, em livros, TVs,
DVDs, internet, tanto faz. O importante é que, apesar dos tempos de iniquidade,
desesperança e lama tóxica que estamos vivendo, assim como o amor e o sexo,
recordar boas histórias - ousadas e poderosas - engrandece a nossa alma.





segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

CLAMOR




Dois anos já que Bié tinha parado de estudar. Chegou a completar o sexto ano, depois teve que parar. Os irmãos muito pequenos, a mãe trabalhando. O pai tinha sumido desde o primeiro aniversário do Davi. Uns diziam tinha virado mendigo, lá pras bandas da cidade. Bié não desacreditava, mas achava mais ele tinha se envolvido com alguma mulher e por isso largou a mãe e eles todos, filhos.
Mas não sentia falta nenhuma dele. Ao contrário, quando viu que o sumiço era pra valer, o alívio foi imenso. Não iam mais ser postos pra dormir no quintalzinho do fundo, com Naná, pra que ele e a mãe fizessem coisa suja. Agora dormiam de novo todos juntos, o quarto de cima ia ficar pronto logo, o pessoal estava ajudando, iam botar divisória, ela e Carol ficariam num dos lados, Léo, Juliana e Davi no outro. Criança pequena não precisa muito espaço, se ajunta, fica até mais fácil de cuidar. Mais uns dois meses e tudo estaria pronto. Quem sabe agora também não demorava mais muito pra Bié voltar a estudar? Pra ser advogada tem que estudar muito. Ia bem em Português, História e Geografia, a dificuldade maior era sempre Matemática, mas ela se esforçava e sempre conseguia ao menos nota pra passar.
Quando a mãe não matriculou no sétimo ano, demorou pra ficar sabendo. Foi só quando já estava perto do dia de voltar as aulas que a mãe falou que precisava dela, com esse novo trabalho na casa de dona Regina ela tinha que sair cedo e voltar só à noite, era longe, chegava em casa mais de oito horas. Precisava Bié ficasse em casa, fizesse almoço, cuidasse de Carol e Léo pela manhã, Juliana e Davi de tarde. Assim que desse voltava pra escola.
Sentiu muita raiva da mãe nesse dia, uma raiva que queria sair do seu corpo e alcançar os pratos debaixo da pia, na cozinha, vontade de lançar tudo na parede, mas as lágrimas escorrendo, descendo devagar, os pingos grossos, foi se sentindo uma porcaria de menina que não prestava pra nada, nem pra ajudar a mãe, que precisava tanto dela. Se não ficasse com as crianças, como a mãe ia trabalhar? E, se não fosse, como eles todos iam comer? Claro que ajudaria a mãe, era isso que devia fazer. E assim que desse ainda podia arrumar algum biquinho, já estava grande, podia colaborar, inda mais agora, sem os pingados do pai.
Em junho tinha feito catorze. Os seios mais crescidos, o corpo, muito magro, vagarzinho ganhava curvas ligeiras, e o desejo de namorar ia ficando grande, junto com o medo também. De casa agora saía sempre junto com algum dos irmãos, e foi num dia em que foi comprar pão com Léo e Juliana que viu André pela primeira vez. Moço, devia ter uns dezoito. Lindo. O boné virado pra trás, a camiseta regata, à mostra as tatuagens nos dois braços. A Gabi caidinha também, ela é que tinha descoberto um monte de coisas sobre ele. Que trabalhava na feira, ajudava o pai na barraca de tomate, mas já estava montando a própria banquinha, de CD e DVD. A Gabi já tinha até conversado um pouco com ele, na venda do seu Gustavo. Sabia que ele era muito simpático e também que lutava Muay Thai, tinha visto pela camiseta. A conversa não tinha sido nada mais que umas palavrinhas sobre a demora da mulher do seu Gustavo pra servir o pão, a fila de clientes já grande naquele final de tarde, mas Gabi tinha ficado ainda mais entusiasmada. Achava que ele tinha olhado de maneira especial pra ela.
As duas sonhavam juntas, queriam ambas namorá-lo e, talvez porque soubessem a impossibilidade da coisa, não sentiam ciúme uma da outra. Eram montes de sonhos e suspiros na escadaria que ficava quase em frente à casa da Bié, a que descia pra rua da feira de sábado, na direção da cidade. Gabi vinha pra lá toda tarde, depois que chegava da escola. Era pena André não trabalhar na feira ali do bairro, ele e o pai iam apenas pra feiras que ficavam muito longe, queriam vender pra gente com mais dinheiro, parece que iam mais pras bandas da Brasilândia, Freguesia, Limão, Bié não sabia direito.
Mesmo assim elas o viam passar muitas vezes, geralmente no meio da tarde, lá pras três, quatro horas, quando ele e o pai voltavam. Bié e Gabi passavam batom e ficavam sentadas como se estivessem apenas conversando, assim por acaso, sem intenção. Gabi já tinha beijado um menino da escola. Tinha sido muito estranho, quase ruim, mas achava que era porque o menino era muito novo, não sabia fazer direito. Bié era BV, essas duas letrinhas que ela odiava profundamente. Boca Virgem. Ter saído da escola atrapalhava também nisso, por enquanto não via como deixar de ser BV.
Bié tinha os olhos sempre tristes, por mais que a boca sorrisse. A pele abaixo dos olhos era de um roxo azulado. A mãe vivia gozando dela, Ei, Bié, que tanto você fica assim, com esses olhos pretos, hein? Não dorme não, menina? Bié dormia, mas tinha sempre olheiras. Não sabia se era por isso, mas quando viu estava gostando de usar preto, ela e Gabi passavam esmalte preto nas unhas das mãos e dos pés, e um dia conseguiram comprar uma bisnaga de tinta preta para os cabelos. Uma pintou o cabelo da outra, as irmãs menores de Bié ajudaram. Nessas horas Bié esquecia que não estava mais estudando, esquecia de André, esquecia até que era BV. E apenas ria muito, beijando os irmãos que eram tão lindos e faziam a maior farra, de luva plástica nas mãos pequenas, os braços sujos de tintura, Carol falando que queria ser loira e Juliana dizendo preferia ser ruiva, ela sempre queria ser diferente. Gabi e Bié com os cabelos pretos retintos, os olhos tristes de Bié ainda mais tristes e brilhantes.
Dois dias depois foi que tudo aconteceu. Bié e Gabi, na escadaria, olhavam fotos no celular e esperavam André, como todo dia. Nesse horário Bié trancava as crianças um pouco em casa, para não ter que se preocupar com elas. Assim que André passava ela já corria a destrancar, a criançada já acostumada com a rotina.
As duas estavam sentadas há uns vinte minutos, André demorando mais que o costume, logo devia aparecer. Jogavam os cabelos de um lado para o outro, tentando decidir de que jeito ficavam mais bonitas e mais crescidas, quando seu Adailton surgiu, Corre, menina, corre que tem fogo na tua casa!
Seu Adailton era um velho nojento. Viúvo era como se apresentava, mas a verdade é que a mulher o tinha trocado por outro mais moço e mais bonito, há anos já, ele ficou sozinho e ela deixou inclusive o filho, o imbecil do Washington, que se achava o menino mais lindo e inteligente da vila. Depois de ver o filho criado, o desespero de seu Adailton por não ter mulher aumentou e ele passava a mão em todo canto, vivia tentando abocanhar alguma carninha, só dava confusão, ninguém o queria por mais que ele espichasse as notas graúdas, oferecendo.
Bié nem mais falava com ele, asco de ele vir com aquelas mãos peludas pra cima dela. Por isso quando ele apareceu ela nem olhou pra cara dele, continuou com Gabi como se nada. Só que na sequência veio a Maria Manicure, Bié, vamos lá, pelo amor de Deus, tem fogo na sua casa, onde tão seus irmãos? Aí Bié se assustou. Maria Manicure era amiga da sua mãe, tinha sido comadre da sua avó, não tinha por que mentir. Gabi ainda falou Espera Bié, o André tá vindo, ele acabou de apontar na esquina lá embaixo, mas Bié ficou com medo, tinha que ver a casa, os irmãos, Naná. Enfiou os pés nos chinelos e subiu os degraus de dois em dois, correndo, respirando pesado, nos olhos as imagens dos quatro carvõezinhos que já deviam ter virado seus irmãos, coisa mais horrorosa, mãe de Deus!
As mãos tremiam tanto quando chegou em frente da porta e viu a fumaceira que não conseguia pegar a chave no bolso do short, foi Maria Manicure quem precisou gritar, a voz forte e segura de velha vivida, Calma!, e enfiar a mão no bolso da menina pra pegar a chave, socando-a com força na fechadura. O fogo crescia, Bié entrou gritando os nomes dos irmãos. Por Deus, o choro deles era a resposta, estavam vivos! Conseguiu atravessar a sala e alcançar a cozinha, os quatro encolhidos junto ao basculante, em cima da pia, os olhos esbugalhados. Davi, de três anos, era o único que não chorava, os olhos claros parados, parecia nem piscar pro fogo. Bié viu que ia ter que tirar as crianças sozinha, Maria Manicure não ia conseguir passar pela fresta que ainda não tinha sido comida pelo fogo e que permitia o caminho da sala à cozinha. Gritou para que a mulher ligasse nos bombeiros, enquanto isso catou Davi no colo e foi refazer o trajeto com ele. Mal Bié o tirou do hipnotismo do fogo ele começou a se contorcer e a berrar, cabrito indo pra morte, então Bié gritou de novo para Maria Manicure, que ela pedisse ajuda dos vizinhos, o fogo crescia e ainda tinha que tirar os outros três, mais Naná, que esganiçava, ameaçando saltar sobre o fogo mas não finalizando o gesto, as patas parando no ar.
Davi ficou com Maria lá fora, Bié voltou pra pegar Juliana, que se agarrava os cabelos e não queria passar pelo caminhozinho estreito que levava à porta da rua. Bié precisou ir puxando-a pelos braços, gritando andasse rápido, o tempo passava, não dava pra ter enrolação agora. Enquanto Juliana paralisava, Bié olhou melhor a casa. O fogo queimava tudo. A tevê, o armário que dona Regina tinha dado, o sofá que era a cama dela e da mãe, os colchonetes. Lambia a parede e chegava ao teto, provocando terror e fascínio. Mal deixou Juliana com Maria e já correu pra dentro, pegando Naná no colo e dando uma mão pra Léo, outra pra Carol, puxando-os com força, a fumaça espessa.
Maria Manicure passava as mãos de dedos finos nos cabelos de Davi. Partiu levando os dois menores pra casa dela, Carol e Léo quiseram ficar ao lado de Bié, olhando o fogo consumir o resto da casa e esperando os bombeiros, que chegaram só quando o teto da sala rachou. Nessa hora já havia uma multidão, todo mundo querendo saber o que tinha ocorrido, qual era a causa do incêndio, como podia uma coisa daquelas. Quando começou a se espalhar a notícia de que a irmã mais velha tinha trancado os pequenos sozinhos em casa, e não tinha atendido quando avisada de que a casa pegava fogo, alguém começou a gritar que essa menina devia mais era pagar pelo que tinha feito. Os irmãos quase morreram, ela na certa devia estar atrás de homem, vagabunda, o castigo divino não deixaria que escapasse. Que Deus que nada, tinha que ser era castigada logo, aqui na Terra mesmo, merecia morrer, isso sim!
O burburinho foi ficando mais forte e chegou aos ouvidos de Bié, que não sabia pra onde ir. Surge uma mão que a agarra pelo braço esquerdo, era Maria Manicure de novo, Venha, menina, venha rápido, e Bié sai andando ligeira, seguida de Juliana e Léo, mas sem correr, pra não chamar a atenção, Naná no colo. O povo gritava cada vez mais, só mesmo o espetáculo dos bombeiros retardava alguma ação daquela gente endoidecida.
Quando sentou no sofá de Maria Manicure é que Bié chorou. Não conseguia falar, mas aos poucos foi ouvindo Léo responder às perguntas da velha. Estavam brincando, apenas brincando. Perseguiam uma baratinha, ela tinha se enfiado debaixo do sofá e eles a cercaram para que não conseguisse sair de lá. Cataram uma vela na cozinha, divertido ver se o bicho tinha medo da luz, se tentava fugir com a aproximação do calorzinho do fogo. Quando Léo viu, o fogo não estava mais só na vela, a ponta da colcha que cobria o sofá queimava, e tudo foi rápido, ele não sabia explicar mais.
Bié quase tinha deixado que os irmãos morressem queimados. Não merecia ser perdoada. A mãe confiava nela e ela fazia uma loucura dessas. Merecia apanhar, ser ela queimada no fogo, pra nunca mais fazer uma coisa assim. Tomando o suco de abacaxi que Maria Manicure serviu, comendo um bombom meio passado com gosto de cereja de bolo, Bié começou a pensar que talvez a culpa não fosse toda dela. Esse idiota do Léo afinal já tinha idade pra saber que com fogo não se brinca. Ele também tinha que apanhar, junto com ela. E essa mãe que sempre demorava. Quando chegasse ia ter um troço. Maria Manicure levou os quatro aos banheiro, colocou pra tomar banho, e disse que Bié ia ter que ficar uns dias trancada ali, o povo estava querendo linchamento, a raiva era muita.  
A casa de Maria era boa, até o banheiro era grande. A menina ficou esperando no sofá, os olhos fechados, molhados, tentando pedir a Deus que recebesse apenas um castigo justo, mas não muito gigante. Que ela seria boa e não descuidaria mais dos irmãos. Abria os olhos de pouco em pouco e olhava o quadro de Jesus na parede da sala de Maria, cada vez com mais fé, que ele a perdoasse, que não a deixasse arder pra sempre no Inferno, que o fogo na casa não fosse um sinal da sua vida que ainda estava por vir. E que ela conseguisse viver até ficar grande e estudar pra advogada, tirar a mãe e os irmãos dali e nunca mais ter os olhos arroxeados. Que a mãe não lhe batesse muito, e que eles conseguissem logo reconstruir a casa. Que Deus fosse bom, enfim, ao menos por um tempo, era só o que ela pedia.





domingo, 17 de janeiro de 2016

O reflexo








                     O telefone tocou, mais uma vez durante o dia. Eu estava atarefado, ocupado, trabalhando. Automaticamente atendi a ligação. Em alguns segundos, pensei que era um trote, uma brincadeira de mau gosto, um filho de chefe divertindo-se com o telefone. A pessoa pedia com jeito, um tanto sem graça, o tom de voz não mentia. Ela disse que trabalhava no prédio do outro lado do Anhangabaú, e que a minha janela, só a minha janela, do prédio todo, refletia o sol em sua direção. E isso o incomodava, durante quinze, vinte minutos. Sempre tinha de baixar a persiana para continuar a trabalhar. Mas, por se tratar de uma única janela, contou os andares, viu onde ficava o prédio e, depois de uma rápida pesquisa, achou o telefone de minha empresa. Pedi para que abrisse a sua janela e me fizesse um sinal, para que eu visse que era verdade. Lá longe, vi uma pessoa me acenando. Acertamos que, em determinada hora da manhã, eu abriria a janela, pelo pouco tempo que durasse a passagem do sol pelo vidro. Adotei um novo hábito, em alguns dias eu a abria sem pensar, e sabia quando fechá-la. Jamais soube quem era ele, tampouco falei a respeito dele. Semanas depois informaram-me que eu iria mudar de lugar, devido a uma promoção. Fiquei olhando a pessoa que ocupou meu lugar, não tive como contar a respeito do reflexo da janela. Não demorou muito para o telefone tocar. Meu novo colega ouviu o pedido, olhou em direção ao outro lado do vale e desligou o telefone, indiferente. Não mais abriu a janela pelas manhãs.










sábado, 16 de janeiro de 2016

Bisneto

Idiotas. Deixem o menino ficar. Que mania essa de afastá-lo de mim! Vocês é que acham que ele me dá trabalho. Eu, não. Eu vejo apenas as gracinhas que ele faz. Os olhinhos apertados pelas bochechas gordas. As perguntas feitas numa língua que só ele entende. Os abraços que me buscam num repente que emociona. Os carros de corrida que passeiam pelas pistas improvisadas nas minhas pernas. Afinal, para que serviriam as minhas pernas se não para serem estradas? Elas que se esqueceram de mim faz tantos anos. Como vocês. Centrados em suas vidas intensas, feitas de amanhãs e de hojes. Normal. As coisas acontecem assim mesmo: primeiro num galope intenso, depois num trote regular. Até que a montaria para, e a gente apeia pela última vez. Sem saber que é a última. Sem ter feito nem metade do que se propôs. E do que tinha direito. 
Mas que coisa! A criança estava quieta aqui no meu colo. Achando graça nas rodas da cadeira. Agora, está chorando. Sem entender porque não pode passar os dedinhos nas minhas rugas fundas. E eu sem entender por que não posso ser incomodado. Por favor, deixem o menino comigo. Voltem para a mesa, para a beira da piscina, para o que for que estejam fazendo. Eu não vou a lugar nenhum. Vocês sabem. Ou não sabem? Que eu não falo mais. Que eu não como sozinho. Que eu não tomo banho, não me visto, não leio. Sozinho não faço mais nada. Não sou mais nada. Fico aqui neste canto que vocês me emprestam em dia de festa. Ou quando tem visita. É um canto estratégico. Bem longe da conversa, e das risadas, e dos garfos e facas perigosos, e da piscina descoberta, e da porta destrancada. Bem perto dos olhos de quem chega, para que ninguém se atreva a dizer que vocês não ligam para mim. Filhos, noras, genros, netos. Todos tão bons e honestos em sua intenção de não me enviar para um asilo. Tão errados em sua percepção equivocada de que isso seria abandono. Não seria. Acreditem em mim. Abandono é um lugar ao qual se chega muito antes do asilo. Um lugar nada estratégico. 
Mas onde é que puseram o menino? No colo de alguma visita pegajosa, com certeza. Que vai sujigá-lo enquanto fala com ele numa linguagem boba e deformada. Por que é que ninguém me escuta? Eu quero o menino aqui comigo. Enfiando na minha boca uns doces meio mordidos, meio babados. Contando uma história enrolada que inclui motores barulhentos de carros, buzinas histéricas, freadas estridentes construídas no fundo da garganta possante. Escondendo na mãozinha fechada pequenos insetos que milagrosamente sobrevivem a tanto aperto.
Não, não, não. Por favor. Agora não é hora de levá-lo para dormir. Deixem que ele pule em cima de mim e me chame de biso um pouco mais. É disso que gosta esta carcaça velha. Vocês e essa mania irritante de dizer que ele me faz chorar. Gente burra. Que não entende que a água nos meus olhos é pura conversa. Um sinal que envio a partir deste silêncio horrível que o derrame me impôs. O bisneto sabe. Entende. E a gente segue assim. Entre uma corrida e outra de carros nas pernas, entre um cavalinho upa upa que ele comanda sozinho no meu colo e um sono curto encostado no meu peito, ele me olha nos olhos e fica esperando a água escorrer. Então, seus olhinhos riem junto com a boca. Ele sabe que também estou falando.







sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Um conto de outros tempos




Havia dias em que as ruas empapavam. Nesses dias, os pés da gente destoavam ainda mais dos pés dos meninos que iam pela mão das criadas a caminho da escola.
Os pés da gente a confundirem-se com a lama.
Os pés da gente sem nunca terem sido calçados.
A minha mãe dizia: um dia, pela feira, terás umas botas. Mas as feiras passavam, umas a seguir a outras, e passaram os natais, e eu descalço. A minha irmã calçou-se, que ser criada de dentro a isso a obrigava, ainda que dissesse: dói tanto andar com sapatos. E a minha mãe gritava-lhe: tu habitua esses pés, criatura, a olhar os seus próprios pés grossos e gretados, calejados de andarem uma vida inteira despojados de calçado.
Éramos pobres e nem éramos desses que vivem na miragem duma esmola, moeda ou côdea, naco de carne de uns dias, uma fruta pisada ou uma peça de roupa, ceroulas já muito poídas ou um casaco desbotado e roído das traças. A minha mãe dizia que não esmolássemos, que mantivéssemos o preceito mesmo de ser pobre. Que fizéssemos como ela que tantas vezes enganava o estômago com a saliva que ainda lhe sobrava. 
Isso, ela nunca nos disse, mas eu soube, muito mais tarde deste tempo de andar descalço.
A mãe da gente sabia que não há esmola que anoiteça outras faltas e, essas, ela não queria que nunca nos faltassem.
Antes descalços que desonestos, dizia-nos ela, sabendo no entanto que a honra não consola estômagos esfaimados, nem calça pés descalços.
A minha mãe trabalhando onde calhava e era na lota como a pegar na enxada ou sentada debulhando milho ou amêndoa ou o que fosse. E no descabeço do peixe se dava que a chamassem, e era raro, como era raro que trouxesse peixe para o almoço ou para a ceia, que nem sempre lhe davam. Mas naquele dia ela trouxe umas botas.
Nem lhas tinham dado. 
Estavam, contou ela, assim, rotas na sola e sem cordões, em cima dum valado. 
Tinha-as encontrado e trouxera-as escondidas na roda da saia, a medo, silenciando que as trazia não fosse vir-lhe no encalço o mendigo que decerto as esquecera ao som de um vinho que lhe tivessem dado e lhe caíra na fraqueza: beba, beba que aquece, ter-lhe-ia dito alguma rapariga, dessas que ajudavam na cozinha das casas grandes.
A minha mãe a contar-nos aquilo num desassossego.
Era um par de botas que se adivinhava que tinham sido umas botas elegantes, e passámos o serão experimentando a que pé melhor se moldaria o cabedal já murcho.
Mas as botas eram demasiado estreitas ou demasiado curtas ou demasiado uma coisa e outra para os pés de cada um da gente os três sentados em roda delas e em redor do fogo que a minha mãe fazia num canto da casa.
Os pés da gente habituados a crescerem sem peias, e as botas a rirem-se, ou elas chorariam de nos ver tão desiludidos.
A minha mãe choramingou que pena, que mais valia que nem as tivesse trazido, e dependurou as duas botas num gancho ao lado do lume.
Talvez ela pensasse em dá-las a algum pedinte, ou nem ela as terá dependurado senão por enfeite, que aquele vermelho, aquele tom ainda berrante se bem que desbotado, brilhava ao calhar do lume. Pareciam, assim dependuradas, uma candeia. Ou poderiam semelhar um quadro, mas eu ainda nem sabia que o par de botas poderia ser comparado com uma obra de arte. Eu a olhar o par de botas quase tão vermelhas como o lume. Teriam pertencido a alguém do circo, perguntava-me, e terei adormecido e terei sonhado que era eu correndo pela aldeia com os pés calçados. E nem eram os meus pés tão só calçados, eram aquelas botas encarnadas que esvoaçavam e me levavam pelos montes que ficavam a separar a aldeia do resto do mundo, que minha mãe dizia tantas vezes: um dia, calças umas botas, Nelinho, e vais correr mundo.
Terei, assim, adormecido em frente do lume, as botas encarnadas balançando ao tremeluzir do fogo. Não me lembro como foi, mas sei, disso tenho eu certeza, que a minha mãe deixou o par de botas dependurado e que as botas tremeluziam tons de vermelho e rosa, e até amarelos fortes, de cada vez que um da gente se movia a virar um pedaço de batata que assava nas brasas.
Ao outro dia, a minha mãe chamou-me e voltou a chamar-me.
Nelinho, hoje é o teu dia de ir à escola, filho.
E vestiu-me uma roupa lavada e bruniu-me o cabelo com pente e água. E choramingava-se, que ela gostaria de me ver calçado, mas não tinha tido modo de meter-me os pés que não fosse naquele pedaço de tecido que ela mesmo cosera numa velha e usada sola de borracha.
Foi logo pela manhãzinha.
Mal entrei na sala de aula, rolando os pés mal calçados pelo soalho, a senhora professora, baixinha e roliça, olhou de alto a baixo o meu metro e meio, e disse-me que fosse “lá dentro”. Nem me perguntou o nome. Tinha cara de quem está doente, ainda mais enrolada naquela capinha de malha e tossicando. Disse apenas: tu e tu e tu vão lá dentro, e espetava o dedo indicador da mão direita a assinalar cada um dos meninos que, como eu, entravam na sala mal calçados ou descalços.
E éramos mais de meia dúzia a deixar a sala onde os outros meninos já se sentavam, dois a dois, nas carteiras escuras. Fomos “lá dentro” que era onde a senhora professora guardava a bata branca que vestia por cima de vestidinhos cingidos ao corpo com botões miúdos. Era onde, também, guardava a capinha que ela mesmo fizera em tricô de duas agulhas. Mas, isso, eu ainda não sabia, e “lá dentro” era apenas outra sala onde uma rapariga gorda e feia me perguntou com voz amável: como te chamas? e depois que eu lhe respondi em tom sumido: Manuel Dionísio, ela colocou um papel grosso em cima do ladrilho que era o chão da sala, e escreveu, muito perto da bordinha da folha, os dois nomes que eu lhe tinha dito.
Para fazer isso, a rapariga precisou agachar-se e eu reparei nos seios que ela deixava ver, apertados no decote da blusa. Reparei neles e fixei-os a sentir que não devia, e terá sido de me ver olhá-los que ela puxou tão asperamente a canela da minha perna esquerda.
 Coloca aqui o pé, menino, disse ela, e segurava-me a perna com dedos rijos e húmidos, depois de me descalçar o pedaço informe que a minha mãe ajeitara em modo de sapato.
Muito áspero e encardido do hábito de andar sempre descalço, lá ficou o meu pé esquerdo assente sobre a folha de papel pardo.
E para desviar os olhos do decote, soletrei, mentalmente os nomes que a rapariga tinha escrito na bordinha da folha que eu mais sabia de escrita e de leitura eram tão só aquelas duas palavras: Manuel Dionísio. Mas logo me voltaram os olhos para o redondo dos seios que espreitavam da blusa de flores miudinhas, brancas num fundo azul muito escuro, enquanto a rapariga passava, em volta da sola, calejada e negra, do meu pé de seis anos, a ponta grossa e romba dum lápis encarnado.
Riscava por troços e levantava o lápis, e cada troço que fazia era um pedaço do que ficaria desenhado na folha: a forma, que me pareceu avantajada, de cada um dos meus pés. E eu a constranger-me, eu morto de vergonha, ciente que seria de lhe ter olhado os seios e estar notando os bicos túmidos a parecerem saltar através do tecido. Ou seria outra a minha vergonha, ou seriam as duas e eu, uma delas ainda nem sabia. E a rapariga a dizer-me, quase num sorriso: no dia de todos os santos já as estreias. Ela que tinha repetido cada um dos gestos com o meu pé direito, a renovar as cócegas que eu sentia com o correr do lápis em volta da sola.
No dia de todos os santos já as estreias.
A minha mãe tinha dito e repetido: no início de Outubro, vais à escola, Nelinho. E explicava: vais ainda com seis anos que os sete, só os fazes em Novembro, no dia de todos os santos.
Ela tinha dito, e eu, ali, entre duas vergonhas, uma de que ainda não sabia e outra de que pressentia o dano, fazia contas a saber quanto demoraria para calçar aquelas botas.
A minha mãe, tinha-se repetido, sim, a avisar-me, e seria para que eu me fosse habituando. E ouvindo chamar-me daquele modo, os dois nomes entrelaçados: Manuel Dionísio, eu desconfiava que não era coisa boa, isso, de ir à escola. Ou seria coisa de grande importância que Manuel Dionísio a minha mãe só me chamava em casos como tinha sido quando o Senhor Guarda Antunes tropeçou nas pedras. Eu tinha colocado um montinho em forma de pirâmide bem no meio da rua: estava a construir uma cidade e um castelo e precisava delas; tinha saído dali a buscar mais algumas, quando o guarda Antunes desceu a rua encavalitado na sua bicicleta e desfez o castelo que eu tinha construído, pedra sobre pedra, com desvelo. O guarda estatelou-se, esfolou os cotovelos e o nariz, e espalhou os papéis que trazia para entregar no Posto.
Foi a primeira vez que ouvi a minha mãe a falar comigo daquele modo: Manuel Dionísio, olha o que fizeste; e Manuel Dionísio para aqui e Manuel Dionísio para ali como se eu nem fosse seu filho. E nem as minhas lágrimas a demoverem de me chamar daquele modo, eu que chorava por sentir que ela já não me queria como filho e não pelo que ela e o senhor guarda guerreavam. Manuel Dionísio em vez de Nelinho, onde já se vira. E eu soluçava a pedir desculpas dum mal que nem sabia pois que tinha sido o senhor guarda quem estragara o meu castelo. Ele era quem me devia desculpas e não o contrário.
Foi nesse dia que aprendi que o meu nome inteiro, assim soletrado, cada sílaba bem pronunciada na voz da minha mãe, era sinal de grande ocasião ou de tragédia.
O meu nome inteiro que era, apenas, Manuel Dionísio, e não meia dúzia de apelidos como tinham outros meninos que na escola demorariam uma eternidade a preencher o cabeçalho nas folhas de prova.
Naquele primeiro dia, eu apenas soube que ia ter umas botas.
Tinham levado os moldes como explicara a rapariga que era gorda e feia, mas tinha uma voz doce: levo os moldes e assim o sapateiro sabe o tamanho das botas, explicara ela aos meninos que, como eu, estavam ali descalços ou mal calçados.
Nesse primeiro dia e nos outros que se seguiram, fiquei sentado na carteira da frente ao lado do Francisquinho, um desses que tinham muitos apelidos, e só pensava em como seriam as minhas botas novas, de que cor e se teriam ilhoses.
Eu a sonhar dia e noite com a cor e a forma que teriam as botas, nunca disse: mãe, vão fazer-me umas botas. Nunca lhe disse no receio que a minha mãe, sabendo, interferisse, que ela dissesse fosse o que fosse que quebrasse o encanto que tinha sido a voz da rapariga gorda e desengraçada a dizer a todos como se me dissesse ao ouvido: no dia de todos os santos já as estreiam.
Mas a vida da gente tem acasos, descaminhos, sobressaltos. Nada, nem se somos ainda meninos, cola com os sonhos que temos.
Foi assim que das botas fiz apenas os moldes.
No dia mesmo em que cheguei da escola, ainda descalço, a minha disse: vamos para a cidade que eu vou servir na casa duns senhores.
E fomos.  
E um dia iria calçar sapatos de cabedal com protectores metálicos nos contrafortes, mas fiquei sempre sonhando com as botas de que nem soube a cor.
Ainda hoje as sonho.







quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

ONDE ESTÁ VOCÊ?

                                                           
                     ONDE ESTÁ VOCÊ?

Daí, quando fechei o livro, a velha e conhecida sensação de perda voltou. Acontece sempre quando me identifico com o autor. É como se ele captasse minhas ideias e as transformasse em lindas frases pelas quais vou me revelando; me revelando por meio de outra pessoa. E, quando o livro termina, parece que ficou faltando alguma coisa. Ele não disse tudo. Restaram coisas que não foram ditas ou escritas. É então que a vontade de escrever chega forte como um tornado. Falei bem: um tornado chega, destrói e vai embora com a mesma rapidez. Sobram destroços e um desânimo enorme de reconstruir.

Milan Kundera escreveu “A Insustentável Leveza do Ser” que, depois de vinte anos, reli. E, de novo, tornei a me comover com a delicadeza do sentimento desvendado, exposto como pérola em concha aberta. 

Estou atravessando uma fase que espero passe depressa. Vontade de fazer nada, nada está bom e tudo me incomoda. Incomoda-me o arrastar de chinelos no andar de cima. Incomoda-me o jardim onde o mato cresce. Incomoda-me a pergunta óbvia, a resposta sem sentido. Incomoda-me a visita inesperada, o telefonema inoportuno. 

Uma intolerância terrível com as pessoas e isto tem me custado a perda de bons amigos. O pior não é perder os amigos, o pior é não me importar com isso. 

Antigamente, era eu antigamente. E quando antes essa ausência total de emoções me acometia, eu apenas me acomodava à inutilidade dos dias e aguardava. Aguardava, sabendo que uma coisa cá dentro, apesar de adormecida, estava viva, estava atenta e era forte. Sentia que a qualquer tempo, porque tempo havia, ela poderia explodir. E aí, de duas uma: ou iria parar num sanatório ou aconteceria numa grande realização. Mas isso era eu antigamente.

Descubro-me hoje sem ter acontecido. Descubro-me hoje um nada em meio a dois nadas. E, pior, sem mais tempo para ser o tudo que me pensei um dia. 

Acho que é isso. Mas, agora, quero deixar Kundera de lado, e me deixar de lado também, para me aproximar do você, leitor sensível e inteligente. Você que, para sorte minha, existe e faz parte desse mundo à parte. 

Pois é. E onde está você? Onde está você para que eu possa falar, contar, rir e chorar tudo o que senti e sinto? Diabo, se pelo menos eu soubesse onde você mora e se mora aqui por perto. Taí, hoje seria um dia que eu lhe telefonaria e até convidaria para jantar. Teríamos tanto o que falar, rir e chorar tudo o que a gente pensa e sente. 

Tantas coisas queria saber de você! Será que leu os mesmos livros que li, assistiu aos mesmos filmes que eu? O que pensa você enquanto espera o sinal abrir? Será que lhe acontece, às vezes, esse atravessar de horas que se arrastam assim vazias e tristes? 

Pois é. Onde está você? Teríamos tanto o que trocar... Falar de sensibilidades e de saudade. Angústias, formas diferenciadas de ser, desesperos. Falar, falar até que o tempo se perdesse e o cansaço fechasse meus olhos finalmente enxutos. 

A gente tinha que se ver por aí qualquer hora dessas pra falar bobagens da vida. Tantas bobagens sérias a vida tem pra contar. Bobagens assim como essas que acabei de dizer. 

A gente precisava se encontrar por aí.

Cecília Maria De Luca






domingo, 10 de janeiro de 2016

Da Realidade Virtual a Realidades Paralelas


A minha primeira experiência de realidade virtual. Foi empolgante e, ao mesmo tempo, um pouco assustadora.
Quase simultaneamente era divulgada a notícia de que Mark Zuckerberg havia lançado a pré-venda de seus óculos de RV e, hoje, no The Guardian, há uma análise sobre as tendências e os riscos desta nova tecnologia, sendo um deles uma alteração radical da nossa cognição.

Todo salto tecnológico implica em uma série de transformações no modo como nos relacionamos com o mundo. Desde o advento do cinema, as pessoas têm gradualmente passado a interpretar a realidade mediadas por uma tela. A TV, o VHS, o computador pessoal e, enfim, os smartphones são uma trilha bastante clara que tem nos conduzido de uma vida comunal real para uma vida virtual compartilhada.
Conversamos com pessoas do outro lado do mundo, mas mal olhamos nos olhos de quem está do nosso lado no ônibus.


Ontem, eu e minha esposa, com o auxílio do nosso Google Cardboard, voltamos às ruas de Manhattan, olhamos as pirâmides de Gizé, acompanhamos a trajetória de refugiados sírios e estivemos nos cenários do Guerra nas Estrelas. Estivemos lá, ou melhor, quase estivemos lá.
Como ocorre com qualquer nova tecnologia, tudo é ainda muito desengonçado e cheio de arestas. É um pouco nauseante e desorientador. Não substitui a experiência real e concreta. Ainda há pouco conteúdo disponível.
Entretanto, com a entrada de gigantes como o Facebook, o Google e as grandes fabricantes de consoles de videogames nesta corrida, é bastante provável que esta experiência se torne cada vez mais próxima do real.

Em um artigo de 1981, o filósofo da linguagem Hilary Putnam propôs o seguinte: que todos nós fôssemos cérebros num recipiente (brains in a vat), imerso em nutrientes que os mantivessem vivos e recebendo estímulos elétricos de um supercomputador que (re)criasse em nossas mentes toda a realidade que vivenciamos(*).
Portanto, toda a vez que o computador enviasse a imagem de uma árvore aos nossos cérebros, nós pensaríamos em uma árvore, mesmo que nunca houvéssemos visto uma árvore de fato antes na existência de nossos cérebros, principalmente porque não teríamos olhos nem qualquer outro órgão sensorial.
Todas as informações que acumularíamos seriam apenas impulsos elétricos. E não haveria como ter certeza alguma se éramos pessoas reais ou apenas cérebros em recipientes.
Se você se lembrou do filme Matrix, acertou em cheio, pois é mais ou menos esta a ideia.


Então façamos nós mesmos o nosso próprio experimento mental de ficção científica.
Imaginemos que, em algum momento no futuro, a realidade virtual se tornou amplamente disseminada e que todos os humanos têm acesso a ela e a usam com maior regularidade do que utilizamos os telefones celulares hoje.
Do mesmo modo que muitos de nós têm dificuldades para distinguir relacionamentos reais de virtuais - nossos amigos virtuais podem ser até mais próximos de nós do que muitos colegas da vida real -, não seria possível que estes humanos do futuro tenham dificuldade para distinguir entre o que é real e virtual?
Alguém que só tenha visitado Paris virtualmente não consideraria a Paris virtual tão real quanto a Paris real?
Ou até mais do que isto: de que a visita a Paris real é prescindível porque já se conhece a Paris virtual e a vivência é tão completa (tal pessoa supõe) que a exime de pegar um voo de muitas horas somente para conhecer aquilo que já se conhece?
E indo ainda além: que todos os nossos relacionamentos, mesmo com pessoas que vivem sob o mesmo teto, ocorrerão no mundo virtual, posto que tudo e todos podem ser encontrados lá?

Hoje, ainda é uma experiência completamente alienante e isoladora. Quem usa o óculos perde-se num universo que apenas ele tem acesso, vetada a quem está de fora.
Mas, se porventura isto viesse a se tornar uma experiência compartilhada (o que deve ser o rumo provável), o mundo real se tornará obsoleto?

Viveremos todos numa realidade paralela, onde o virtual é o real, e onde o real não mais existirá?

Enfim, teremos finalmente nos tornado cérebros num recipiente.

(*) O artigo de Putnam trata-se de uma refutação desta hipótese, num argumento contra o ceticismo, mas não abordaremos aqui os detalhes desta argumentação.

Fonte das imagens:
https://www.flickr.com/photos/caseorganic/3493601806/sizes/o/
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/95/Assembled_Google_Cardboard_VR_mount.jpg
https://www.flickr.com/photos/suzsuper/16267363970/sizes/c/