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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Estrábico



Era estrábico. Tinha esses olhos tortos, cada qual para o contrário, e quando os movia era como se duas bolotas rolassem e colidissem num funil. Cresceu assim, o vesguinho filho da Vera, e malgrado concatenasse e ordenasse o universo de fora em perfeita imagem de dentro, vivia Nestor batendo o mindinho dos pés na quina da cama, do armário e das portas. Doía, doía muito, mas isso de se machucar, apenas, pois quanto ao defeito aceitava-o com tal charme a ponto de açoitarem as línguas,

– Esse nasceu para ser vesgo.

Diga-se, também, que de frente nenhum dos olhos fixava-se diretamente em algo ou alguém, precisando ele ficar de lado para existir, nos outros, a convicção de que enxergava através de uma linha reta; só assim, visto o perfil, deixavam de julgá-lo um tarado cujas perversões ou ideias enviesavam as pupilas. 

Sua mãe, Vera, mulher bonita de mil carnavais, afeita à ideia de hierarquia e mérito, carma, sofreu antes de enfim aceitar o estrabismo do filho; quis de tudo para corrigir o defeito, de tudo e mais, e fracassou. Enquanto chorava, Nestor sorria, de receber a Tia e, animado, falar,

– Tia, Tia, a senhora é tão bonita que me embaralha os olhos.

E todos riam.

Adolescente, exercitando a culpa, Nestor avistou o uso da imprecisão: olhava para onde queria e ninguém desconfiava, a intenção oculta pelo falso erro. Olho para onde quiser, falava ele: para as coxas, a bunda, o rosto das mulheres, e isso sem parecer um maníaco – ou não um maníaco diferente, pois poucos julgavam a confusão de olhares como se alheia ao equilíbrio mental. Além do mero espreitar, tinha uma tara, paixão manifesta por decotes. Muito quis saber o porquê dessa compulsão, imaginando a origem dela no estrabismo; se assim for, bendito seja o defeito, sentenciava. Vera, ante tal questão, ante o interpretar de ângulos e o irritar-se com a obsessão do filho, almejava corrigi-lo; ao ouvir sobre um curandeiro, chamou Nestor – iriam visitá-lo. Ele piscou forte e disse: jamais, sua primeira decisão de homem. Se fosse mulher o curandeiro, e se fosse mulher das minhas, quem sabe – e seguiu tateando a beirada, perscrutando o vão.

Maior, homem de vinte anos, conquistava amantes cujos seios extrapolavam o limite da pele e do mal senso. Já a mãe implicava com as meninas, arruinava os namoros, seja por ela, elas ou por ele, pelo ciúmes ou loucura. Nestor brigava, discutia, reclamava, e daí anunciava mudanças e separações – ou um provável suicídio. Vera acalmava-o, confiante,

– Há de chegar a mulher perfeita para você, meu filho. 

Quando Nestor estava para desistir do compromisso e virar ermitão, surgiu Claudevania.

Morena creme, tinha seios regulados por leis superiores, carne que ascendia ao metafísico, além do geométrico. Vera, conhecendo-a, investigou a moça de cima a baixo, primeiro com reprovação e, fixando a fresta desconfiada dos olhos no decote, naquela fissura prevista pelo livro do apocalipse, sorriu. Era outra, santa, e o confirmavam os dias e semanas essa nova mãe, pacífica de falar,

– A Claudevania, adorei a Claudevania, ouvia Nestor, julgando-a submissa e encontrando em sua última ameaça a explicação para esta postura.

***

Anos nasceram, engatinharam e caminharam enquanto se amavam. Noivaram, dele esconder a aliança em um bolinho de aipo frito e ela partir um dente. Convergiram os destinos, logo, com o casal no altar. Vera, alegre e satisfeita, fotograva, e orgulhava-se tanto do filho como de Claudivania (ela nunca lembrava-se a pronúncia correta). Claudevania, chorando, o carvão da maquilagem borrando a pele, exultava um orgulho de rainha empossada, de tradição que continua. Já Nestor era outro, e, de terno e cabelo curto, presença militar, assemelhava-se a empresários ou pastores de igreja, o estrabismo agora curado de tanto focar naquele decote que, como os poderes antigos e divinos, transfiguravam a carne.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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