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sábado, 22 de outubro de 2016

Jandirinha, Jandirão



 Dela ouviu Clesley o nome, primeiro: Jandirão. Novato, seria essa a colega de sala. Conjecturava uma fêmea avantajada, repleta de curvas e carnes, mas, ao conhecê-la, desilusão: era pequena, ruiva, reta e sardenta, cabelo liso chegando aos joelhos. “Crente”, falou o gerente Volnei. “Crentíssima. Mas esse é o nosso Jandirão”, pontuou, e com uma piscadela suspeita afastou-se dali para buscá-la e apresentá-la.

Nos dias seguintes estranhou os apelos, afinal muitos a chamavam pelo diminutivo e uns pelo oposto. Respeitoso e sério, indagou à Jandira sua preferência,

“Ora, cada um me chama do que preferir”, disse ela.

Ouvindo a resposta Clesley examinou sua expressão, morta, com os olhos semifechados, de animal selvagem e sonolento. “Bom, vou chamá-la de Jandirinha”, resolveu, “é mais feminino, além de corresponder à figura; melhor assim”. Então era Jandirinha para cá e Jandirinha para lá, e tornaram-se chegados, confortáveis na presença e, acima de tudo, existência um do outro. Brincavam, insultavam-se, e, além de colegas, julgavam-se amigos. Entretanto há no tempo um certo desânimo para com o presente e o hábito, desânimo cheio de vaidades competitivas, femininas, que resulta em rivalidade e surpresa. Dito isso, pouco passou-se em rotinas e viu-se ele agachado, selando caixas, quando Jandirinha surgiu; era a mesma, pequena e magra, cílio de gente, e surpreendeu-o, novamente, seu olhar, agora aberto e fixo.

“Clesley, preciso de ajuda no arquivo morto”, disse ela, declinando as margens das palavras e significados, menos um. Quietos, caminharam rumo ao depósito, e ouvindo-a suspirar fundo, exalar com força e abraçar-se como se desamparada, inquiriu se estava bem.

“Sim, tudo ótimo”, falou Jandira, abrindo a porta.

Envolveu-os a atmosfera quente do lugar, como se de suor, toca de animal. Ele entrou primeiro, e acostumando-se ao breu, porta fechada atrás, foi atacado: atirou-se ela combinando beijos, abraços, e num laço de língua encurralou-o entre desejo e culpa. Clesley cogitou fugir, mas suas intenções eram alheias, subordinadas a forças maiores. Jandira jogava-o de lá para cá com a maestria dos judocas, determinando por fim que se encontrasse sentada em cima de um balcão. O tempo, breve ali, curto ali, mal chegara a minuto, e tal calor de mulher o deixara homem, e grande. Afagando-o, demorou a livrar-se da calcinha e subir a saia; Clesley a tudo assistia, num transe de presa a ser abatida; abertas as pernas dela, concedida a entrada cujo negrume era visível mesmo na escuridão, disse ele, ajoelhando-se,

“JANDIRÃO!”

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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