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domingo, 25 de setembro de 2016

Ruptura


A vida de Gualdino Freixo, sempre acompanhada por uma corrente de consciência palradora, decorria num ramerrame pontuado pela regularidade pendular das refeições domésticas, a vacuidade dos programas televisivos e a futilidade dos seus passatempos, em que avultava o sudoku. Há muito tinha deixado a sua Beira Baixa para conquistar a grande capital, que muitas vezes se revelara uma amante perversa. “Porra!” acudia-lhe aos lábios quando se lembrava desses tempos de desenraizado.
Os beirões têm fama de laboriosos e diligentes, mas, nesse aspeto, Gualdino não era um beirão típico. Na sua meia-idade, cultivava uma postura ativa e vagamente agreste, como a árvore que lhe dava o sobrenome — Freixo —, mas estava sempre disposto a deixar para melhor oportunidade alguma tarefa agendada. Trabalhar e competir tinham tido o seu tempo. Agora, reformado e apaziguado dos antigos afãs, Gualdino só queria sossego, algum silêncio, e desfrutar a boa-vida. Junto a um sofá onde fazia umas sestas tinha um pequeno quadrinho com a frase: “Que bom é não fazer nada e depois descansar!”
Nessa manhã acordou com um auspicioso sinal: o consolo gratificante de uma ereção. Era uma prova de vida mais relevante que a habitual confirmação de poder mexer o dedo grande do pé em cada início de mais um dia. A sua mente, seduzida pelo contentamento do físico, deixou-se invadir por um júbilo sereno. O dia que aí vinha só podia correr bem.
Pouco depois de verificar que a manhã prenunciava brindá-lo com as primeiras chuvas de outono, pegou no caderninho com problemas de sudoku que o entretinha horas esquecidas e instalou-se ao comprido no sofá da salinha, cabeça no braço do lado da janela, para apanhar o máximo de luz no papel.
Desde novo que gostava de paciências, palavras cruzadas, puzzles, resolução de problemas. Andar à volta da questão, encontrar o fio da meada, prosseguir pouco a pouco até encontrar a solução, traziam-lhe um prazer intelectual dos mais saborosos. Cada número a descobrir no sudoku era, quase sempre, um problema autónomo por cuja solução havia que penar, mas tinha a paciência e a pretensa sabedoria dos beirões: “Grão a grão, enche a galinha o papo”, pensava, confiante. Nestas preocupações ociosas se empenhava.
Um sorriso subtil aflorou-lhe os lábios ao ouvir a chuva a bater na vidraça. Esticou os pés para a frente e para trás, que estalaram agradavelmente. Ia ser uma manhã daquelas!
Enquanto alguns dos seus ex-colegas tentavam continuar a ganhar dinheiro, e outros arranjavam depressões por se sentirem inúteis, Gualdino declarava que “Inútil” era o seu nome do meio e convivia bem com ele. “Quanto menos chatices, melhor.”
Na verdade, parecia que as procurava, mas daquelas que lhe davam prazer. Ultimamente, passara dos habituais problemas de sudoku de 9x9, para os enormes 16x16. No fim dessa manhã teve a satisfação orgástica de terminar um desses problemas que já o vinha deliciando havia três dias, como metodicamente anotara na margem do caderninho. “Ah, dia abençoado!”
Depois de almoço, como a chuva parara, a mulher foi fazer a caminhada habitual, mas Gualdino só a acompanhou até ao jardim próximo de sua casa. O tempo estava fresco e agora eram brancas, em borbotões de algodão, as nuvens que evoluíam no céu estranhamente luminoso. Durante um pouco, aceitou o jogo das formas para o qual estas nuvens, autónomas e bem delineadas, sempre convidavam. Uma pareceu-lhe o seu cão “pelo de arame” da infância no campo; outra, um torso feminino deitado. Cães de apartamento frustrados, na ânsia de encontrarem almas-gémeas pelo cheiro, arrastavam cinquentonas solitárias pela trela, ao longo das estreitas alamedas sinuosas em que já eram evidentes os despojos que o outono impõe às árvores. “Por baixo da roupa, todas vão nuas.”
Junto ao banco em que se sentara, chamou-lhe a atenção um formigueiro. Diligentes e sem hesitações, os insetos negros estavam a espalhar no chão em volta do buraco de entrada todos os haveres que a chuva da manhã tinha ensopado — sementes, pedaços de talos, folhas e carcaças de bichinhos vários. Depois de secos, voltariam a recolhê-los.
Sempre admirara os insetos sociais, a sua disciplina, a divisão do trabalho, a certeza das tarefas a executar. “Seria desejável uma sociedade humana semelhante à das formigas? Será que não há indivíduos que tenham dúvidas, que contestem a justeza das decisões, que se desalentem do esforço a realizar?” — perguntava-se.
Deu uma volta pausada pelo jardim. Num recanto onde a autarquia instalara mesa e cadeiras metálicas, um magote de outros reformados rodeava quatro compenetrados jogadores de sueca, saboreando provavelmente os seus requintes de estratégia. “Muito reformado há em Portugal!” Gualdino não se aproximou; cultivava o individualismo dos autossuficientes beirões. “Formigueiros, não!”
Uma nuvem tapou o sol por momentos e uma brisa fria fê-lo arrepiar-se. Regressou a casa, sentindo-se recomposto de físico e mente. À porta do prédio encontrou o tosco da cave esquerda. Estava agitado e falava atabalhoadamente:
Vizinho, já liguei para o piquete; o vizinho não estava, já liguei para o piquete para virem fechar a água. Veja como isto está!
O átrio de entrada, com um dedo de água, alimentava um estreito córrego que desaguava nas pedras do passeio e escorria para a valeta. O tapete de cânhamo estava ensopado. Um jorro bem visível nascia nas uniões das pedras de mármore da parede lateral esquerda, a meio metro do chão.
Oh, porra! — Gualdino percebeu que a bonança do dia acabava de sofrer uma reviravolta. Era ele o administrador do prédio e uma coisa destas significava chatice, muita chatice. “Não há bem que sempre dure…” — Mas donde é que vem a água? Será que foi alguma infiltração vinda do telhado? Esta manhã choveu…
Não, vizinho; isto deve ser da canalização. Também, com mais de quarenta anos…
Eles disseram se demoravam?
Já liguei há uma hora. Devem estar a chegar. Se o vizinho quiser, eu tenho um canalizador amigo que é muito competente. Quer que eu lhe ligue?
Não, deixe estar — defendeu-se Gualdino, desconfiado. — Com certeza que eles arranjam o que houver para arranjar.
Não se fie! Vai ver que só cortam a água e nós que nos desenrasquemos.
Na verdade, apareceu um indivíduo que tinha ar de poder arranjar uma briga ao menor atrito: cabeça rapada, olhar agressivo, poucas e sobranceiras palavras. Entrou no átrio, olhou fugazmente para a parede que vertia e saiu. Com um gancho, levantou uma pequena tampa redonda de cimento a meio do passeio, introduziu no buraco uma chave especial e deu-lhe várias voltas. O fluxo da parede amainou até só gotejar.
Vocês têm alguém que arranje isso? — lançou.
Não!; os vossos serviços não reparam os problemas com a água que abastecem? — devolveu Gualdino, meio perguntando, meio reclamando. — Aliás, o que acha que aconteceu?
Uma rotura na canalização; só pode; já dentro do vosso prédio. Desta torneira para lá é da vossa responsabilidade.
Gualdino estava a ver a vida a andar para trás. Ser administrador, até então, não lhe tinha dado nenhum problema.
Eu não reparo, não posso — retornou o mal-encarado —, mas se quiserem dou-lhes o contacto de um colega meu que pode vir cá, fora das horas de serviço.
Se fizer favor! — balbuciou Gualdino, derrotado. Percebeu que estava provavelmente a cair nas garras de alguma mafia das reparações, mas, que fazer?
Quando tiverem isso reparado, comuniquem connosco para virmos abrir a água — explicou, sobranceiro, o profissional do abre-fecha, enquanto estendia ao infeliz cidadão um cartão com um número de telefone.
Uma hora depois de Gualdino ligar, chegou o técnico contactado. Olhou, encostou o ouvido à parede do átrio, avaliou o local e declarou:
Têm aqui uma bela encrenca. Se vamos partir o mármore, corremos o risco de escavacar isto tudo e não darmos logo com a rotura. E o mais provável é que a canalização esteja toda podre. O melhor é passar um cano por fora da parede desde a rua, por cima da porta, até encontrar a continuação da canalização ali já na escada. É um trabalho mais limpo.
E em quanto é que isso nos fica? — tateava Gualdino, esperançado na resolução rápida do problema que secara as torneiras a todos os condóminos, mas preocupado com os míseros 100 euros da caixa. No banco pouco mais devia haver.
O técnico sacou da fita métrica e foi anotando os tamanhos dos vários trechos retos que o novo cano faria. Depois despediu-se:
Tenho de saber uns preços de material. Eu já lhe ligo.
Gualdino correu ao Multibanco a saber que saldo tinha a conta do condomínio: pouco mais de 400 euros. Comprou dois garrafões de água e levou-os à mulher. Passava das 19 horas, vizinhos entravam, queriam saber se teriam água para fazer o jantar, queriam respostas. Afixou um papel no átrio, ao lado da lista dos condóminos devedores, avisando que havia uma rotura e que, provavelmente, não seria reparada nesse dia.
De chofre, tomou consciência da falta que fazem alguns dos fornecimentos prosaicos que damos por certos: a água, a energia elétrica, o gás, até mesmo o telefone, a televisão ou a internet. “Se algum falta, instala-se a perturbação nas famílias. Comparando, um transtorno quase tão grande como sobreveio às que perderam dois ordenados anuais, por desgoverno dos governos. É desagradável, é, cria desconforto e revolta, mas que desordem se instalaria se faltasse ao mesmo tempo a água, a energia elétrica e todos os outros bens essenciais, incluindo a comida? Deve ser um equivalente terramoto na vida que experimenta quem fica desempregado. Aí, sim, deve ser o caos. E todos os dias estão a fechar dezenas de empresas.”
Ligou para o técnico. “1500 euros!” foi o preço que ouviu. Se quisessem fatura eram mais 23%. “Porra!” Gualdino parou de respirar. 1500! Não tinha grande noção de preços, mas esperava muito menos. Só pensava que estava tramado. “Sem dinheiro para a reparação, o que lhes restava? Ficarem sem água?”
Não temos tanto dinheiro; somos só dez condóminos e há vários com dificuldades.
O técnico argumentou que o problema era deles, que o material é caro mas é bom, que o prédio ficaria com uma instalação garantida, mas que ia refazer as contas e já voltava a ligar.
Gualdino começou a elencar as possibilidades e as alternativas. A mais óbvia era tentar arranjar alguém que fizesse a reparação por um preço menor. Foi à sua lista dos cartões que lhe apareciam na caixa de correio a oferecer todo o tipo de serviços e começou a contactar os canalizadores um a um. Dos que atenderam, vários escusaram-se, dizendo que estavam cheios de trabalho, mas dois prometeram aparecer de manhã — “9, 10 horas” — e outro logo depois de almoço. O amigo do vizinho da cave disse que vinha ainda nessa noite.
Que fazer a seguir? A diferença entre o orçamento recebido há pouco e o dinheiro de que dispunham era abismal. Sem prejuízo de uma melhor proposta, era evidente que tinha de arranjar mais dinheiro. Sabia de cor a lista dos cinco devedores e quanto deviam. Começou pelo condómino da cave esquerda, o que tinha andado o tempo todo por ali:
Ouviu o que eles levam, Sr. Inácio? O senhor não consegue pagar o que está a dever? Ou pelo menos parte?
Ó, vizinho, não posso. Como sabe, tenho esta situação: desempregado e com a minha mãe à minha conta… A minha mulher é a única que ganha alguma coisa, mas como mulher-a-dias, já vê… E tenho o miúdo a estudar — explicou-se contristado. — Vamos lá ver se não tenho de entregar a casa ao banco…
É uma gaita!”, pensou Gualdino. O que ele dizia era verdade, mas sentia que à conta das dificuldades se ia aproveitando.
O vizinho tem a sua razão, mas quem não tem problemas? Agora, com este berbicacho, todos temos de ajudar, senão ficamos sem água… Já viu? — atirou ainda Gualdino para a parede em que se tinha transformado a lamúria do homem. A seguir, foi à gorda do segundo direito:
Boa noite, Dona Conceição, desde há bocadinho — começou Gualdino cortesmente, mas com vontade, há muito, de lhe chamar uns nomes feios. — Não vamos ter água hoje. E amanhã, não sei. Estamos com um grande problema. Os técnicos levam 1500 euros e nós só temos 500. A senhora não consegue pagar alguma coisa das quotas em atraso?
Então, o seguro que pague o arranjo, não é? — devolveu ela, impante.
Gualdino olhou-a com um misto de tristeza e animosidade. “Esta vaca tem o descaramento de falar em seguro do prédio quando está a dever três anos de quotas de condomínio?” Suavizou:
Já há um ano e tal que não temos seguro, Dona Conceição. A administração não tem dinheiro nem para a limpeza da escada. Não se lembra que na reunião combinámos que cada um limpava a sua parte por não haver dinheiro para a mulher da limpeza?
A faltosa pareceu ficar surpreendida. “Como é possível que haja pessoas tão indiferentes ao governo do prédio?” Aventou o impensável para Gualdino:
Podia pedir-se um empréstimo ao banco… Se se explicasse que era para obras…
Ó, Dona Conceição, não diga mais nada! — eriçou-se Gualdino, que não tinha cartão de crédito e era ferozmente contra os empréstimos. Só comprava o que precisava depois de juntar o dinheiro necessário. — E quem é que o paga, sou eu? Ou acha que os empréstimos não se pagam? Peça-o a senhora, que os três anos de quotas muita falta fazem ao condomínio. Francamente! A senhora desculpe, mas em vez de andar com um telemóvel de 300 euros bem podia pagar o que deve.
Eu ando com o que eu quiser, e o senhor não tem nada com isso. Nem o senhor nem ninguém. Comprei-o, estou a pagá-lo, é meu. Se o arranjei é porque preciso.
Precisa para quê? Qualquer telemóvel de 30 euros dá para ligar para todo o lado…
Preciso! E agora? Quero ir à internet onde me apetece — respondeu a consumista com menor exaltação do que Gualdino esperava. — E também tem GPS. Mas em relação às quotas, digo-lhe mais: eu só pago quando todos pagarem, que eu não estou para andar a trabalhar para os outros. De qualquer maneira, agora também não tenho dinheiro.
Pois, se o gasta em juros! — sibilou Gualdino. — Quem se estende mais que a cama…
A devedora acabou por prometer tentar arranjar 100 euros no fim do mês. Gualdino não disse que no fim do mês já não vinha a tempo para o problema de “agora”, mas agradeceu. A seguir ligou para duas condóminas que não viviam no prédio, mas tinham as casas arrendadas. Uma começou por dizer que não devia nada, mas depois de confrontada com a leitura do texto da ata, prometeu enviar um cheque no valor de um ano: 200 euros. A outra combinou que o seu advogado receberia Gualdino dentro de dias para efetuar o pagamento dos dois anos em atraso, mas frisou que queria que a reparação fosse feita “com fatura”, talvez para se dar ares de cumpridora fiscal, o que Gualdino duvidava. Pouco depois, o técnico ligou:
Olhe, senhor… não me lembro do seu nome, desculpe; eu consigo fazer por 1300 euros, mas isso é um trabalho em que praticamente já não ganho nada. Se quiser, posso começar amanhã, lá para as 3 da tarde, que eu tenho o serviço de manhã.
Gualdino, entre a espada e a parede, optou pela espada, reafirmando que não havia tanto dinheiro e que ia tentar arranjar uma solução mais barata. Vizinhos desciam, perguntavam pela reparação, resmungavam, saíam e voltavam com garrafões de água, faziam comentários: “Isto só no nosso prédio!”, “são sempre os mesmos a pagar”, “a administração devia fazer alguma coisa”, “também vou deixar de pagar”. Entretanto, chegou o amigo do tosco da cave. Olhou, apurou o ouvido de encontro à parede, fez medições. Era da mesma opinião do técnico dos serviços de águas: passar um cano por fora da parede.
1200 euros! Os senhores não arranjam mais barato. Mas têm de me adiantar pelo menos metade do dinheiro para eu comprar o material. Se estiverem de acordo, tenho isto pronto antes do meio-dia de amanhã. Já podem cozinhar o almoço.
Gualdino não respondeu, pensativo: “1200! Com sorte, talvez para o fim do mês possa ter esse dinheiro. E até lá? Uma coisa é certa: só me renderei depois de esgotar todas as possibilidades.”
Veja lá! Hoje é quinta; se demora muito a decidir, mete-se o fim-de-semana e depois só segunda-feira — chantageou o canalizador dos dias úteis.
Gualdino deitou-se cedo, mas dormiu inquieto. Sonhou que caminhava por uma planície árida e pedregosa, tropeçando a cada passo, e angustiado por não encontrar uma fonte que lhe matasse a sede que o consumia. Acordou desejando que o novo dia resolvesse a chatice em que estavam metidos, mas os deuses que gerem as arrelias pareciam estar divertidos, quais espectadores de um reality show da moda.
Os dois canalizadores, que tinham marcado para meio da manhã, não apareceram. Gualdino foi para a internet procurar mais contactos e marcou mais visitas.
O emproado do terceiro direito, numa das passagens pelo átrio, interpelou Gualdino.
Ó, senhor administrador, nós precisamos de água em casa. Mais 100 menos 100, é irrelevante. O senhor desculpe, mas parece que anda a brincar aos orçamentos. Por favor, não nos faça andar mais dias sem tomar banho.
O senhor Ferreira empresta o dinheiro? É que sem dinheiro eles não reparam — ironizou Gualdino, provocador.
Não há dinheiro porque o senhor administrador não se impôs a cobrar as quotas, como era seu dever. Não lhe ficava mal adiantar o dinheiro.
Não diga isso, senhor Ferreira. Pensa que eu vivo à larga? As dívidas já vêm da administração anterior, algumas até da sua, quando alguns condóminos deixaram de pagar, revoltados por o senhor ter gasto o fundo de reserva com obras desnecessárias. Mas, olhe, até estou satisfeito que isto tenha acontecido, para ver se as pessoas percebem que é preciso pagar para as despesas de condomínio, as indispensáveis, claro.
Pode esperar sentado. E se eu tiver algum prejuízo com esta falta de água vou responsabilizá-lo por isso — ameaçou Ferreira, enquanto se afastava abanando a cabeça.
Por volta das 5 da tarde surgiu uma novidade: um canalizador que dizia ter um método inovador. Era duma empresa com um nome a condizer — Mão Mágica — e que fazia todo o tipo de reparações domésticas. Propunha-se partir a parede, encontrar a rotura e aplicar uma manga vedante no cano roto. Não seria preciso passar um tubo por fora. Para saber onde partir, dizia ter um detetor de metais. Preço? 600 euros. Já com o IVA incluído.
Os olhos de Gualdino brilharam. O preço era irresistível. Depois de saber que o prédio poderia voltar a ter água “lá para as 9”, assinou alegremente a autorização para o início da reparação. Logo o “mãozinhas mágicas” começou a trazer material da carrinha, apoiado por um ajudante. Gualdino cooperou, ligando uma extensão elétrica em casa da velha do rés-do-chão esquerdo. Quando pôs o pé fora de casa dela, a rajada: Tatatatata! Atirou-se para o chão, o terror estampado no rosto colado ao piso, enquanto estilhaços voavam por todos os lados. A flagelação apanhara-o mais uma vez na zona de morte. Tentou ser racional. Não se sentia ferido. Era preciso reagir, mas estava demasiado aterrorizado. A rajada parou.
Ó, senhor, sente-se bem? — perguntava ansioso o ajudante do canalizador. Este também o olhava surpreendido.
Gualdino levantou-se, olhos incrédulos, suores frios a banharem-lhe a camisa. O canalizador tinha começado a escavacar a parede de mármore com um pesado berbequim. Fora o barulho martelado da ferramenta que fizera Gualdino reviver o pesadelo de uma emboscada numa picada angolana, durante o serviço militar. Já fora há tanto tempo, mas de quando em quando ainda acordava a gritar. Pediu desculpa e recolheu-se a casa. Por pouco tempo. O canalizador apareceu logo a seguir, informando:
Já abrimos a parede. Estão cheios de sorte: o cano está bom, só tem aquela rotura. O senhor faça-me um favor: ligue para os serviços de águas a pedir que venham fazer a ligação, enquanto eu vou comprar material. Não demoro nada.
Gualdino desceu ao átrio pejado de pedaços de mármore e tijolo. Dentro do rasgo de meio metro de largura da parede via-se um troço de cano metálico de uns seis ou sete centímetros de diâmetro. Um quarto de hora depois, chegou o técnico dos serviços de águas e postou-se junto à torneira mestra, de chave na mão, pronto a atuar. Passado mais outro quarto de hora, começou a impacientar-se:
Vocês metem-se com profissionais da treta… Eu não posso ficar aqui à espera deles. Vou-me embora, que ainda tenho de cortar a água a dois que não pagaram a conta.
E foi-se. Gualdino esperou mais meia hora, enquanto ia ouvindo a ladainha das queixas e dos remoques mais ou menos explícitos dos vizinhos. Quando o canalizador voltou, rapidamente aplicou duas meias cânulas forradas a borracha, de uns dez centímetros de comprimento, mutuamente aparafusadas a envolver o cano roto. Parecia demasiado simples. “Se é só isto, é caro!” Como que por telepatia apareceu o técnico e abriu a água. Um silvo aquático fez-se ouvir, enquanto um fino mas potente jato de água se escapava da face escondida do cano e encharcava o interior da parede. O técnico voltou a fechar a água, enquanto resmungava um “profissionais da treta”.
Quando tiverem a reparação pronta, voltem a ligar para os serviços! — avisou, antes de se ausentar. — Mas, já sabem: cada deslocação são 50 euros. Vem tudo na próxima fatura.
O canalizador, vagamente embaraçado, tateava a superfície curva do cano. Em seguida aplicou um segundo par de meias cânulas na zona danificada. Não demorou mais de dez minutos. Depois começou a arrumar a ferramenta, instando o ajudante para que varresse os detritos e a água que tinham transformado o átrio num charco pedregoso, o que este foi fazendo com grandes delongas. Na verdade, tempo não faltava. O técnico acabou por aparecer mais de uma hora depois de ser chamado. Finalmente, mais de 24 horas depois do início da tormenta, a água voltou às torneiras do prédio nº 74 da rua Finisterra, sem mais contratempos. O cano mantinha-se seco após a abertura total da torneira mestra. Gualdino quase se comoveu com o fim do calvário a que tinha estado submetido. Nessa noite iria dormir muito bem e no dia seguinte poderia voltar à confortável calma do ramerrame quotidiano, com um ou outro passeio pelo jardim, as divagações da consciência, os programas tontos da televisão, e sobretudo o seu sudoku.
Um mês depois, recebeu uma carta da Mão Mágica na qual se pedia o pagamento de 48,99 euros referente à primeira prestação mensal do contrato de manutenção da canalização do condomínio. Gualdino ligou imediatamente para a empresa, ficando a saber que tinha assinado um contrato de manutenção anual, automaticamente renovável, cujo prémio não estava incluído nos 600 euros que tinha pago em cheque ao canalizador.
Porra! Quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos!
Definitivamente, os bons e calmos tempos tinham acabado. “Os puzzles da vida social são bem mais traiçoeiros que os do papel.” Adivinhava já os múltiplos contactos com a Defesa do Consumidor, as tentativas de conciliação em algum Julgado de Paz, os meses a passar. Estava certo de que esse ano lhe ia ficar na lembrança como “o ano da ruptura”. Paradoxalmente, a perspetiva não lhe era completamente desagradável. A possibilidade de uma boa briga legal sempre o inflamara. “Muito ovo põe a pita, mas a zorra é que arrebita.”

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Edvard Munch, Autorretrato em frente de casa, 1926.

(Este conto obteve o 7º lugar, na categoria “Conto de autor Adulto”, no Concurso “Cidade do Penedo de Poesia e Conto/2015”, promovido pela Academia Penedense de Letras, Artes, Cultura e Ciências, Penedo, Brasil.)

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


2 comentários:

Li, achei muito interessante e podes mandar sempre que escrevas um novo; podes mandar-me uma cópia para este e-mail. Já não te vejo há muito. Tudo bem contigo? Um abraço. Carlos Quinas

Obrigado! Continuarei a enviar-te os links dos contos e não os contos. Serve para eu perceber quantas pessoas entram neles. :)
Sim, já não te vejo há 10–11 anos. A reforma dá-se bem comigo. Ou será o inverso?
Abraço!

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