Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Goldbach e Fifi



Três horas da manhã em um beco escuro, e o crânio de Goldbach, agora tão volátil quanto o sistema judiciário brasileiro, era arremessado contra o asfalto. Muito eu perdoo nesta vida, refletia Goldbach, muito, e se Deus existe ele deve saber disso e por consequência ou paralelismo me perdoar também – ou, ao menos, saber como crucificar alguém usando menos pregos e drama e mais efeitos pirotécnicos. Mas, convenhamos, o que esperar de Quem não institui um bom serviço de atendimento ao consumidor? Muito eu perdoo – refletia o confuso detetive, cuja face, então, assemelhava-se a um ensopado de má-vontade oferecido a indigentes – e perdoo mesmo, como o fato de esse brutamontes não passar álcool gel nos dedos para arrancar meus olhos. Isso eu perdoo. Agora, gente, como perdoar o fato de ele usar o mesmíssimo ‘look’ outono-inverno que eu?

Enquanto o gigante ítalo-metrossexual-caucasiano-cis-americano o asfixiava, zelando pela constituição das unhas redondas e bem feitas, Goldbach recordava-se dos motivos para tanto. Aproveitava ele a festa de aniversário do chefe de todos os chefes – Giuseppe Del Minipippi, mais conhecido como ‘O Genovês Assassino’ ou “Aquele que sempre entope a privada’ – discutindo com o prefeito e sua esposa inflável sobre o uso de japoneses como animais de estimação quando foi abordado pela filha de Minipippi, Amanda. Criança de cinco anos, a menina tinha bigode ou porque alimentava-se de vegetais adulterados geneticamente ou porque desejava ser dona de boteco. Era magrinha e sardenta, de cabelos encaracolados (caracol do tipo quintal, e não do tipo escargot). Sorrindo, ofereceu-o uma bandeja cheia de pratinhos coloridos, vazios.

Goldbach aceitou a oferta e degustou da refeição imaginária. Elogiou-a usando os mais nobres adjetivos, além de outros inventados, como ‘arg’, ‘eca’, e ‘ugh’. Depois discretamente livrou-se dela ao falar que havia um escorpião africano na sua cabeleira.

Em casa, o detetive libertou o senso de justiça tão comum aos homens da lei e resenhou a refeição imaginária em seu blog, Goldbach23cm.com, acusando-a de intragável, horrível, a pior que ele jamais havia e haveria de provar. A resenha, mostrando-se viral, logo foi publicada como introdução para as obras completas de William Shakespeare (o borracheiro da esquina, não o dramaturgo inglês). Amanda ficou sabendo das críticas por intermédio da babá, a mexicana Andradina, mulher que há anos usava o pênis de Goldbach como terapia experimental para esquecer os maus tratos do pai. Nisso, atormentada pelo ocorrido, Amanda tentou se matar engolindo um sapato importado, e só não o conseguiu porque colocara maionese demais nele, o que lhe dava enjoos.

Furioso por abusarem de sua garotinha, ou por estar com coceira no dedo mindinho do pé, Minipippi enviou o mais forte dos subalternos para ensinar uma lição de casa a Goldbach, que no momento estava sem caderno, lápis e borracha. O soldado, de nome Fifi, expôs então a decisão de arrebentar a cabeça do detetive e usá-la como peso artesanal de papel ou porta, sendo logo alertado pelo detetive:

- Minha cabeça não vai combinar com cortinas de tom claro, seu bastardo!

Naquele instante Fifi segurou-o pelo pescoço, ignorando o comentário apesar de Goldbach saber que havia tocado em um ponto sensível. Um homem há de ser imune a muito, ao universo em si, mas não ao fato de que o crânio do inimigo vai arruinar a decoração da sala.

Fifi, cansado, parou por um momento e levantou-se, ajeitando o cabelo de cerdas finas e lustrosas. Aproveitando a ocasião, Goldbach sacou o revólver que escondia no mais obscuro dos lugares – a sua baixa autoestima – e disparou seis tiros que atingiram o coração do homem, furando a língua de sua gravata com motivo de pequenas flores, pássaros e dinossauros. Lembrando um morto-vivo grotesco ou sua ex-esposa, Fifi caiu por cima do detetive, que agia como qualquer cidadão em uma situação de risco: gritando estridentemente.

Antes de desfalecer, Fifi encarou Goldbach; disse, eu só quis machucá-lo porque o amava.

Share


Erik K. Weber
Gaúcho.






0 comentários:

Postar um comentário