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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Como se tudo pudesse passar



Na vingança e no amor, a mulher 
é mais cruel que o homem.
               (Friedrich Nietzsche, em Além do Bem e do Mal)


Logo mais, ela contemplará o corpo estendido sobre a cama de madeira escura. E vai rir de si mesma. Justo ela, cometer assim uma morte tão desordenada. Ela, que não aceita dobras nos lençóis, que guarda tudo nos armários sem ajuda das empregadas, que inspeciona a cozinha no fim do dia, que manda recolher as migalhas de pão da mesa num pote de vidro com tampa, que usa uma blusa apenas uma vez, que passa o fio dental toda hora. E quando estiver ajeitando os travesseiros sob o corpo ensanguentado vai pensar no quanto é bonita aquela puta. Por que os homens sempre escolhem as mais jovens? Bonita demais, a desgraçada. Nem ela mesma tinha sido assim quando era jovem. Jovem. Que besteira! Não é por aí, não é por aí, repetirá mentalmente enquanto estiver caminhando pelo corredor comprido, cheirando à comida de hora do almoço. Logo mais. Quando ela se surpreenderá com o prédio meia-boca no qual mora a cadela. Velho, barato, familiar. Sem um porteiro na entrada para se lembrar dela mais tarde. E os olhos se encherão de um choro de raiva pela certeza de que aquela mulher devia valer alguma coisa. Senão ele teria dado a ela uma casa de luxo; um cala a boca para depois que a abandonasse pela próxima. Não há próxima. Faz dois anos que ele não se cansa da piranha. Não cansa, não cansa. Quem cansou foi ela. De esticar as rugas, de só comer salada, de fingir que não sabe e não vê, de manter o cabelo longo, apesar de as amigas acharem o comprimento inadequado para uma senhora. Senhora. Que merda! Senhora é a ladeira abaixo da existência. Do sexo gostoso, do riso alto, dos porres de tropeçar nas pernas. Senhoras não podem. Quase nada. É feio ser senhora e querer, e fazer, e imaginar.
Mais tarde, quando chegar ao apartamento da vadia, vai ficar um tempo sem tocar a campainha, olhando para o número na porta: 305, 305, 305, 305... O coração cumprindo performance padrão: apertado no peito, acelerado. As mãos com as luvas de látex, calçadas nas escadas pouco antes, estarão escondidas nos bolsos do casaco. E, apesar do calor, ninguém vai mesmo reparar no absurdo daquela senhora de casaco preto, porque ninguém repara nas senhoras, ou repara pouco. Em frente à porta, nos instantes em que ela vai parar para saborear o que está por vir — e sobre os quais uma possível testemunha dramática dirá que foram segundos de arrependimento e dúvida —, apertará o cabo da pistola no bolso fundo do casaco, masturbando a morte. E terá orgulho de si mesma por ter pensado num silenciador. E se sentirá feliz porque as senhoras não são consideradas suspeitas. Não as que cumprimentam os vizinhos e jogam baralho com as amigas todas as quintas-feiras e são caridosas e vão à missa de domingo e têm netos crescidos e aceitam a ajuda de braços e mãos para se levantar das cadeiras ou para atravessar as ruas. 
O rosto atrás da porta. Primeiro, indiferente. Depois, compadecido. E ela sentirá subir à boca, junto com o vômito, todo o ódio dos anos cheios de outras, toda a fúria disfarçada pela educação recebida nos melhores colégios para moças. Com a arma apontada, vai obrigar a desgraçada a se deitar. Tão vadia, tão piranha. E tão menina. Esplêndida, naquela cama onde o cheiro do macho dividido por elas comprovará a comunhão perversa. Haverá, sempre haverá, um momento de dúvida. Não por pena ou medo ou covardia. Mas porque ela se lembrará da extensão do que precisa fazer. E isso vai doer. Como vai doer naquela puta o tiro no peito. Que não vai matá-la imediatamente, que a deixará sofrendo para que ela sinta na cara, no corpo os socos seguidos, coléricos, guardados por tempo demais. Pena não poder usar as unhas para rasgar a carne inconsequente da vagabunda. Mas o último tiro vai arrancar a beleza e o pecado daquele rosto desenhado a cinzel. 
Após ficar exausta, ela ajeitará o corpo deformado sobre a cama e colocará sob a cabeça da morta os travesseiros com fronhas de algodão egípcio, lamentando que um tecido tão lindo seja manchado pelo sangue escorrendo. Em seguida, penteará os cabelos compridos da menina. E se sentará ao lado dela para esperar por ele.
Quando atirar na têmpora do marido, ela também vai morrer. Em parte. A parte do amor que não bastou. A parte que a faz se sentir culpada por ser pouco mulher, pouco amante, pouco capaz de impedir tanta traição. A parte imunda, cancerosa que mora dentro dela faz anos. Mas a outra parte, a que pede vingança, se imporá. E ela colocará na mão dele a pistola recém-disparada. Na mão certa. Porque não poderá haver erros. Nunca mais. Então, limpará todos os seus rastros no apartamento e sairá para o corredor comprido depois de se certificar de que ninguém está lá para vê-la. Vai levar consigo apenas a fúria. Trancada para sempre dentro dela. 

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


10 comentários:

porra vale que eu vivo longe :)
soberbo Cinthia!!

Obrigada, Maria de Fátima! Bjsss

«Senhora é a ladeira abaixo da existência» - Muito bom. Todo.

Cinthia querida, seus contos sempre me estremecem.
Bj
Luci

Uau! Que escândalo! "Senhora é a ladeira abaixo da existência." Parabéns.

Obrigada, Luci e Maria Amélia! 😘

Ah, Cinthia! É para aplaudir de pé! EMaravilhoso!

Uauuuuuuuu...Parei porque fiquei sem fôlego Cinthia!! Quanta fúria numa mulher machucada em seu amor próprio! Adorei!!!

Obrigada, Emerson e Roseli! Isso mesmo, quanta fúria, não?

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