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domingo, 10 de julho de 2016

Por que o Reino Unido quer sair da União Europeia?


Henry Alfred Bugalho

Nos últimos dias, algumas pessoas têm me perguntado o porquê de os britânicos terem votado para sair da União Europeia e o que eu penso sobre isto.

Primeiro, precisamos compreender o contexto que conduziu a este desastroso momento histórico.
A União Europeia foi criada, inicialmente, em 1957, com uma proposta para reforçar os laços comerciais entre os países europeus após a Segunda Guerra Mundial. Os países membros fundadores eram a Alemanha Ocidental, a França, a Holanda, a Itália, a Bélgica e Luxemburgo, e, se chamava então Comunidade Econômica Europeia. Como vocês podem ver, o Reino Unido não fazia parte deste primeiro acordo, só se juntando ao grupo em 1973.
Em 1992, este acordo mudou o nome para União Europeia e, desde então, tem seguido na direção de uma unificação cada vez mais profunda das instituições. Atualmente, se ainda contarmos o Reino Unido, 28 países fazem parte da União. Em 2002, foi criado o euro, uma moeda única para todo o bloco, mas que não foi adotada pelo Reino Unido, que permaneceu com a libra esterlina.
Até hoje o euro é motivo de divergências, pois ele teve como base as moedas fortes da Alemanha (com o marco alemão) e da França (o franco), o que fez que o custo de vida aumentasse em países mais pobres, como a Espanha (com a peseta), a Itália (com a lira) e a Grécia (com o dracma). Uma das razões pelas quais o Reino Unido se recusou a abandonar a libra esterlina em favor do euro foi por causa da força de sua moeda, o que implicaria em desvalorização do dinheiro. No entanto, desde o princípio, o Reino Unido foi a ovelha negra da União Europeia, opondo-se a vários projetos de integração do bloco.
Um deles é a Zona Schengen, que se trata de uma vasta área na Europa sem fronteiras, pela qual você pode circular sem a necessidade de passar por controles de fronteira. Inclusive, até alguns países que não fazem parte da União Europeia, como a Suíça, a Noruega ou Islândia, fazem parte da Zona Schengen. O Reino Unido não faz parte da Zona Schengen, portanto, se você for viajar à Inglaterra partindo de algum país europeu, terá de passar, mesmo se for cidadão europeu, pelo controle de imigração.

Os 4 princípios básicos da União Europeia são: livre circulação de capital, mercadorias, pessoas e serviços, ou seja, qualquer cidadão de qualquer país europeu pode viver e trabalhar em qualquer outro país europeu. E isto é um dos problemas centrais que motivou a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia: a imigração.
Uma das promessas do ex-primeiro ministro David Cameron era a de reduzir os atuais índices de imigração, que gira em torno de 330 mil novas pessoas chegando ao Reino Unido todos os anos. Deste número, apenas uns 180 mil são de europeus, o restante destes imigrantes é de pessoas de outros países, principalmente do Commonwealth, que engloba principalmente ex-colônias britânicas, como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Índia, Paquistão, Jamaica, Canadá, e por aí vai. Há muito mais imigrantes de outros países do que europeus no Reino Unido, mas isto, para o discurso xenófobo que se instaurou, não importa.

Outro argumento para a saída do Reino Unido da UE é a contribuição anual do país ao orçamento do bloco, que gira em torno de 10 bilhões de libras ao ano, após a restituição.
O que acontece é que todos os países pertencentes ao bloco precisam fazer esta contribuição (que não é voluntária) de acordo com o seu PIB, ou seja, os países mais ricos contribuem mais do que os pobres, que muitas vezes recebem uma retribuição superior ao que contribuíram. A ideia por detrás disto é permitir o desenvolvimento de regiões mais problemáticas do bloco, assim gerando uma riqueza mais igualitária entre os vários países europeus, sendo utilizado para investimentos em infraestrutura e subsídios agrícolas, para pesca, para pesquisa universitária, e assim por diante.
Só que o que funciona na teoria não funciona tão bem na prática, e países como a Grécia, Portugal e Espanha, quando viram a grana entrar, passaram a fazer gastos públicos imensos, com déficits assustadores. Só para você ter uma ideia, a Espanha tem uma das maiores malhas de trens de alta velocidade da Europa e hospitais de última geração que você não encontra na Inglaterra.
O Reino Unido é o segundo país que mais contribui para este fundo depois da Alemanha. Um dos argumentos dos políticos a favor de deixar a UE é que não faz sentido enviar esta dinheirama para o bloco decidir o que fará com ele e como o Reino Unido deverá utilizá-lo depois.

O terceiro argumento do Reino Unido é a tremenda burocracia e lentidão nas decisões da UE. Caso não fizessem parte do bloco, o país poderia negociar diretamente com parceiros comerciais sem a necessidade de aprovação e votação na UE.

Por fim, o último argumento do Reino Unido é que a crescente unificação da UE visa a criação de um super-Estado europeu que retiraria a autonomia política de cada país. Um dos principais discursos da campanha para deixar a UE era "tomar conta de novo do nosso país", fundado numa noção de soberania perdida.

Em fevereiro deste ano, David Cameron tentou negociar um status especial para o Reino Unido, impondo algumas condições para o país permanecer na União Europeia. Ele conseguiu algumas concessões, como a restrição de alguns benefícios a imigrantes europeus recém-chegados.

Acho que, neste ponto, é importante explicar como funciona o sistema de assistencialismo do governo britânico: existem incontáveis benefícios que as pessoas podem receber (tipo as bolsas-família no Brasil), mesmo para aqueles que estão trabalhando. O quanto a pessoa recebe depende de sua renda, mas, em muitos casos, quando alguém tem muitos filhos, pode ser mais vantajoso viver de benefícios do que trabalhar de fato recebendo salário mínimo (que fica em torno de umas 1200 libras ao mês).
Há muitíssimos britânicos vivendo exclusivamente de benefícios, e também uma porção de imigrantes, embora a proporção seja muito inferior.
O governo (e as pessoas) acreditam que muitos se mudam para o Reino Unido por causa dos benefícios e que, se eles fossem cortados por um período de 4 anos para os recém-chegados, isto desmotivaria muita gente de ir para o país.
Só que isto está longe de ser verdade. A maioria dos imigrantes está interessada em trabalhar de fato, principalmente porque a economia do Reino Unido é muito mais aquecida e há muito mais oportunidades de emprego do que em outros países europeus como Espanha, Itália, Portugal ou Polônia, aliás, os poloneses representam o maior percentual de imigrantes europeus no Reino Unido e têm sido os primeiros alvos de ataques xenófobos desde o fim do referendo.

Porém, o pacote proposto pela União Europeia não pareceu ser o suficiente para muita gente no Reino Unido, portanto David Cameron deu prosseguimento à votação do referendo para a permanência ou não do país na UE, que havia sido uma das promessas feitas por ele para aplacar a crescente ala ultraconservadora do Parlamento Britânico, encabeçada pela imbecil figura de Nigel Farage do partido UKIP, que é uma espécie de Bolsonaro britânico; inclusive, ele foi alvo de pesadas críticas quando exibiu uma foto de uma multidão de refugiados sírios na Europa com o texto "Ponto de Ruptura", que se parecia muito com umas das propagandas veiculadas por Goebbles na Alemanha nazista.
Este campanha, que ficou conhecida como Brexit (uma abreviação de Great Britain + Exit, ou seja, Grã-Bretanha + Saída) foi inspirada principalmente na xenofobia e no discurso nacionalista, algo que ninguém imaginava que ocorreria num continente que foi devastado por causa do nazismo e do fascismo.

O que acontece é que há uma clara divisão de classes sociais no Reino Unido, entre as elites e a classe dos trabalhadores (muitos destes que não trabalham, mas vivem de benefícios). Basta lembrar que Marx e Engels escreveram muitos dos seus livros, tratados e manifestos sobre a classe trabalhadora enquanto residiam na Inglaterra, e embora isto tenha mudado bastante em todos estes anos, a divisão (e a luta) de classes ainda é muito presente, e foram principalmente estas pessoas que votaram para deixar a UE.
Outro conflito foi geracional. Um grande percentual de pessoas com idade superior a 45 anos votou para deixar a UE, talvez tendo em mente outra noção de país, provavelmente sem esta "invasão" de imigrantes, enquanto que a maioria dos mais jovens votou para permanecer na UE.

Além disto, outro conflito foi de região. Boa parte da Inglaterra (excetuando algumas cidades como Londres, Manchester, Liverpool, etc.) e País de Gales votaram para sair da UE, enquanto que a maioria dos cidadão da Escócia e da Irlanda do Norte, que se beneficiam mais das retribuições do orçamento da UE, votou para ficar.
E isto porá mais lenha na fogueira para o movimento independentista da Escócia. Em 2014, a Escócia também havia feito um referendo, só que este era para decidir se a Escócia se tornaria independente do Reino Unido. O "não" ganhou principalmente com base no argumento que, se a Escócia deixasse o Reino Unido, o país seria excluído do livre comércio com a União Europeia e sofreria grandes perdas econômicas. Além disto, o governo britânico prometeu a eles que, se eles votassem contra a independência, ele não poria em risco a participação do país na UE. Portanto, é fácil entender porque os escoceses estão se sentindo traídos após este referendo de agora, e estão cogitando a possibilidade de abandonar o Reino Unido e permanecer na UE.
Ou seja, no final das contas, a luta pela soberania britânica pode significar também o fim do Reino Unido.

Mas o país realmente deixará a União Europeia?
Ninguém sabe ao certo. Eles precisam agora acionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa que inicia o desligamento da União Europeia. No entanto, nenhum outro país fez isto antes, portanto, ninguém sabe ao certo quanto tempo levará para o Reino Unido se desenrolar do complexo sistema de leis e tratados da União Europeia. O prazo inicial é de dois anos, mas, ao todo, isto pode levar até uma década.
Os mercados estão nervosos e os economistas prevêm que o Reino Unido entrará em recessão, que muitas empresas deixarão Londres, que era o centro financeiro da UE, para se mudarem para a Europa Continental, que a libra continuará se desvalorizando e que o Reino Unido perderá muito da sua relevância política global.
Outra consequência, que é o que já estamos vendo, será a reação negativa contra imigrantes, que tende a se acentuar ainda mais principalmente após líderes do Brexit terem afirmado que não há meios para controlar a imigração, ou seja, que nada mudará.
E caso a saída realmente ocorra, os líderes dos países europeus já demonstraram que jogarão duro contra o Reino Unido, que não farão concessões, pois temem que o Brexit contagie outros países europeus e causem o desmantelamento da União Europeia.
O fato é que poucos realmente acreditavam que o Reino Unido votaria para deixar a UE, e muitos britânicos já estão arrependidos do resultado.

Agora só nos resta aguardar pelo desfecho desta cagada histórica.

(Assistir ao vídeo sobre este tema aqui)

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1 comentários:

Excelente, Henry! Obrigado por esta valiosa colaboração!

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