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quinta-feira, 28 de julho de 2016

BANDIDO



Bandido era bicho de estimação da mãe idosa de minha vizinha. Os três moravam no 606, aqui mesmo, no Edifício Olympya, dois andares acima do meu. O gato não incomodava ninguém. Raramente era visto pelos corredores do prédio. Nem sequer miava. Um santo. Já a velha, dia e noite, aos gritos, pedia pela presença da filha. Chamava-a de muitas coisas, mas nunca pelo nome de batismo. Apenas ao animal a velha dirigia carinho, e dele jamais ganhara sequer um ronronar de agradecimento. Bandido era só fome e silêncio. Um anjo.

Depois da morte materna, minha vizinha herdou o apartamento e o gato. Não apreciava a companhia de nenhum dos dois, mas não tinha para onde ir e nem quem lhe estendesse amizade. O ranço materno havia destruído qualquer possibilidade daquela jovem senhora estrear uma história diferente. A velhice já se desenhava nos cantos de seus olhos e de sua boca. E ninguém abriria mão da própria vida a fim de cuidar de suas futuras dores.

Chamava-se Aldegunda. Muitas vezes me perguntei por que ela não se presenteava com um nome de fantasia, ao menos para desempenhar, sem constrangimento, a profissão de corretora de seguros. Aceitava, resignada, o nome embaraçoso. Carregava-o nas costas arqueadas, nos cabelos descuidados e na voz tolhida, de quem pede licença e desculpas por tudo. Era como se ela não pudesse tornar-se Beatriz, Viviane ou Narcisa. Estava condenada a ser Aldegunda.

Apesar de odiar o felino com quem dividia o apartamento, não o deixava passar qualquer tipo de privação. Uma vez a cada trimestre, levava-o em uma gaiola ao veterinário. Jamais o carregou nos braços e ele também não fazia questão de tal excesso. Um pacto de invisibilidade tornava aquela estranha convivência menos conturbada. Não cobravam um do outro o que não podiam, e nem queriam, oferecer. Resultando em uma relação distanciada, mas satisfatória.

Há três semanas, algo fora da rotina do 606 aconteceu. Minha vizinha havia chegado chateada de mais um dia improdutivo de trabalho. A fim de não encontrar o gato, passou pela sala quase de olhos fechados e, atrapalhada, abriu a porta do quarto. Sobre os lençóis recém-lavados, Bandido lambia as partes, enquanto uma das patas, em riste, acariciava a parte detrás da nuca felpuda e castanha. Tomada por uma fúria desproporcional ao delito do bichano, Aldegunda avançou sobre ele e deu-lhe um sopapo violento. Traído pela mão que deveria preservar-lhe a integridade, apesar das rusgas cotidianas, o animal devolveu a agressão com uma generosa mordida. O contrato fora quebrado naquele instante por ambas as partes.

Os dias passaram e eles não voltaram a ter novo embate. Mesmo assim, Bandido entendera a porta do quarto — agora sempre trancada — como declarado sinal de guerra. O bichano percebia no olhar da dona algo terrível se materializar, mas nada temeria enquanto tivesse o arranhador da sala, no qual, matreiro, demonstrava fingido desinteresse por tudo e por todos.

Saber da realização do 19º Congresso Brasileiro de Corretores de Seguros, em Foz do Iguaçu, não causaria grande expectativa em Aldegunda, pouco afeita a reuniões sociais. Ali não se desenhava uma oportunidade de confraternizar com os colegas de categoria, mas de punir severamente o inimigo íntimo. O congresso duraria três dias, tempo suficiente para um gato sem comida ou água aprender uma terrível lição. E assim minha vizinha fez. Arrumou as malas, bloqueou todas as vias de acesso às pias e torneiras, certificou-se de que não havia escapatória do apartamento, e largou Bandido no interior frio e cruel daquela vendeta.

Instalada na suíte 1405 do Rafain Palace Hotel, Aldegunda atirou-se à cama e riu com prazer. Cheirou as colchas, experimentou as loções de banho e olhou através da janela como se o mundo, pela primeira vez, lhe pertencesse. Da varanda, aspirou o ar fresco e conferiu o movimento dos carros lá embaixo. Cuspiu e observou a saliva misturar-se à noite. Apesar de ser-lhe um sentimento estranho, ela deveria estar realmente feliz. Preferiu não participar do jantar de abertura do evento. Dormiu cedo sobre colchas perfumadas, após banhar-se em loções refrescantes. Deixou as persianas abertas e espiou o mundo até o sono envolvê-la. Satisfeita, sonhou que era livre.

Um miado — quase inaudível, como se viesse de dentro de uma caixa esquecida no fundo do oceano — acordou Aldegunda de seu sono. Intrigada, encolheu-se sobre a cama e apurou o sentido da audição. Abriu muito os olhos a fim de escutar melhor, mas só ouvia o ar-condicionado. Riu de si mesma e decidiu aprontar-se para o passeio promocional às Cataratas do Iguaçu. Antes de entrar no banheiro, escutou outra vez o odioso som. Enrolou-se apressada na toalha e retornou ao quarto. Olhou sob a cama, atrás das cortinas, dentro do armário. Nada. Raciocinou por um instante e então se lembrou de que o hotel não aceitava animais. Desistiu de enlouquecer e planejou os detalhes de sua imersão na natureza. Contudo, a aventura não saiu bem como descrita no catálogo. A experiência poderia ter sido arrebatadora, se não fosse por aquela miadeira infernal. Aldegunda precisava fugir para longe do angustiante ruído, pensou em atirar-se às corredeiras, e foi detida por seu medo de água fria. Constrangida, atrapalhou o passeio dos demais e deixou o barco.

Os travesseiros não ajudaram, nem mesmo o Rivotril surtiu efeito. Não havia gato em parte alguma. Os miados continuavam ali, fantasmagóricos, como um agouro. Aldegunda ainda tentou assistir a uma das palestras, mas foi impossível. A frequência e a amplitude do lamento felino aumentavam a cada instante, conferindo à mulher uma aparência de louca.

Vencida, minha vizinha fechou a conta do hotel e pegou o primeiro avião de volta a casa. Nem mesmo os fones de ouvido foram capazes de tornar a viagem menos tortuosa. Os miados continuaram incessantes, dentre os assentos e nos bagageiros acima das cabeças. Tenho medo de voar, explicava-se aos passageiros que se divertiam com sua aflição. Temia o fantasma do gato, a loucura. Desesperada, rezou. Repetiu todas as orações das quais se lembrava, até o avião pousar. Mas Deus não atendeu as preces. Haveria um deus dos gatos?

No caminho até o Olympya, explicou de modo custoso o endereço ao taxista, que se sentiu à vontade em cobrar-lhe um pouco mais. Os miados avançavam sobre os ouvidos feito um mantra demoníaco. Imaginou a mordedura cirúrgica de Bandido sobre seus tímpanos e chorou com as mãos postas sobre as orelhas. Pagava um preço altíssimo pelo sadismo infantil ao qual se rendera há dois dias. Louca ou amaldiçoada? De certo, arrependida.

Aldegunda sofreu por alguns instantes diante da porta do apartamento, antes de conseguir encaixar com sucesso a chave na fechadura. Uma, duas, cinco, sete tentativas. Quando finalmente girou a maçaneta e o ferrolho liberou a entrada, a porta se abriu e um silêncio abismal confortou os ouvidos feridos. Aquela deve ter sido uma sensação maravilhosa, pois minha vizinha chorou de contentamento, agradecida.

Como um raio, Bandido passou dentre as pernas de sua agressora e sumiu na direção da escadaria. Rapidamente, ela saltou para o lado de dentro e deu duas voltas na chave. Nunca mais deixaria o bichano retornar. Nunca mais. Porém, antes que pudesse planejar uma vida sem a presença do animal, escutou a voz da mãe morta chamar-lhe pelo nome: Aldegunda!

Desde então, seu apartamento se encontra vazio. Foi levada do Olympya por uns homens vestidos de branco, muito sérios.

E como eu sei de tudo isso? Porque nem sempre eu fui seu vizinho. Houve um tempo em que eu morava no 606. E lá, minhas antigas donas me chamavam de Bandido.

Emerson Braga


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4 comentários:

Escrita fácil, história ótima. Adorei, Emerson, pra variar...

Completamente diferente de tudo. E igualmente bom. Hitchcockiano. Arrepiante. Com todos os requintes até o clímax. Adorei!

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