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sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Tartaruga Ordinária



Dela acusavam o passado, o presente e o futuro, o sobre como era promíscua, sobre como, apesar dos passos esquisitos e feios, insinuava tamanha sensualidade, e assim quem havia para ajudá-la agora, presa de costas, abanando pernas e desespero após alegrar a carne? Quem senão o mais bondoso, quem a empurraria e levantaria com a cabeça, quem senão o apaixonado Tutu?

Era a centésima salvação, calculava ele, a centésima, e era o centésimo orgulho de um amor; pois Tutu amava Geneci, e isso dela abraçar namorados que a usavam e jogavam e deixavam-na lá, do avesso, com as brutas patas buscando um fio de céu para se erguer. O amor contempla o erro, falava Tutu, contempla, acima de tudo, o erro, e os amigos riam; calmo e além, ignorava-os ao lembrar da amante cobiçada, o como ela se despedia em beijos suaves, céleres.

Já Geneci ia embora punindo a terra e o próprio coração, querendo saber o porquê de se envolver com machos agressivos e violentos. Era sempre a mesma mágoa, dor, o breve suspiro das carícias e o esquecimento; depois, confiava na determinação de mudar, e seguia firme e resoluta durante a gestação, culpando a origem de suas ações ao domínio de espíritos insivíveis e distantes. Todavia, bastava enterrar os ovos na areia e a maré da luxúria subia, vinda por trás, vinda por baixo, levando as promessas de autocontrole em um repuxo violento e primitivo. Desta feita, chorando excitação, quis entregar-se para alguém manso, amoroso, e recusando ponderações acerca do justiça ou merecimento, presenteou-se. E quem foi o escolhido, quem uniu os caminhos da obrigação e da paixão, quem senão Tutu?

Arrastado pela nervosa e sôfrega tartaruga, amaram-se em um velho cais de tábuas soltas, onde a graça do vento corria dunas e arranhava corações. Ele, desajeitado, quis tentar o primeiro beijo, mensurando neles o perfeito momento; ela, carente de força bruta e ante a passividade do amante, deitou-o, subindo por cima de seu ventre e rebolando o quadril com tal força que se tornaram centro do universo e definição de espaço.

Demoraram cinco, três ou dois minutos, e ao terminar ela caminhou embora, longe, livrando-se do suor e da saliva, casual como o são aqueles e aquelas para quem a vida apenas é. Tutu abraçava a felicidade, o êxtase, e da boca aberta pingavam sorrisos; caído, esperou o descanso e balançou as pernas – e pedalou no ar. Estava virado, de costas. Sacudindo e pulando, almejou pôr-se de pé, mas fracassou, e nisso questionava as intenções de Genecia, as suas, encontrando nelas encanto e feitiço, a desculpa de um amor. Era madrugada, fresca e leve; exausto, adormeceu ao capricho do amanhã.

E nem chegou a bem despertar.

Antes do sol queimar, devoraram-no muitas gaivotas famintas; dele restou a cabeça e o sorriso, resistentes aos bicos, garras, resistentes ao picotear, como nervo que não se leva.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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