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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Um dia seremos tudo isso


Um dia faremos silêncio. Seremos pausa. Como as coisas gêmeas colocadas sobre as mesas de centro, sobre as estantes altas em salas nobres e intocadas. Pares perfeitos, banhados pelo sol que escapa pela fresta da persiana elegante. Seremos, para sempre, mudos, inertes. Parelhos e empoeirados como as matrioskas, os elefantes, os macacos, os candelabros de prata. Teremos esquecido como é amar, esse praticar de infinitos em pequenos gestos. E não saberemos dizer qual foi o instante em que cessaram riso, abraço, murmúrio. Ou o toque das nossas mãos entre as cobertas felpudas, ou os códigos trocados por nossos olhos treinados em acender vontades. Teremos rasgado cartas e escondido fotos amarelecidas no fundo das gavetas de uma cômoda velha e derramado na pia os nossos vidros de perfume prediletos e empurrado goela abaixo a cumplicidade de uma vodca gelada. Seremos choro e choro. O que escorre sem controle. O que molha só a alma.
Um dia seremos tudo isso.


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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


7 comentários:

simples e intenso
é mestria saber unir estas duas qualidades num texto e dizer tanto em poucas palavras

Li como se ouve uma melodia triste. Construções belíssimas. Parabéns, Cínthia!

Maria e Cecilia, obrigada mesmo!

Essas suas sutilezas, carregadas de significância e significação, sempre me dizem a coisa certa! É sempre um prazer ler você, minha amiga!

"Teremos esquecido como é amar, esse praticar de infinitos em pequenos gestos. E não saberemos dizer qual foi o instante em que cessaram [...]os códigos trocados por nossos olhos treinados em acender vontades": FANTÁSTICO!

Obrigada pela leitura e pelo comentário, Ozenir!

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