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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Quatro Breves Relatos de Morte

 

I

Por lá falavam sobre como quem sonha estar sonhando já morreu; então um dia ele despertou de sonhos onde sonhava estar sonhando, e, triste, levantando-se da esteira, aceitou a morte. Deve ser porque dormi na terra e as serpentes me atacaram, disse para o céu, amaldiçoando a insignificância da fumaça e dos ungentos; dos espíritos não ousou falar mal, pois agora era um e precisaria de outros, e relembrando o folclore, o como deveria viver a morte e encontrá-la e fugir com ela, esquivou-se até o grande rio. Tudo era o mesmo, viu ele, todos os caminhos, a trilha de chão batido, as duas caçarolas deixadas na manhã anterior; toda a visão era a mesma, clara, como se a visão dos vivos. Viver morto até quando, viver essa vida falsa, ilusória, a qual um dia fui incitado a imaginar como interessante, perguntou. Depois, foi levado pelas águas.

II

Quero morrer dormindo. E não saber que se morre, perguntou ela. E desde quando se sabe, retrucou ele, e não aceitou tréplica. Isto conversaram há anos, quando a barba era cerrada e refletia a noite, criava no rosto a silhueta de um eclipse. A partir dali, manifesto e firme o seu intento, preparou corpo e mente, preparou o espírito visando tal destino: morrer dormindo. Imaginava-a com os cabelos trançados até o infinito, com uma rosa vermelha e frágil, cultivada por lágrimas, na cabeça, e imaginava a foice como prova cortante de amor; a mão, lisa e branca, o levaria dali. Mas temia, era vivo, e além de temer, duvidava; morreria assim? Visitou então a cartomante, a de cabelos trançados e finitos, com uma rosa vermelha e viva na cabeça e o baralho cigano como prova de interesse passageiro. Perguntou, morrerei como, morrerei dormindo? Ora, mas você já morreu, respondeu ela.

III

Devesse o fogo assustar, não o assustaria. Se por carência de imaginação, se por carência de amanhãs, os alunos indagavam sobre sua força logo ao vê-lo no uniforme marcial. Por carência de experiência ou memória, asseguro, não é, falava, e lembrava-se dos homens queimados, mulheres, crianças, o cheiro adocicado e constante de carne. Há muito entre nós e nós, menos entre nós e o fogo; mas quem dera o escutassem. Como aceitar o churrasco depois desse viver, perguntou a professora, e ele, fechando um dos punhos, disse das fragrâncias como vaidade nossa; quem dera o escutassem. Então, para melhor explicar, relembrou os incêndios, as brasas, dos passos entre os passos, o levar da fagulha e seu começo, relembrou o pó preto, queimado, os lençóis de labaredas, e relembrando ardeu em chamas e morreu ali, tronco de carvão, na frente das crianças.

IV

Começou e terminou morta. Jogou-se da altura, despencou, acidentou-se, foram muitos os verbos e teorias, mas a verdade coube a quem disse: ela caminhou da sacada para o precipício, e ficou lá, no ar, por segundos infinitesimais. Ficou lá. Disse quem viu, disse vê-la como anjo, flutuando, esperando, e suas asas eram nuvens de chuva; assim viu a testemunha, e sentiu a terra e o universo, querendo salvá-la. moverem-se para alcançá-la e, com o movimento, atingirem-na, ferirem a pequena criança de morte; e morta, era menor que viva. Sismógrafos, detectores de interferências gravitacionais, fios de cabelos oscilaram durante a movimentação simultânea de astros e ordens. Ela morreu, acredito, por conseguir voar, disse, e terminou de falar.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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