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sábado, 25 de junho de 2016

A talentosa professora Camila


A anterior confiança de Alcides vacilava. Acreditara que, apesar de toda a conjuntura desfavorável, seria possível a um engenheiro civil de 23 anos encontrar trabalho na terra da Merkel. Infelizmente, faltava-lhe uma disciplina para terminar o curso. A professora de Patologias dos Materiais ameaçava não lhe dar nota para passar.
É certo que tinha feito um ano com muito namoro e muita cerveja, pelo que ambos os testes deram negativa. Até maio, no entanto, confiava que o seu charme e alguma melhoria no trabalho escrito alterassem o rumo negativo. Quando saiu a fraca nota do trabalho, foi falar com a professora, uma morena de uns quarenta e poucos anos, de cabelo curto e seios cheios, que ele costumava comer com os olhos nas aulas, explicando-lhe que o seu futuro estava dependente apenas daquela disciplina e pedindo-lhe, insinuante, que não o fizesse voltar no ano seguinte. Ela avaliou a importância do problema com um olhar simpático, quase cúmplice.
Alcides, eu não quero chumbar ninguém, mas você está com uma nota muito baixa. E estamos em meados de junho, as aulas já acabaram; já não há tempo para uma improvável recuperação. O que acha que eu posso fazer?
No momento, Alcides estava disposto a fazer qualquer coisa para salvar o ano e tudo lhe parecia possível.
Professora, dê-me uma semana. Depois pode fazer-me a prova que quiser.
Foi uma semana arrasadora. Levantava-se pelas sete e lia tudo o que encontrava da bibliografia até perto da meia-noite, só com intervalos para comer. Andava com os olhos como os dos cachuchos, de tanto queimar as pestanas.
Na tarde do sábado seguinte, Alcides compareceu na morada indicada, uma pequena vivenda da encosta de Pedrouços. Um jardinzito separava a porta, da rua.
A professora Camila recebeu-o cordialmente, convidando-o de imediato para lanchar. Vestia-se de maneira informal: um polo amarelo de decote em bico, que lhe realçava o peito, e umas calças leves pelo meio da canela. Camila encaminhou-o para a cozinha, para não o deixar sozinho enquanto preparava o chá.
Estudou muito, Alcides? — lançou sorridente.
Sei tudo na ponta da língua, professora. Vai ver! — respondeu ele, sincero.
Instalaram-se na pequena mesa da cozinha, à frente de um bule de chá e duas torradas.
O seu marido não lancha connosco? — quis saber Alcides.
Não; ele afinal saiu ontem para um congresso e só volta amanhã à noite. Somos só os dois — adiantou, com um sorriso talvez neutro, talvez não.
Alcides, como bom entendedor, ficou alerta para quaisquer indícios propiciadores daquela oportunidade potencial. Talvez por isso lhe tenha parecido que Camila espalhava a manteiga na torrada de maneira um pouco lasciva. E bebericava o chá pegando na chávena com ambas as mãos e fazendo um biquinho com os lábios. Estar a sós com a professora que tantas vezes desejara, em ambiente não de intimidade, mas ainda assim de privacidade, espicaçava-lhe os instintos. «Será que vou ter sorte?», divagava furtivamente.
Então, vamos começar? — inquiriu Camila, convidando o aluno para a sala.
Um pouco nervoso, mas confiante, Alcides instalou-se num maple, enquanto a professora se sentou no sofá em frente.
Como combinámos, Alcides, é preciso que eu fique com a certeza de que você está bem seguro da matéria, para conseguirmos reverter a situação. Está calmo e concentrado?
Ao aceno afirmativo de Alcides, pensou numa pergunta básica e lançou:
O que são rochas?
Alcides baixou os olhos procurando a concentração que se esbatera quando Camila, ao pensar na pergunta, baixara a cabeça e o tronco, expondo um pouco mais de pele, no decote.
São sistemas químicos inorgânicos. Formaram-se num determinado ambiente geológico e refletem o equilíbrio termodinâmico atingido na fase de formação. (…) Têm composição química razoavelmente bem definida, mas em proporções variáveis, pelo que não há duas rochas iguais.
Quais as tipologias mais frequentes? — continuou Camila, após a mesma flexão de tronco.
Alcides, embora atento à pergunta, não conseguiu evitar que os olhos se abandonassem ao vislumbre daquela alvura láctea. Demorou um pouco a iniciar a resposta.
Sabe a resposta ou passamos a outra? — condescendeu Camila, após uns segundos.
Não, não! — reagiu Alcides. — Em peso, a quarta parte da crusta terrestre é composta por silício e metade por oxigénio. Os minerais mais abundantes são os silicatos, nas ígneas (granitos e basaltos), sedimentares (argilas, xistos e grés) e metamórficas (gnaisses e micaxistos), seguidos de longe pelos carbonatos, nas sedimentares (calcários) e metamórficas (mármores).
Muito bem! Que rochas predominam nos monumentos portugueses?
A concentração de Alcides baqueava. Aquelas rotundidades anunciadas estavam prestes a condená-lo. Baixou os olhos a tentar recompor-se, mas entrara numa batalha interior, como um computador bloqueado por excesso de tarefas.
Alcides, você prometeu-me que ia preparar-se! O que se passa?
O jovem, encurralado, resolveu abrir o jogo.
Professora, desculpe, mas não consigo concentrar-me — declarou, apontando com os olhos para a origem da perturbação.
Camila olhou para o próprio decote.
Oh, desculpe. De qualquer modo, na vida profissional temos de saber ultrapassar certas pequenas distrações. Quer que me tape? — perguntou, sincera, puxando o decote para cima. Após a hesitação de Alcides, perguntou com um sorriso irónico: — Ou quer que me destape?
Alcides leu a pergunta como uma das tais oportunidades que podem render benefícios sensuais, se não forem desperdiçadas.
Posso escolher? — arriscou, com um sorriso cúmplice e um olhar brilhante.
Camila ficou uns segundos calada a avaliá-lo. Depois levantou-se e foi ao bengaleiro buscar um cachecol.
Acho que o melhor é tapar-lhe os olhos, para não se distrair — anunciou, enquanto lhe enrolava o pano em torno da cabeça, atando-o atrás.
Ok, professora — concedeu Alcides, desistindo de expectativas mais ambiciosas que tinham chegado a dominá-lo nos últimos momentos. — Já vi que não tenho sorte…
Alcides, você é danado! A sorte não cai do céu; constrói-se todos os dias. Se calhar foi um ano com brincadeira a mais — ralhou docemente. — Mas eu não acho mal, se o estudo não for de menos. O importante é atingir o objetivo. — Meditou um pouco. — Sabe qual é o meu objetivo, neste momento? Conseguir que você acerte as perguntas que lhe quero fazer. Mas eu também gosto de jogos — disse a rir. — Vamos aumentar a parada: por cada resposta certa, eu tiro uma peça de roupa, serve?
Maravilha, professora! Já me agrada mais. E eu?
Se você quiser tirar também, esteja à vontade. Uma coisa lhe prometo: se você acertar as respostas todas, ganha uma prenda no fim…
Bora lá, professora! — rejubilou Alcides, a abarrotar de entusiasmo por baixo do cachecol.
Vamos lá, então. Que mármores coloridos da península de Lisboa conhece?
O encarnadão de Pêro Pinheiro, o amarelo de Negrais, o azul de Sintra e o negro de Mem Martins.
Boa! Lã vão as sabrinas. O que é a meteorização?
Ao ouvir o som das sandálias a cair, Alcides lembrou-se de tirar também os ténis, antes de responder:
Quando a rocha é arrancada à pedreira e colocada sob o ataque de agentes externos, como o ar, as diferenças de temperatura, a água — com as consequentes oxidações, expansões e dissoluções —, as redes cristalinas da rocha são destruídas ou rearranjadas. É a essa tentativa de reequilíbrio que chamamos meteorização. A desagregação é o equilíbrio final que a rocha de um edifício atinge.
Boa! Essa bem merece a camisola. Fora! Fale-me da corrosão.
Ainda mal pressentira que Camila despia o polo e já Alcides tirava a sua t-shirt. Cheio de confiança, não hesitou:
A corrosão avança nos pontos vulneráveis do sistema cristalino. Os cristais reais não são perfeitos; podem conter dezenas de milhões de defeitos por centímetro cúbico: deslocações, lacunas, impurezas. Tais defeitos representam outros tantos constrangimentos físicos. Ao nível do grão, uma rocha é tanto mais resistente quanto mais fino for o seu grão.
Muito bem! — incitou Camila, sem dar a entender que o seu olhar, à solta, se alongara no desfrute do tronco robusto e algo peludo do aluno. — Calças fora. O que são crostas negras?
Alcides, de coração acelerado, tirou as calças de ganga. Estava num estado de alguma agitação, visualizando a professora com o belo peito a sobressair do sutiã e em calcinhas.
São zonas enegrecidas nas superfícies das pedras, constituídas por depósitos de sais e de partículas da poluição da atmosfera, as quais produzem gesso a partir do dióxido de enxofre e do ácido sulfúrico destas, na sua interação com os substratos siliciosos e carbonatados.
Certo! Falta uma. Qual a origem dos oxalatos de cálcio nas superfícies dos edifícios?
Alcides ouviu o bater dos fechos do sutiã sobre a mesinha de apoio. A informação química desencadeada percorreu o seu corpo a alta velocidade, levando ordens aos corpos cavernosos. Alguma coisa em si passou a forcejar para se libertar. Alcides ofegava. Era demasiado bom o que lhe estava a acontecer. E sabia a resposta seguinte.
Os oxalatos, visíveis como formações relevadas, não têm origem em deposições externas sobre a pedra, mas na transformação dela. Devem ser associados à segregação de ácido oxálico pelas raízes de fungos, algas e líquenes, na sua atividade bioquímica sobre as rochas carbonatadas.
Muito bem, Alcides, muito bem! Pode tirar o pano dos olhos.
Yes! — gritou o felizardo, saltando e arrancando de repelão o cachecol, desejoso de passar à prometida fase seguinte. Inexplicavelmente, a professora continuava vestida. Perante o rosto de surpresa e desapontamento do aluno, Camila sorriu, quase maternal, escondendo alguma perturbação.
Ainda bem que o cachecol permitiu que não se distraísse mais. Correu bem, não acha? Está satisfeito?
Satisfeito é dizer pouco. É evidente que estou muito… mesmo muito contente — abandalhou Alcides, ainda confiante, exibindo os bóxeres tensos. — Mas a festa vem agora, não foi o que prometeu, professora?
Prometi-lhe uma prenda, sim. Quere-a já? — indagou, um pouco matreira.
Ó professora, é o que eu mais quero — inflamou-se Alcides. — Sempre a desejei!
Está bem! Eu também acho que é a coisa mais importante para si, agora. Aqui tem. — E estendeu a Alcides uma folhinha com a nota final da disciplina: 11. — Tudo de bom para si, lá na Alemanha!

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Escultura de Francisco Simões.

(Este conto integra a coletânea Bad Girl — Contos Eróticos, Silkskin Editora, Lisboa, 2015.)

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


12 comentários:

Hahahah! Que professora inteligente! Obteve resultado pelos estímulos certos. Mas que vexame do Alcides, hein? Feito de bobo. O peixe se pega pela boca. Os homens, pelo...

Contente! O “estímulo certo” até torna atrativos assuntos áridos… ;)

Não sei onde foste descobrir este perversa professora...
As que conheci nunca me convidaram para beber chá "lá em casa"... onde tudo esteve para acontecer.
Pelo conto 20 valores sem chá mas com uma bela lição sobre os calhaus que bem conheces.
Abraço, continua.

Obrigado pela leitura, Artur!

coitados dos materiais!!! tambem sofre de alzeheimer!!!
kkkkkkkkkkk
beiinhos a todos,milita

Obrigado, Peralta!
Sim, há alguns problemas de verosimilhança, mas a realidade, às vezes, também é inacreditável.
Abraço!

Sem dúvida um conto escrito por um homem. Gostei. A professora soube jogar.

Sim, até as rochas dos mais majestosos monumentos se degradam. Ambientes “saudáveis” atrasam essa degradação.
Bjnhs Maria Emília!

Sim, sem dúvida. :) Agradado, anónimo. «A professora soube jogar.» – Sim. Mas também quis jogar. Porque dominava o jogo.

Reli, é excelente!!!
Leio sempre as tuas publicações com satisfação!!!

Obrigado, Artur!
Se os leitores gostam, o esforço do escritor, embora correndo por gosto, faz mais sentido.
Abraço!

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