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domingo, 22 de maio de 2016

Sobre a Conjectura de Goldbach e o Ponto G



Um casal entra no escritório. O dia é quente, seco, e o ventilador de teto gira devagar. Goldbach, sentado atrás da mesa, observa-os em silêncio. Os dois esperam até o detetive indicar, com um leve movimento do tubérculo mentual da mandíbula, as cadeiras de praias que, coloridas e recosturadas, destoam do gabinete. São herança da minha avó Filomena, comenta, enquanto se acomodam. Que deus a tenha (velha mesquinha).

– Estamos aqui para encontrar o Ponto G da minha esposa, explicou o homem.

Goldbach encarou a mulher; esta o enfrentou, quieta, inerte, nem piscar, piscava. A verdade é que nem respirar, respirava, pois estava roxa.

– A tonalidade roxa de sua pele combina com a dos meus testículos, falou o detetive.

Ela então inspirou fundo e olhou para baixo. Era bonita, morena, com dois olhos, boca. Três orelhas. Apresentava mais curvas do que a órbita da terra em torno do sol. Já o marido tinha porte de gorila, cortes de lutador, era enorme e careca. Num dos braços desenhava-se o Teorema de Pitágoras.

– Bela tatuagem, comentou o detetive, apontando-a. A fórmula da hipotenusa.

– Não conheço nenhuma Vanusa, respondeu o outro. Isto significa força e honra em chinês.

Goldbach, curioso, estudou-o com a expressão de um fusca vermelho ano 1984, parcelado.

– Todas as minhas amigas acharam o Ponto G, só eu não, interrompeu a jovem.

Despindo-a com o olho esquerdo (o direito era assexual), não sem antes desejar rever os melhores filmes de sua coleção de pornografia amadora envolvendo refugiados de guerra, o detetive perguntou se ela saltaria de um precipício caso suas amigas saltassem também.

– Pois saiba que elas já saltaram, respondeu, e eu saltei junto!

Isso ocorrera anos atrás, quando, numa discussão acirrada, resolveram descobrir quem cairia mais rápido ao pular do sétimo andar. As amigas despencaram com igual velocidade, mas ela flutuou porque o cirurgião plástico colocara em seus seios, ao invés de silicone, gás hélio. Goldbach sentiu pela dor da coitada. Ele mesmo tivera seus acidentes. No primeiro, perdera os dedos da mão esquerda ao usar uma serra industrial para cortar as cutículas. No segundo, perdera os dedos da mão direita ao roer as unhas e, por engano, roê-las até os ossos. Agora digitava seus relatórios usando a língua e a ponta do nariz, marcado pela sombra dos caracteres. A saliva, morna entre as teclas, criara uma espécie de bolor, de gramínea escura na qual cresciam cogumelos brancos e fétidos, comestíveis, que muito o poupavam em alimentação e mascaravam o cheiro de suas flatulências

– Querem um cogumelo, indagou. Ante a negativa, quis saber a aparência do tal Ponto G.

– Baixinho e enrugado, respondeu o esposo, mas isso só se sente com a ponta dos dedos.

– Você por acaso está questionando a minha capacidade, retorquiu o detetive, referindo-se ao fato de ele também não ter os dedos dos pés, os quais perdera ao usar um macaco de circo húngaro para tirar manchas de batom nas suas nádegas com ácido sulfúrico.

– Saibam que a sensibilidade da minha língua supera a de um poeta homossexual com hemorróidas!

Tal interjeição serviu de afirmativa quanto à competência de Goldbach, e, também, de zombaria em relação a  um poeta homossexual com hemorróidas que, passando pelo corredor, ouvira a conversa.

– Continue com a descrição, por favor.

–- Ele é um imigrante mexicano e atende pelo nome de Juan Ginés de Sepulveda.

Ao ouvir isso o detetive levantou. Mancando, voltou-se para a janela atrás da escrivaninha. Na rua o calor era uma forma de existência. Goldbach sofria. Nunca mais haveria de usar um chinelo de tiras. A vida é injusta, tirana, a vida é dor, especialmente quando sua conta bancária precisa ir no psiquiatra por ser negativa demais. Voltando-se para o casal, disse:

– Certo, criaturas, encontrarei esse tal Ponto G. Confiem em mim.

Eles, tensos até então, relaxaram como quem enfim consegue abrir um pote de conserva sem recorrer ao time de halterofilistas olímpicos. Já Goldbach, olhando por cima, notou um objeto suspeito no cabelo da moça, um objeto com bigodinho ralo e sombreiro – o Ponto G.

– Tudo bem, detetive? Perguntou a mulher, temendo que ele estivesse observando a podridão infinita e etérea da sua alma ou o fato de ela possuir um pelo a menos na sobrancelha direita.

– Tudo, balbuciou, mas, para começo de investigação, preciso acessar sua aura.

Marido e esposa olharam-se, não tanto como se achassem estranha a solicitação e mais como se dissessem – faremos tudo ao nosso alcance, desde que isso não envolva assistir a programação da TV aberta. O detetive, muito calmo, deu a volta, colocou-se por detrás. Pôs as mãos em sua cabeça. Os cabelos eram lisos e sedosos, importados da China.

– Feche os olhos e concentre-se, ordenou.

– Concentrar-se em quê?

O marido, alheio ao procedimento, catava pulgas pelo corpo.

– Concentre-se em uma demonstração matemática que represente o fato de todo número par maior ou igual a quatro ser resultado da soma de dois números primos.

Usando o cotoco da mão, Goldbach massageou as têmporas da mulher enquanto gemia um cântico budista que anunciava a preferência de Buda por lingeries com estampas de sinos. Inclinando-se, usou da língua e enlaçou o ponto G, chupando-o para dentro da boca junto com caspa, bactérias e espermatozóides. Goldbach concluiu que tinha gosto de tutti-frutti, ou de guacamole, e daí terminou o ritual e encaminhou-se para a janela, onde espiou as ruas, passando o ponto G de uma bochecha para a outra.

– Chbom, disse ele, cheu entrarei em contato com vocês. Me deichem a sós, e não esqueçam che passar no caixa.

Saídos eles, não sem antes solicitarem para fins de imposto de renda uma nota fiscal imune ao método cartesiano e ao tempo, Goldbach colocou o ponto G no centro da mesa, estudando-o, meditando, avaliando quanto pediria de resgate se os números de fato existissem.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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