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sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Entrevista de Emprego


'Amigo, serei claro, você é bom demais para esse emprego', disse, e firmou as lentes.

'Olha, já reprovei na faculdade e era o mais lerdo da classe no colegial'. Respirou, inclinou-se para a frente. Murmurrou,

'E sempre escrevo 'exceção' com dois ésses'.

O avaliador ignorou esse ponto. Era homem de pele avermelhada, de queixo com buraquinho escuro. Observou o currículo em cima da mesa e esse dava a impressão de estar longe demais - mas o que não estava? 'Além disso, seu sorriso é perfeito'. Olharam-se, silenciosos. 'O anúncio é claro, devem faltar dentes no candidato, de preferência um canino'.

'Ah, eu quebro o meu canino, que seja!'. Exasperou-se; suor escorria pela camisa de baixo.

'Evitamos pessoas assim em nossa empresa; digo, dedicadas assim'.

Virou para o lado, coçou um nervo no pescoço; daí arregalou os olhos, como se existisse alegria no mundo. 'Eu deixo de escovar os dentes, melhor?'

'Melhor, melhor'.

Inclinado sobre a mesa, o concorrente sentou, enfim, no fundo da poltrona; depois, bem disposto, coçou a genitália.

Ruim, concluiu o avaliador, ele finge desleixo. 'E agora, amigo; ou eu o emprego e descubro que você há de piorar com a passagem do tempo, ou o emprego e descubro que você continuará acima da média, mesmo objetivando a piora; além disso, tanto a degradação natural do homem como o esforço são adjetivos indesejados por aqui.

'Senhor, você está enganado, minha fé em Deus que está. Sou e serei um péssimo funcionário!'

Duvido, julgava o avaliador. Era esperto demais, a habilidade algo acima para conceder fracassos. Previa, já, dois meses e o despediriam, mas empregou-o justamente para isso; os que vinha contratando foram promovidos, e promovidos por burrice. Se não errasse agora, quem iria para a rua, por competência em demasia, seria ele.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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