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terça-feira, 22 de março de 2016

Dois nacos

Nas últimas noites estive no deserto: sozinha no vento, comendo areia com colher de sopa, olhos piscos para um sol laranja, e uma pergunta queimando a garganta: esse sonho outra vez, para quê? Acordo seca. De energia, de vontades, de ideias, de afetos. Quero nada, nem ir nem ficar. Passo o resto do dia embalando a sensação de que se fizer barulho nenhum acabo invisível e com dois nacos de paz no bolso. Dois nacos. Dois nacos é pouco, quase não dá para passar no pão. Preciso de mais, um quilo, pelo menos, dia sim, dia também. E não tem.

Disseram que há quilos e quilos perecendo nas caçambas. Disseram que não era carga viva e por isso não poderia furar o bloqueio da estrada e passar, que aguardasse até o fim do manifesto para seguir viagem e finalmente ganhar a distribuição devida. Mas disseram também que o manifesto não vai acabar. Nunca mais. Dois nacos de paz no pão terminam e o café ainda está quente na xícara. A escassez é uma tristeza.

Nessas andanças no deserto enxergo – e que alegria me dão esses meus óculos novos e de lentes ajustadas à minha miopia – um arbusto de cerca de trinta centímetros, distante à esquerda, azul de folhas e convidativo. Corro para ele, sabendo que suas raízes saudáveis dão mil nacos da paz mais pura. Ajoelho e cavo com a minha colher de comer areia. Fundo, fundo, fundo. Fundo mesmo, a colher roçando e ferindo o caule que parece engrossar e se enterrar conforme sente meus golpes. Escorre ciano e eu não alcanço a maldita ponta da planta, o começo, a raiz. Perco a paciência: é muito injusto não ter uma pá. Toda pessoa no deserto tem uma pá de escavar profundo. Eu tinha uma colher. De comer areia. 

Reparei que a cada tentativa minha, inútil, brotava um arbusto azul ao redor. Em pouco tempo estava cercada de folhagens recém-nascidas. Desisti das raízes da mãe e fui nas das mudas, provavelmente com raízes ainda na superfície. Um a um, os arbustinhos repetiam a planta primeira, espirravam ciano, engrossavam e se enterravam e geravam outros, cobrindo de céu a pele do deserto. A paz, de raiz, não podia ser colhida. Estava pertinho, mas não era para a minha colher. Eu tinha as mãos tingidas e o rosto salpicado de azul e nenhum naco nos bolsos. Eu só tinha a minha fome.

Deitei no céu, corpo inteiro esticado, e vi o chão pelo avesso. Era o deserto que estava lá em cima. Do lado de dentro todos os desertos são os mesmos: caminho, terra de migrar, passagem, rota de fuga. Levam os céus nas costas. Eu. Eu, deserto. Eu deserto, o abandono. Eu deserto, o abandono, o desencanto, a incompreensão. Eu ninguém, olhos piscos para um sol garganta, e uma pergunta queimando, laranja: esse sonho outra vez, para quê? Para que, se tudo o que tenho é uma colher e areia de comer?

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