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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Poema número 3



[Isso devia ser a porra de um poema falando
de amor & coxas & pelos & sangue &
eufemismos
mas esse poema não fala nada disso.
Ele não fala nada.
O que ele poderia falar numa hora dessas?]


Eu me encontro na esquina
e o encontro.
Só eu o vejo
ele não.

Eu me vejo
no lugar dele.

Se ele tivesse
ele saberia que eu o teria
visto com uma puta
vergonha.


Eu fiquei puta.


Ele tá saindo.
Eu só passando.
Se eu estivesse saindo
e ele passando
talvez ele até
quisesse fazer
como fez
quando eu fiz
quinze.


Porque eu ganhei uma festa
e eu acabei com a festa
ele me bateu.
Porra, eu pedi uma bateria!


O remorso dói nos dois.


“Não chora”, eu dizia
porque ele chorava mais que eu.
“Não chora. Por favor.
Nem tá mais doendo, viu?
Pronto.
Já passou, viu?
Já passou.”


Já passou. Viu?
Não viu. Eu vi.
Ele estava com alguém.


Ele estava com alguém
não vi quem era
nem como
nem se era bonita.
Devia ser.
Ele sabe das coisas.

Ele só não sabe
que de algumas
eu também sei.


Fui pra casa
toquei muito alto
a tarde inteira
quebrei duas baquetas
furei uma pele nova
recém trocada
até passar.

Já passou.





Flávia de O. 
https://www.facebook.com/gorgonas.de.o/




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2 comentários:

Não sei se isso é um poema - de poesia não sei nada. Sei que é uma história muito boa e muito bem contada. Intensa, focada, de camadas várias. Acho que é por aí. Abraço!

A questão de gênero, nesse caso, é uma coisa muito relativa. Obrigado pela leitura, Jack!

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