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sábado, 2 de janeiro de 2016

EXÍLIO




Exílio é uma palavra triste, que caracteriza uma prostração gerada por circunstâncias de ordem geográfica. Possui nuances diferentes, cada qual com sua especificidade. Mas somente uma pessoa que já ficou presa do lado de fora da própria casa conhece a sensação de exílio a que me refiro. Esquecer a própria chave e se ver impedido de entrar em casa traz à tona emoções primárias e básicas a que o indivíduo normalmente nem presta muita atenção, no corre-corre diário.
A primeira das emoções experimentadas diz respeito à surpresa, seguida da fatalidade da constatação: não posso entrar em minha casa. O lar, até para as pessoas mais agitadas e boêmias, começa a soar como algo precioso, inacessível. Arrisco-me a afirmar que a própria cama nunca pareceu tão acolhedora ao indivíduo como quando o acesso a ela lhe é negado.
Curiosamente, tal emoção é desencadeada no momento exato em que o sujeito bate a porta e se percebe exilado do lado de fora, alijado de seu quarto, de seus livros, de seu banheiro. Isso pode ocorrer até no momento de se jogar o lixo fora, quando a porta tem aquele tipo de maçaneta redonda que, tão logo a porta é batida, não permite retorno. Taí, bom mote para uma crônica: a porta que não admite arrependimentos. Bateu, ferrou. Só com chaveiro ou membro da família.
Chega-se, então, à segunda emoção: o desespero, a sensação antecipada de tempo perdido, quando se calcula que o próximo a chegar só o fará quatro horas depois. Uma angústia quase proustiana, desencadeada por um chaveiro esquecido. Não há Madeleine capaz de suscitar mais reflexões sobre o tempo do que uma chave deixada nalgum lugar. Visualizamo-la, a debochar de nós, onipotente, acenando de modo sarcástico: olha só onde eu estava o tempo todo.Mas eu olhei ali, pensa o sujeito. Inútil. Um chaveiro vingativo não admite barganhas.
A terceira emoção é a da negação. Semelhante ao luto, também o esquecimento de uma chave pressupõe etapas. Na fase da negação, pensa-se até em medidas drásticas e extremas, como a de pagar uma pequena fortuna ao chaveiro, que abrirá, com um clique, a porta antes intransponível. Contudo, a ideia de que um chaveiro – anônimo, genérico, desconhecido – tem o poder de enveredar por meus domínios com mais desenvoltura e rapidez do que eu é algo que me agride profundamente. Daí a negação. Não dá pra encarar.
A quarta emoção é a mais perigosa: o desespero por estar do lado de fora enquanto tantos afazeres o aguardam lá dentro faz com que o exilado cogite até mesmo tocar a campainha da casa do vizinho – um estranho, com quem ele sequer troca um bom-dia – para pedir para pular da janela da área de serviço dele para a sua, que é contígua. Felizmente, a ideia do olhar assustado de seus próprios animais de estimação demove-o da insanidade.
A quinta emoção é, talvez, a mais visceral: o sujeito nunca se sentiu tão feliz pelo fato de não morar sozinho. Chega, enfim, algum familiar que divida o lar com o indivíduo, e a porta está prestes a ser aberta. O que são privacidade e sossego diante do ser que balança a chave preciosa diante do exilado? Nem o ambicioso Golum, de O senhor dos anéis, exibiu tamanho fascínio diante da cobiçada joia: Oh, precious, my precious.
Finalmente, a porta se abre e o indivíduo tem a sua existência com-teto restaurada. O Lar, doce lar nunca pareceu tão belo aos seus olhos.
Agora, um último conselho: antes de vivenciar as emoções descritas, vasculhe cuidadosamente os bolsos à procura de sua chave: você pode descobrir que ela esteve ali o tempo todo.

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Tatiana Alves
Tatiana Alves é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

todo dia 02


4 comentários:

Excelente! Uma perspectiva inusitada do exílio. É um texto dos mais inteligentes. Analogia brilhante. Parabéns!

Obrigada, Cinthia! É sempre muito bom ser lida por você.

Mas como você escreve bem, Tatiana!! Só que já passou por essa situação para entender como você a descreve tão bem. A sensação é essa mesma, de exílio! Parabéns!

Obrigada, Cecília! Fico muito feliz com seu comentário.

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