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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CHUVA ÁCIDA SOBRE TELHADO DE VIDRO




         Cansada de acordar todos os dias, ela faz-se de morta sobre a cama. As cortinas corta-luz protegem-na de tudo que viceja além da inútil janela do quarto. Lá fora, a chuva banha as calçadas tomadas por crianças nuas. O sol, mandrião, se esconde entre nuvens espessas enquanto bueiros entupidos transformam a alameda em um rio caudaloso. Vira-latas ilhados, barcos de papel, chinelos perdidos, varais nus.

         A ponta de seu pé escorre para fora das cobertas e ela recolhe os dedos com urgência. Dias assim são capazes de corroer o esmalte das unhas, e ela sabe que não retornará à manicure. Todas aquelas mulheres escravizadas pelo desespero de apresentar uma aparência impecável, de parecer mais jovem. E riem! Deus, de que tanto riem? Ela não. Ela não ri mais. Pinta as unhas com a mesma gravidade que guerreiras icamiabas coloriam seus corpos para o rito, para a luta.

         O telhado tremula e ela tenta prender a respiração até a chuva passar, mas tem pulmões fracos e logo desiste. Soca o travesseiro e afunda-se um pouco mais no colchão de molas. Os olhos fechados procuram o sono e tudo que encontram é a água que escorre ácida e ligeira sobre o telhado quebradiço. Percebe que naufragará de vez caso não resista bravamente à tormenta.

Com uma nesga de disposição para se mover, senta-se sobre a cama transformada em errante bote salva-vidas e toma três comprimidos. Anseia que um tímido raio de sol acenda dentro de seu peito escurecido, chama que há dias ela aguarda em vão. Queria ter ouvidos moucos, pois o riso sob as biqueiras agride sua necessidade de inexistir. Vermes subcutâneos abrem caminho por seus poros, mas ela não sente nada. E não sentir dói.

Pensa em rezar, mas sabe que Deus não está lá, nunca esteve. Talvez as ciências. Ai! As ciências e suas perguntas herméticas, de emaranhadas soluções! Quem sabe um poema, um filme, uma melodia. Cantarola Caetano enquanto tenta acender um cigarro entre dedos sísmicos. “Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias...” Gira o tambor do isqueiro três, quatro vezes, mas não há gás. Sem poder tragar do veneno que lhe abranda a estenose da alma, desaba.

O choro emerge de lugares que ela não conhece, transborda e arrasta violento o pouco que lhe resta de sanidade. Os soluços confundem-se aos trovões que atravessam o céu como o ressoar atmosférico de seus lamentos. Ela chove. Mas seu desaguar não fecunda nada, não traz alívio. É um transbordar estéril, de dores vazias, sem razão de ser, mas tão ou mais verdadeiras do que qualquer estraçalhar de ossos e lacerar de carne.

Sente que irá afogar-se em si mesma. Levanta rechaçada, cambaleia pelo quarto e depois se encolhe em um canto de parede. Não consegue respirar. Sufoca. Mas a morte não vem. As paredes se comprimem e o chão torna-se gasoso. A náusea, a angústia ao perder-se no mais remoto afastamento de todas as coisas. É um mundo em queda livre, sem apoio, sem amparo. Não há luz no final do túnel, na extrema profundeza do poço. A escuridão se adensa e ganha uma viscosidade que retarda a velocidade da queda. E ela tem pressa em espatifar-se, precisa que isso acabe.

Esgueira-se destroçada para debaixo da cama em busca do que lhe servia de refúgio em sua distante infância e encontra algo parecido com alívio. Está esgotada. Seu corpo adormece antes que ela perca a consciência. Não sabe se pelo desgaste físico da aventura ou pelos comprimidos que fazem efeito. Antes de desligar-se de si mesma, pensa que talvez amanhã consiga sair de seu quarto. Mas, hoje não. Não com essa chuva que ameaça tudo lá fora.


Emerson Braga





domingo, 27 de dezembro de 2015

Colcha de Retalhos #16

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


MERCADO ILÓGICO

Antes de espatifar-se ao chão, já era novamente um milionário




ESPLENDOR

A sala era divida em 4 blocos, que, por sua vez, eram divididos em 4 cubículos. Apenas a sala do chefe, separada da outra, tinha janelas - que de nada adiantavam, uma vez que não se abriam e que eram cobertas por uma película escura.
Os cúbiculos estavam ocupados, com exceção de um. Discutiu com o chefe e pediu demissão, não aguentava mais. Dizem que foi porque um dia teve que sair um pouco mais cedo, para levar o filho ao dentista, e, só então, depois de anos, reparou que o mundo não era cinza como na hora em que saia de casa ou na hora em que voltava. Com um sorriso reluzente, comentou com o filho: "o mundo é amarelo".




O BAÚ

E ela foi até o quartinho dos fundos. Em um canto escuro e empoeirado, encontrou o velho baú.
Levou o baú até a sala e começou a redescobrir tudo que estava ali guardado há anos. Tinha ali um sorriso sincero, que já estava amarelado pela falta de uso. Havia também uma porção de otimismo infantil, que - apesar de serem infantis - eram pelo menos dez vezes maiores do que os adultos. Também brincou um pouco com os sonhos, fantasias e ilusões. Encontrou até alguns medos, mas algumas peças tinham sumido com o tempo.
O velho baú rendeu bons momentos. Mas ao final da tarde, ela recolheu tudo do chão, fechou o baú e colocou-o de volta no canto escuro e empoeirado. O sorriso, amarelado, acabou ficando esquecido debaixo do tapete.




DESESPERANÇA

Haviam começado o namoro havia pouco tempo. Sorrisos, bicos, charmes e birras. Apelidos fofos e juras de amor.
Foi quando ele escreveu a carta de despedida, com a certeza de que a entregaria em breve. Sabia até os motivos da separação. Tinha tudo anotado, explicado, em palavras friamente selecionadas.
Nunca teve a chance de entregá-la.






sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O burro e a vaca


Era uma manhã cheia de sol. Uma vaca pastava muito tranquila no prado. Embora ninguém a visse sorrir, estava feliz por saborear as tenras folhas do trevo e as flores e as vagens do tremoço. De repente, a serena manhã da vaca foi agitada por um coelho que passou junto dela, tão veloz como todos os coelhos que fogem aflitos dos cães dos caçadores, e lhe gritou:
Sai da frente, vaca!
A felicidade dela desapareceu nesse momento. Estava farta que lhe chamassem vaca. É certo que tinha algum peso a mais, mas estarem sempre a lembrar-lho... Até um insignificante coelho? Estava farta!
Nessa tarde já pouco comeu. Nos dias seguintes, só comia os talos mais rijos das ervas que lhe pareciam menos nutritivas. Para tentar emagrecer. Durante muitos dias passou fome, mas obrigou-se a comer só o que não a faria engordar.
Na verdade, passadas umas semanas, a vaquinha tão rechonchuda de antes não parecia uma vaca; mais parecia um esqueleto em pé, só pele e cornos.
Um dia passou por ali um burro que ficou muito admirado de ver uma vaca tão mirrada. Perguntou-lhe:
Estás doente, vaca?
A vaca começou a choramingar:
Estou tão infeliz por passar tanta fome e tu ainda me chamas vaca? Eu já não sou vaca; sou até muito elegante!
O que dizes tu? — admirou-se o burro. — Tu és uma vaca; sempre serás uma vaca, mesmo que não sejas gorda.
Então, não é a mesma coisa? — ripostou a vaca, muito convicta. — O ordinário de um coelho chamou-me vaca… Tu não achas que ele me chamou… gorda?
Claro que não! Ele chamou-te… o teu nome, o nome que os homens te deram — explicou o burro, instrutivo. — Comigo aconteceu uma história parecida: vivia muito infeliz, porque me chamavam burro, e julgava que me chamavam estúpido. Só mais tarde percebi que burro é o meu nome, o nome que os homens me deram. A partir daí, nunca mais me importei. Pois, se é o meu nome!
Ah, então é isso? Faz sentido! — convenceu-se a vaca. — Obrigada, burro! Explicaste-te muito bem. Acho que não és nada “burro”.
E tu não és nada “vaca”. Estás até muito magra e isso não é nada saudável. Vê se comes melhor, para voltares a ser uma vaca bonita.
Quando o burro se afastou, a vaca mastigava um grande ramo de trevos suculentos, mas ainda conseguiu fazer um “muuuu!” de agradecimento e despedida.

Joaquim Bispo

* * *





quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

SÉRIE: TROVAS PREMIADAS (III)






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Fera ferida

Esbarrou sem querer quando tentava chegar até a pia para lavar a xícara suja de café com leite e poft, veio ao chão com água quente e tudo a jarra elétrica da redação, comprada com a vaquinha dos funcionários no último Natal. O tombo quebrou a alça e rachou a base do suporte, deu perda total. Roberta ficou arrasada. Que uma jarra elétrica não era nada, podia repor o treco na primeira ida ao Chuí, mas derrubar aquilo daquela maneira não era descuido e sim largura. Era a terceira coisa que suas ancas levavam de arrasto nesta semana. Precisava perder peso para voltar a caber com folga nos corredores apertados das instalações do jornal, em especial no vão da cozinha, entre os armários de um lado e o fogão e a geladeira do outro. O pessoal reclamou que não ia ter água quente aquele dia, pois o chefe não tinha pedido a troca do botijão de gás ainda. Nada de café, então. 

- Gente, eu trago uma nova na segunda-feira. Prometo.

Silêncio na sala e olhares trocados aqui e ali por cima de óculos de armações grossas. O microondas aguardava reparo há cinco meses. Se das cabeças dos colegas brotassem balões gráficos, Roberta leria pensamentos agressivos, debochados, desnecessários, tipo “tinha que ser essa balofa estabanada” ou “sempre na cozinha, essa gorda”. Mas naquela sexta sem graça não saía nada daquela redação, nem notícia que prestasse, mil vivas às assessorias de imprensa e suas enxurradas de releases. 

Caminhou até sua mesa de trabalho. Na passada, Renata fez psiu e convidou:

- Vem comigo no Chuí amanhã. Igual a essa jarra só tem lá. Te pego em casa às sete, topas? Vai ser legal, mulher. Eu iria sozinha, cantando alto todas as músicas da Bethânia...

Roberta, que nem gosta de Bethânia, só ouviu a parte da “jarra só tem lá” e disse sim. Sim, sim, sim, estaria na portaria às sete da manhã em ponto. Bater perna em free shop jamais seria sacrifício, mesmo quando não tivesse um pila para gastar, praticamente o caso. Na volta para a casa, entrou na padaria e fez um pequeno estoque para a viagem. Com alma de rata, só suportaria as quase quatro horas de viagem se levasse algo para roer. Biscoitos de maisena, bala de goma, amendoim torrado, deve ser suficiente, pensou, colocando sobre o balcão os itens que mais pareciam combinar com chimarrão. Pagou e foi.

Na manhã seguinte, oito e trinta e dois, nem sinal da Renata. Celular na caixa de mensagem. A colega teria desistido de buscá-la? Teria esquecido dela? Olhava para o relógio da portaria quando ouviu três buzinadas curtas, era Renata, enfim.

- Vem, mulher! Me perdi dormindo. Pula para cá.

Roberta entrou, afivelou o cinto e afundou no banco, sorridente. Rê, como chamava a colega, contava piadas hilárias, seria divertido dividir o sábado com ela. Pegou a agenda, a caneta, e começou a lista enquanto a outra abastecia o carro no posto: além da jarra, alfajores, perfume, chá granulado, Pringles e uns três vidros daquele dulce de leche absurdo de bom. Rê deu o play no rádio. Depois de duas horas e meia de distância da cidade, Rô, como a colega a chamava, também cantava alto com Rê todas as músicas da Betânia. Acabei com tudo, escapei com vida, tive as roupas e os sonhos rasgados na minha saíííídaaa. Não chegaram a repetir pela oitava vez o verso seguinte. Estrondo, o mundo ao contrário, o carro atravessado no pasto. Atordoada, Roberta desprendeu seu cinto e o de Renata, que gritava palavrões e batia os pulsos no volante, histérica, mas de que cu saiu essa merda de capivara era o mais brando que Rê conseguia articular. Forçou a porta para abrir e saiu do carro, olhou as manchas de sangue na rodovia e o rastro dos pneus no asfalto até onde haviam parado de capotar. Milagre, apenas uns arranhões pelos braços e esfolados no queixo. A frente da caminhonete detonada, pedaços do bicho entre a roda esquerda e a lataria.

- Rê, te acalma e aciona o seguro. Se tu me deres o número eu mesma ligo.

Renata não atinava, não ouvia, não tinha mais repertório de bandalheira para berrar. Roberta chorava e pensava que o conjunto de pequenas tragédias que vinham acontecendo com ela só podia ser macumba. E a Bethânia, insistente e sobrevivente, repetia rouca um trecho arranhado do cd: não vou mudar esse caso não tem solução sou fera ferida no corpo na alma e no coração. Não vou mudar esse caso não tem solução sou fera ferida no corpo na alma e no coração. Não vou...





segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Mondrique

Durante a execução do seu número, Mondrique mal se permitia disfarçar a tensão. Ela estava lá, a congestionar-lhe as feições, perturbando sua performance no picadeiro. Havia errado um truque, mas o respeitável público daquela cidade interiorana perdida no mapa brasileiro parecia alheio à apresentação e não notou seu equívoco quando um coelho saiu sorrateiramente da manga de seu smoking no lugar de um baralho com 52 cartas. Coelhos saem da cartola, resmungou o mágico enquanto mirava sua partner, Reginalda, também tensa em virtude dos acontecimentos que em poucas horas iriam se concretizar. Enfiada em um sumário maiô coberto de paetês, Reginalda fazia caras e bocas mal ensaiadas para o pequeno público que fora prestigiar o Gran Circo Continental na falta de melhor entretenimento naquela cloaca de mundo onde viviam.
Não era bem verdade que os espectadores da última noite em que o Gran Circo Continental se apresentaria estavam totalmente displicentes em relação ao espetáculo. Havia alguém, o delegado da cidade, que aplaudia freneticamente cada trejeito de Reginalda. Também pudera. Ela aceitara o convite para permanecer na cidade, tornando-se amante clandestina do agente da lei com casa, comida e um par de trepadas semanais tão logo o circo baixasse suas lonas. Mondrique estava desgostoso. Jurara amor eterno à Reginalda e não esperava tão sórdida traição. Como descobrira? Mais do que mágico, Mondrique era dotado de poderes sobrenaturais e a arte da adivinhação era somente mais um deles.
Poderia fulminar o casal adúltero por intermédio do seu olhar de seca pimenteira. Já havia experimentado em certa ocasião, não com pimenteiras e sim com um vira-lata que ousara avançar em sua canela numa madrugada perdida no tempo quando fora esticar as mesmas depois de uma apresentação em outra cidade. O pobre cãozinho trincou os dentes, estrebuchou e literalmente caiu duro em questão de segundos. O próprio Mondrique espantou-se com tamanho poder e com o tempo aprendeu a controlá-lo e, sobretudo, não o utilizar em contendas ou descontentamentos. E era esse agora o caso.
Maldita clarividência, pensou enquanto agradecia ao público com uma mesura. Despossuído dela sofreria tão somente o momento da perda e não a certeza ansiosa da véspera. De pouca serventia era aquele talento, visto que raras vezes algo de bom para a sua vida ele previra.
Um super homem que ocultava seus super poderes para melhor viver entre os pobres mortais, assim se sentia Mondrique. O povo preferiria as mágicas inocentes. Caso levantasse um cadáver, que pandemônio não causaria! Seria considerado um deus, ou um diabo. Em qualquer dos casos, certamente desgostos e aborrecimentos teria ele aos borbotões.
O pequeno trailer que divida com Reginalda possuía dupla função de dormitório do casal e camarim. Noites de amores ardentes e preparativos para o espetáculo onde Juvêncio se transformava no grande Mondrique, maior mágico do planeta, nas palavras do mestre de cerimônia do circo, aquele apertado trailer havia testemunhado. O nome de fantasia fora chupado e adulterado de um mágico das histórias em quadrinhos ianques. De início sabia que Reginalda por ele nutria um amor sincero, afinal, Mondrique tudo descobria de sentimentos humanos. Um aperto de mão, um abraço, um simples toque em um fio de cabelo ou a intimidade do coito, o mínimo contato corporal e lá estava o mágico roubando os segredos alheios. Com o tempo, aquela faculdade de Mondrique revelou  o tédio da amada, indiferença, desprezo, até culminar pelo interesse de Reginalda pelo delegado e seu projeto de lhe abandonar. Ao menos algum plano para eliminá-lo ou algo parecido Mondrique não captara nos cada vez mais escassos contatos corporais com a futura ex-mulher. Revolta e conformismo acabaram por se digladiar dentro de suas ideias. Que ela fosse, ou melhor: ficasse na cidade.
Quando ele entrou no trailer, Reginalda já lá se encontrava. Retirava a maquiagem. Ela se assustou como uma criança pega em travessura.
– Fez as malas? – ele perguntou.
– Que malas? A gente leva tudo dentro do vagão mesmo – gaguejou a partner sem conseguir disfarçar a surpresa.
– As malas que o puto do delegado passará aqui para pegá-las ou você iria fugir escondida feito um rato que se esgueira pelos esgotos?
Quando Reginalda se foi, Mondrique decidiu que mulher alguma valeria o sacrifício de seu amor. Nunca mais se apegaria a rabos de saia, rachas ou jogos de seduções femininas. Para ele, bastavam agora as quengas das casas de tolerâncias instaladas nos arredores das cidades por onde o Gran Circo Continental aportasse. Haveria até dividendos: a cada toque recebido ou dado em uma mulher da vida já saberia de antemão o que ela pensava a seu respeito. Muitas vezes, interrompia o encontro ou perceber que por ele algumas damas de bordéis sentiam asco enquanto fingidamente gemiam espremidas entre o corpanzil do mágico e os lençóis fedendo a amores clandestinos. Pagava a cafetina e voltava para o seu trailer sem mais explicações. Nessas ocasiões, tornava a resmungar: maldita clarividência.
Certa ocasião, quando o circo estava armado em um lugarejo perdido no sertão nordestino, algo inusitado ocorreu. Mondrique, após o espetáculo onde se utilizou de maneira sutil dos seus reais dotes de levitação, com certo cuidado para que parecesse um mero truque de ilusionismo, sentiu necessidade de uma mulher para se aconchegar. Como sempre, perguntou de forma discreta a algum homem das cercanias onde estava instalada a zona da cidade. Informações tomadas, rumou para o casarão na outra margem do rio. Puteiro das antigas, com ares de cabaré, shows de moças quase peladas rebolando no palco e uísque de má qualidade servido. Nem bem havia se alojado atrás de uma mesa solitária, uma ruiva de vestido curto exibindo coxões alvos e colo sardento explodindo pelo decote acentuado, sentou sem cerimônia ao seu lado.
– Bebe o quê, meu lindo?
– Para mim, uma água tônica. A moça pode pedir o que desejar.
Água tônica naquele tipo de estabelecimento não havia. Contentou-se com um refrigerante. A ruivona, quase um metro e oitenta de carnes bem distribuídas pela silhueta, lhe pareceu simpática, além de sexualmente atraente. Gastaram alguns minutos em conversa pra lá de fiada e Mondrique pagou as bebidas enquanto combinava os honorários por uma hora de serviços na horizontalidade de uma cama. Subiram uma escada em caracol para o segundo andar do prostíbulo onde ficavam os quartos. A ruiva ia à frente, com o traseiro quase esbarrando nas ventas do mágico. No corredor, ela pegou na mão sinistra de Mondrique para guiá-lo até um dos cômodos. Estranheza correu por todo o seu corpo. Não divisou nada após o contato. Que intenções teria aquela mulher? Sua vidência findara? Haveria alguma interferência, um ruído na comunicação parapsicológica? Maldita clarividência que o abandonara, pensou.
Dentro do quarto semelhante a uma cela de convento pela pobreza dos móveis e cabine de navio pela economia de espaço, quis saber a graça da ruiva:
– Gigi.
Toda puta provinciana se chamava Gigi.
– De guerra? – perguntou Mondrique tocando-a de leve na ânsia de descortinar sua verdadeira identidade. Nenhum sinal telepático.
– Claro, lindo. O da pia batismal eu digo só para aquele que me tirar da vida – zombou enquanto mostrava os dentes alvos como o corpo que revelava à medida que o vestido escorria até o chão.
Diante da monumental voluptuosidade que se apresentava à sua frente, Mondrique esqueceu por um tempo as inseguranças dos poderes extra-sensoriais perdidos e se perdeu nos labirintos de Gigi, que dele fez gato, sapato, barba, cabelo e bigode, deixando-o extasiado.
Enquanto o Gran Circo Continental permanecia naquele rincão no fim do mundo, Mondrique quase que diariamente visitava Gigi nos seus aposentos de luxúria. Ela se mostrou receptiva ao mágico, tratando-o com carinho, ternura e muito sexo. Após cada ato consumado, dia após dia, o mágico tentava, através de abraços, beijos e chamegos, conseguir extrair da meretriz algo que revelasse seus verdadeiros sentimentos. O afeto que Gigi demonstrava antes e depois dos entrelaçamentos mundanos eram reais? Maldita dúvida que me assola, resmungava Mondrique.
E ele foi se apaixonando pela marafona do interior, quebrando a promessa que fizera quando da deserção de Reginalda. Com medo de que o dono do circo resolvesse encurtar a temporada na cidade em razão das baixas bilheterias, decidiu usar seus poderes ocultos e incrementar cada vez mais seu número, visando atrair público e manter o picadeiro montado por aquelas bandas.
Foi um tempo em que o Gran Circo Continental vivenciou apresentações memoráveis, desde a já manjada levitação de objetos, alguns dias depois trocados por voluntários que se aventuravam ao sobrevoo sobre a plateia quase esbarrando no alto da lona circense, passando por um extraordinário espetáculo de luzes e fogos que jorravam das mãos energizadas de Mondrique, este tomando as devidas precauções para não ferir um membro da plateia mais entusiasmado.  O ponto alto foi quando ele deu de fazer adivinhações. Desta forma, descobriu que seus poderes telepáticos só com Gigi não funcionavam. Maldito mistério, lamentou.
O circo entupia de gente na esperança de conhecer um futuro melhor após o mágico tocar-lhe as mãos. Contudo, Mondrique assevera que só o passado revelava. O futuro a Deus pertence, repetia prevenido em não se meter em complicações acerca das fofocas locais. Atendia no máximo a meia dúzia de curiosos, revelando nomes de família, doenças de infância, fatos marcantes em suas existências. Do passado, escondia com habilidade qualquer fato embaraçoso daqueles que se dispunham a tomar parte no número.
A fama do mágico correu toda a região e claro que a outra margem do rio não poderia escapar das notícias que um prestidigitador estava fazendo proezas no cirquinho mambembe que por ali aportara. Gigi, que já sabia onde e no que Mondrique labutava, foi em seu dia de folga, acompanhada por um cortejo de quengas, prestigiar o sucesso de seu cliente preferencial. Sentou-se na primeira fila ombreada por suas colegas de profissão, para o escândalo da sociedade local. Mondrique ficou encantado com a visita e no final da apresentação, materializou um ramalhete de flores que ofertou à amada. Ele tinha planos.
– Quer casar comigo, Gigi?
– Tenho que ir com o circo, lindo?
– Na cidade eu fico, mas terás que largar a saliência.
– Aceito então.
Alugaram uma casinha do outro lado da margem do rio. Mondrique dava consultas, passado, presente e futuro. Até pequenas curas fazia. Tudo a preços módicos, mas o suficiente para levarem uma vida confortável. Com o tempo, caravanas começaram a chegar à porta da casa, no intuito de consultarem o vidente agora famoso. Hotéis, restaurantes e lojas de lembrancinhas alavancaram o comércio da região. Até o puteiro onde Gigi trabalhara se beneficiou com o fluxo de turistas. Mondrique tinha alguns aborrecimentos vez por outra. Em inúmeras ocasiões foi preso pela prática de curandeirismo e solto após alguns dias, voltava ao seu ofício de médium. Gigi na verdade se chamava Laurinda. Isso Mondrique, agora rebatizado de Irmão Juvêncio, não adivinhara. Ela mesma, cumprindo promessa, revelara o nome ao marido. O que nunca Juvêncio descobriu foi que Laurinda também possuía os dotes da clarividência. De alguma maneira o contato corporal entre aqueles seres embaralhou o dom do esposo enquanto o dela se manteve intacto. Abominava utilizá-lo. Durante toda infância, de bruxa era chamada pela família e vizinhança. Assim, quando Juvêncio a tocou na noite em que se conheceram, ela já sabia o final dessa história.






domingo, 20 de dezembro de 2015

GESTO

Esta crônica bem poderia se chamar “ O Verdadeiro Espírito de Natal”.
Ou “Amigo é Pra Essas Coisas”. Ou “O Amigo Não Oculto”. Nada disso.
Tudo clichê e piegas. Muito aquém do conteúdo da história.
Preferi intitulá-la “Gesto. ”

Mas antes fui no Houaiss. Gesto: movimento do corpo, principalmente
das mãos, dos braços e da cabeça. Mímica, aceno, sinal. “Com um simples
gesto, expressou pensamento e sentimento. ”

Era isso. Agora vamos à prosa.

Sempre gostei de levar os olhos para passear em livrarias. Numa dessas
incursões, olhei um livro, o livro olhou para mim – foi amor à primeira
vista - e vislumbrei na capa, no toque e no primeiro folhear, a lembrança
de um amigo de vital importância na minha jornada “Since 1988”-
diria o rótulo de um notável vinho saboroso.

Tive razões e emoções para pensar no amigo: tratava-se de um assunto muito
comum a nós, o foco de uma época em que, se não a vivemos juntos,
a tornamos contemporânea em nossas
longas e profícuas conversas.

Comprei o livro. E no dia seguinte cheguei para um encontro com o meu amigo
com ele na mão, embrulhado como manda o figurino. E cheguei logo dizendo.

- Olha, quero te dar um presente de Natal. Talvez você já tenha, talvez 
você nem queira ler (acho difícil). Mas tome este pacote como um gesto 
de afeto.

Abre parêntese. Sempre me incomodou o fato de uma pessoa determinar o
que quer ganhar de presente de Natal, seja no amigo oculto, no pé da
árvore natalina ou no sapatinho na janela. Presente para mim não é obrigação.
Longe de ser algo utilitário, funcional, que alguém esteja precisando.
Presente é lembrança. É a expressão mais literal, pura e sincera de que
você lembrou com carinho da pessoa a quem se destina. Fecha parêntese.

Meu amigo brilhou o olhar diante do embrulho. E estraçalhou o papel bonito,
feliz como a criança que nos habita ao longo da vida. Até que soltou uma
gargalhada, seguida de outra expressão pura e sincera:

- Putaquepariu! Comprei esse livro ontem!

- Não faz mal, - disse eu. Você pode trocá-lo, passar adiante, ou enfeitar 
a estante. O importante é o gesto.

- Claro que o importante é o gesto. Tanto que quero retribuir. 
Eu pensaria neste mesmo presente para você. Portanto, ele é seu.

Numa leitura amarga – como bem convém aos nossos tempos de escárnio,
iniquidade, lama, ódio, estupidez, cinismo, deselegância, indelicadezas
e desesperança – eu diria que ele devolveu o presente.

Mas, não. Senti que ele tinha me devolvido um gesto de afeto.
Havia algo de carinhoso e criativo no ar, emblemático do nosso cultivo
de espírito. E nos abraçamos às gargalhadas, sem muitas palavras,
mas com o calor das amizades sinceras e dos gestos que ficam para sempre.





sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Uma história, apenas uma história



        Senta, fica em silêncio. Não vale rir nem fazer gozação. Vou contar uma história que aconteceu comigo.
        Eu era pequena, devia ter nem três anos. Tinha ido a um pequeno mercado do bairro onde morávamos e estava acompanhando três gerações de mulheres da minha família: minha mãe, minha avó e minha bisavó. Elas haviam ido comprar coisinhas que faltavam em casa, um leite, pãezinhos, e pouco mais que isso. Distraíram-se olhando as mercadorias, vendo preço, conversando entre si. Perderam a atenção em mim e eu fiquei solta, sem mão nenhuma a me controlar.
        Não sei a cena exata, é claro que dela não tenho memória, o que sei é o que lembro do que a minha mãe falou. Por isso não sei como foi, sei apenas que a minha bisavó é quem de repente deu uma cotovelada em minha mãe e falou Olha lá, olha lá ela!, apontando pra um homem que caminhava rumo à saída do mercado e me carregava no colo. Minha mãe e minha avó gritaram e saíram correndo na direção do homem. Minha filha! Minha neta! Minha filha, minha neta e chamaram a atenção da loja toda com a gritaria.
       O homem podia ter saído correndo, claro que podia. Mas por alguma razão ele teve medo. Abaixou a cabeça e começou a tentar se explicar, dizendo que não sabia, tinha encontrado a menina solta, pensou que estivesse perdida, sem ninguém.
      É minha filha, devolve ela! Claro, claro, o homem foi falando e me pondo ao chão. Não sei por que eu não chorei no colo do homem enquanto ele me carregava. Não tenho a menor ideia e esse silêncio me pesa até hoje, em noites violáceas e frias. Minha conivência, minha traição. Nunca consegui uma resposta e tampouco quis formular a pergunta à minha mãe. Pra que fazê-la se culpar mais, se ela já sentia o peso da mão solta?
      O homem era um cigano.
      Vestido de cigano.
       Não sei a cor da roupa que ele usava, mas sempre o imagino com calças vermelhas de um cetim brilhante. Pelos pretos no peito e cabelos também bem escuros e cacheados. A pele amorenada igual à minha. Ele quase me levou.
       Sei que depois de ouvir essa narrativa você vai soltar um E? com cara interrogativa de quem espera a continuação. Mas não tem nada depois, mais nada. A não ser a sensação de que, se eu tivesse sido levada, não estaria aqui, nem seria eu. Essa história, boba e incompleta, me persegue e assombra. Quem eu seria hoje se ele me tivesse levado? Onde estaria?

        Nunca vou saber e é inútil perguntar, mas nem assim consigo me livrar das interrogações e do desejo de imaginar-me sempre vivendo outras vidas.





quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Dois poemas de Juliana Meira








avó Iza
tinha mãos magrinhas
e gesticulava
entre o nada e a sala

enquanto acarinhava os netos
xingava em voz baixa
as vozes que só ela
alcançava

menina ainda
mamãe me deu aquela trágica
palavra esquisita
e s q u i z o f r e n i a


.


tento pintar
a memória

revisito traços
jogo tanta tinta fora

sustento ideias que
estão só na minha

fundo cor de gelo
faço cor de pérola

talvez mais
carvão

vou tingir de chão
toda atmosfera




Juliana Meira, poema pássaro, Editora Patuá, 2015.





quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Não bato


Eu podia sair e andar alguns passos à direita ou à esquerda e bater em algumas portas e encarar alguns rostos surpresos e abrir a boca e contar que hoje lá em casa não tem migalha. Eu podia falar da fome que queima. Da insônia. Da náusea. E da ironia dessa náusea que brota da falta. Falar da outra fome, a que precisa mastigar afetos. Da outra ânsia, a que precisa vomitar afetos. Eu podia falar como é raso o buraco que eu chamo de abismo; e que ainda assim é abismo. Mas, antes, eu preciso de pão. O de fermento. Porque hoje, lá em casa, não tem migalha. Tem ladainha. Falta emprego, dinheiro, coragem, gás, coragem, sal, coragem, arroz, coragem. E pão. Quando eu era pequena, minha mãe dizia que água e pão a gente sempre tem. Não é verdade. Hoje, não tem pão. Tem prato, mesa, geladeira. Tudo vazio. Um vazio servido no prato, na mesa, no estômago, na cabeça, nos olhos. Vazio de pão dói mais.
Alguns passos. À direita, à esquerda. Tanto faz. Tanto faz a porta, o rosto, o estranho, o amigo. Eu não vou pedir. Fico aqui, sem migalha, mas não peço. Nada. A ninguém. Fico aqui e choro sem fazer cena, e sinto as unhas latejando, e vomito, e tonteio, e desmaio, e levanto. E deixo tudo começar outra vez. E espero a inanição, a morte. Mas não peço. Nem à direita, nem à esquerda. Que não dou a ninguém o direito de negar. De me negar. De se negar a mim. Que não dou a Deus o direito de me dizer que fome e piedade é o que tem para hoje. 
Todas as portas estão vivas. Eu sei. Eu escuto as vozes, as gargalhadas, o sexo, os aparelhos de TV ligados na novela das sete. Escuto do lado de cá. E aí a mão se fecha para bater na madeira que me separa do estardalhaço das crianças, das lambidas dos cães. Mas os pés recuam. Obedientes, altivos, enfraquecidos. A cabeça recua. E impede a mão fechada do horror da piedade. Daqueles olhos que seriam, primeiro, incrédulos; dos pensamentos que seriam, em seguida, dúvidas sensatas: quem é você? A louca que incomoda, a vizinha desconhecida, a preguiçosa que não procura emprego, a filha sem mãe, a mulher sem marido, a amiga sem amigos. E, então, a compaixão, o dó, o acolhimento, a compreensão, a mão entre as mãos, o conselho, o me conta a sua história, o coitada de você, a humilhação. O horror da maldita piedade. Que depois despreza. Que depois escarnece. Que depois aprisiona. Que depois abusa. Que depois rejeita, afasta, repele, foge, se esconde, evita, aborta.
Eu podia sair e andar alguns passos, bater em algumas portas; em todas elas. E pedir um pão. Mas eu não vou. Eu não peço. Eu não mendigo. Eu não estendo a mão. Nem hoje que a morte me estupra. Eu morro. Mas morro sem bater.







segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

em memória



Três metros e quarenta centímetros foi o que tu mediste. Palmo a palmo, que tu sabias que eram vinte centímetros certinhos, desde o início do pulso até ao finalzinho do teu dedo médio. Tinhas medido no Natal passado, num brincar com os teus sobrinhos.
Trezentos e quarenta centímetros sem luz e sem mais espaço transversal do que o ocupado pelo teu corpo e, ainda assim, tu arrastando-te. Lenta, esforçada, a tentar desenterrar-te, sair dali, perceber o que teria acontecido.
O sedoso do teu vestido deslizando-te o corpo ensopado.
Que tentasses sair daquele odor a humidade; que te livrasses da terra enlameada a empapar-te o cabelo e o ventre, e sob os pés onde as sandálias deixariam um sulco.
Tu deslizando, a cada vez, muito menos do que os vinte centímetros do teu palmo, e ao fundo nem foi luz que visses. Ao fundo, foi o teu braço dependurado sobre um ruido intenso de água em tumulto.
Água escarlate que àquela hora todo o mundo via e se espantava e lamentava, cada um no conforto da sua casa, sua rua, sua cidade, sua aldeia; ou a dançar num arraial semelhante àquele para onde te dirigias.
Água da cor da terra. Um castanho avermelhado tão da cor do sangue que doía ver assim esmagada a terra e a vida de tantos homens. O horror a entrar pelas casas de todos e lá, abandonado, o teu braço palpando um apoio, o teu braço dependurado de dentro da conduta que te abrigara, solta sabe-se lá de onde, num daqueles acasos perversos que se dão nos destinos das pessoas.
Água que tu nunca irias saber de onde e nem como.
Tu a tentar rolar-te sobre o ventre, rodar o teu corpo apenas coberto com o vestido branco estampado com ramos verdes; o vestido que tinhas escolhido para ires ao arraial. E tanto que tinhas querido que fosse bem escolhido. O vestido e o lenço que ataste sobre os caracóis, e a pulseira que entretanto perdeste – deixaste de lhe sentir o toque, ias ainda na estrada estreita que vinha lá da encosta, tu conduzindo em segunda que a descida era um nadinha íngreme. Era mesmo muito inclinado esse troço da estrada. E cruzou-se contigo um carro. Ia ao volante um homem jovem, reparaste. E foi logo de seguida. Tão de seguida que tudo se deu.
Tinha estado uma tarde límpida, e assim aquela chuva era coisa estranha.
E o carro rolando, primeiro em linha recta, e depois aos tombos, e tu jogada sobre o assento a segurar-te, a tentar manter-te fixa, a espantares-te daquela água toda até ser o embate.
Nunca irás saber como e nem de onde.
Tu a tentar sair do túnel ou o que é que te rodeia e comprime como se fosse tumba. Tu rastejando três metros e quarenta centímetros e a tua mão a tatear apenas espaço vazio.
Um dia sairei daqui, dizes-te assim, e não choras, que a ti ensinaram-te que os deuses são justos. Justos e misericordiosos.
Eles hão-de salvar-te.
Mantém vigília, não soçobres, aconselhas-te, que tu ainda agora não percebes se foi grande chuva, ou se foste tu que fizeste, como fazias tantas vezes, e passaste o paredão a encurtar caminho. Mas não. Hoje, tu tinhas ido pela estrada. Hoje, não foras pelo dique. Não, não tinhas caído lá de cima. Foi outro o modo de ter ficado assim tanta água. E a sorte de estares agora em terra firme, se bem que nem saibas onde e nem te possas sequer voltar sobre a barriga a tentar ver que final é esse que apenas o teu braço detecta.
E paras, não te mexes.

Se soubesses rezavas, mas tu desaprendeste. Ainda assim, tentas, nem que seja para te manteres desperta: deuses do firmamento acudi-me, suplicas, e o calor da lágrima que se solta, à revelia, aconchega o teu corpo, ali, naquele final dos trezentos e quarenta centimetros bem medidos.





INSÔNIA


                      INSÔNIA

 Cecília Maria De Luca

Estou deitada. Já se faz tarde e pressinto mais uma noite insone. O lexotan flerta comigo, mas hoje não. Preciso de uma ideia, umazinha só. Uma palavra... Nada, as horas passam, a inspiração não vem e meu prazo está no fim. Preciso escrever, meu Deus, mas sobre o quê?! Lá fora a tempestade martela o telhado. Ouço estrondos e os raios riscam o céu, clareando, vez em quando, o breu em que me encontro. Luzes e sombras. Este, aliás, foi o tema de uma reflexão de Natal que publiquei anos atrás. E o Natal está próximo, quem sabe uma mensagem de otimismo caia bem. Sim é isso. Vai, uma palavra só e consigo. Estou tensa e preciso relaxar. Meditação, quem sabe? A técnica é respirar fundo, uma, duas, três vezes, não bloquear os pensamentos, deixar que venham, observá-los e deixá-los ir, até que sua cabeça fique vazia. Sempre respirando fundo. Tudo bem. Respiro fundo por várias vezes e observo meus pensamentos. Assim, ótimo... Vejamos o que passa pela cabeça.
  
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Imagens fragmentadas numa conexão de horror. Elas vêm e vão num círculo interminável. O tempo passa e me pergunto: cadê a parte em que os pensamentos vão embora, que a cabeça esvazia?

A madrugada avança e me vêm à lembrança os tempos de criança, das brincadeiras de rua. O tempo em que as ruas eram um convite aberto para o encontro de vizinhos e amigos. Uma daquelas brincadeiras era a de “mocinho e bandido”, inspirada nos filmes de bang-bang da época. Dividíamos a turma, metade do bem, metade do mal. Usávamos revólveres de brinquedo, então permitidos. Sua proibição, hoje, talvez seja uma das causas de jovens e adultos usarem armas de verdade para sair atirando em escolas, ônibus, cinemas, mas não vou entrar nessa discussão.  Quero lembrar e lembro que a gente se escondia atrás de árvores, muros, esquinas daquelas ruas tão calmas e pá, pá, pá. Claro que os bandidos perdiam sempre e, quando capturados, o xerife, sim, porque tinha um xerife, conduzia o bando para o xadrez, que era o nome popular para prisão. Nosso xadrez ficava no porão de uma das casas e a turma presa ali só era solta depois de pedir água, perdão e prometer bom comportamento. Alternávamos a turma: um dia, este, esse e aquele eram os bandidos, nós os mocinhos. Noutro dia, eles eram os mocinhos e nós os bandidos. Tudo muito bem definido, inclusive no mundo dos adultos. Hoje parece que as coisas não se definem mais, ou melhor, definem-se só por um lado. O lado dos bandidos. Bandidos rotos julgando bandidos esfarrapados, bandidos esfarrapados acusando bandidos rotos, todos bandidos rasgados, descarados, cínicos, mal feitores, hipócritas, ladrões, assassinos. E nem se pode dizer que as vítimas seriam os mocinhos. Não, não há mocinhos na história que o mundo escreve hoje.

A história que se escreve hoje não contempla nobreza de sentimentos, honradez ou delicadeza. Nada nem ninguém se salva, tudo dominado, contaminado como as águas do Rio Doce, como as praias do Mediterrâneo, como o solo da Síria, como o solo das Américas, da Europa, do bloco oriental, do diabo a quatro. O mundo, incluindo nosso país, bebe o veneno que criamos no laboratório da indecência, da imoralidade, da crueldade, do cinismo, da intolerância, do egoísmo, do ódio, da ambição desmedida, do preconceito, da falta de vergonha.

As horas voam, não encontro a palavra que quero e um pensamento angustiante deixa-me um travo na boca: nunca antes o mundo foi tão conectado e, no entanto, nunca antes tamanha sensação de isolamento, de estranhamento, de não pertencimento.

Faz tempo que a chuva acabou. A claridade que vejo agora é a luz da manhã que se avizinha. Meu pai sempre dizia que, depois da tempestade, vem a bonança. Abro as cortinas e contemplo as luzes da cidade se apagando à medida que o sol se levanta. E ele se ergue majestoso, cobrindo a humanidade, totalmente indiferente às suas mazelas. Parece me dizer que sempre foi assim e sempre será. Parece me dizer que, apesar de tudo, o planeta continua girando, bosques continuam florindo, cores continuam proliferando, águas continuam brotando, crianças continuam nascendo.

Estou exausta, o prazo com meu editor venceu e não consegui escrever a mensagem de Natal que queria. Ou consegui, quem sabe. 
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Fotógrafo, A Biografia de um Bebê e Patriotismo

O fotógrafo

Sua câmera fotográfica roubava as almas das pessoas. Nas paredes de casa, os retratos gemiam e suplicavam por liberdade.


A Biografia de um bebê

Dormia. Comia. Chorava. Cagava.

Às vezes, sorria.


Patriotismo

Era um sujeito muito patriota. Preferiu abandonar o país para não ter de ver seus defeitos.





quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Existência


Quando percebo, já estou arfando. Puxo o ar com força para os pulmões à medida que tento controlar o ritmo do batimento cardíaco. As mãos úmidas e uma leve vertigem acabam de dar as boas-vindas para uma nova crise de ansiedade. No início, eram esporádicas; agora, uma ou duas vezes ao dia.

Me apoio sobre a bancada de mármore da pia e pego um copo com água. Nesse momento, minha mãe entra na cozinha e dá um bom dia sem me olhar. Respondo e saio rapidamente em direção ao meu quarto. Não quero que ela perceba meu estado, ainda mais depois da briga que tivemos ontem a noite. Aliás, depois dela ter vindo à minha casa de surpresa, com duas pequenas malas, a fim de se hospedar por alguns dias para realizar exames médicos mais elaborados, segundo ela, sem me dar maiores detalhes. Não gosto desse clima de suspense. E não quero mais ninguém dando palpite na minha vida.

Remexo meu armário e, debaixo de várias pastas de documentos antigos, pego meu remédio tarja preta. Deito na cama para esperar o efeito tranquilizador, mas os barulhos do quarto ao lado não me deixam descansar. Sei que ela faz isso só para me testar, me desafiar, e ela consegue por muitas vezes me tirar do sério. Mas hoje, não. Preciso ficar bem para resolver minha vida – pelo menos, parte dela. E ela sabe. Pode não compreender totalmente, nessa fase de adolescente rebelde que vê na própria mãe uma rival a duelar, mas está absolutamente informada que a sua – a nossa – vida pode ficar muito difícil depois de hoje, mas ela se supera colocando um punk rock na maior das alturas, e não me deixa escolha.

Soco a porta com força. Em alguns segundos a música para, mas ela não abre a porta. Chamo-a pelo nome, mas nada – como sempre. Minha mãe vem ver o que está acontecendo. Desisto. Não preciso de plateia para lidar – ou tentar lidar – com a minha própria filha. Volto para a cozinha espumando de raiva, sento à mesa e me sirvo com qualquer coisa que consigo encontrar. Minha mãe vem logo em seguida. De canto de olho, percebo que ela me observa. Quer me dar algum conselho sobre como lidar com minha filha. Então continuo inatingível, e ela parece se contentar.

Marina não demora muito para aparecer, com aquele jeito de quem tem todas as respostas para minhas possíveis perguntas na ponta da língua. Sinto-me agitada, quero falar, mas resisto. Preciso manter a calma, o dia está apenas começando. Marina percebe o clima tenso à mesa e passa a exibir seu irritante ar triunfal. Minha mãe sempre me diz que eu era igualzinha a minha filha, que não posso me queixar. Enquanto come com uma mão, com a outra Marina digita freneticamente as teclas de seu celular. Odeio esse comportamento à mesa, então fixo-lhe o olhar. Ela retribui, sem deixar de digitar.

Minha mãe se levanta e lava sua louça. Marina rapidamente acaba seu café e deixa a louça com a avó, dizendo estar atrasada. Uma estratégia para não ter que me encarar sozinha. Mas tudo bem, ela não me escapa. Levanto e deixo tudo como está. Digo para minha mãe não se preocupar, pois preciso sair e, quando voltar, termino tudo. Ela diz que tudo bem, mas acho que tem algo mais a dizer. Fico com essa impressão, mas como ela volta para seu afazer, não a indago. Quando saio, me pego pensando se não tive com a minha mãe a mesma atitude que Marina teve comigo – fugir. Assim como antes, deixo a pergunta no ar. Tenho questões mais urgentes para resolver.

Faço compras no supermercado para um almoço caseiro. Em seguida, passo uma dezena de minutos sentada em meu carro, suando mesmo com o ar-condicionado ligado na toda, tentando decidir se devo me arriscar. Um dia, jurei que não procuraria mais essa válvula de escape, que não precisava mais, mas hoje estou confusa, perdida, e um monte de certezas que cercavam minha vida se esvaíram. Então tomo a decisão. Depois de meia hora, chego a uma rua de mão dupla pouco movimentada. Avisto de longe um grupo de meninos e chego com o carro próximo deles. Um vem em minha direção e fica me olhando. Mostro o dinheiro. Ele tira dois papelotes do bolso e me entrega. Quando viro a esquina e já estou no meio do trânsito pesado da manhã, minhas pernas tremem, e a sensação de culpa se alastra pelo meu corpo.

Em casa, vejo que estou sozinha. Minha mãe deixou um bilhete dizendo que tem exames e só deve voltar a noite. Me sinto um pouco aliviada, pois Marina ficou de passar a tarde depois da escola na casa de uma amiga, e assim vou ter o tempo todo só para mim e Pedro. Mas quando penso em como será aquela tentativa de reconciliação, sinto o estômago embrulhar e os primeiros sintomas de uma nova crise de ansiedade aflorar. Abro a bolsa e pego os papelotes. Uso um deles e deito no sofá para relaxar. O efeito é quase imediato.

Já são quase meio-dia quando saio daquele torpor e me dou conta de que não preparei nada. Pedro vem para o almoço. Tento ligar para o seu celular, para lhe pedir que não chegue tão rápido, mas só cai em caixa postal. Deve estar preso em alguma reunião, ocupado como é. Em pouco mais de uma hora termino de preparar a lasanha e já a vejo quase pronta no forno. Do freezer para a geladeira, o vinho tinto está quase no ponto. Ligo outras vezes para Pedro, sem novidade. Observo a movimentação na rua – nenhum sinal dele.

As horas passam rapidamente e, nelas, estou sozinha. A mesa, pronta à minha frente, é uma triste lembrança de um passado bem próximo, que eu quase havia me esquecido. Não deveria me decepcionar com Pedro. Sei como ele é, como funciona sua vida, mas a frustração toma conta de mim. Eu o amo... ainda o amo. Só espero que essa não seja mais uma das outras tantas certezas da minha vida que cairá por terra. Não como nem faço outra coisa. Apenas espero.

No sonho, alguém me diz que estou em perigo e preciso fugir do meu esconderijo. Sei que minha mãe foi pega pelos perseguidores. Batidas fortes e secas me deixam em pânico. Acordo assustada e percebo que o barulho é de alguém batendo à porta. O celular toca em seguida. É Pedro. Abro a porta e ele vai logo se desculpando pelo fenomenal atraso. Minto, dizendo para não se preocupar e pergunto se está com fome. Ele diz que já comeu, e mais uma vez pede desculpas ao dizer que precisamos ser rápidos em nossa “reunião”. Fiz planos tão diferentes para aquele encontro...

Pedro liga seu ipad e me mostra uma lista de divisão de bens que ele criou. Pondera sua decisão item por item, e, em certo ponto, desligo de sua fala burocrática. Apenas o observo, tentando encontrar – como em todos os outros dias após nossa separação – o motivo que nos desuniu. O que aconteceu com a gente?, pergunto. Pedro ainda fala mas não conclui a frase, me olhando sem entender. Por que nós chegamos nesse ponto?, insisto. Ficamos, por um tempo, calados. Talvez a gente tenha esquecido de funcionar como um casal... Eu vivi só a minha vida, e você viveu só a sua... Acho que a gente esqueceu de olhar para a nossa relação, surpreende-me a forma crua e verdadeira de Pedro falar. A sua maturidade. O seu rosto, apontando que, aquele, é um caminho sem volta.

O telefone de Pedro toca. Ele pede licença para atender e vai para a cozinha. Fico na sala, sentada no sofá, sem reação. Penso e não encontro nada que possa fazer para tentar mudar a ideia de Pedro. Nada que não me pareça extremamente fora de contexto diante da postura dele. Quando o telefone de casa toca, demoro a entender o que se passa. Do outro lado da linha, a secretária da clínica em que minha mãe vem fazendo exames pergunta por ela. O por que dela não ter comparecido para a bateria de exames que estavam programados para aquele dia. Algo está errado.

Pedro volta da cozinha e pergunta se não me importo se ficarmos de combinar um dia mais calmo para nossa conversa. Digo que tudo bem, que preciso resolver um problema, e nos despedimos.

Entro no quarto da minha mãe e procuro onde ela guardou os exames. Assim como eu, ela procura esconder aquilo que não quer mostrar ou falar. E eu entendo o porquê. Me sinto mal ao ler os resultados. Um misto de arrependimento, raiva, pena, medo... Ela sabe que vai morrer logo, pois o seu câncer evolui rapidamente. Compreendo o motivo dela estar deixando de fazer os outros procedimentos. Mas, por que ela não quer conversar comigo sobre isso? Por que passar sozinha por esse momento? Eu não deveria ter entrado em sua privacidade, mas... que se dane, ela é minha mãe. Eu tenho o direito de saber... acho que tenho o direito, sim.

Minha mãe e Marina chegam juntas no início da noite. Será que Marina sabe da doença da avó? Essa e outras perguntas surgem enquanto observo as duas rindo e conversando alto, colocando os pacotes das compras que fizeram sobre a pia. Minha vontade é de entrar naquela cozinha e acabar com aquele momento feliz. Onde elas veem alegria, afinal?... Mas me contenho, sabendo que até mesmo a minha presença só irá atrapalhar o relacionamento entre as duas. Se minha mãe está superando – ou, ao que parece, esquecendo um pouco – seu problema, vou respeitar sua decisão e aguardar que, um dia, ela confie em mim.

Vou para o quarto, deito na cama e fico, por um tempo, ouvindo os sons agradáveis que se projetam da cozinha. Do lado de fora, a algazarra orquestrada do início de noite – das crianças saindo da escola, das pessoas conversando, seguindo suas rotinas da volta do trabalho, do ronco dos motores dos carros em movimento... os sons da vida seguindo, enfim. Lembro, então, que ainda tenho mais um papelote. Mais uma vez a culpa me consome... mas preciso desligar um pouco, relaxar. Tive um dia cheio, totalmente fora do planejado, e as descobertas que fiz não foram nada boas.

Depois de um tempo, os problemas se desintegram, e uma frase surge num fluxo: Viver é para poucos, a maioria apenas sobrevive. Sozinha na minha redoma, constato – acho que me enquadro no segundo caso.




Conto integrante do e-book Um dia na vidaBaixe-o gratuitamente clicando aqui.

Foto: reflections in the evening, de Georgie Pauwels. Original aqui.





segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Presente

Queria aquele presente
que não cabe
em embalagens

aquele
que não se desejava

trocar ainda

que não servisse
perfeitamente
a nenhum de nós

queria aquele presente
das fotografias
de filme e papel
queria
aquele presente
que dispensava pacote
e fita ou enfeites quaisquer
por ser ele lindo, tão lindo

por si só

aquele presente recebido cheio

de sorrisos e agradecimentos
feitos com a pele

com abraços trocados
com força e carinho
queria aquele presente
que não se podia comprar
nem pela internet!
queria... queria muito

queria tanto...

[e ainda quero!]

aquele presente
mas o bom velhinho
não o aceita
como pedido válido
ainda que se tenha sido
um bom menino
um boa menina

ao menos
na maior parte do tempo.
queria aquele presente
mas eis que ele se perdeu
junto aos outros
não no correio, mas no caminho

que se fez até aqui

e agora me encontro presa
neste que é o futuro dele
e com o tempo...
ah, com o tempo, meu amigo
não se pode jogar

ainda que seja Natal.





quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Destinos


Morar em bairro violento é assim: você tá chegando em casa vindo da escola e de repente um carro para ao teu lado, uma porta abre e um peso é jogado no chão, quase em cima de você: buf.

Você vê que é um corpo, seu coração para no peito por alguns segundos (enquanto você reza pra não ser ninguém conhecido, o carro voa cantando os pneus), e então volta a bater. Nesse momento, outras pessoas, seus vizinhos, já estão correndo em direção ao corpo, como se sentissem o cheiro da morte, e alguns são tão ousados que não se importam em virar o corpo com o pé, de modo que fique mais fácil identificá-lo.

Se for alguém conhecido, você pensa uma pena, fulano era um cara... ou algo do tipo.

Se não for conhecido, você simplesmente respira aliviado.

Nesse caso era conhecido, mas do tipo que inspira alívio, não lamentos. Seu nome ninguém sabia, mas todos o conheciam por Bugalu, um viciado metido a dono da rua que vivia puxando encrenca com todo mundo. Seu rosto estava inchado, os lábios cortados e o olho roxo, havia um furo de bala no lado esquerdo da testa.

Dei de ombros e fui pra casa, aliviado por saber que Bugalu não encheria mais o saco de ninguém. Ao chegar, tirei a roupa da escola e me deitei com os fones de meu walkman enfiados no ouvido e comecei a ler um gibi do Cebolinha, cuja história principal era uma paródia da peça do Edmond Rostand: Cebolô de Belgelac, onde Cebolinha fazia o papel de Cyrano, Cascão de Cristiano, e Mônica de Roxane. Eu adorava aquela história.

Era 1995, e eu tinha 10 anos. Muitos dos meus amigos que morreriam posteriormente por causa de algum envolvimento no tráfico de drogas local ainda estavam na idade escolar, como eu, e ocupavam o tempo livre jogando futebol na rua ou no terreno baldio mais próximo. Às vezes fugiam um pouco da rotina e substituíam o futebol por alguma outra coisa, mas no geral era futebol mesmo e eu bem que tentei acompanhá-los com minhas pernas de pau e meu fôlego curto, sem obter nada sequer próximo do sucesso. Assim, o que fiz foi me isolar cada vez mais com meus gibis e meus desenhos animados, além dos filmes dublados do Van Damme que eu alugava nos finais de semana.

O tempo foi passando e o bairro foi ficando cada vez mais violento, e com o bairro meus amigos também foram ficando mais violentos, e isso só fez com que eu me isolasse cada vez mais. Um dia aconteceu de meus amigos já não serem meus amigos, e de eu nutrir por meu bairro quase nenhuma afeição, além de uma vontade gritante de dar o fora na primeira oportunidade. E foi o que fiz. Sem olhar pra trás e com medo de virar estátua de sal se o fizesse.


Anos mais tarde voltei ao bairro, encontrei por acaso um velho amigo que jamais saíra de lá e nos mandamos pro bar mais próximo. Pouca coisa havia mudado lá, ele disse, mas a principal era que a galera das antigas ou morrera ou caíra fora ou estava comendo o pão que o diabo amassou. Então começou a discorrer sobre destinos trágicos e sonhos perdidos, e a noite terminou principalmente em tristeza.