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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

OS CABRAS




Se um dia me pedirem para descrever a palavra mãe, certamente tentarei encontrar uma definição em que palavras como afetividade, segurança, rancor, desilusão e misticismo possam ser colocadas em conformidade.


Todas as mães, mesmo as mais céticas, acreditam-se capazes de adivinhar quando seus filhos estão tristes, enfermos ou na companhia de pessoas nocivas. Talvez a maternidade realmente seja plena de intuição e sensações premonitórias, quem sabe as mulheres tenham herdado em sua memória genética a onisciência divina. Duvido.


Minha mãe não exprimia intuição alguma sobre a própria descendência. Extremamente religiosa, voltava todo seu amor e ódio para a adoração aos santos. Dela, jamais partira o desejo de decifrar as entrelinhas de minha alma e descobrir-me belo e feio, bom e mau, homem e dúvida. Jamais me amou a ponto de vasculhar minhas gavetas, meus pensamentos, em busca de relíquias assombrosas que a fizessem temer pela segurança de minha juventude. Para ela, eu não passava do resultado de orações diante do altar, entre a pia e o fogão da cozinha. Deus já havia revelado todos os meus mistérios, era como se nada em relação a mim precisasse ser desvendado. Mas algo havia.


Ao completar dezoito anos de idade, consegui  após muita insistência  reunir em casa meus melhores amigos a fim de comemorar meu aniversário. Fomos obrigados a comer um desgostoso bolo de fubá, cujos pedaços engolimos à custa de generosos copos de cajuína, nos quais se encontrava estampada a imagem de Nosso Senhor do Bonfim.


Após aquela ceia insossa e depois de trocadas escassas palavras, meus amigos disseram-me com o olhar que precisávamos de uma festa de verdade, com espetos, música e cerveja. Assim que nos pusemos de pé, minha mãe repreendeu-nos o gesto, exigiu que esperássemos por sua surpresa e nos pediu licença. Retornou de seu quarto com uma grande caixa nas mãos. Em seu rosto, trazia aquele mesmo sorriso que apenas esboçava quando um justo castigo caía sobre meus companheiros de futebol, que ela tanto odiava em sua incompreensível compaixão.


 É pra tu  disse-me estendendo a caixa, enquanto seus olhos ardiam de satisfação. 


Perdido, pus o pacote sobre a mesa de onde meus amigos já haviam afastado os pratos e copos. Desfiz o laço azul mal dado, recolhi a tampa e me deparei com um tecido marrom tão grosso quanto o pano de chão de nossa cozinha. Depois de retirar a peça da embalagem, estendi-a a fim de entender o propósito de meu presente: Um hábito de aspecto grosseiro, destes utilizados por pessoas que fazem voto de pobreza.


 O que é isso?  perguntei encabulado.


Mamãe pegou-me pela mão e pediu que eu sentasse. Atendi seu apelo e preparei-me para que ela explicasse que utilidade eu daria àquela vestimenta.


 Lembra quando tu caiu do caminhão do teu tio Vasco e quebrou a perna?  quis saber, visivelmente excitada.


Fiz um tremendo esforço de memória, mas a lembrança não me aflorou por completo, apesar do fato não me parecer de todo estranho.


 Tu pegou uma febre e a perna mazelada começou a afinar  continuou minha mãe ―, como paralisia infantil. Fiquei doida de agonia, fiz promessa pra São Francisco das Chagas do Canindé, mas ele não me atendeu porque na época eu tava lhe devendo uma missa e uma novena. Então eu me apeguei com Padre Cícero Romão Batista e rezei no pé de tua cama, lá na Santa Casa de Misericórdia, pedindo pra tu sarar logo. Cosme, foi batata. Em pouco tempo tu teve alta e veio embora comigo. Dentro do ônibus, no caminho de volta pra casa, enquanto tu dormia no meu colo, magrinho de dar dó, eu firmei minha promessa: Meu Padre Cícero, pela graça alcançada, prometo que ainda este mês irei até Juazeiro do Norte deixar uma foto de Cosme e parte do meu soldo, agradecendo pelo milagre. Também garanto que quando meu menino virar homem, ele vai até Juazeiro, descalço e de mortalha, pra agradecer a bênção que o senhor deu a nós. Já faz tempo que eu paguei a minha parte da promessa, Cosme. Agora é contigo.


A fim de conter o riso, dois de meus amigos esconderam com as mãos os lábios dilatados de escárnio. 


 De mortalha, mãe? E descalço?!  protestei sem muita convicção, enquanto tocava o tecido que me espinhava a vaidade.


 É, Cosme!  confirmou dando três tapinhas em minha perna  Pro Padinho vê que nós tá grato e não falhar da próxima vez que a gente pedir ajuda. E, nos último dez quilômetro, tu tem que descer do ônibus e fazer o resto do caminho a pé, junto dos romeiro.


Fabrício e Juliano, sem meios sobressalentes de conter a própria inflamação, desabaram em gargalhadas enquanto acotovelavam-se sob o olhar inquisidor de minha mãe. Antes que ela os enxotasse, rogando-lhes as terríveis pragas costumeiras, compreenderam que precisavam sair e retiraram-se acanalhados, enquanto secavam com as costas das mãos as lágrimas que lhes banhavam os rostos. Da sala de minha casa, ainda pude escutar suas risadas na rua ao entoarem o Hino de São Francisco de Assis, até suas vozes serem engolidas pela radiola de minha vizinha.


 Deixe estes dois malandros pra lá, Cosme  disse-me com cumplicidade.  Veja só o Ernando, não está rindo. Tu concorda comigo, não é, rapaz? Tua mãe é uma boa mulher... E religiosa! Sei que te deu uma santa educação.


Meu amigo meneou a cabeça afirmativamente, apesar de seus olhos gritarem o quanto desaprovava tudo aquilo.


 Então, ficamos assim, meu filho  disse mamãe ao sentenciar-me.  Dentro da caixa, tá a passagem e o endereço da capelinha onde eu deixei tua foto. Tu tem que ficar nessa casa de oração até que a missa comece. Vê se não me sai de lá antes do que foi combinado com Padre Cícero. É melhor ir tratando de se deitar que tu vai ter que pegar o ônibus das quatro horas da madrugada.


Ao dizer isto, deixou-nos a sós e foi até seu oratório acender algumas velas, pois já passava das dezoito horas. Por alguns instantes, fitei a mortalha e procurei lembrar-me de minha perna debilitada. Muito sério, Ernando tocou meu ombro e livrou-me do transe no qual eu havia imergido.


 Não vá, Cosme!  disse-me ele  Estamos no ano das Diretas Já!, é um novo tempo, estas coisas não se fazem mais. Ela vai ter que entender!


 Não posso   desisti de desistir.  Eu sou o milagre dela.


Olhei para Ernando e, antes que ele tentasse mais uma vez me impedir, estendi minha mão e cumprimentei-o, depois assisti com tristeza à sua partida. Sobre seus ombros arqueados, carregava o avesso do aspecto galhofeiro dos que de minha casa haviam saído antes dele. Ernando, o meu milagre.


Naquela noite, não consegui dormir. Deitado sobre a cama, de braço pousado em minha testa, imaginei como as pessoas me encarariam trajado de monge, descalço, coberto de vergonha e raiva. No dia seguinte, todos os meus amigos iriam de bicicleta à serra de Pacatuba, em busca de diversão no lago que fica em seu cume e que fornece água para o balneário das Andréas. Quanto a mim, seguiria ao encontro da paga por uma dívida que eu não havia contraído e dela nem sequer recordava.


Quando cheguei à Praça da Matriz, em Juazeiro do Norte, parte de meus pés havia ficado pela estrada, mas os calos já não doíam tanto, pois a cidade se encontrava repleta de pessoas trajadas como eu. Um gigantesco mercado estendia-se sobre a fé do sertanejo, manta multicolorida. Fitas com inscrições religiosas, imagens e graças a serem alcançadas eram comercializadas sem o menor pudor. Uma Meca onde o choro das crianças, a conversa das mulheres e o canto dos repentistas mesclavam-se em um único som místico, dedicado ao padre milagreiro do sertão.


Corri meus dedos sobre o endereço que mamãe havia indicado e olhei ao redor. Bodes berravam tão perdidos quanto eu naquela multidão de devedores dos santos, pensei em renunciar minha missão. Porém, como se a providência me reservasse algo, uma senhora de aspecto raquítico e escassos cabelos segurou-me pelo braço e quis saber se eu precisava de ajuda. Perguntei onde ficava a casa de oração pela qual eu procurava. Ela sorriu quase sem dentes e disse que no local não funcionava mais um ponto de ex-votos. Mesmo assim, guiou-me a meu destino.


 Essa casa que o moço percura fechô já faz tempo. Agora é isso aí...  apontou com os beiços o pobre prédio antes de receber as três moedas que depositei em sua mão.


Em um bar. Era nisto que a capelinha que minha mãe estivera anos atrás havia se tornado. Mas as instruções eram claras: Ali eu deveria permanecer até que as portas da igreja fossem abertas. 

Cabisbaixo, adentrei o pobre estabelecimento e sentei-me em um lugar discreto. Para meu desassossego, feito incômoda interrogação, todos os olhares caíram sobre mim. Corei. Após algum tempo vitimado pela curiosidade daqueles homens que não sabiam o que eu fazia ali, a moça que atendia as mesas veio em meu socorro.

 Num fique vexado, não  aquietou-me com um sorriso a jovem mulher  Todo ano algum desinfeliz entra aqui pucarro de promessa antiga. Depois qui minha santa mãe morreu, precisei fechá a capela e abrí essa bodega pra mode  o qui cumê. Mas o minino pode ficá aí que eu agaranto que ninguém aqui mexe cum tu. Tu vai querê arguma coisa?


 Um refresco  respondi evitando os seios grandes e vulgares que saltavam do justo decote. Após sair para atender meu pedido, a mulher passou por um homem que lhe aplicou uma tapa nas ancas.


 Esta diaba já gosta de um rapazola!  zombou o freguês.


Todos no bar riram do rude gracejo e puseram-se a conversar com animação. Suspirei aliviado por não ter mais a minha timidez amolada e agradeci mentalmente ao mesmo Padre Cícero com o qual eu não queria quitar meu débito.


Antes que eu tomasse o primeiro gole do refresco de tamarindo que a dona do bar havia me trazido, dois homens chegaram sem cumprimentar ninguém e se sentaram próximos a mim, como se também buscassem privacidade. O bar mais uma vez silenciou enquanto todos observavam o movimento dos tácitos clientes, como se estes também estivessem trajados de modo equivocado para aquele ambiente de palavrões e cusparadas. Todavia, ambos vestiam roupas de quem lidava com gado, tendo o gibão maltratado pelo trabalho, sem esconder o cabo das facas. Nada os diferenciava daqueles que os açoitavam com um encarar desconcertante. Eram todos sertanejos, homens do roçado.


 ― Rosa! Traz uma cerveja aqui pra nóis  gritou na direção do balcão o mais velho da dupla, maculando a mudez que se instalara.


A moça que havia me atendido foi até a mesa dos dois e serviu-lhes duas canecas até que a espuma escorresse pela borda. Bateu com certa violência a garrafa sobre a mesa e deles afastou-se sem dizer uma única palavra. Já não parecia a mesma mulher despachada que havia me trazido o refresco. Serviram-se da bebida pouco gelada e tragaram de um único gole todo o conteúdo das canecas. Olharam-se.


São matadores, pensei. São destes jagunços que os coronéis pagam para dar fim nos posseiros.


O estalido do copo que se espatifou contra uma parede fez com que eu me esquecesse dos crimes de pistolagem e olhasse na direção do balcão, onde encontrei o homem que há pouco havia brincado com a moça que me servira.


 Minino, tu é da donde?  perguntou-me ele.


 Fortaleza  respondi quase sem voz.


 E lá dá muito homi-dama?  inquiriu-me com escárnio.


Enquanto alguns riam, enrubesci envergonhado. O hábito não havia me servido de escudo. Meu segredo diante de todos. Meu segredo. Ernando.


 Deixe ele, Altamiro  interveio a moça.


 Num se meta, sinha rapariga!  ordenou o homem, antes de prosseguir em seu propósito  Tá vendo esses aí perto de tu? São baitola da maió categoria. Tu já tinha visto um zé-ruela


Apesar das gargalhadas que os depreciavam, os dois homens permaneceram silenciosos. Em suas austeridade e macheza havia primitiva dignidade. Fingiram não ouvir a ofensa a eles dirigida e continuaram a beber como se o bar estivesse vazio, como se a mofa não lhes dissesse respeito.


 Pois olhe, minino  prosseguiu o homem do balcão ―, esse mais novim aí, o Afonso, ia casá cum a minha irmã. Eu inté que fazia gosto, parecia um cabra bom, trabaiadô, direito. Mas aí um dia eu peguei ele com o Zé Arlindo, que é esse otro cabôco aí, fazendo escandilice no meio do mato. E num era imoralidade dessas qui se faz cum bicho bruto não, qui isso sim é coisa de macho. Tava era os dois de beijo na boca, feito homi e muié, se abraçano, se cherano, como nós faz cum as quenga. São uns degenerado, uns pecadô sem alma.


O homem chamado Zé Arlindo ergueu-se e ameaçou a mão sobre a faca. O outro, de nome Afonso, impediu-lhe o gesto e o convidou para que fossem embora. Mas o provocador ainda não havia se dado por satisfeito. Continuou seu despautério inflamado de ira, com lágrimas nos olhos ferozes e a mão posta sobre a faca que parecia ansiosa por livrar-se da bainha.


 Pucarro desse fela da puta qui minha irmã se matô!  descontrolou-se o ultrajador  Se inforcô pra num tê qui vê o noivo amancebado cum otro homi, viveno feito marido e muié numa casa de taipa no mêi da mata branca. Mas num é hoje qui eu  te matá não, Afonso. Hoje eu vô tirá sangue é desse otro baitola qui te disviô da natureza de sê macho!


Anestesiado pela intensa brutalidade da cena, permaneci sentado enquanto o jovem chamado Afonso arrancava de um golpe ligeiro a faca de seu parceiro e investia contra aquele que os caluniava. Ainda hoje recordo com extremo pesar o som da faca ao abrir uma fenda no peito tão moço, o corpo de Afonso tombando contra o rés-do-chão, enquanto seu assassino fugia pela porta dos fundos. Por alguns instantes, o bar ficou suspenso no ar, paralisado, onde estátuas bêbadas e sujas de roçado observavam estáticas Zé Arlindo recolher do solo empoeirado o corpo sem vida de seu companheiro. O homem não chorava, grunhia, enquanto de sua boca escorria um fio de baba espessa sobre a face de seu corajoso amante.


A praça contraiu ao deparar-se com a corpulenta silhueta do homem que carregava um corpo banhado em sangue e com uma faca cravada no peito. Zé Arlindo tombou contra as barracas e os peregrinos, assustando cabras e crianças com seu desastrado desespero. Tentei segui-lo, movido por desejo empático de partilhar com ele sua dor, pois apenas eu alcançava os sentimentos que ele nutria pelo morto amado que carregava em seus seguros braços.


Ao chegar às portas da igreja, Zé Arlindo depositou o cadáver de Afonso no chão e deitou-se a seu lado. Aos gritos, diante de uma curiosa plateia, tentou exorcizar o sofrimento que o consumia.


 Morte maldita, teu nome é Altamiro! Deus, tira essa faca do meu peito! Deus, tira essa faca do meu peito!


Não fiquei para assistir à missa. Quebrei minha promessa. Aliás, ainda hoje não sei dizer quantas coisas se quebraram naquele dia, vidas que não têm mais conserto.


Ao retornar a casa, em Fortaleza, deparei-me com meus conhecidos, que choravam em um coletivo e angustiado abraço. Padre Cícero não havia esperado muito para castigar minha falta. Ernando havia se afogado no lago. Ainda hoje não entendo como, sempre nadara tão bem, sempre me vencera nas disputas. Seu corpo esguio deslizando sobre as águas, molhado, suave. Ernando. Ernando.


O velório fora realizado em minha casa a fim de que sua mãe não levasse para o resto da vida a imagem do filho único exposto dentro de um caixão na sala do próprio lar, com algodões nas narinas e ouvidos, as mãos mortas e cruzadas sobre o peito, o rosto cinzento e vazio.


Enquanto todos lamentavam, comovidos com a precoce perda de um rapaz tão jovem e tão belo, eu apenas o observava, quase sem compreender aquele corpo inerte dentro de um ataúde ornamentado com flores e saudades. Minhas emoções permaneceram caladas como se eu ainda estivesse em Juazeiro do Norte, sentado na pobre cadeira-de-pau daquele bar que antes fora uma casa de ex-votos. Todos ainda riam de Afonso e Zé Arlindo. Afonso. Zé Arlindo. Ernando. Eu.


Em um dado momento durante as ave-marias, senti uma forte secura na boca e corri até a cozinha a fim de livrar-me do entalo  mas um copo d’água não é capaz de sarar os entojos da alma.


A reza foi interrompida pelo som de meus gritos e das imagens do oratório que, sem temer impiedosos castigos, espatifei contra as paredes, a fim de vingar-me. Toda a gente correu para a cozinha e amontoou-se a meu redor, deitado sobre os cacos dos santos, com meus pés descalços e feridos, ainda trajado como romeiro. No meio dos presentes, vislumbrei o desdenhoso rosto do homem do balcão, ameaçando cuspir-me na cara. Senti a lâmina atravessar-me carne e ossos, grunhi como bodes no abate, como um cabra derrotado pela belicosa mão do inimigo. Gritei:


 Lago maldito, teu nome é Altamiro! Mãe, tira essa água do meu peito! Mãe, tira essa água do meu peito!


Emerson Braga







terça-feira, 27 de outubro de 2015

Colcha de Retalhos #14

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


INSATISFEITA

- Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida!
- Está me chamando de coisa?




ESPETÁCULO

A noite de estréia é um espetáculo. Mágico, incomparável.
As noites seguintes já não têm o mesmo encanto. Os sorrisos já não são mais os mesmos.
Algum tempo depois, ela junta as tralhas e toma outros rumos.
Paixão itinerante.




EMBRIAGADO

Todas as coisas e idéias tendiam para a esquerda
Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita
Então rolaram para o centro e por ali ficaram
No equilíbrio frágil de uma mesa de boteco
O álcool e a política têm efeitos semelhantes




BAILE DE MÁSCARAS

Nenhum dos dois conseguia se envolver, desenvolver confiança, intimidade, cumplicidade - esses detalhes que sustentam um relacionamento. Sabiam que era coisa de uma noite, uma semana, com sorte, um mês.
Mas, estavam decididos a tentar, vestir as máscaras e ver até onde a mentira os levaria.
E levou longe, até que a morte os separou.






segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Vida que segue no face

é tanta vida cá dentro
que nem mais saio lá fora

vi uma amora florindo
curti o tombo da tia
foto do chefe sem sunga
viral do gato atrevido

receita sem leite ou glúten
vídeo de alguma verdade
troca de delicadezas
ruídos disseminados

quem faz um milhão de amigos
carece sair da toca?
basta teclar um sorriso
postar a selfie e hashtag

filho namora sem beijo
obesidade chegando
mulher se gruda na rede
jantar à mesa não rola
bebê chorando no berço
tem o bumbum todo assado
e viva a ciberfamília
que não conversa nem briga

não há mais olho no olho
a bike tá encostada
piscina fica vazia
realidade esquisita
confinamento de dores
suor, saliva, temperos
delícias abduzidas
o vício que me consome

partilho tanto cá dentro
que nem sei mais ser lá fora

#vidaquebrilhanoface
#vidadefatoquemirra


Maria Amélia Elói





domingo, 25 de outubro de 2015

O segredo do retrato de Mário Soares



O visitante comum que percorra a galeria de retratos do Museu da Presidência encontra o que espera: um enfileiramento de grandes retratos de figuras sisudas, solenes, um pouco ameaçadoras até, dos presidentes da República Portuguesa, durante o século XX. Essa é a formulação a que o visitante está habituado e a que a magnitude do cargo parece exigir.
Então, surge-lhe o retrato de Mário Soares, que rompe com a lógica hierática dos retratos e choca violentamente com as representações anteriores. O retratado mostra os dentes, sorri, tem um ar bem disposto e descontraído, parece contar uma anedota, falar para o observador.
Muitos visitantes e alguns críticos têm reprovado esta formulação do retrato de alguém que foi Chefe de Estado e, embora reconhecendo a bonomia do retratado, prefeririam um retrato mais austero. No fundo, um Chefe de Estado é mais do que si próprio, é a figura da Nação, e, se um anónimo se pode fazer retratar em pose informal, uma figura que tenha exercido aquela alta responsabilidade deve, a bem da dignidade dos símbolos da pátria — como o hino e a bandeira —, apresentar maior compostura.
Embora contrafeito, o visitante comum desculpará a irreverência, que atribuirá a ideias modernistas do retratado. Sobressairá uma imagem de homem portador de uma mentalidade arejada.
Mário Soares é uma figura incontornável da política portuguesa. Representou um papel importante na organização de fações socialistas antes do 25 de Abril de 74 e foi determinante no rumo da política do país no pós-25 de Abril. Foi Primeiro-ministro e Presidente da República. É neste cargo que é retratado por Júlio Pomar, para ficar representado na galeria dos presidentes, tal como os anteriores. Tudo isto sabe, previamente, o visitante avisado. Mas também sabe que, ao longo da História, muitas obras de Arte, para além de leituras óbvias, podem manter incógnito, debaixo dos olhos do espectador, algum “segredo” que as revelasse e explicasse. De Júlio Pomar, em cujas obras já terá entrevisto mensagens escondidas, o visitante avisado só pode esperar desafios interpretativos. Por isso, aplica-se a analisar a obra que tem perante si.
A figura de Mário Soares é bem reconhecível no retrato, apesar de não estar representada de forma naturalista. O rosto está tratado com mais cuidado do que o resto do corpo. Reconhece-se o sorriso, a testa alta e desimpedida, a forma especial dos olhos, as bochechas. O rosto não é o de um retrato típico, mas não deixa de refletir a postura de bonomia de Mário Soares, que olha o interlocutor nos olhos, sem preconceitos. Apresenta a atitude de bom conversador, disponível para o gracejo e para se entusiasmar com o discurso do outro. O braço direito gesticula animadamente, como um orador inflamado. Mas sorri. Parece ocupar uma posição sobranceira ao interlocutor. Inclina-se para a frente, em atitude de aceitação e entendimento com o outro. Traz à memória a estátua do poeta Chiado, instalada no largo do mesmo nome. Só que, em vez de um banquinho, Soares está instalado numa cadeira muito especial. Relacionando a figura, a função e a forma da cadeira, reconhece-se-lhe o caráter marcadamente associado ao poder, devido às duas cabeças de leão que ostenta nos braços. São sinais não casuais.
Todos os poderosos gostam de se associar ao rei da selva. O poder usa o retrato como mais uma ferramenta de afirmação e legitimação. A envolvência do retratado afirma o seu poder, o que a expressão fisionómica nem sempre consegue.
O quadro vive, sobretudo, da mancha — no fundo, na roupa, até no rosto. A linha surge de maneira pontual para marcar alguns elementos mais caracterizantes — os olhos, a boca, a linha de delimitação das bochechas. Nos outros pontos onde é utilizada, serve mais de elemento para texturar áreas do que para desenhar fielmente. Até nas mãos a linha perde caráter definidor.
De que falará ele com tanto entusiasmo? É um político, um socialista. A mancha rosa que espalha com a mão direita não deixa dúvidas. Mas trata-se de uma mancha informe, um esboço, uma ideia. Fala dela sem fazer um desenho rigoroso. É uma ideia que não se sabe como pôr em prática, um sonho, uma utopia. Lido assim, o retrato fala.
E a mão esquerda, o que faz? Aponta rigidamente para si próprio. Contrasta fortemente com a direita, que é mais natural em alguém que fala para outrem. Esta mão esquerda está colocada numa posição estranha, inesperada. Conterá alguma pista para leituras alternativas?
Então, reparando com atenção, percebem-se dois ou três riscos curvos à frente da ponta do indicador da mão esquerda, recurso muito utilizado pela banda desenhada para sugerir movimento. O dedo abana lateralmente. Indica um “não”. O visitante avisado, em alerta, recupera instantaneamente uma frase marcante do PREC: “Olhe que não! Olhe que não!”
O olhar descobre agora que a cor da manga esquerda é diferente da do restante fato. A convicção instala-se: o aparente braço esquerdo de Soares, não é um braço dele, é de Álvaro Cunhal. O retrato, mais que marcar para a posteridade a fisionomia de Mário Soares, lida pelo artista, plasmou um momento marcante da história de Soares e do país, quando os dirigentes dos dois partidos mais poderosos se enfrentaram perante as câmaras da RTP em 7 de novembro de 1975 — faz agora 40 anos. Soares acusava Cunhal de pretender a instalação no país de um regime ditatorial comunista, ao que este respondeu daquela forma que entrou nos ditos populares e que Pomar — o maroto do Pomar! — fixou em pintura. O quadro fala.
Soares foi muito importante em vários aspetos da vida política do país, mas vencer o Partido Comunista em 75 foi a sua coroa de glória, pela qual foi glorificado interna e externamente. Não custa admitir que o próprio Soares goste de se reconhecer e ser imortalizado naquele episódio, se é que tomou conhecimento ou consciência dele no quadro. Como não? Pomar e Soares são amigos desde que, presos pela PIDE, foram companheiros de cela em Caxias, em 1947.
Pomar encostou Soares ao seu lado esquerdo, para que o seu braço esquerdo ficasse invisível. Em sua substituição colocou o antebraço esquerdo de Cunhal. Em termos de organização espacial está genialmente estruturado, e em termos ilusionísticos funciona.
O visitante avisado, satisfeito com um primeiro aparente êxito hermenêutico, sente-se tentado a enveredar por muitas outras especulações sobre a obra visitada. Soares é poder no momento da pintura e é poder no momento do episódio: dominava o governo e boa parte das forças armadas. O braço direito da cadeira parece cercá-lo. Ou defendê-lo. As cabeças de leão estão tratadas de forma bem diversa: a do braço direito é bastante naturalista, como o gosto naturalista da direita social; a do braço esquerdo, muito esquemática, faz lembrar o modernismo estético das correntes de esquerda. O rosto do leão da direita faz lembrar os rostos severos, bigodudos, dos militares da velha guarda, a que não falta um reflexo vítreo de monóculo; o da esquerda, as representações cubistas.
A escolha da cadeira com dois leões nos braços não foi inocente e o desigual tratamento de cada cabeça indica, seguramente, um enquadramento do retratado, talvez político, talvez social, talvez global. Mantém-se destacado da direita conservadora e da esquerda utópica. Talvez apenas possibilidades de que pode dispor, em que se pode apoiar, mas não usa. O seu não-alinhamento fica evidenciado. O visitante avisado trava agora a deriva especulativa ao reparar no vermelho inquestionável do braço direito da cadeira. Terá sido usada a referência topológica da Assembleia da República? Será uma referência internacional? Ou nem tudo tem de ter simbologias?
Parece ter havido a intenção de mostrar uma faceta de relação descontraída com o poder, até para contrastar com a pose hirta do seu antecessor e rival Ramalho Eanes. No entanto, parece poderem lá ser lidas fortes referências ao poder e às suas lutas políticas, especialmente o episódio televisivo de 7 de novembro de 1975. E o que é que o maroto do Pomar nos mostra ainda — aceites as leituras anteriores —, ao organizar os elementos formais daquela maneira? Que Soares, mesmo no auge da luta política, não argumenta para o seu adversário, não se vira para ele; exibe-se para a câmara de televisão, para os espectadores, para os eleitores. Acentua o seu lado solar, vaidoso, teatral. Neste sentido, o retrato de Soares, para além da representação fisionómica inconfundível e da fixação de um episódio político marcante, faz uma leitura psicológica do retratado. Maior completude não se pode esperar. Só lhe falta falar? Nem isso! Este retrato comunica muita coisa — praticamente, fala.

O visitante avisado acredita que esta obra apresenta sinais de estranheza, como outras tantas pistas a serem investigadas e talvez desvendadas, no entanto, toma consciência das limitações das interpretações, como áreas de leitura incerta, para cujo conhecimento talvez só valha uma atitude de escuta silenciosa da obra, que pode ou não deixar intuir ressonâncias, se não de verdade, pelo menos de verosimilhança. 

Joaquim Bispo

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Imagem:
Júlio Pomar, Presidente Mário Soares, 1992.
Óleo sobre tela, 174 x 140 cm.
Lisboa, Museu da Presidência da República.

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sábado, 24 de outubro de 2015

SÉRIE: TROVAS PREMIADAS (I)






quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Deve ser o frio

Anda, como todas as plantas da casa, meio murcha, negando verde, desistindo de esticar folhas e caule. É claro que falta sol. Mesmo quando as peças se amarelam e esquentam porque é dia leve lá fora, é sem nuvens e é de algum vento capaz de sacudir as cortinas e as energias viciadas e encalhadas nos cantos dos cômodos, falta sol. Está, como todas as plantas da casa, ressequida, com a pele quebradiça e boa parte do corpo dando defeito. O blusão colorido e o batom vinho para sempre na boca não dão mais jeito. Não disfarçam. Não distraem. Não aliviam. Deve ser o frio.

Deve ser. O frio. Assemelha-se, e não vagamente, aos peixes que tentou criar sem sucesso anos atrás. Queria os dourados, barrigudos, de olhos arregalados, circulando no aquário ao redor da folhagem plástica e do termostato, mas também acolhia os que se reproduziam rápido, os que faziam faxina entre as pedras e os que tinham nadadeiras longas. Criar peixes é uma agonia. E um exercício filosófico constante. Perdeu um a um até entender que não há paz possível em se brincar de Deus. Parece que aprendeu os comportamentos dos bichos e agora os repete, todos ao mesmo tempo: nada sem rumo e não vai a lugar nenhum, come o que cai na frente da cara, sofre das doenças de inverno – inevitáveis os pontos brancos – e sobe à superfície para se encher de ar quando o ambiente fica insuportável. E isso é tudo. Vai resistindo conforme oscila a temperatura. O frio, deve ser.

Tem, e não por preguiça, um sono que só aumenta e a pega de segunda a segunda, à noite, pela madrugada, e por último também nos intervalos da rotina. É chegar em casa que os ombros pesam, o barulho do apartamento vizinho espeta os ouvidos e qualquer assento chama. Não precisa ser cama com edredom, o sofá é suficiente e abraça seu metro e meio todinho. Vale cadeira, vale banco de ônibus, valem as costas apoiadas na parede e até os olhos abertos. É prestar atenção para ver que o corpo permanece, mas a vida voou dali sabe-se lá para onde. O bom é que volta. A vida volta contrariada, mas volta. Deve ser só o frio.

Ouviu mais cedo, e não por escolha, que em tanto tempo de profissão aquela voz vestida de jaleco com flores bordadas na gola jamais viu quem se recuperasse de um 10 F32, som de alegria insistente e velha entrando pelas orelhas blá, blá, blá, não fazia sentido, como não faz sua garganta ardendo e seus pés gelados, apesar de duas meias soquete sobrepostas. Mais cedo chovia e era cinza por todos os lados, na mesma medida fora e dentro, e ela pensou que estava em casa, que tinha enfim compreendido, que tudo em si combinava com tudo ao redor, que havia sintonia e coerência entre a rua molhada, glacial, e os seus cabelos pingando água do céu, e, bem, era bonito aquilo tudo assim: o passo cabendo na calçada e o sentido, de repente, da possibilidade de rédea na mão outra vez. Mas não. Certezas ditas dentro de salas iluminadas e aquecidas artificialmente são de uma convicção desoladora. Talvez não haja cura para ela. Deve ser, mesmo, o frio.





quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Caro Amigo Fred

Antes de tudo, queira desculpar-me por escrever-lhe esta carta tanto tempo após o acontecido, mas você há de convir que fui pego de surpresa pelo desenrolar dos fatos e só agora me sinto em condições de relembrar todos os momentos que juntos passamos. Nada como o tempo para cicatrizar tristezas e fazer germinar alegrias.
Lembro-me bem do dia em que o vi pela primeira vez. Mal desconfiava que, algumas horas depois, você já estaria instalado em minha casa. Logo que lhe avistei, saído do ninho em sua inaugural excursão junto com seus outros dois irmãos no telhado da fábrica que dava para a varanda do meu apartamento, desconfiei que você, amigo Fred, era o mais levado do trio e daria muito trabalho à sua mãe. Você não curtiu cinco minutos em liberdade, caindo pela fresta que existia no teto da loja abaixo de casa. Como já era fim de expediente e o estabelecimento estava fechado, você miou por toda a noite. Miado de filhote, assustado, temeroso do desconhecido e do desamparo.
No dia seguinte, eu fui resgatá-lo, lembra-se? Meu plano era devolvê-lo ao telhado, mas, apesar de estranhar o local,  você me conquistou e foi ficando. Com dias de convívio era praticamente o dono da casa e, já que insistia e permanecer junto a nós, que ao menos tivesse um nome. Frederico José, nome de imperador, Fred para os íntimos.
Curti por demais suas brincadeiras de filhote, como a de se atracar com o meu braço que, por consequência, vivia arranhado. Você ainda desconhecia o poder de suas garras, mas com o passar do tempo soube domá-las. Meu braço agradeceu sua disciplina.
Quem disse que gatos são indiferentes aos seus donos?  Se a afirmativa estivesse correta, você, Fred, possuía então alma de cão. De fidelidade canina, sempre ao meu lado em casa, varava madrugadas deitado sobre a minha impressora enquanto eu trocava a noite pelo dia em salas internéticas de bate papo. Era divertido abrir a porta da casa e você vir receber-me, revelando haver passado o dia dormindo eu seu gesto de espreguiçar-se.
Fatos pitorescos envolveram sua curta existência, meu amigo, como aquele em que, durante sua primeira ida ao veterinário, o mesmo, ao examinar sua genitália, declarou solenemente: “é uma fêmea”. Por dois meses você foi chamado de “Frida”, até os testículos aflorarem, revelando sua masculinidade.
Ou quanto você “surtava”, correndo de um lado a outro da casa, subindo nas camas e nos encarando com um olhar ao mesmo tempo brincalhão e assustador? Durante seus surtos, eu tinha a impressão de ter um tigre, um puma ou pedaço da selva dentro do meu apartamento.
Imaginei que conviveria no mínimo dez anos com você, caro Fred. Durou um ano e meio. Gatos em geral morrem de forma violenta, diziam. Eu não acreditei.
Ficou a lembrança Frederico José, doze anos depois, tornada pública.
Do seu amigo,
Zulmar Lopes





terça-feira, 20 de outubro de 2015

O GIGANTESCO TORMENTO DE DOROTEIA

Doroteia sempre teve medo de anão.
Desde muito criancinha.
Uma vez, estava num elevador público com a avó. Entra um anão.
- Né neném não, né Naná?

Foi sua primeira manifestação da fobia, que a persegue a vida inteira.
Na infância mais madura, foi uma sequência de oportunidades perdidas.
- Vamos ao cinema, Doroteia?
- Ver o quê?
- Branca de Neve.
- Não vou.

No aniversário da amiguinha.
- Quem são aqueles bichos enfeitando a mesa de docinhos?
- Gnomos, filhinha.
- Vamos embora.

Na adolescência deixou de ver Willow na Terra da Magia, com a turma do colégio.
- Aquela sociedade que só tem anão? Tô fora.

Já adulta, um amigo a convidou para uma festa num barco. No melhor estilo Ilha da Fantasia, 
o amigo produziu um anão vestido de marinheiro para receber os convidados no cais. 
Por pouco não levou um tapa e caiu dentro d’água. Doroteia esteva a beira de cometer um crime.

Uma vez quase cometeu. Havia um anão flanelinha na porta do saudoso Real Astória no Baixo Leblon e Doroteia teve um impulso assassino de dar marcha a ré sobre ao cidadão que estava ali ganhando uns trocados. Foi contida a tempo pela razão e bom senso. Sorte dela e dele. 

Trintona, profissional, casada e com filhos, engoliu seu medo que a atormentava para não 
passar para as crianças. Recusava-se a ler ou ouvir qualquer notícia sobre o escândalo dos anões do orçamento. Mas circo, filme ou teatrinho com anão era função do marido.

Soube por alto que haviam proibido na Inglaterra a indigna modalidade esportiva Arremesso de Anão e que muitos anões arremessados - com todos os dispositivos de segurança, claro  - protestaram por perderem o ganha-pão. Doroteia se enterneceu, mas não esticou assunto.

Um sábado sem marido foi na despedida de solteira de uma amiga num daqueles shows de streaper masculinos. Belos rapazes, belos corpos, belos músculos, belos órgãos. Até que surgiu um anão. 
Doroteia se desesperou. Saiu porta afora da boate e pegou um táxi
Correu risco. Ainda bem que o motorista não era anão.

Uma madrugada, acordou com um barulho estranho na sala. Era o marido insone que assistia a Game of Thrones, quando bem na telona aparecia o anão Tyrion Lannister. Doroteia mandou o controle remoto na televisão. Charivari no casamento, crianças acordando chorando, imenso prejuízo e 30 gotas de Rivotril para sossegar. 15 para cada um. 

Doroteia se açoitava com a fobia. Seria preconceituosa? Destrambelhada? Politicamente incorreta? Iminente criminosa? Assassina enrustida? Potencial psicopata? Teria sido traumatizada na tenra infância?

Submeteu-se a uma sessão de hipnose.

Voltou ao tempo. Dois anos de idade. Viu-se subindo nos dedinhos gordos, 
alcançando a maçaneta do quarto dos pais e pronto. O trauma de cena primária? 
Pai e mãe gemendo um sobre o outro? 
Nada disso. O casal assistia a um filme pornô, onde um anão 
de tênis sodomizava uma cabrita.

- Foi isso. Não posso carregar esse trauma vida afora.

Procurou um psicanalista.
Na surdina, não queria que ninguém soubesse que precisava de tratamento. 
Não pediu indicações a ninguém, não se aconselhou com seu clínico, nem com seu marido, nem com o ginecologista. Abriu o catálogo do plano de saúde e foi com a cara e a coragem.

Um fim de tarde, de óculos escuros e lenço na cabeça, bateu na porta de um consultório: Dr. José Luiz Arrabal Cartagena, psiquiatra e psicanalista. 
Estufou o peito e entrou. É hoje.

Seguiu-se um surto. Chamem a ambulância, tragam uma camisa de força. 
Perdeu estribeiras e sapato.
O psicanalista não passava de metro e meio.








domingo, 18 de outubro de 2015

O meu Che

Para Silvana

O meu Che não é humano, e sim um gato que, agora, está no fim de sua longa vida de 15 anos e que, nos últimos dias, esteve muito, muito perto da morte. Há pouco mais de um mês foi parando de comer, e alimentá-lo tornou-se algo muito difícil. Ora aceita uma coisa, mas bem pouquinho, depois não mais, e é preciso descobrir o que ele vai conseguir comer. E assim o gato que já foi tão imenso e gordo, mal cabendo em meu colo, está magrinho e diminuto. Diminuiu tanto a ingestão de alimentos nessa semana que a veterinária falou que eu me preparasse, a hora estava chegando. E é aí que tudo aquilo que com facilidade orientamos para as outras pessoas cai por terra. Que percebemos o quanto um bichinho de estimação é muito mais do que um bichinho de estimação.
Acontece que sua existência mescla-se à nossa de tal forma que a ameaça dessa imbricação se romper é avassaladora, uma desestruturação profunda. O Che é muito mais do que esse gato cuja cara parece desenhada à mão, tamanha a beleza dos traços felinos, com seus longos pelos de cores variadas, em tons difíceis de definir, meio dourado em certos momentos, acinzentado em outro, sempre vestindo luvinhas brancas. Eu olho para ele e o que vejo é também a sobrevivência de uma Marina que não sou mais, ao menos não mais com exatidão. Uma Marina de quinze anos atrás, que fez questão de nomear o gato como Che, que temia a forma como os seres humanos parecem sempre destruir as poucas experiências de transformação e generosidade que já foram feitas neste nosso mundo, mas que ainda assim achava que de algum jeito era possível mudar, revolucionar. Uma Marina que quase que reverenciava todos que pegaram em armas, em sua pureza, para transformar o mundo. Que tinha menos compromissos, apesar de tantas tarefas a cumprir, que era mais solta, mais ingênua, mas também tinha muitos receios. Que era mais jovem. Que queria muito escrever e não parava de iniciar textos, mas tinha muito medo também, por isso os guardava, interrompidos, e quantas, quantas foram as vezes em que os destruía.
E que levantava da cama às cinco e meia, mesmo tendo ido dormir à uma ou às duas da manhã, acordada pelo miado do gatinho que conseguia subir na árvore em frente à casa, de lá pular para o telhado, andá-lo todinho e ir para outros telhados, mas não conseguia voltar sozinho. Para pular do telhado para o galho e descer pela árvore, ele teria de dar um salto para cima, para um lugar mais alto, e simplesmente não tinha coragem, apesar de assistir à sua professora, uma linda gata preta de coleirinha vermelha que morava na clínica em frente à minha casa, desenvolver o movimento com facilidade e precisão. Então ele ia até o fundo do telhado comprido, alcançava a laje, mais baixa e que ficava sobre a área de serviço, e de lá miava pedindo ajuda.
Sei que era o fim, mas eu não conseguia fazer de outra forma. Acordava, levantava, pegava uma escada e a encostava do lado de fora da janela da cozinha. Punha então um pé e depois o outro sobre a grade, dependurando-me (o pé-direito da casa era muito alto, o imóvel era de 1922) e então catando o Che pelo cangote, para então voltarmos, eu e ele, ao chão. E muitas eram as vezes em que ele resistia, tinha medo, e eu tinha de atraí-lo com comidas e petiscos, fazer artimanhas.
As pessoas achavam que era preciso dar um basta, por isso um dia o deixei lá em cima, quase tendo um troço de tanta pena, a ver se ele aprendia a descer sozinho. Passou um dia e uma noite lá. Eu pus comida em cima da laje e só não o tirava porque me sentia constrangida a ser firme no processo educativo. Enfim ele desceu. Sozinho. Mas não pela árvore, e sim dando um salto de fato imenso, da laje ao chão. Um salto que fazia um barulhão quando ele pousava as patas no piso de cimento do quintal, e que me fazia temer por elas, patas – aos nove meses ele tinha sido gravemente atropelado e, além do pulmão perfurado, fraturara o fêmur, que havia ficado tão moído que exigiu a colocação de um grande pino que está com ele até hoje. E se o pino se mexesse com um salto tão grande, num gato pesado como ele era? E se a pata tivesse novo problema?
Felizmente não teve, e assim passaram a ser as descidas do Che de seus passeios noturnos, os quais permaneceram, mas tiveram seu raio de alcance diminuído depois que ele ficou com uma febre misteriosa e que os veterinários da USP suspeitaram fosse o que até então eu nunca nem tinha ouvido falar: Aids de gato. Não era, mas depois dessa decidi que havia mais que passado da hora de castrá-lo, e os homens da casa (meu então companheiro e um amigo nosso que habitava o quartinho do fundo) que se calassem com seus argumentos de que a castração era uma violência ao ser do gato e sei lá mais o quê. Que eu assumiria uma posição repressora, violenta ao extremo. Que fosse, eu queria meu gato vivo, já tinha passado sustos demais com ele, o atropelamento fora horrível e ele só sobrevivera porque seu organismo era novo e conseguiu se recuperar rápido.
O Che traz ainda a memória de uma Marina que mudou de casa diversas vezes, sempre levando o gato, que a todas se adaptou. Em uma, fez amizade com o siamês Toni, que vinha chamá-lo para passearem juntos pelos muros e telhados. Em outra, teve de conviver com uma cadela que morava na casa da frente, e assim só podia sair para suas voltas pelos fundos, onde ficava nossa casa. Che que depois sofreu talvez a maior das humilhações de sua vida de gato, tendo ido morar em uma casa onde já havia um cachorro. O cachorro até o recebeu bem, mas ele, com sua vivência de gato que andava na rua e com seu ódio instintivo e ancestral aos cães, nunca o aceitou. Ao contrário, a cada oportunidade de encontro ameaçava-lhe patadas no focinho ou nos olhos.
Uma Marina que certa altura julgou o Che profundamente sozinho pela casa, sem mais sair, tantos eram os casos de envenenamento de gatos na vizinhança. Certamente ele poderia aproveitar a companhia de um semelhante, sempre fora receptivo aos demais gatos e uma época, lá no início, até havia meio que posto pra dentro uma gata de rua, linda, que depois morreu atropelada. Só ele que se sentiu violentado com a minha ideia de trazer uma gatinha filhote para ser sua amiga, e passou a fazer “fuuuu”, com a boca, para mim, de pura indignação, fazendo que eu abortasse o plano e, envergonhadíssima, devolvesse a gatinha aos donos da mãe dela.
Um Che que sempre ficava bravo quando algum gato se aproximava de seu jardim, e mesmo por dentro do vidro dava um jeito de espantar os invasores, mas aceitou a curiosidade de um jovem gato preto e muito peludo, magérrimo e faminto, com quem eu também simpatizei de imediato e passei a alimentar, até deixá-lo entrar e ele virar o Romeu, que está aqui, hoje, conosco.
Que depois do atropelamento perdeu a ingenuidade que o fazia deitar-se no meio da rua onde eu morava e passou a ser mais medroso e arisco (foi mesmo preciso reeducá-lo para sair, tamanho o medo da rua que ele passou a ter, logo depois de passados os quarenta dias de recuperação da cirurgia na pata); que abria portas, pulando nas maçanetas, por mais altas que fossem; que quebrou meu rádio-relógio, muito anos atrás, para fazer barulho e me acordar, para que eu pusesse comida fresca em seu potinho; que de novo quase morreu quando descobrimos sua insuficiência renal, parando de comer, tomando litros de soro, tendo que comer uma ração especial da qual, na época, só havia duas marcas: uma que ele não aceitou de jeito nenhum, e outra, importada, que às vezes ficava retida no porto de Santos e não se achava em lugar nenhum, fazendo-me rodar por lojas e lojas pra achar alguma remanescente. E que custava um dinheiro que eu não tinha. Mas que começou a ser tratado com homeopatia e foi melhorando tanto, que pôde voltar para a ração comum.
De lá para cá sempre tomou os remédios que a Dra. Silvana – a “minha veterinária”, como tantas vezes soltei sem querer – passava e viveu uma vida boa, não saindo mais para as ruas, mas sendo um mestre para o jovem Romeu, o qual, depois de uma tentativa de ser o reizinho felino da casa, logo se sujeitou à sabedoria do Che, com suas muitas vidas e experiências.
Agora a vida do Che está chegando ao fim e é muita coisa que vai com ele. Ele é esse companheiro que ia comigo até no banheiro, que tomava café da manhã sentado na cadeira ao lado, que comia o requeijão e a manteiga, e é também a memória de minha vida como adulta, até então. Está comigo praticamente desde que saí da casa dos meus pais, viveu aventuras e mais aventuras e fazia por onde honrar seu nome, escolhido com tanta paixão. Seu nome que ficou também como um resto de mim, e quantos não foram os que brincaram, ao ouvir o nome dos dois gatos, Ah, um mais revolucionário, outro mais romântico! (E isso porque o nome Romeu foi escolhido ao mero acaso, motivado pelo Romeu borboleta da história de Ruth Rocha, que tanto ouvíamos na época em que o gato surgiu em casa, eu e meu filho, narrada pela própria, e com a expressão de angústia da mamãe borboleta: “Romeu, filho meu, onde você se meteu?” que ficava em nossas cabeças, fazendo que Romeu fosse o primeiro nome a nos vir à mente.)
Pensar na morte, mesmo de um bichinho, é enfrentar que nós todos temos um fim, que por mais que tenhamos que esquecer esta verdade para conseguirmos viver a nossa vida de todo dia, ela tem realmente um fim. Não é brincadeira, nem teoria. E o duro é que o fim não é só inevitável. É feio, é triste, nos assusta e repugna. Deprime. Nos faz pensar em até que ponto vale sustentar a vida, no que é o sofrimento do outro, em até quanto conseguimos sentir o outro e saber o que vai ser melhor para ele – ainda mais assim, quando o outro não tem como falar para nós. E em como nos agarramos à vida com tamanho fervor, essa vida que nos traz tantas dificuldades, mas da qual não queremos nos apartar e nem queremos de jeito nenhum que aqueles que nos são queridos se apartem. Em quantas pessoas já confortamos, mas na nossa vez é sempre difícil, porque viver é sempre diferente de observar, mais ainda de julgar. Em que atravessar a morte de um animal é um aprendizado para podermos lidar com as outras mortes, será? No nosso egoísmo em querer a vida, mas também no quanto é difícil saber quando chegou o fim, nas reviravoltas dos processos e coisas, e mais um monte de coisas que nem terminamos de formular.

Sei que das outras tantas vezes em que chegou muito perto do fim, o Che conseguiu reagir, renascendo. Desta vez o quadro é bem outro. Há a idade, uma doença crônica e grave. Ainda assim, ele está me brindando mais uma vez. Não com uma ressurreição, mas com uma leve melhorada, trazendo uma alegria a meus olhos por ver os olhinhos dele com um pouco de brilho novamente. Sei que não teremos como driblar a morte, mas a força deste gato me parece mesmo incrível.