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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O CURTUME



Foi Nonatinho quem me trouxe o recado.

O dia estava muito quente e uma multidão de moscas atrapalhava-me enquanto eu debulhava o ralo feijão do almoço. Pela porta entreaberta que dava para o terreiro, sufocantes lufadas de vento esfolavam meu rosto, fazendo-me transpirar uma chuva de suor sobre a bacia em que eu cuidadosamente depositava os magros e pobres grãos. Aquelas eram nossas últimas vagens. As plantações haviam secado e rebanhos inteiros morrido. Feito um animal carniceiro, a morte nos rondava. Minha mãe havia sido levada pela tosse comprida e meu irmão pequeno sofria de uma moléstia que as rezadeiras não conseguiam sarar com suas miraculosas benzeduras. Passei a ignorá-lo ― meu irmão pequeno ― não por temer contrair sua terrível doença, mas porque ele trazia agouros para dentro de nossa casa. Seus gemidos, o ranger dos dentes, o revirar dos olhos, tudo servia de convite para que a morte adentrasse nosso casebre, devorasse nossa carne e nos roesse os ossos. Meu irmão pequeno não merecia aquilo. Acho que quase ninguém merece.

Meu pai havia partido para Morada Nova a fim de vender algumas peças de couro que ele mesmo confeccionara. Jurou antes de seguir viagem que me traria algum mimo de presente, caso houvesse fartura de ganho em suas vendas. Em casa restaram apenas meu irmão pequeno, meu outro irmão, um primo que fora criado conosco e eu. Estes dois já eram taludos e passavam a manhã inteira roçando o chão do qual nada brotava. Nenhum de nós trazia no rosto juventude e muito menos frescas esperanças que nos atinassem dias melhores. Estávamos tão secos quanto a terra e silenciosos como o enterro da última das carpideiras.

Receber o recado de que Liduíno me esperava no curtume fez com que eu largasse meus afazeres e vestisse uma roupinha mais faceira. Calcei minhas sandálias de ir à missa, pus uma fita dourada em meus cabelos e mirei-me no espelho. Papai me mata se souber que já beijei na boca, pensei, satisfeita de minha ousadia.

Atravessei a cerca dos fundos de nossa casa e me dirigi às pressas ao curtume de meu pai. Meu coração parecia prender uma graúna afoita por bater asas sobre a caatinga e o calor do dia intensificava ainda mais o desejo de encontrar meu namorado secreto. Dentre meus peitos tão moços, escorria o mesmo suor que umedecia minhas coxas e me fazia pensar em coisas proibidas, mas que não passavam de doidices de minha cabeça. Afinal, a instrução era clara: Eu deveria casar pura e jamais me dar ao desfrute, mesmo se tivesse plena certeza das boas intenções do rapaz.

Antes de adentrar o curtume, pensei em meu irmão pequeno e empaquei diante da soleira. Não era direito deixá-lo sozinho em casa, talvez ele sentisse uma coisa ruim e morresse sem nenhum vivente a seu lado. Mas saber que o bem-bom me esperava do outro lado da porta fez com que eu desistisse de retornar a casa. Sem remorso, entrei no curtume e chamei por Liduíno. Não houve resposta. Andei pelo meio das peças inacabadas, dependuradas como roupa em varal, e imaginei que meu namorado brincava comigo. A ansiedade me causou risos e um frio na espinha, era uma sensação gostosa aquela.

Tomei um susto terrível quando fui agarrada com bruteza pelas costas. Logo reconheci a voz de meu primo quando me disse: Calada, Rosa. Do meio dos couros, com os olhos de um cachorro adoecido pelo mal da raiva, surgiu meu outro irmão. Sua mão grosseira segurou com força meu pescoço enquanto ele me aplicava o incestuoso beijo. Ainda pude sentir o bafo de cachaça antes de ser jogada ao chão. Resolvi não gritar, fiquei quieta e fechei meus olhos, enquanto meu primo e meu outro irmão me faziam mal.

Durante meu pecaminoso desfloramento, escutei um barulhinho gostoso batendo nas telhas do curtume e senti uma leve umidade atravessando o telhado banguela. Chovia. De dentro do curtume, pude escutar o som das tinas e dos potes enchendo d’água sob as biqueiras. Ouvi o cacarejar de galinhas gordas e alegres em meu quintal, cabras formosas berravam felizes enquanto pastavam o capim farto e verde do chão fertilizado pelo milagre da chuva. Meu pai havia chegado de viagem com muita farinha, sacas de fubá, carne do sol e a blandície que me prometera. Mamãe estava linda vestida de azul e branco, preparando o fogo com zelo, irritada com o gotejamento que não deixava a madeira do fogão a lenha embrasar. Os açudes transbordavam e crianças nuas brincavam nas poças de lama, meu irmão pequeno estava com elas, tão gordinho. Havia acontecido algo santo, Deus finalmente enviara a bênção que o padre nos prometera. Estávamos salvos.

Permaneci durante horas deitada no chão quente do curtume. Lamentei a mancha encarnada em meu melhor vestido e lembrei-me de meu irmão pequeno. A culpa foi do sol, pensei, este calor amaluquece as pessoas. Levantei-me com cuidado ― o que não me protegeu da forte pontada que senti no pé da barriga ― suspirei sem forças e procurei esquecer Liduíno. Homem direito não se casa com mulher estragada.

Odeio Nonatinho. Não era meu irmão pequeno quem merecia morrer.



Emerson Braga





domingo, 27 de setembro de 2015

Colcha de Retalhos #13

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


TULIPAS NEGRAS

Ouvia, via e sentia a tristeza alheia. A angústia lhe estufava o peito, o ar ficava pesado e os ombros recolhiam-se enquanto as mãos passavam pelo rosto suado.
E foi assim em todas as vezes que se deparou com as tulipas negras, desdentadas, bocas do desespero.




CRIMINOSO

O mercado de trabalho continua executando crimes perfeitos.
Sequestra as almas e pede em troca, como forma de resgate, as forças do corpo.
E as vítimas só percebem tarde que de nada vale uma alma torturada, repleta de medos, somada a um corpo calejado, exausto.




COMO QUE SEM QUERER

O amor chega de fininho.
E, por mais que chegue em silêncio, desperta curiosidades.
Também acorda os medos, que têm o sono ainda mais leve, transtornados.




MULHER DA MINHA FALTA DE SONHOS

Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença. Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.
Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.







sábado, 26 de setembro de 2015

Trem custoso

A vida é um trem custoso. O dia a dia é complicado. Tem despertador que funciona, relógio que não para, dívidas que nem cochilam. O noite a noite traz insônia, obstrução nasal, zumbido de muriçoca, soluço de bebê, pesadelo. Não faltam atravancos, contratempos, embaraços, desarranjos, encalhes, estorvos, abacaxis, pepinos, tropeços.

Pense bem. Viver é passar perrengue. A vida é a arte do sufoco. Não gostou da minha máxima? Achou que é filosofia barata? Sabedoria de botequim? Deixe a intelectualidade de lado. Pense na sua vida particular. Reflita sobre o seu ontem e o seu hoje. Faça um retrospecto de seu novembro a novembro. Tenho certeza de que você consegue montar rapidinho, em silêncio, em segredo e sem vergonha, sua própria lista de dificuldades.

Vejamos. Não é fácil: acertar todos os números da Sena, concluir o Doutorado em Física, conquistar um belo artista plástico, virar triatleta em menos de um ano, manter as leituras em dia, dormir um sono ininterrupto tendo um bebê em casa, fugir das multas do Detran, seguir uma alimentação com restrição a glúten e lactose...

Também é dureza: largar o cigarro pra sempre, emagrecer três quilos e 852 gramas e não recuperar nadica, ir à academia três vezes por semana toda semana e obedecer fielmente à série de musculação prescrita pelo professor de maromba (sem corromper nem um agachamento, nem um abdominalzinho sequer), passar num bom concurso público dentro das vagas do edital, manter os brinquedos das crianças organizados, sair imune ao Fisco, alimentar e diversificar o amor...

Aprender a tocar um instrumento não é diferente. Pelo contrário: estudar piano é muito pior. Quando se trata de aprender música clássica, então, o desassossego sobressai, vitorioso. Sobram tropeços e engasgos e desvios e absurdos em cada peça a ser executada. Não há uma única partitura rápida e simples de digerir. Nenhum compasso desce redondo de primeira, de segunda, de centésima vez. Cada parte tem o seu quê de azia, de azedume, de entojo, de estraga prazer. O pianista tenta seguir a marcha e aí aparecem as lombadas, e ele tem de brecar, repetir o trecho mais e mais para desengasgar. Tocar bem é uma peleja sem fim!

O aprendiz deve ser persistente e aguerrido, mas também não deve sofrer demais por não conseguir tocar a música inteira. Algumas partes são realmente intransponíveis, e ninguém deve morrer por conta disso. Vale ficar tristinho, resmungar um pouco e se apegar a Santa Cecília; mas nada de se desesperar ou cometer um desatino. É preciso repetir, humilde e resignadamente, milhares de vezes aquele trecho amaldiçoado (que, na maioria das vezes, é o mais lindo e virtuoso, o clímax da música em questão).

Domar uma peça por completo é difícil mesmo. Sejamos francos: geralmente, impossível. Mas o estudante tenta, porque teimosia também é dom de Deus. E quando se trata do cabeludo Concerto para piano número 3 em ré menor, de Rachmaninoff, ou dos intrincados estudos de Chopin? O que falar da Rapsódia Húngara número 2, de Liszt? Será que até Nelson Freire já penou para interpretá-las — mesmo um padecimento bem fraquinho?

O legal é que cada obstáculo aparece no momento exato e para a pessoa apropriada. Não é preciso sofrer com os empecilhos que virão lá na frente. Eu, por exemplo, tenho plena convicção de que, na vida terrena, nunca vou conseguir tocar com correção, de fio a pavio, um estudo de Chopin ou um prelúdio de Debussy. Amansar fera braba é para poucos iluminados. Mas vou tentando aqui e ali domesticar pelo menos as partes mais dóceis. Milagres acontecem. Quem sabe, uma hora, não sai um som de qualidade?

Fico pensando. Será que o céu também há de oferecer barreiras ao pianista? Ou será que lá nas alturas será possível tocar de cor, bonito e por completo uma sonata de Beethoven? Será que lá eu vou conseguir, enfim, dedilhar de forma sublime e sem grande esforço aquilo que estudo por aqui?

Não saber a resposta é bom demais, porque prova que estou vivinha de amaral e elói. É bem melhor continuar fazendo música cá embaixo mesmo, na peleja, no sufoco, na saborosa complicação do dia a dia. Porque só passa aperto quem está tentando se virar, quem está querendo ser. E como bem destacou o nosso saudoso Gonzaguinha: “É a vida, é bonita e é bonita”.

Maria Amélia Elói





sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Caixa de Arquimedes



Eu nem queria acreditar! — o tom teatral do meu amigo Rui, na fila de almoço da cantina da faculdade, prometia história. — As peças do Ostomachion, em vez de estarem arrumadinhas no caixilho delas, estavam ao lado, ostensivamente, a formar um triângulo retângulo.
Somos colegas do curso de Matemática Aplicada, mas ele tem um part-time no Museu de História Natural e da Ciência, onde faz visitas guiadas às quartas e aos domingos. Diz que é para ajudar a pagar as propinas, mas eu acho que ele gosta mesmo é de revelar aos visitantes as pequenas maravilhas da ciência, expostas no museu. Já tem falado do brilho que parece acender-se no olhar de quem, de súbito, apreende a explicação.
Fiquei surpreendido, mas agradado — continuou ele —, porque nunca tinha visto qualquer visitante a conseguir construir outra figura. Geralmente, limitam-se a tentar reconstituir o quadrado inicial, o que alguns conseguem, porque a folha de apoio mostra o desenho da posição relativa das peças. Quando não conseguem, lá está o vigilante que recoloca tudo na posição própria.
O Rui falava de um jogo matemático inventado por Arquimedes — o Ostomachion ou Caixa de Arquimedes. Não sabemos se o usava como passatempo para exercitar o cérebro ou se tinha objetivos de pesquisa científica. É constituído por 14 peças planas, de variados formatos poligonais, com as quais é possível construir figuras geométricas planas ou sugerir objetos em silhueta, à semelhança do popular Tangram. Na “sala de jogos” do museu, está exposta mais uma dúzia de outros jogos ligados à geometria e à matemática, que foram surgindo ao longo dos séculos.
Não tinha importância se o jogo era apresentado de uma maneira ou de outra, mas, fiquei curioso: quem poderia ter-se lembrado de tentar montar um triângulo e tê-lo conseguido, com todas aquelas peças irregulares? Falei com o vigilante da tarde, que me garantiu que tudo tinha ficado arrumado como habitualmente. Mistério…
Eu próprio comecei a ficar interessado na história, confesso.
No domingo seguinte, era um hexágono que me sorria zombeteiro, onde devia dormitar um quadrado. O vigilante, desperto para a questão, disse-me que todas as manhãs encontrava uma figura geométrica diferente, construída com as peças do Ostomachion. Como podia ser isso? Comecei a duvidar de toda a gente. Terça-feira apareci de surpresa, à hora do fecho, mas estava tudo arrumadinho. Na manhã seguinte cheguei bem cedo e entrei com o vigilante. Um prosaico quadrado enchia o caixilho. Suspirei de alívio, pensando ter identificado o brincalhão. O sorriso sobranceiro que me preparava para dirigir ao vigilante fechou-se-me logo a seguir. O quadrado não era o da folha-guia, mas um dos outros 536 que as combinações das 14 peças do jogo permitem.
Mas, então, não me digas que o Arquimedes voltou lá da Siracusa de antes de Cristo para gozar contigo! — ironizei.
Nem pensei no Arquimedes. Já estava a ficar maluco, mas nem tanto! Só pensava em como podia descobrir o que de estranho se passava naquela sala, quando eu lá não estava. Então, lembrei-me das câmaras de vigilância, mas a sala dos jogos não as tem. Para grandes males, grandes remédios! No dia seguinte, camuflei uma microcâmara com emissor apontada à zona da mesa do Ostomachion. Não me olhes com esse olhar de reprovação! eu precisava de desvendar aquele mistério, o quanto antes. Essa noite passei-a no carro, em frente ao museu, a vigiar o Ostomachion pelo meu portátil; mas, acabei por adormecer. Acordei com o clarear do dia e o barulho do trânsito. Apressei-me a olhar para o ecrã — um retângulo alongado reclinava-se no branco da mesa… Digo-te, naquele momento, desanimei — o fantasma que alterava o Ostomachion voltara a atacar e eu voltara a não ver nada. Mas logo a seguir vi surgir uma mulher. Fazia deslizar pelo soalho o que parecia ser um aspirador. Ou uma enceradora. Ao passar pela mesa, parou, olhou o puzzle por uns momentos, moveu dois conjuntos de peças e afastou-se, deixando um aprumado losango...
Estás a gozar; a empregada da limpeza?
É verdade! Eu também tive dificuldade em acreditar. Quando, umas duas horas depois, saiu galhofando com as outras, segui-a. Era negra e muito bonita, com uns olhos… No autocarro para a Pontinha, foi o tempo todo a resolver sudokus. À saída, abordei-a. Expliquei-lhe quem era e porque a seguira. E pedi-lhe desculpa, claro! Depois de ter ganho confiança, disse-me que não tinha nenhuma razão conspirativa para alterar o quadrado do Ostomachion, só um enorme gosto por puzzles e paciências. Nisso convergimos. Acabámos por ficar bastante tempo à conversa e até lhe expliquei as minhas técnicas para resolver os sudokus, mas não eram novidade para ela. Sabes, convergimos noutras coisas — sorriu-se o meu amigo. — Temos saído algumas vezes. E acho que o meu trabalho para Geometria do segundo semestre vai ser sobre o Ostomachion. Como homenagem…

Joaquim Bispo

* * *








quinta-feira, 24 de setembro de 2015

TROVA DE EDWEINE LOUREIRO _ TEMA: PÃO






terça-feira, 22 de setembro de 2015

O tempo de Ana

O tempo para – estaciona, congela, faz hora – para quem reconhece o próprio caos e assume que está ali na beirinha, colocando os dedões dos pés no precipício. Parece improvável, mas acontece de o tempo se apiedar dos desesperados extremos naqueles instantes de lucidez antes da queda e andar mais devagar, esperando uma mudança de rumo. É como se o tempo olhasse o sujeito nos olhos, colocasse as mãos firmes em seus ombros e sem dizer palavra o encorajasse a. Tem gente que se salva justamente aí.

Os dedões de fora e longe dos chãos a gente percebe logo, o difícil é identificar precipícios. É que despenhadeiro nem sempre é uma ponta de rocha alta com mar aberto lá embaixo. Os piores abismos são os metafóricos, os íntimos, os movediços, os invisíveis, os nossos. Não fosse o risco do cair, o mundo estaria assim de gente que saltou para morar com as flores que nascem, de qualquer cor, em areias profundas. Uma pena que o controle – não confundir com equilíbrio – seja ainda um valor tão caro e que em seu nome as sociedades sigam fixando máximas que engaiolam, que submetem, que fabricam desejos e instintos, reduzindo quereres ao pó que se varre para a pazinha de lixo e se despeja do lado de fora do portão.

A Ana, por exemplo, está há meses parada diante da janela aberta sem tomar qualquer atitude. Tão criativa, a Ana. É uma pena que fique assim, tão desolada. Anoitece e amanhece e ela permanece estática diante da moldura da rua, sem decidir para onde vai. Está presa em um conflito fundamental. Há milhares de outros que a paralisariam, sem dúvida, mas não antes deste, que parece ser a pedra que ampara a evolução humana. Ela respira com ritmo, concentrada no ar que entra e que sai pelo nariz, porque é um alento em situações de desamparo como essa ater-se a algo que se saiba fazer bem, enquanto pensa um pouco e morre um tanto de incompreensão. Não entende a regra fundante, simplesmente. E por não entendê-la, não consegue cumpri-la sem dolorir. E dolorindo, não tem forças para invenções.

Tocou a ela, e a todas as Anas do planeta, a tarefa da continuidade sem jamais perguntarem-lhe se tinha essa vontade, essa intenção, esse plano. É vocação, por natureza, explicavam. É completude, plenitude e outros udes, sem os quais não é possível pertencer ao que somos. Não insistir no padrão é legar nada ao futuro e existir quase que indignamente, ameaçavam nas entrelinhas. Ana estava convencida de ter um poder maior: era capaz de gerar qualquer vida, qualquer coisa. Então, por que condicionar-se a parir pessoas, pelo menos uma outra pessoa, se podia dar-se à luz vezes sem fim, e daí fazer viver incontáveis criaturas para habitarem os mundos que bem preferissem? Vagão de trem descarrilhado, oficina inoperante, corpo sem serventia, uma mulher menor. Queriam que Ana pegasse para si essa verdade de uma direção só. Graças ao tempo, Ana descobriu acessos alternativos para mover-se e já dava novos sinais de maternidade. Podia recuar e pousar os dedões dos pés na grama.





segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Desejo

Estancou maravilhado diante daquele peitão ali à mostra. E as coxas carnudas então? Deixavam qualquer mortal babando de vontade. Entusiasmou-se com sua pele bronzeada, douradinha, cheirosa. Mas era um sonho quase inatingível para ele, um reles mendigo. Resolveu passar o dia esmolando na esperança de conseguir o dinheiro suficiente para saciar o carnal desejo, afinal, também não era ele um filho de Deus?
Terminado o dia, notas amassadas dentro dos puídos bolsos, tomou coragem e foi direto ao assunto.
- Boa noite.
- O que há de boa nela? – foi a resposta indelicada.
- Quanto custa? – perguntou apontando com o queixo.
- Dez real, completo.
- Farofinha também?
- Incluída.
- Vou querer.
Voltou para a praça onde dormia feliz, de posse do suculento frango assado que tanto sonhara. O arrogante e mal-educado português da padaria que se danasse.







domingo, 20 de setembro de 2015

O BECO


Na minha rua tem um beco transversal e sem saída.
Tenho medo do beco.
Nunca passo perto dele à noite. Sempre atravesso para o outro lado.
Ele é escuro, sem poste, sem lampião. Um breu.
Eu sei: ali moram monstros, medusas, zumbis, crianças vomitando ectoplasmas,
caixões semiabertos exalando fogo-fátuo, carrascos com touca de banho,
torturadores sorridentes, bruxas cozinhando ensopado de esquartejados,
lobos cegos, diabos de smoking e patas de cabra, anjos caídos disfarçados
em arbustos secos, restos eretos de castração, pelotões de baratas cascudas
com ferrão nas antenas, esquadrilhas de morcegos sanguinários, ninhos de metralhadora,
a doida de olhos furados, a velha nua de cabelos de Rapunzel e vagina grisalha,
bodes de chifres incandescentes, unicórnios com pés de rapina,
imensos coelhos esquálidos, galinhas depenadas chocando cabeças decepadas,
cascavéis do tamanho de sucuris, crocodilos do Nilo e cocô de cachorro.
Quando passo perto do beco à luz do dia, até considero não mudar de calçada.
Mas não arrisco olhar para dentro dele, não.
Aperto o passo de olhos trancados. Vai que só tem o cocô de cachorro.
Tenho medo de me decepcionar.





sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Faz zunzum pra mim




Faz quase duas semanas que passo por um cartaz colado em uma banca de jornais da Avenida Paulista e leio o seguinte título: “DOCE COM ATITUDE”. Não faço a mínima ideia do que possa ser tal mistura, e a foto da capa da revista que traz tal título apresenta uma moça com ar tipicamente angelical e roupa cor-de-rosa bebê, cheia de rendas, mas que deve ter sua bravura secreta prestes a ser revelada.

Não sei se entendo muito de doçura, tampouco de atitude. A única correlação possível que se forma a cada vez que, novamente, vejo a moça e a frase é a que se origina das abelhas. Doces e com muita, muita atitude.Uma atitude que pode se localizar no fato de serem dotadas de uma estrutura organizadíssima, em que cada uma sabe o que tem de fazer e o faz com tranquilidade. Com paciência, persistência, por uma vida inteira. Com doçura.

Uma atitude que está, ainda, no fabricar o mel doce, no fabricar a cera, e a cera que a abelha engendra acende a luz quando escorre da vela que me orienta, tão bonita a canção, ainda que não tenha dirimido minha raiva-temor das abelhas. A poesia nem sempre dá conta de tudo. De toda a atitude. De toda a doçura.

Uma atitude, também, que está na própria comunicação das abelhas, muito organizadas inclusive para se falarem, avisarem-se entre si da localização do néctar, das flores, dos possíveis perigos. As aulas de Linguística me embeveceram ao me revelar isso. Elas, tão perto dos humanos. Nós, tantas vezes menos organizados que elas, doces.

E pensar que já tive tanto medo delas, um pavor imenso que me fazia tomar os picolés de limão apenas na beira da água. Assim já lavava tudo, mãos, rosto, para eliminar o risco das manchas na pele, e ficava na água, seu pai lhe dizia que abelhas não gostam de água. Talvez fosse verdade, mas algumas se fixavam tanto no sorvete que arriscavam a proximidade da água e vinham. Atitude atrás da doçura.

E havia a história da minha tia, um dia picada por descuido. Uma coceira nas costas, a mão apenas para aliviar o incômodo na pele, e a picada na hora, doída, sem chance de pedir desculpas à abelha pelo equívoco da atitude.

A história me assombrou muito tempo, mas houve um dia em que foi a minha vez. A pele inchada. A pomada amarelo espessa que minha mãe passava. O choro, a água do mar respingando e eu correndo pela areia, com medo de a abelha me perseguir até o fim. Nessa época não sabia que elas, coitadas, morriam ao nos picar. São suicidas as abelhas, o que as faz mais doces e, certamente, com mais atitude. Mais, muito mais que a da moça da capa da revista. Mais, muito mais que as minhas atitudes.

Mesmo depois de eu ter procurado vencer o medo das abelhas, ter conseguido superar o grito e até a fuga, tenho pesadelos com elas vindo aos milhares para cima de mim. Com seu zumbido ensurdecedor, aquela mancha preta conjunta assumindo várias formas e me recobrindo, rasgando a pele até que eu incho por completo e caio desacordada, para despertar em seguida e levantar da cama. Na cozinha, abrir a geladeira, pegar um limão, espremer, colocar um tanto de água e encher de açúcar, saudando as atitudes que ainda virão de mim, sejam elas doces ou, preferencialmente, maduras. No maduro doce das frutas.





quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Distraídas astronautas - poema de Simone Teodoro


Distraídas astronautas

O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando  dentro

(segundo as narrativas da mãe
quando eu ainda era o inchaço em seu ventre
e captava sussurros
pelas viscosidades da placenta).

Um deus de barba branca
no trono, ela dizia.
Trovejante voz paterna
ordenando o alternar dos dias
e das estações e dos tons de azul
do céu
que sempre me pareceu tão masculino
Porque lá tinha um trono.
Porque lá tinha uma ordem.
Porque lá tinha um grito.

Mas então vem a lua
e um império inteiro desaba.

Odores de fêmea
umedecem os ares.

A lua, inchada
como a barriga da mãe
quando me contava mentiras

A lua, pálida ou vermelha
ou quando uma sombra ameaça
sua estranha claridade.

E de perto (bem de perto)
-Por dentro-
Uma profusão de chagas escancaradas
Crateras
sobre as quais
distraídas astronautas
de tempos em tempos
vêm pisar
alargando feridas
fincando bandeiras
enlouquecendo
Para, em seguida,
Desaparecerem para sempre.


Do livro Distraídas Astronautas (Editora Patuá).





quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Madrugada

São três da madrugada. Ou falta pouco. O homem do barulho acabou de chegar aqui embaixo na rua. O som, parecido ao de um tambor, é o alerta. Quando ouvi pela primeira vez, meses atrás, acordei assustada. Algum ladrão tentando abrir os carros, com certeza. Não era. Tampouco um bicho virando latas. Um bicho, não. Um homem. Catando de madrugada os restos da lixeira que deveria estar trancada, mas não estava; nunca está. O som de tambor é da caixa de plástico que ele deixa cair no chão, já meio cheia de outros restos recolhidos ao longo da noite. Pelo canto da cortina, vejo uma barba grisalha e desgrenhada que emoldura o rosto redondo e azulado pela luz do poste. Ele não é maltrapilho. Usa roupas simples, mas não está rasgado ou sujo. Daqui de cima posso ver que está limpo. E que mantém o corpo ereto como o daqueles que se recusam a ceder. Ele tem a postura de quem já foi maior. Diferente de outros que já nascem afundados em si mesmos e que se deixam empurrar para baixo pelo destino, pela miséria, pelo desencanto. Não, não é preconceito. Não sou eu que os vejo diferentes, que os distingo. Eles são. Eu apenas os percebo. A uns o destino molda. A outros é a vida. A uns acontece de uma vez. A outros é aos poucos. Em todos a mesma fome. De comida e afeto. E uma submissão inevitável. 
Mas voltemos à janela. 
Há meses, quando me levantei com medo e olhei disfarçadamente por entre as lâminas da persiana, eu o reconheci. E o reconheço sempre. Sem nunca tê-lo visto. É um desses homens que escolhem as rotas seguras. Há indícios claros. O meu prédio não é alinhado à avenida; não está perto de nenhum comércio; não é construção de gente rica; não tem atrativos para quem cisca lixos. Por isso mesmo é seguro, caso a polícia apareça chamada por um morador medroso ou por um mais neurótico. Não. Maldade minha. Outra vez. Mas não é preconceito. É só verdade. Afinal, se não for por medo ou por cisma, que outro motivo leva alguém a chamar a polícia para um homem moreno, de meia-idade, barbas grisalhas e roupas simples, mas asseadas. Um homem que não grita, que não mendiga junto às janelas; que não rouba; que só subtrai alguns restos. Que se submete a andar pelas ruas enquanto todos dormem. Ou deveriam dormir. Um homem que só faz voltar, todas as madrugadas — meia hora a mais, meia hora a menos —, para o mesmo ritual. Para pôr no chão a caixa plástica que faz som de tambor. E abrir a porta da lixeira. E catar restos de comida. E separar objetos para os quais ainda se pode inventar serventia. 
Ele sai da lixeira. Agora, não joga, mas pousa com calma a caixa plástica no chão. Fecha a lixeira com cuidado, preocupando-se em não deixá-la entreaberta para ratos e morcegos. Só as baratas vão conseguir passar, porque as baratas se esgueiram mesmo por qualquer buraco. Retoma a caixa e afasta-se para o breu além-poste. Ao vê-lo de costas, se distanciando, dou-me conta de que seus ombros estão um pouco mais caídos do que na semana passada. Como eu disse, para uns é aos poucos. Em inevitável submissão.





terça-feira, 15 de setembro de 2015

no início

no início, o livro é assim: 
          O teu pai gostava de ir à fruta, e levava-te.
          Seguia por estradinhas de terra, e nem um alcatrão que ali fosse esquecido entre buracos, as mais das vezes repletos com água da última chuvada. Alcatroado, só aquele pedaço na descida que ia até à ponte, até ao rio. Um troço pequenino. Um bocado de alcatrão ratado assim como se alguém tivesse desejado saber como seria uma estrada a sério. O alcatrão terminava ainda nem se via a ponte sobre aquele fio de água, que o rio corria lá mais longe, e era uma torrente, e era peixe, e eram enxurradas a alagarem tudo. Ali era apenas um braço de água a dar de beber a um gamo, um mabeco, uma pacaça. Um ribeiro rolando entre raízes.
Aqui não é o rio, senhora, diziam as mulheres .
E nem era uma ponte, mas meia dúzia de troncos equilibrados numas pedras grandes, pedras brancas como se fossem caídas de um céu entre tempestades.
E o carro bamboleava risadas que eram as do teu pai e eram as tuas.
E descalçavam-se.
Por uns breves instantes, saltitavam na água transparente, muito fresca. Descalços, à revelia do que a tua mãe recomendava, ela sempre ciosa de que usassem alpargatas ou sandálias fechadas. Ela que, se viesse, lamentaria o calor, e sobretudo os bichos. Maria Inácia que calçava sempre sapatos com atacadores em cima de peúgas. Mesmo nos dias de calor intenso, que eram quase todos. Mesmo quando se der o casamento da tua irmã, que só por insistência e muito rogo Maria Inácia calçará uns sapatos diferentes e ainda assim baixos. Verniz preto com duas tirinhas cruzadas sobre o pé, ossudo e com muitas veias. Um pé translúcido, o pé dela.
Tu e o teu pai chegavam à chitaca do Ernesto depois de muito morro de formiga. Fantasia ladrava-vos debaixo da única macieira, a árvore a destoar no que era um laranjal a perder de vista. E havia a horta onde crescia de tudo. Bem lhe tinham dito: Afonso, se te descuidas e deixas um pau de vassoura enterrado na terra, ao outro dia tem rebentos verdejando.
Às vezes, o Ernesto oferecia-te uma maçã e tu babavas o vestido.
Se escrevesses desse tempo, talvez começasses pelo odor das maçãs do Ernesto Fantasia.
Fantasia era o nome do cão, mas assentava ao homenzinho como se fosse nome de família, e o teu pai nunca lhe conheceu um sobrenome. Talvez o usasse para diferenciar de um outro Ernesto que tivesse conhecido. Ou talvez o fizesse por garotice.
Se escrevesses, talvez contasses que a terra era vermelha, e as casas habitadas pelos espíritos dos que ali tinham gerado filhos e arrotado refogados. E dirias de sorrisos e ruídos e descuidos por baixo de lençóis em noites de lua. 





sábado, 12 de setembro de 2015

Você fez casa em mim

(por Lohan Lage)

Você fez casa em mim. 

Aconchegou-se no terreno do meu coração, até então revolvido por ilusões movediças e erosões fora de hora. Regou com sorrisos tímidos e olhares esquivos que, aos poucos, fundiram-se aos meus. Alicerçou suas emoções e plantou, na fachada do coração, a semente da planta que rege a vida: o amor. O jardim floresce a cada dia. A casa se amplia em muitos cômodos – descobertas, felicidades e inevitáveis dissabores, os quais, vez ou outra, exigem pequenas reformas com diálogo e cumplicidade. Não há rachadura ou infiltração capaz de desmoronar uma construção tão sólida, fincada na mesma terra de onde brotou o amor. 



Você invadiu o telhado dos meus pensamentos; dias de chuva, dias de sol, lá está você, protegendo-me com tua lembrança. Eu, latifúndio de nada, hoje sou propriedade de tudo. Não há chão em meu ser que não tenha registrado tuas pegadas. Não há vazio, nem preto e branco. Você se apossou, soberana, de cada pedaço meu. A chave está em tuas mãos. Tranque por dentro e jogue-a fora. Permita-me não mais uma mera casa; tornemos nossa união um lar. E que, preso à chave, carregue consigo esta aliança. Sejamos intrínsecos. Que a escritura deste lar seja legítima, diante da lei de Deus e dos homens. E que no fim, embora jamais tenhamos fim, já não haja mais quintais em nosso lar que caibam tanto amor, tantos frutos, tantas pegadas. Façamos, nós, morada no infinito.





quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Aqualung


Henry Alfred Bugalho

As pregas da saia subiam e desciam, na cadência da corda a girar.
Do outro lado da cerca, sentado na calçada, queixo apoiado nos punhos, cão sarnento a dormir ao lado, o mendigo torcia para que uma lufada, terríveis neste inverno, viesse e erguesse a saia da menina ainda mais. Era incrível como, mesmo em dias gelados, as colegiais ainda mostravam as coxas; acima delas, calcinhas brancas, disto o mendigo tinha certeza.
Frio por fora, frio por dentro. O mendigo esfregou a manga do casaco na cara, arrancando ranho congelado. Um chá cairia bem, o mendigo pensou. Uma lareira cairia bem, o cão pensou.
O sinal para o fim do recreio ressoou e as crianças desapareceram do pátio. Apenas uma exceção: a Vesga.
O mendigo que olhava as colegiais era observado pela Vesga, a colegial. A Vesga já havia reparado no mendigo, ali todas as tardes, do outro lado da rua. Às vezes, ele enfiava uma mão dentro da calça. Desde o mundo encantado da Vesga — uma mansão, carro luxuoso, a melhor escola da cidade e uma gorda mesada —, a vida dum mendigo, nas ruas, era inconcebível, porém encantadora. Ela trocaria tudo para, por um único dia, deixar o castelo imaginário de seu pai e se aventurar no mundo real daquele homem.
E aquela seria a oportunidade.
O buraco na grade havia sido feito pelos meninos, quando queriam fugir do colégio e fumar nos becos da vizinhança. Poucas meninas se arriscavam a sair, geralmente de mãos dadas com um namoradinho assanhado. A Vesga se espreitou pela brecha, rasgou a blusa no arame, mas tudo deu certo. Estava livre!
Atravessou a rua com passos rápidos. Foi então que o olhar vazio do mendigo a traspassou. O cão ameaçou latir, mas levou do dono um tapa nas fuças, resmungou e se deitou acabrunhado.
— O recreio acabou. As freiras vão te dar uma sova, o mendigo sorriu, cheio de dentes podres. Não mentia, as freiras eram realmente terríveis.
— Que se danem as freiras, a Vesga retrucou — Está com fome?
O mendigo fez que sim.
A Vesga revirou os bolsos e tirou um bolo de notas, amassadas:
— Podemos comprar algo pra comer.
Fazia tempo que o mendigo não via tanto dinheiro duma só vez. Não era muito, mas era muito mais do que costumava conseguir.
— Tem mais de onde este veio, a Vesga comentou, ao constatar o brilho de ganância nos olhos do mendigo.
— Melhor ainda, ele coçou a barba. O cachorro também se coçou, pulgas.
***
A Vesga trouxe o lanche num embrulho e um copo de chá. Não permitiram que o mendigo entrasse na lanchonete.
Eles se sentaram num banco de praça e o mendigo engoliu o pão com mortadela duma vez só, mascava de boca aberta, migalhas saltavam pra fora.
— Onde você vai passar o Natal? — a Vesga perguntou.
— No mesmo lugar de sempre... Na rua — era o décimo terceiro ano de indigência, Jameson, o vira-lata, o acompanhava há dois.
— Tenho uma ideia! — a Vesga se levantou, animada — Você terá um Natal de rei este ano.

Dois dias depois, na data em que cristãos do mundo celebram o nascimento do Messias, a Vesga saiu cedo de casa e se encontrou com o mendigo, que a aguardava a umas três quadras de distância.
Juntos, caminharam até um casarão:
— É aqui — a menina disse.
— São amigos seus? — o mendigo olhava para os lados, com medo de que a polícia o visse por aquelas bandas, repleta de casas luxuosas, área de milionários.
— Sim, casa duma amiga. Estão viajando.
— Como vamos entrar se viajam?
— Eu sei onde fica uma cópia da chave, e, ao dizer isto, a Vesga enfiou os dedos num vão no muro de pedra e retirou um chave, enfiou-a na fechadura e a porta se abriu.
Eles entraram num pátio e, depois, no casarão.
— Sinta-se em casa, a Vesga disse, os criados estão de folga.
E foi o que fizeram. A Vesga e o mendigo comeram o que havia na despensa, nadaram na piscina aquecida, assistiram a filmes numa gigantesca TV, jogaram sinuca, o cachorro cagou por todo o lado e, por fim, na biblioteca, se sentaram para relaxar:
— Que vidão, hein! — o mendigo bebericava um copo de uísque.
— Mas de que adianta tudo isto, se a felicidade fica do lado de fora? — a Vesga olhava pela janela. Naquele exato instante, várias famílias felizes deveriam estar comendo um peru de Natal.
— Eu seria feliz se tivesse tudo isto — o mendigo tomou um gole de sua bebida.
— Engano seu. Não conheço homem mais triste do que meu pai. Ter dinheiro não é igual a ser feliz.
Naquela noite, o mendigo dormiu numa cama digna de nobres e, na manhã seguinte, ele e a Vesga deixaram, de mansinho, a casa.
No ônibus para o Centro, a Vesga abriu sua mochila:
— Olha só o que eu encontrei lá — e mostrou a mochila cheia de dinheiro.
— Você roubou aquela gente? — o mendigo se exaltou — Eles vão tirar o nosso couro. A polícia vai nos pegar!
— Que nada! Eles não vão nem dar falta disto. Você não disse que, se tivesse dinheiro, seria feliz? É pra você.
***
O dinheiro foi bem empregado. O mendigo comprou roupas novas, fez a barba, cortou as unhas, comprou até uma escova-de-dentes. Frequentaram restaurantes e foram ao parque-de-diversões. Ao invés da corda de varal, o cão tinha agora uma coleira de couro.
E, no fim do dia, eles dormiam numa mansão diferente, casas de amigas, em viagem, da Vesga. O dinheiro da mochila nunca diminuía, abastecida por novos espólios dos ricaços.
— Você não tem de voltar pra casa? Seu pai deve estar preocupado?
— Está nada. Ele queria um filho homem. É como se eu nem existisse.
Passaram a virada do ano juntos, a bordo dum iate, os fogos-de-artifício explodindo no céu da cidade.
***
— Já tenho sei onde passaremos nossa próxima noite, a Vesga disse.
O mendigo aceitou a sugestão e se encaminharam para outra mansão. A rotina de invadir e aproveitar se repetiu. Deitaram-se para dormir, mas, por volta de uma da manhã, a Vesga acordou, foi até o quarto onde o mendigo dormia e o sacudiu:
— Acho que ouvi um barulho. Tem alguém lá embaixo.
O mendigo olhou pela janela e viu um carro estacionado na frente da casa. Foi para o corredor, havia uma luz acesa no andar térreo.
— Se esconda — ele disse — eu vou descer.
O mendigo apanhou um taco de golfe do closet e desceu as escadas.
Um senhor falava ao telefone:
— Alguém entrou em casa... Está tudo revirado. Não, não sei se roubaram algo, ainda não conferi. Fique aí com as meninas. Ainda vou ligar pra polícia.
Era o dono da casa. O mendigo avançou e deu uma tacada — sem muita força, ele insistiria depois — no cocuruto do senhor, que caiu sem vida. Ele o havia matado, não havia dúvida.
O mendigo subiu ao primeiro andar e chamou pela menina, que apareceu assustada, trazendo o cachorro no colo.
— Junte suas tralhas e vamos embora. Deu merda!
Não havia ônibus naquela hora da madrugada, por isto, tiveram de correr. O mendigo, que inconscientemente carregava o taco de golfe consigo, o jogou de sobre uma ponte. Depois, apanharam um táxi e foram para uma espelunca no Centro, ponto de travestis e prostitutas.
— O que aconteceu? — a Vesga roía as unhas.
— Matei um homem, acho que era o dono da casa.
— Ai, meu Deus! Estamos ferrados.
A Vesga tinha razão. Agora era só esperar a polícia encontrá-los e jogá-los numa cela fétida e superlotada.
***
O assassinato do milionário estava na capa dos jornais, no dia seguinte.
Com o dinheiro que tinham, o mendigo e a Vesga compraram uma passagem de trem e foram para o interior.
— Tenho um amigo lá — ele dizia.
A viagem foi rápida, apenas duas horas. Chegaram a uma cidadezinha pacata, alguns poucos mil habitantes. Foram direto para a Igreja.
O mendigo, a Vesga e o cachorro adentraram a nave do local santo. Uma velha gorda se confessava, o sussurro dela reverberava.
Eles aguardaram o fim da confissão, então o mendigo foi e se ajoelhou:
— Padre, eu pequei.
Silêncio.
— Matei um homem e agora preciso dum abrigo. E sei que você, pelos velhos tempos, me acolherá.
— É você, seu pilantra?
O padre saiu do confessionário e abraçou o mendigo. Murmurando, perguntou:
— Você assassinou alguém?
— Não é tão difícil; você sabe disto melhor do que eu.
— Venha comigo...
O padre os encaminhou à casa paroquial.
— É preciso se arrepender do seu crime, só assim Deus o perdoará — o sacerdote o admoestou.
— Não é porque vim até você que eu acredito nesta ladainha. Deus? Que espécie de Deus é este que permite tanta dor e desgraça no mundo?
— Eu acredito em Deus — a Vesga comentou.
— Pouco me importa... Aliás, é muito fácil pra você, morando num palácio, acreditar em Deus, bondade e justiça. Não é você quem tem de passar vinte e quatro horas por dia na merda. E uma ou duas noites na casa de ricaços não mudaram minha opinião. Este Deus de vocês é um baita dum filho da...
— Não blasfeme! — o padre interrompeu — Não na minha casa! Se a sua vida está deste jeito é porque você fez por merecer. Eu já estive na sua posição e tudo mudou.
— Porque você se vendeu — o mendigo tocou, simulando nojo, a batina do padre — Se vendeu por pão, por uma casa e por uma fé vazia. Não vim aqui para ser convertido.
Nestas horas, a Vesga já estava chorando. A resposta áspera do mendigo a havia magoado.
— Pare de chorar, menina. Acho que você está aprendendo cedo que a vida é um trem desgovernado. E quando esta porcaria de trem descarrila, saia debaixo, não tem mais volta.
O padre os alimentou e deu pouso. Na manhã do terceiro dia, bem cedo, o mendigo e a Vesga arrumaram suas coisas, roubaram toda a prataria do padre e fugiram para a estação de trem; o mendigo estava convencido que era hora de levar a Vesga de volta pra casa.
— Se for para me ferrar, que seja sozinho — ele disse.
— Mas eu não quero ir. Prefiro ficar com você e com Jameson.
— Somos de mundos diferentes, menina, eu pertenço à rua e à sarjeta; você, aos lençóis macios e ao café-da-manhã na cama.
Foi na estação de trem que eles viram o jornalista noticiando na TV:
— A polícia desconfia que o sequestro da filha do banqueiro esteja relacionado ao assassinato do empresário, três noites atrás. Eles pedem a qualquer um que tenha informações sobre o paradeiro deste homem — e o retrato falado do mendigo apareceu na tela —, ligue para as autoridades.
A viagem de retorno foi constrangedora, ambos preocupados demais para conversarem, apenas o cachorro emitia grunhidos esporádicos, escondido dentro duma valise.
Desembarcaram e o mendigo logo percebeu que havia algo errado. As pessoas olhavam-no com desconfiança, sussurravam entre si, e, ao longe, dois policiais caminhavam em sua direção.
— Acabou, menina... — os olhos dele e dela se encontraram, cheios de tristeza.
— Leve-me com você, ela se enrolou nos braços do mendigo, simulando haver ter sido feita refém.
— Basta! — o mendigo tentou se desvencilhar.
— Não, nós vamos juntos.
E o mendigo entrou no jogo.
— Mais um passo e ela morre — ele gritou. Os policiais obedeceram, mas imediatamente sacaram suas pistolas.
As pessoas na estação gritaram, deitaram-se no chão, correram para longe. O mendigo, braço envolvendo a garganta da Vesga, andou vagarosamente para a porta de saída, mas outros policiais chegaram. Lá fora, os faróis das viaturas — vermelhos e azuis — piscavam.
— Largue a garota! Você está cercado, não tem por onde sair! — a frase feita, digna de filme, veio dum megafone.
O mendigo recuou, entrou num banheiro feminino e trancou a porta. Jameson se debatia no interior da valise. Soltaram-no dentro do banheiro.
— Por enquanto, eles não vão entrar — ele disse. Aparentava estar calmo, mas, interiormente, o mendigo estava muito assustado. Desta vez, havia ido longe demais.
— Vai dar tudo certo, a Vesga tentou convencê-lo — Você verá.
— Já está tudo errado, menina. Há um bom coração aí — ele apontou para o peito dela — mas aqui não. Em mim, só há ódio — e o mendigo apontou para si.
Durante horas, os dois permaneceram sentados no chão do banheiro, ouvindo as sirenes da polícia e o negociador berrando pelo megafone.
— Está na hora de ir, ele disse — seu pai deve estar te esperando.
A Vesga estava tão cansada, e com fome, que achou melhor seguir o conselho do mendigo.
— Mas eu volto pra te ajudar.
— Sim, eu sei disto.
Ela se levantou, deu um beijo do rosto do mendigo, acarinhou a cabeça do cachorro, foi até a porta, destrancou-a e saiu.
Alguém gritou de fora:
— Ele soltou a refém.
Poucos segundos depois, a polícia invadiu, empunhando rifles, dispararam sem perdão.
***
O banqueiro abriu os braços e agarrou a filha.
— Meu Deus, quanta preocupação! Que bom que você está segura, ele disse.
Depois, a frieza usual se impôs, ele se levantou e disse:
— O jantar será servido às oito. Suba, tome um banho e desça para a refeição.
A Vesga já havia recebido a notícia da morte do mendigo. Todos a congratulavam por ter escapado viva da mão daquele bandido. Até interpretaram o choro dela como se fosse de alívio.
Ela obedeceu ao pai. Subiu a seu quarto tomou um banho e vestiu seu pijama. Ouviu, então, um latido vindo do outro lado do muro. Ela olhou pela janela, só que estava escuro e ela não conseguiu ver nada.
Desceu, saiu de casa e foi até a rua. Jameson estava lá, abandando o rabo, língua pra fora e um tanto trêmulo por causa do frio.
— Como você conseguiu me encontrar, Jameson? — a Vesga o apertou contra si, e era como se prestasse uma homenagem ao próprio mendigo. Ela o trouxe pra dentro, deu-lhe um bife cru e o deixou deitar na cama com ela.
Mas a lembrança do mendigo não a deixava dormir. Algo havia mudado nela, os lençóis macios já não bastavam.
***
O banqueiro despertou e foi até o quarto da filha. A cama estava desarrumada, porém não encontrou ninguém.
Perguntou à criadagem, mas não a haviam visto.
Por fim, foi ao escritório, e descobriu o cofre aberto. Pelo menos uns duzentos mil dólares estavam faltando. Apenas naquele instante o pai percebeu quem estava por detrás de toda a confusão dos últimos dias.
Consumido pela raiva, ele urrou:
— Sua ingrata desgraçada!

A Vesga e Jameson já estavam muito longe, sacolejando num trem, rumo ao litoral.
— Tenho certeza de que seu dono teria adorado conhecer o mar. Se a vida é um trem desgovernado, como ele disse, então vamos aproveitar a viagem da melhor maneira possível.

Conto publicado pela MojoBooks em dez/2008





quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Pequenas estórias

Dicotomia

Pedro adorava livros.

Lê bastante, filho, pra se tornar alguém na vida, dizia-lhe a avó.

Ler não enche barriga nem constrói casa. Larga disso, menino, repreendia-lhe a mãe. Pedro já não se importava; a vida havia sido dura com ela.

Não deixava de ler, mesmo tendo que cuidar do irmãozinho. Era-lhe como um pai, ainda que desconhecesse essa figura.

Certo dia, Pedro falou que precisava ir à biblioteca.

Não vai, menino.

Palavra de mãe…

A polícia desconfiou do volume que carregava em suas mãos.

A foto de Pedro saiu no jornal. Havia se tornado alguém.





* * * * *




Ato reflexo

Parado na fila há quase uma hora, olhava para os lados, impaciente.

De súbito, um brilho ofuscou seus olhos. Era o coldre metálico de uma arma ainda não sacada.

Saiu da fila se esquivando, mas uma senhora o indagava, aflita, chamando a atenção de todos. 

Ignorou-a, mas o bandido o seguiu com os olhos, interessado em sua maleta.

Percebeu a aproximação do sujeito, então correu.

Ouviu tiros.

Seguiu por várias ruas até achar que estava seguro e parou, ofegante e cansado. Julgou-se sortudo. Sob o sol, percebeu algo estranho: sua sombra não refletia no chão.




* * * * *




Subserviência

Naquela noite leu, avidamente, “A desobediência civil”.

Releu-o por mais algumas vezes, e os pensamentos, antes anuviados, começavam a se concretizar com força.

A cada nova virada de página, as anotações iam surgindo pelas bordas, até não mais sobrar espaço; algumas, inclusive, se sobrepunham às anteriores, formando um emaranhado que nem mesmo ele seria capaz de desvendar depois.

Traçava paralelos entre o texto americano do século passado e a atual vida política de seu país; a revolta tomava-lhe os sentidos; o calor emanava pelos poros – era preciso fazer algo.

Lembrou-se, porém, de que já não era mais aquele jovem com ideias revolucionárias que lutara por questões sociais durante mais de uma década.


Agora deputado, os ideais estavam partidos.




Conheça minhas publicações acessando o blog:
http://rodrigozafratoffolo.blogspot.com.br/





segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Morte líquida

Imagino o frio do mar
que vê o urso morrer
aos poucos
e espera
feito louco
que sua carcaça afunde
             rápido demais
             pela leveza do ser
pra dar de comer a outros
tão mortos de fome quanto
as crianças
que fogem de barco
de medo
da guerra
e se perdem
por outros mares
menos gélidos
           talvez
mais revoltos

Deixam à beira da praia seus mortos
Deixam intactos os pequenos corpos

Nenhum peixe quis comer a criancinha.
A crueldade do mundo há de ter limites.








sexta-feira, 4 de setembro de 2015

RESENHA: O conto do covarde, de Vanessa Gebbie

Meu nome é Ianto Jenkins. Sou um covarde.

São palavras que já ecoaram antes por esta cidade. E hoje serão ditas novamente por Ianto Passchendaele Jenkins, agora miúdo e grisalho, de jaqueta cáqui e boné quase da mesma cor, o mendigo que dorme na varanda da Capela Ebenezer, num banco de pedra, com a mochila como travesseiro e um relógio sem ponteiros caído nas lajotas ao lado de suas botas.

As palavras serão ditas diante da Biblioteca Pública a um menino chamado Laddy Merridew. Serão entreouvidas pela estátua da cidade - um carvoeiro esculpido a parti de um único bloco de granito, com uma pilha de carvão em volta das botas. 

Há muitos anos atrás, assisti ao filme de John Ford, Como era verde o meu vale, de 1942 (ganhou o Oscar), sobre uma pequena comunidade mineira do interior do País de Gales; daquelas vilas que giravam em torno, exclusivamente, das minas de carvão. Huw Morgan, já com mais de cinquenta anos, se recorda (em flashbacks) de seus pais e seus irmãos, que trabalhavam, com o pai, na mina de carvão. Até que seu proprietário resolve diminuir os salários, é deflagrada uma greve, que acaba por dividir não apenas a família Morgan, mas toda a cidade. 

Lembrei-me imediatamente do filme, à medida em que avançava neste excelente romance de Vanessa Gebbie, recém-lançado, por aqui, pela Bertrand Brasil, na tradução de Sibele Menegazzi. Outra referência que vem à mente - apesar de eu não ter lido mais de um o dois contos - são os Contos de Canterbury, de Chaucer.

Há, sem dúvida, algo de Chaucer, principalmente pela opção da autora em trazer as histórias dos personagens da cidade pela voz do mendigo Ianto Passchendaele Jenkins como O conto do professor de marcenaria, o conto do afinador de piano, o conto do secretário.

Gebbie é renomada contista, além de tutora de escrita. Este que é o seu primeiro romance é também uma história sobre o contar histórias - afinal, Ianto é a memória desta vila, e ao contar as vidas de seus personagens para um menino esquisito como Laddy Merridew, que está morando com sua avó (os pais se separaram), o faz também para um número razoável de moradores, que já não se lembram dos fatos ocorridos à época do fatídico acidente na minas Gentil Clara. De acordo com a própria autora, a cidade fictícia é inspirada em Twynyrodyn.

Outro aspecto que chama a atenção é a estranheza dos nomes dos personagens: Thaddeus Icaro Evans, Jimmy "Meio" Harris, Simon "Tsc-Tsc" Bevan etc. Isso não foge à percepção de Laddy que, cada vez mais curioso, aproxima-se de Ianto, que não se nega a contar-lhe o que aconteceu com os personagens e seus pais e mães.  

A sobreposição de histórias, contadas por Ianto tem, na trama, a função de resgatar a memória de toda a comunidade, e o faz com doses bem temperadas de lamento, luto e humor. À medida em que as histórias avançam, surge a história do próprio contador (o conto do covarde) - e seu "papel" na tragédia da mina Gentil Clara. Ianto é um Homero, não um bardo cego, mas um mendigo desdentado, e acaba narrando o épico da comunidade carvoeira do sul de Gales.

O conto do covarde
Vanessa Gebbie
Tradução de Sibele Menegazzi
Editora Bertrand Brasil, 2014, 378p.





quarta-feira, 2 de setembro de 2015

MEDO







Quando pequena,
Temia a Cuca,
O Boi da Cara Preta,
E tinha medo dos monstros que habitavam o escuro.

Hoje vejo traficantes
Torturadores
Psicopatas
Pedófilos
Assassinos em série.

Que saudades do Bicho-papão!...