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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O burro e a vaca


Era uma manhã cheia de sol. Uma vaca pastava muito tranquila no prado. Embora ninguém a visse sorrir, estava feliz por saborear as tenras folhas do trevo e as flores e as vagens do tremoço. De repente, a serena manhã da vaca foi agitada por um coelho que passou junto dela, tão veloz como todos os coelhos que fogem aflitos dos cães dos caçadores, e lhe gritou:
Sai da frente, vaca!
A felicidade dela desapareceu nesse momento. Estava farta que lhe chamassem vaca. É certo que tinha algum peso a mais, mas estarem sempre a lembrar-lho... Até um insignificante coelho? Estava farta!
Nessa tarde já pouco comeu. Nos dias seguintes, só comia os talos mais rijos das ervas que lhe pareciam menos nutritivas. Para tentar emagrecer. Durante muitos dias passou fome, mas obrigou-se a comer só o que não a faria engordar.
Na verdade, passadas umas semanas, a vaquinha tão rechonchuda de antes não parecia uma vaca; mais parecia um esqueleto em pé, só pele e cornos.
Um dia passou por ali um burro que ficou muito admirado de ver uma vaca tão mirrada. Perguntou-lhe:
Estás doente, vaca?
A vaca começou a choramingar:
Estou tão infeliz por passar tanta fome e tu ainda me chamas vaca? Eu já não sou vaca; sou até muito elegante!
O que dizes tu? — admirou-se o burro. — Tu és uma vaca; sempre serás uma vaca, mesmo que não sejas gorda.
Então, não é a mesma coisa? — ripostou a vaca, muito convicta. — O ordinário de um coelho chamou-me vaca… Tu não achas que ele me chamou… gorda?
Claro que não! Ele chamou-te… o teu nome, o nome que os homens te deram — explicou o burro, instrutivo. — Comigo aconteceu uma história parecida: vivia muito infeliz, porque me chamavam burro, e julgava que me chamavam estúpido. Só mais tarde percebi que burro é o meu nome, o nome que os homens me deram. A partir daí, nunca mais me importei. Pois, se é o meu nome!
Ah, então é isso? Faz sentido! — convenceu-se a vaca. — Obrigada, burro! Explicaste-te muito bem. Acho que não és nada “burro”.
E tu não és nada “vaca”. Estás até muito magra e isso não é nada saudável. Vê se comes melhor, para voltares a ser uma vaca bonita.
Quando o burro se afastou, a vaca mastigava um grande ramo de trevos suculentos, mas ainda conseguiu fazer um “muuuu!” de agradecimento e despedida.

Joaquim Bispo

* * *

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


2 comentários:

Você sempre me surpreende. De repente, eis que surge esta fábula. Que metaforicamente me remeteu a muitas coisas. Umas engraçadas. Outras nem tanto. E a umas reflexões meio desorientadas. A gente é o que é ou a gente é o que nos definem os outros? A gente faz o que os outros nos levam a fazer, de uma forma ou de outra? Ou a gente precisa dos outros para enxergar a realidade? Tantas coisas... Gostei muito.

Tantas reflexões, Cinthia, sugerem que este pequeno conto pretensamente infantil transmite mais do que o autor pretendeu. Ainda bem. Abraço!

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