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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

em memória



Três metros e quarenta centímetros foi o que tu mediste. Palmo a palmo, que tu sabias que eram vinte centímetros certinhos, desde o início do pulso até ao finalzinho do teu dedo médio. Tinhas medido no Natal passado, num brincar com os teus sobrinhos.
Trezentos e quarenta centímetros sem luz e sem mais espaço transversal do que o ocupado pelo teu corpo e, ainda assim, tu arrastando-te. Lenta, esforçada, a tentar desenterrar-te, sair dali, perceber o que teria acontecido.
O sedoso do teu vestido deslizando-te o corpo ensopado.
Que tentasses sair daquele odor a humidade; que te livrasses da terra enlameada a empapar-te o cabelo e o ventre, e sob os pés onde as sandálias deixariam um sulco.
Tu deslizando, a cada vez, muito menos do que os vinte centímetros do teu palmo, e ao fundo nem foi luz que visses. Ao fundo, foi o teu braço dependurado sobre um ruido intenso de água em tumulto.
Água escarlate que àquela hora todo o mundo via e se espantava e lamentava, cada um no conforto da sua casa, sua rua, sua cidade, sua aldeia; ou a dançar num arraial semelhante àquele para onde te dirigias.
Água da cor da terra. Um castanho avermelhado tão da cor do sangue que doía ver assim esmagada a terra e a vida de tantos homens. O horror a entrar pelas casas de todos e lá, abandonado, o teu braço palpando um apoio, o teu braço dependurado de dentro da conduta que te abrigara, solta sabe-se lá de onde, num daqueles acasos perversos que se dão nos destinos das pessoas.
Água que tu nunca irias saber de onde e nem como.
Tu a tentar rolar-te sobre o ventre, rodar o teu corpo apenas coberto com o vestido branco estampado com ramos verdes; o vestido que tinhas escolhido para ires ao arraial. E tanto que tinhas querido que fosse bem escolhido. O vestido e o lenço que ataste sobre os caracóis, e a pulseira que entretanto perdeste – deixaste de lhe sentir o toque, ias ainda na estrada estreita que vinha lá da encosta, tu conduzindo em segunda que a descida era um nadinha íngreme. Era mesmo muito inclinado esse troço da estrada. E cruzou-se contigo um carro. Ia ao volante um homem jovem, reparaste. E foi logo de seguida. Tão de seguida que tudo se deu.
Tinha estado uma tarde límpida, e assim aquela chuva era coisa estranha.
E o carro rolando, primeiro em linha recta, e depois aos tombos, e tu jogada sobre o assento a segurar-te, a tentar manter-te fixa, a espantares-te daquela água toda até ser o embate.
Nunca irás saber como e nem de onde.
Tu a tentar sair do túnel ou o que é que te rodeia e comprime como se fosse tumba. Tu rastejando três metros e quarenta centímetros e a tua mão a tatear apenas espaço vazio.
Um dia sairei daqui, dizes-te assim, e não choras, que a ti ensinaram-te que os deuses são justos. Justos e misericordiosos.
Eles hão-de salvar-te.
Mantém vigília, não soçobres, aconselhas-te, que tu ainda agora não percebes se foi grande chuva, ou se foste tu que fizeste, como fazias tantas vezes, e passaste o paredão a encurtar caminho. Mas não. Hoje, tu tinhas ido pela estrada. Hoje, não foras pelo dique. Não, não tinhas caído lá de cima. Foi outro o modo de ter ficado assim tanta água. E a sorte de estares agora em terra firme, se bem que nem saibas onde e nem te possas sequer voltar sobre a barriga a tentar ver que final é esse que apenas o teu braço detecta.
E paras, não te mexes.

Se soubesses rezavas, mas tu desaprendeste. Ainda assim, tentas, nem que seja para te manteres desperta: deuses do firmamento acudi-me, suplicas, e o calor da lágrima que se solta, à revelia, aconchega o teu corpo, ali, naquele final dos trezentos e quarenta centimetros bem medidos.

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3 comentários:

Fátima, não sei se você escreveu esse conto pensando no rompimento da barragem no Brasil. Mas encaixou perfeitamente. Descreveu exatamente. Chorei muito com teu conto. Pensando nos nossos aqui. Essa tua linguagem é linda e suave,
mesmo na desgraça. E faz a gente pensar, sofrer, chorar, como eu disse. Amei. Amei mesmo. Quanta sensibilidade! Sufoquei com ela. Obrigada!

eu que te agradeço
beijo amigona

Foi arrepiante. Maravilha, Maria de Fátima. Parabéns! Mais uma emoção forte que sinto sobre esse crime trágico.

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