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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CHUVA ÁCIDA SOBRE TELHADO DE VIDRO




         Cansada de acordar todos os dias, ela faz-se de morta sobre a cama. As cortinas corta-luz protegem-na de tudo que viceja além da inútil janela do quarto. Lá fora, a chuva banha as calçadas tomadas por crianças nuas. O sol, mandrião, se esconde entre nuvens espessas enquanto bueiros entupidos transformam a alameda em um rio caudaloso. Vira-latas ilhados, barcos de papel, chinelos perdidos, varais nus.

         A ponta de seu pé escorre para fora das cobertas e ela recolhe os dedos com urgência. Dias assim são capazes de corroer o esmalte das unhas, e ela sabe que não retornará à manicure. Todas aquelas mulheres escravizadas pelo desespero de apresentar uma aparência impecável, de parecer mais jovem. E riem! Deus, de que tanto riem? Ela não. Ela não ri mais. Pinta as unhas com a mesma gravidade que guerreiras icamiabas coloriam seus corpos para o rito, para a luta.

         O telhado tremula e ela tenta prender a respiração até a chuva passar, mas tem pulmões fracos e logo desiste. Soca o travesseiro e afunda-se um pouco mais no colchão de molas. Os olhos fechados procuram o sono e tudo que encontram é a água que escorre ácida e ligeira sobre o telhado quebradiço. Percebe que naufragará de vez caso não resista bravamente à tormenta.

Com uma nesga de disposição para se mover, senta-se sobre a cama transformada em errante bote salva-vidas e toma três comprimidos. Anseia que um tímido raio de sol acenda dentro de seu peito escurecido, chama que há dias ela aguarda em vão. Queria ter ouvidos moucos, pois o riso sob as biqueiras agride sua necessidade de inexistir. Vermes subcutâneos abrem caminho por seus poros, mas ela não sente nada. E não sentir dói.

Pensa em rezar, mas sabe que Deus não está lá, nunca esteve. Talvez as ciências. Ai! As ciências e suas perguntas herméticas, de emaranhadas soluções! Quem sabe um poema, um filme, uma melodia. Cantarola Caetano enquanto tenta acender um cigarro entre dedos sísmicos. “Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias...” Gira o tambor do isqueiro três, quatro vezes, mas não há gás. Sem poder tragar do veneno que lhe abranda a estenose da alma, desaba.

O choro emerge de lugares que ela não conhece, transborda e arrasta violento o pouco que lhe resta de sanidade. Os soluços confundem-se aos trovões que atravessam o céu como o ressoar atmosférico de seus lamentos. Ela chove. Mas seu desaguar não fecunda nada, não traz alívio. É um transbordar estéril, de dores vazias, sem razão de ser, mas tão ou mais verdadeiras do que qualquer estraçalhar de ossos e lacerar de carne.

Sente que irá afogar-se em si mesma. Levanta rechaçada, cambaleia pelo quarto e depois se encolhe em um canto de parede. Não consegue respirar. Sufoca. Mas a morte não vem. As paredes se comprimem e o chão torna-se gasoso. A náusea, a angústia ao perder-se no mais remoto afastamento de todas as coisas. É um mundo em queda livre, sem apoio, sem amparo. Não há luz no final do túnel, na extrema profundeza do poço. A escuridão se adensa e ganha uma viscosidade que retarda a velocidade da queda. E ela tem pressa em espatifar-se, precisa que isso acabe.

Esgueira-se destroçada para debaixo da cama em busca do que lhe servia de refúgio em sua distante infância e encontra algo parecido com alívio. Está esgotada. Seu corpo adormece antes que ela perca a consciência. Não sabe se pelo desgaste físico da aventura ou pelos comprimidos que fazem efeito. Antes de desligar-se de si mesma, pensa que talvez amanhã consiga sair de seu quarto. Mas, hoje não. Não com essa chuva que ameaça tudo lá fora.


Emerson Braga

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3 comentários:

Hoje, sim. E telhados de vidro tendem a aguentar tudo, menos claridades; você, como sempre, joga a pedra. (gina girão)

Daqueles textos que lembram a dor da gente, dor doída e desesperançada. Maravilha, Emerson!

Caramba! Deu até pra sentir a depressão da mulher aqui em mim, de tão real e vivo que é o texto. Cara, você é foda! Vá escrever bonito assim lá na casa d... da Dona Paz! Rs! Pra você, há sempre aplausos meus.

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