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domingo, 25 de outubro de 2015

O segredo do retrato de Mário Soares



O visitante comum que percorra a galeria de retratos do Museu da Presidência encontra o que espera: um enfileiramento de grandes retratos de figuras sisudas, solenes, um pouco ameaçadoras até, dos presidentes da República Portuguesa, durante o século XX. Essa é a formulação a que o visitante está habituado e a que a magnitude do cargo parece exigir.
Então, surge-lhe o retrato de Mário Soares, que rompe com a lógica hierática dos retratos e choca violentamente com as representações anteriores. O retratado mostra os dentes, sorri, tem um ar bem disposto e descontraído, parece contar uma anedota, falar para o observador.
Muitos visitantes e alguns críticos têm reprovado esta formulação do retrato de alguém que foi Chefe de Estado e, embora reconhecendo a bonomia do retratado, prefeririam um retrato mais austero. No fundo, um Chefe de Estado é mais do que si próprio, é a figura da Nação, e, se um anónimo se pode fazer retratar em pose informal, uma figura que tenha exercido aquela alta responsabilidade deve, a bem da dignidade dos símbolos da pátria — como o hino e a bandeira —, apresentar maior compostura.
Embora contrafeito, o visitante comum desculpará a irreverência, que atribuirá a ideias modernistas do retratado. Sobressairá uma imagem de homem portador de uma mentalidade arejada.
Mário Soares é uma figura incontornável da política portuguesa. Representou um papel importante na organização de fações socialistas antes do 25 de Abril de 74 e foi determinante no rumo da política do país no pós-25 de Abril. Foi Primeiro-ministro e Presidente da República. É neste cargo que é retratado por Júlio Pomar, para ficar representado na galeria dos presidentes, tal como os anteriores. Tudo isto sabe, previamente, o visitante avisado. Mas também sabe que, ao longo da História, muitas obras de Arte, para além de leituras óbvias, podem manter incógnito, debaixo dos olhos do espectador, algum “segredo” que as revelasse e explicasse. De Júlio Pomar, em cujas obras já terá entrevisto mensagens escondidas, o visitante avisado só pode esperar desafios interpretativos. Por isso, aplica-se a analisar a obra que tem perante si.
A figura de Mário Soares é bem reconhecível no retrato, apesar de não estar representada de forma naturalista. O rosto está tratado com mais cuidado do que o resto do corpo. Reconhece-se o sorriso, a testa alta e desimpedida, a forma especial dos olhos, as bochechas. O rosto não é o de um retrato típico, mas não deixa de refletir a postura de bonomia de Mário Soares, que olha o interlocutor nos olhos, sem preconceitos. Apresenta a atitude de bom conversador, disponível para o gracejo e para se entusiasmar com o discurso do outro. O braço direito gesticula animadamente, como um orador inflamado. Mas sorri. Parece ocupar uma posição sobranceira ao interlocutor. Inclina-se para a frente, em atitude de aceitação e entendimento com o outro. Traz à memória a estátua do poeta Chiado, instalada no largo do mesmo nome. Só que, em vez de um banquinho, Soares está instalado numa cadeira muito especial. Relacionando a figura, a função e a forma da cadeira, reconhece-se-lhe o caráter marcadamente associado ao poder, devido às duas cabeças de leão que ostenta nos braços. São sinais não casuais.
Todos os poderosos gostam de se associar ao rei da selva. O poder usa o retrato como mais uma ferramenta de afirmação e legitimação. A envolvência do retratado afirma o seu poder, o que a expressão fisionómica nem sempre consegue.
O quadro vive, sobretudo, da mancha — no fundo, na roupa, até no rosto. A linha surge de maneira pontual para marcar alguns elementos mais caracterizantes — os olhos, a boca, a linha de delimitação das bochechas. Nos outros pontos onde é utilizada, serve mais de elemento para texturar áreas do que para desenhar fielmente. Até nas mãos a linha perde caráter definidor.
De que falará ele com tanto entusiasmo? É um político, um socialista. A mancha rosa que espalha com a mão direita não deixa dúvidas. Mas trata-se de uma mancha informe, um esboço, uma ideia. Fala dela sem fazer um desenho rigoroso. É uma ideia que não se sabe como pôr em prática, um sonho, uma utopia. Lido assim, o retrato fala.
E a mão esquerda, o que faz? Aponta rigidamente para si próprio. Contrasta fortemente com a direita, que é mais natural em alguém que fala para outrem. Esta mão esquerda está colocada numa posição estranha, inesperada. Conterá alguma pista para leituras alternativas?
Então, reparando com atenção, percebem-se dois ou três riscos curvos à frente da ponta do indicador da mão esquerda, recurso muito utilizado pela banda desenhada para sugerir movimento. O dedo abana lateralmente. Indica um “não”. O visitante avisado, em alerta, recupera instantaneamente uma frase marcante do PREC: “Olhe que não! Olhe que não!”
O olhar descobre agora que a cor da manga esquerda é diferente da do restante fato. A convicção instala-se: o aparente braço esquerdo de Soares, não é um braço dele, é de Álvaro Cunhal. O retrato, mais que marcar para a posteridade a fisionomia de Mário Soares, lida pelo artista, plasmou um momento marcante da história de Soares e do país, quando os dirigentes dos dois partidos mais poderosos se enfrentaram perante as câmaras da RTP em 7 de novembro de 1975 — faz agora 40 anos. Soares acusava Cunhal de pretender a instalação no país de um regime ditatorial comunista, ao que este respondeu daquela forma que entrou nos ditos populares e que Pomar — o maroto do Pomar! — fixou em pintura. O quadro fala.
Soares foi muito importante em vários aspetos da vida política do país, mas vencer o Partido Comunista em 75 foi a sua coroa de glória, pela qual foi glorificado interna e externamente. Não custa admitir que o próprio Soares goste de se reconhecer e ser imortalizado naquele episódio, se é que tomou conhecimento ou consciência dele no quadro. Como não? Pomar e Soares são amigos desde que, presos pela PIDE, foram companheiros de cela em Caxias, em 1947.
Pomar encostou Soares ao seu lado esquerdo, para que o seu braço esquerdo ficasse invisível. Em sua substituição colocou o antebraço esquerdo de Cunhal. Em termos de organização espacial está genialmente estruturado, e em termos ilusionísticos funciona.
O visitante avisado, satisfeito com um primeiro aparente êxito hermenêutico, sente-se tentado a enveredar por muitas outras especulações sobre a obra visitada. Soares é poder no momento da pintura e é poder no momento do episódio: dominava o governo e boa parte das forças armadas. O braço direito da cadeira parece cercá-lo. Ou defendê-lo. As cabeças de leão estão tratadas de forma bem diversa: a do braço direito é bastante naturalista, como o gosto naturalista da direita social; a do braço esquerdo, muito esquemática, faz lembrar o modernismo estético das correntes de esquerda. O rosto do leão da direita faz lembrar os rostos severos, bigodudos, dos militares da velha guarda, a que não falta um reflexo vítreo de monóculo; o da esquerda, as representações cubistas.
A escolha da cadeira com dois leões nos braços não foi inocente e o desigual tratamento de cada cabeça indica, seguramente, um enquadramento do retratado, talvez político, talvez social, talvez global. Mantém-se destacado da direita conservadora e da esquerda utópica. Talvez apenas possibilidades de que pode dispor, em que se pode apoiar, mas não usa. O seu não-alinhamento fica evidenciado. O visitante avisado trava agora a deriva especulativa ao reparar no vermelho inquestionável do braço direito da cadeira. Terá sido usada a referência topológica da Assembleia da República? Será uma referência internacional? Ou nem tudo tem de ter simbologias?
Parece ter havido a intenção de mostrar uma faceta de relação descontraída com o poder, até para contrastar com a pose hirta do seu antecessor e rival Ramalho Eanes. No entanto, parece poderem lá ser lidas fortes referências ao poder e às suas lutas políticas, especialmente o episódio televisivo de 7 de novembro de 1975. E o que é que o maroto do Pomar nos mostra ainda — aceites as leituras anteriores —, ao organizar os elementos formais daquela maneira? Que Soares, mesmo no auge da luta política, não argumenta para o seu adversário, não se vira para ele; exibe-se para a câmara de televisão, para os espectadores, para os eleitores. Acentua o seu lado solar, vaidoso, teatral. Neste sentido, o retrato de Soares, para além da representação fisionómica inconfundível e da fixação de um episódio político marcante, faz uma leitura psicológica do retratado. Maior completude não se pode esperar. Só lhe falta falar? Nem isso! Este retrato comunica muita coisa — praticamente, fala.

O visitante avisado acredita que esta obra apresenta sinais de estranheza, como outras tantas pistas a serem investigadas e talvez desvendadas, no entanto, toma consciência das limitações das interpretações, como áreas de leitura incerta, para cujo conhecimento talvez só valha uma atitude de escuta silenciosa da obra, que pode ou não deixar intuir ressonâncias, se não de verdade, pelo menos de verosimilhança. 

Joaquim Bispo

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Imagem:
Júlio Pomar, Presidente Mário Soares, 1992.
Óleo sobre tela, 174 x 140 cm.
Lisboa, Museu da Presidência da República.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

E eu gostei de saber. Não se escreve para agradar, mas fica-se satisfeito quando agrada.

Uma pequena maravilha para todos aqueles cuja actividade é a de trabalharem para o "boneco".
Parabéns.

Obrigado, Carlos Alberto! Muitas vezes só a opinião dos outros é que nos faz perceber o grau de qualidade do que escrevemos.

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