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terça-feira, 22 de setembro de 2015

O tempo de Ana

O tempo para – estaciona, congela, faz hora – para quem reconhece o próprio caos e assume que está ali na beirinha, colocando os dedões dos pés no precipício. Parece improvável, mas acontece de o tempo se apiedar dos desesperados extremos naqueles instantes de lucidez antes da queda e andar mais devagar, esperando uma mudança de rumo. É como se o tempo olhasse o sujeito nos olhos, colocasse as mãos firmes em seus ombros e sem dizer palavra o encorajasse a. Tem gente que se salva justamente aí.

Os dedões de fora e longe dos chãos a gente percebe logo, o difícil é identificar precipícios. É que despenhadeiro nem sempre é uma ponta de rocha alta com mar aberto lá embaixo. Os piores abismos são os metafóricos, os íntimos, os movediços, os invisíveis, os nossos. Não fosse o risco do cair, o mundo estaria assim de gente que saltou para morar com as flores que nascem, de qualquer cor, em areias profundas. Uma pena que o controle – não confundir com equilíbrio – seja ainda um valor tão caro e que em seu nome as sociedades sigam fixando máximas que engaiolam, que submetem, que fabricam desejos e instintos, reduzindo quereres ao pó que se varre para a pazinha de lixo e se despeja do lado de fora do portão.

A Ana, por exemplo, está há meses parada diante da janela aberta sem tomar qualquer atitude. Tão criativa, a Ana. É uma pena que fique assim, tão desolada. Anoitece e amanhece e ela permanece estática diante da moldura da rua, sem decidir para onde vai. Está presa em um conflito fundamental. Há milhares de outros que a paralisariam, sem dúvida, mas não antes deste, que parece ser a pedra que ampara a evolução humana. Ela respira com ritmo, concentrada no ar que entra e que sai pelo nariz, porque é um alento em situações de desamparo como essa ater-se a algo que se saiba fazer bem, enquanto pensa um pouco e morre um tanto de incompreensão. Não entende a regra fundante, simplesmente. E por não entendê-la, não consegue cumpri-la sem dolorir. E dolorindo, não tem forças para invenções.

Tocou a ela, e a todas as Anas do planeta, a tarefa da continuidade sem jamais perguntarem-lhe se tinha essa vontade, essa intenção, esse plano. É vocação, por natureza, explicavam. É completude, plenitude e outros udes, sem os quais não é possível pertencer ao que somos. Não insistir no padrão é legar nada ao futuro e existir quase que indignamente, ameaçavam nas entrelinhas. Ana estava convencida de ter um poder maior: era capaz de gerar qualquer vida, qualquer coisa. Então, por que condicionar-se a parir pessoas, pelo menos uma outra pessoa, se podia dar-se à luz vezes sem fim, e daí fazer viver incontáveis criaturas para habitarem os mundos que bem preferissem? Vagão de trem descarrilhado, oficina inoperante, corpo sem serventia, uma mulher menor. Queriam que Ana pegasse para si essa verdade de uma direção só. Graças ao tempo, Ana descobriu acessos alternativos para mover-se e já dava novos sinais de maternidade. Podia recuar e pousar os dedões dos pés na grama.

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