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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O CURTUME



Foi Nonatinho quem me trouxe o recado.

O dia estava muito quente e uma multidão de moscas atrapalhava-me enquanto eu debulhava o ralo feijão do almoço. Pela porta entreaberta que dava para o terreiro, sufocantes lufadas de vento esfolavam meu rosto, fazendo-me transpirar uma chuva de suor sobre a bacia em que eu cuidadosamente depositava os magros e pobres grãos. Aquelas eram nossas últimas vagens. As plantações haviam secado e rebanhos inteiros morrido. Feito um animal carniceiro, a morte nos rondava. Minha mãe havia sido levada pela tosse comprida e meu irmão pequeno sofria de uma moléstia que as rezadeiras não conseguiam sarar com suas miraculosas benzeduras. Passei a ignorá-lo ― meu irmão pequeno ― não por temer contrair sua terrível doença, mas porque ele trazia agouros para dentro de nossa casa. Seus gemidos, o ranger dos dentes, o revirar dos olhos, tudo servia de convite para que a morte adentrasse nosso casebre, devorasse nossa carne e nos roesse os ossos. Meu irmão pequeno não merecia aquilo. Acho que quase ninguém merece.

Meu pai havia partido para Morada Nova a fim de vender algumas peças de couro que ele mesmo confeccionara. Jurou antes de seguir viagem que me traria algum mimo de presente, caso houvesse fartura de ganho em suas vendas. Em casa restaram apenas meu irmão pequeno, meu outro irmão, um primo que fora criado conosco e eu. Estes dois já eram taludos e passavam a manhã inteira roçando o chão do qual nada brotava. Nenhum de nós trazia no rosto juventude e muito menos frescas esperanças que nos atinassem dias melhores. Estávamos tão secos quanto a terra e silenciosos como o enterro da última das carpideiras.

Receber o recado de que Liduíno me esperava no curtume fez com que eu largasse meus afazeres e vestisse uma roupinha mais faceira. Calcei minhas sandálias de ir à missa, pus uma fita dourada em meus cabelos e mirei-me no espelho. Papai me mata se souber que já beijei na boca, pensei, satisfeita de minha ousadia.

Atravessei a cerca dos fundos de nossa casa e me dirigi às pressas ao curtume de meu pai. Meu coração parecia prender uma graúna afoita por bater asas sobre a caatinga e o calor do dia intensificava ainda mais o desejo de encontrar meu namorado secreto. Dentre meus peitos tão moços, escorria o mesmo suor que umedecia minhas coxas e me fazia pensar em coisas proibidas, mas que não passavam de doidices de minha cabeça. Afinal, a instrução era clara: Eu deveria casar pura e jamais me dar ao desfrute, mesmo se tivesse plena certeza das boas intenções do rapaz.

Antes de adentrar o curtume, pensei em meu irmão pequeno e empaquei diante da soleira. Não era direito deixá-lo sozinho em casa, talvez ele sentisse uma coisa ruim e morresse sem nenhum vivente a seu lado. Mas saber que o bem-bom me esperava do outro lado da porta fez com que eu desistisse de retornar a casa. Sem remorso, entrei no curtume e chamei por Liduíno. Não houve resposta. Andei pelo meio das peças inacabadas, dependuradas como roupa em varal, e imaginei que meu namorado brincava comigo. A ansiedade me causou risos e um frio na espinha, era uma sensação gostosa aquela.

Tomei um susto terrível quando fui agarrada com bruteza pelas costas. Logo reconheci a voz de meu primo quando me disse: Calada, Rosa. Do meio dos couros, com os olhos de um cachorro adoecido pelo mal da raiva, surgiu meu outro irmão. Sua mão grosseira segurou com força meu pescoço enquanto ele me aplicava o incestuoso beijo. Ainda pude sentir o bafo de cachaça antes de ser jogada ao chão. Resolvi não gritar, fiquei quieta e fechei meus olhos, enquanto meu primo e meu outro irmão me faziam mal.

Durante meu pecaminoso desfloramento, escutei um barulhinho gostoso batendo nas telhas do curtume e senti uma leve umidade atravessando o telhado banguela. Chovia. De dentro do curtume, pude escutar o som das tinas e dos potes enchendo d’água sob as biqueiras. Ouvi o cacarejar de galinhas gordas e alegres em meu quintal, cabras formosas berravam felizes enquanto pastavam o capim farto e verde do chão fertilizado pelo milagre da chuva. Meu pai havia chegado de viagem com muita farinha, sacas de fubá, carne do sol e a blandície que me prometera. Mamãe estava linda vestida de azul e branco, preparando o fogo com zelo, irritada com o gotejamento que não deixava a madeira do fogão a lenha embrasar. Os açudes transbordavam e crianças nuas brincavam nas poças de lama, meu irmão pequeno estava com elas, tão gordinho. Havia acontecido algo santo, Deus finalmente enviara a bênção que o padre nos prometera. Estávamos salvos.

Permaneci durante horas deitada no chão quente do curtume. Lamentei a mancha encarnada em meu melhor vestido e lembrei-me de meu irmão pequeno. A culpa foi do sol, pensei, este calor amaluquece as pessoas. Levantei-me com cuidado ― o que não me protegeu da forte pontada que senti no pé da barriga ― suspirei sem forças e procurei esquecer Liduíno. Homem direito não se casa com mulher estragada.

Odeio Nonatinho. Não era meu irmão pequeno quem merecia morrer.



Emerson Braga

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7 comentários:

Putz, Emerson, que história triste! Triste como a tristeza da secura nordestina, da pobreza, da miséria. E pensar que tudo isso existe... Funcionou pra mim como um tapa na cara. Problemas eu? Ora, ora... Parabéns pelo enredo bem construído e pela beleza da narrativa.

A tragédia da miséria se perpetua na impotência. Realidade cruel essa. Belo e intenso.

A tragédia da miséria se perpetua na impotência. Realidade cruel essa. Belo e intenso.

Meus colibris, obrigado pela leitura!

A primeira frase está ali, sonsa, parecendo inócua, mas só se entende o seu alcance cruel no fim. O resto, muito bem arquitetado e contado: a ambientação (e a denúncia) de uma certa realidade. Conciso e certeiro. Muito bom.

Obrigado pela leitura, Joaquim!

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