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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Belezura

O Coronel Aguilar Morato esporou o alazão Tinhoso, porque tinha pressa.
Atrás dele, Zé Fumaça montando a égua Esquiva e Gumercindo sobre o tordilho
Luar comboiavam o patrão. O último da fila puxava um burro carregado de apetrechos
nas laterais e um homem desfalecido no lombo. Trotavam em direção à aurora,
onde nuvens raras e retas se vestiam de alaranjado. O destino era lá longe.
Talvez chegassem com sol a pino, para voltarem ao curral da fazenda antes
do sol se por.
No cerrado monótono e silencioso, alguns arbustos ensaiavam sombra, mas a
tropa seguiu mais um tanto até um ipê de meia copa, sobre a qual o sol não
se metia a escaldar o chão rachado.
Pararam, apearam, urinaram.  Dividiram os cantis entre suas bocas e as bocas
espumantes dos animais. Não se reservou uma gota ao pobre coitado que gemia
amarrado sobre o burro.
O Coronel aproveitou para afiar o seu chicote nas costas nuas do que mais
parecia uma posta de sangue e carne viva, naquilo que um dia fora um caboclo
bonito, brejeiro, sorridente e musculoso de nome Narciso, ajudante da sede da fazenda
para o que desse e viesse, desde limpar a prataria do casarão, abanar lenha no fogão,
descascar cebola e até divertir as mucamas, a sinhá, a sinhazinha, o menino e
o próprio coronel, com seu jeito engraçado e pitoresco de levar a vida.
Era um sedutor. Aliás, um ex-sedutor, já que de cima daquele burro dificilmente
sairia o caboclo que um dia fora.
E a tropa composta de três homens, quatro equinos e um semimorto seguiu em silêncio
o caminho para lá de duas horas, até encontrar um bosque solitário no cerrado,
onde algumas árvores se davam as mãos em ciranda, protegendo uma espécie de
clareira no centro.
Haviam chegado ao destino. Amarraram os animais num dos troncos e Zé Fumaça e
Gumercindo apearam do burro a posta de sangue e carne viva. O coitado pendia
a cabeça, igualmente ensanguentada, para um lado e na impossibilidade de ficar em pé,
foram jogados seus dois braços nos ombros dos empregados, que o arrastaram quase de
joelhos à clareira onde o coronel o esperava de chicote na mão.

- Joguem essa bosta vermelha aqui no chão. Zé Fumaça, vai no burro e pega o alicate.

Dizem que a audição é o último dos sentidos que um moribundo perde. Verdade.
Narciso grunhiu, e tentou se levantar ao ouvir a palavra “alicate”. Sem sucesso.
Levou um chambão da bota do Coronel, rodopiou e caiu de costas no chão.
Aguilar Morato fez questão de ele mesmo operar o serviço do começo ao fim.
Primeiro, tirou-lhe as calças. Viu-se um pinto mole – porém avantajado -
refastelado sobre dois bagos, mas o pior estava por vir. De alicate na mão, o Coronel
fez o que se fazia com touros indóceis. E num só aperto, o sangue espirrou e a maçaroca
que um dia fora uma indócil genitália jazia nas mãos orgulhosas do patrão.
Narciso soltou um grito de revoar os anuns, caga sebos e chopins,
que assistiam ao espetáculo pousados nos galhos.

- Isso, filho do diabo com a rameira, continua gritando de boca aberta.

E enfiou-lhe garganta adentro pinto, bagos e sangue macerados, empurrando com força e
jeito de quem sabe fazer linguiça, enchendo as tripas do porco com sua própria carne.

- Traz o funil e o galão, Gumercindo. Zé Fumaça, amarra o infeliz de cabeça para 
baixo no tronco. E de perna aberta.

O Coronel examinou o funil e fez sim com a cabeça quando mediu a parte mais fina.
Também era avantajada.

- Tem graxa?
- Vou ver no burro, Coronel.

Gumercindo trouxe um pote com uma pasta viscosa, própria para brilhar bota.
O Coronel tirou um pano encardido do bolso, lambuzou a ponta do funil e sorriu
pelos olhos endiabrados.

- É para não magoar muito o coitadinho.

E empalou Narciso até o funil parecer um cone no cu do caboclo.
Dessa vez o grito saiu abafado. Um dos bagos foi cuspido inteirinho no chão.

O Coronel não era um homem das Letras. Os únicos livros pelos quais passou os olhos
foram a Bíblia e o Manual do Tiro de Guerra, quando foi um bravo e promissor fuzileiro
de campanha. Jamais imaginaria – ou saberia - que a técnica do funil teria saído da pena
de Érico Veríssimo, quando relatava em seus romances os requintes de tortura na rixa
entre maragatos e colorados nas lonjuras gaúchas. A diferença é que, na literatura,
no funil era despejado azeite fervendo.
O Coronel tinha seu estilo próprio de finalizar morte horrível.

- A gasolina, Zé Fumaça. Deixa que eu despejo.

O outro bago foi cuspido, dessa vez na bota do Coronel. Tinha cheiro forte de gasolina.

- Que nojo! Gumercindo, limpa aqui. Cabra mais porco: vomitou gasolina na minha bota. 
Zé Fumaça, me dá seu fósforo.

Zé Fumaça hesitou, apavorado. Gumercindo tremia. Ninguém sabia que diabos estava fazendo ali.
O coronel mantinha seu segredo trancado a sete chaves. Não era conveniente que alguém,
além de Narciso, tomasse conhecimento dos porquês do acontecido.

- Anda, homem. Tu não vive pitando essa palha de merda, que faz mal à saúde?

O que sobrou do galão foi encharcado pelo resto do caboclo. Não houve momento de
sadismo vagaroso ou discurso fúnebre ou gáudio de realização de vingança jurada.
O fósforo, logo que riscado, fez do funil uma tocha, que se entranhou e espalhou
pelo caboclo que se contorcia em silêncio. Errou a mão o Coronel. A gasolina respingou
no chão e pelo tronco, causando um fogaréu de proporções imprevisíveis.
Os cavalos se assustaram, o burro berrou. Em menos de cinco minutos,
o que tinha que queimar, queimou. E o que não tinha que queimar, também queimou.
Casacos de couro abafaram as labaredas iniciantes que subiam pela árvore,
mas o chão foi deixado arder até virar um monte de cinzas e emanar um cheiro
de churrasco mal feito. A mando do Coronel, os três sapatearam suas botas sobre
o resto de brasa e carne queimada, misturando tudo que restou de Narciso
na poeira do cerrado.

- Agora podemos ir. Ainda temos uma boiada a tocar e contar.

O trio mais o burro seguiam a galopes. Pobre do burro que não nasceu cavalo garboso,
mas galopou do seu jeito atrapalhado, de língua de fora, a chacoalhar os apetrechos.
Menos mal. Seu dorso estava mais leve.
O sol já havia cumprido mais de metade do seu arco, quando os três se dividiram.
As primeiras rezes foram avistadas e os berrantes entraram na orquestra de
ôs, ôs, ôs e êias, êias, êias. Antes de três quartos de hora, a boiada seguia em
ritmo disciplinado em direção ao curral. O Coronel galopou até o primeiro boi,
quando se postou ao lado da porteira. Começou a contagem. E acabou rápido.
Boi é bicho obediente.

- 267, Gumercindo?
- Carecia de ser 268, Coronel.

Zé Fumaça fez que sabia a diferença.

- Minha patroa quando foi bater roupa ontem no alagado viu uma sucuriju se 
aproximando da novilha. Ela tentou enxotar, mas não deu tempo.
- A novilha, Zé?

Zé Fumaça tirou o chapéu. Gumercindo e o Coronel repetiram o gesto.

- A patroa jurou certeza.
- A novilha Belezura, Zé, a minha Belezura?
- Ela mesmo, coronel. Diz que a cara dela ficou de fora da cobra.
- Para, para de falar, Zé Fumaça! Não me maltrata mais!

Gumercindo cofiou a barba malfeita, olhou o sol se escondendo no cerrado.
Zé Fumaça franziu os lábios. Tinhoso, Esquiva, Luar e o burro baixaram a cabeça.
Até as rezes pararam de mugir no curral. E o coronel chorou de soluçar.

Houve uma quase eternidade de silêncio respeitoso.

- Gumercindo!
- Sim sinhô, Coronel.
- Pega facão de mato, machado e serrote no bornal do burro. 
E vai até o alagado. Pica em rodelas a filha da puta dessa cobra.


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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


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