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segunda-feira, 6 de julho de 2015

RATOS NO ESCURO

        

        Estava muito escuro quando tudo aconteceu. As trevas não são simplesmente a ausência da luz. As trevas são uma impossibilidade, sobretudo de entender. Se você olhar bem vai perceber que vivemos nelas o tempo todo e toda essa gama de conhecimento que dizemos que temos e que buscamos, e que idolatramos, e que queremos nada mais são que placebos. Placebos pra não percebermos que estamos na bosta. Na bosta das trevas o tempo todo.

      Como disse, estava tudo muito escuro e nas trevas da BR não podíamos entrever nada, a não ser algumas faixas de sinalização horizontal que apareciam de milhas em milhas para depois desaparecerem de novo. O último carro que vimos no sentido contrário havia cruzado com o nosso há centenas de quilômetros atrás, e quando o fez, passou com os faróis tão altos que quase nos causou um acidente – é que tive de fechar os olhos muito rápido, tão rápido que não percebi que estava lançando o carro contra a amurada que separava a estrada de rolagem do abismo lá embaixo, mas me despertei muito rapidamente e pus o carro de volta nos eixos, eu deveria ganhar um prêmio por isso? Senti-me tão contente, depois do susto, era como quando eu era criança e...

         A essa altura já estávamos muito tranquilos pelo fato de não vermos mais nenhum imbecil cruzando a estrada inversa com os faróis altos, mas ao mesmo tempo a sensação da estrada vazia e da escuridão vasta lá fora, nos fazia suar. Éramos, enquanto seres humanos, tão inconstantes, que nem sabíamos o que sentir direito naquele momento. Foi aí que Molly resolveu que mataríamos o tempo jogando advinhas. Molly é o nome da minha filha, não me pergunte o que significa (a simbologista é minha mulher). E ficamos muito tempo jogando advinhas e esperando que a estrada por fim terminasse. Matheus estava cansado dos jogos que jogávamos e tirou os fones de ouvidos, fazendo-nos ouvir Herbie Hancock que saía aos saltos de seu iPod Touch. Aquilo era ótimo. E eu já estava muito a vontade quando tudo se deu.

         É que a estrada a essa altura já era uma mera repetição. Você já tentou capturar um instante? Quando você tenta, ele se vai. Daí você tenta de novo e se você consegue, não é aquele instante que quis, mas o instante subsequente ao instante subsequente àquele que você quis. É frustrante e ao mesmo tempo demonstrador de nossa incapacidade ante a qualquer coisa que ultrapasse esse sentido que damos a tudo na vida. Mas o fato é que a essa altura a estrada era apenas um instante de concreto que se ia, e vinha, e se ia, enquanto eu trocava as marchas do carro, que infelizmente não era automático.

         E foi assim: Molly perguntava o nome de uma atriz da televisão, Matheus cantarolava os contratempos de Herbie Hancock, Melissa tentava adivinhar ao passo que tamborilava os dedos no colo seguindo o jazz de detrás, e eu piscava. No exato momento em que pisquei atropelamos alguma coisa.

         Houve um silêncio sepulcral no carro.

         – Atropelamos alguma coisa... Pai? Ai, meu Deus, pai!

         Herbie Hancock era uma pausa de semínima.

         Olhei para trás e de novo. Havíamos atropelado outra coisa e aquilo havia custado para deixar as rodas do carro rodarem, como se estivesse agarrado, como a invenção de Frankenstein amando e odiando o seu criador.

         – Querido, atropelamos alguma coisa?

         Silêncio.

         Molly ameaçou chorar. Mandei que ficasse quieta. Eu estava pensando, ou ao menos tentando.

         ­­– Jesus Cristo! Que porra foi aquilo?

         O que havíamos atropelado? Veja, não dá para saber. Estava escuro, estava tudo muito escuro e eu não havia captado o segundo exato em que aquele corpo, do que quer que seja, cruzou a nossa trajetória veloz. O instante exato foi um ponto cego, foi um momento de cegueira. Apenas me recordo do sono que me dava a mistura de Hancock com o jogo de advinha da Molly e os dedos de minha mulher que tamborilavam no colo dela. E paf! Estava feito. Mas veja, o que podia ser aquilo? Estávamos na autoestrada, uma estrada federal cujo trecho era repleto de buracos que serviam como sonorizadores. Havia apenas mato ao redor. Muito mato. Mato e uns morros altíssimos cobertos de matos. Nós não conseguíamos ver aquilo direito, apenas víamos o escuro, o escuro eterno e absoluto que nos fazia lembrar do escuro das árvores à noite e inferir que aquilo era mato.

         Mas o que havia sido aquilo?

        Eu não sei. Não tenho a mínima ideia. Podiam ser simplesmente ratos. Podiam ser apenas ratos enormes atravessando a BR indo de encontro ao nosso carro em fuga. Mas, ao mesmo tempo não sei se posso acreditar nessa justificativa assim, tão facilmente, que fossem ratos, sabe? Afinal, ratos são tão rápidos, tão competentes em sua autopreservação..., nunca vi uma pessoa ser tão capaz nisso quanto um rato. Como poderiam se fazer morrer assim, assim do nada? Ratos não se jogam na frente de carros e não o fazem a menos que saibam que vão se safar. Eles calculam muito bem antes de sair de seus buracos no esgoto. Eles calculam muito bem e não precisam de Pitágoras ou Bháskara para isso. Apenas calculam e vão. Assumir que foram ratos que morreram debaixo de nosso carro seria por em xeque a capacidade dos ratos para o cálculo. E isso seria sacrilégio. Mas se não foram ratos, ratos no meio da noite, ratos no escuro, o que poderiam ser?

         – O senhor se recorda bem de que foram duas vezes? Isto é, duas vezes em instantes diferentes...

         – Claro, claro...

         – Não poderiam ser exatamente ratos... Isto é, digamos que o senhor tenha atropelado uma ratazana enorme, daí, do nada, outra vai ao encontro do seu carro e se suicida? Isso...        

         – Isso me pareceria uma estória carrolliana... Eu sei, eu sei... Mas veja, o que quero dizer é... Como não podiam ser ratos?

         – Talvez o senhor tenha gerado essa imagem. Essa imagem, sabe? A imagem dos ratos... De que talvez tenham sido os ratos que... Mas isso não quer dizer necessariamente que o senhor esteja certo e... 

         – Isso também não quer dizer que o senhor esteja.

         – Mas o meu papel aqui é apenas lhe ajudar a entender a situação na qual o senhor está e...

         – Veja, se o senhor for franco consigo mesmo, verá que nada mais poderiam ser do que ratos. Eles estão mortos nas estradas aos montes, junto com raposas e veados. A gente passa nas estradas desertas e sente que amassamos mais uma vez uma carne já amassada. Uma hora eles estão vivendo, sãos e salvos, aproveitando o devir da natureza, outra hora eles estão mortos e fedorentos e seus corpos servem apenas como tapete para os carros na estrada de rolagem...

         – O senhor deve convir que há um processo em trâmite por negativa de socorro, porque vocês teriam se evadido e...

         Silêncio.

         – Conte-me de novo a história, por favor.

         Bem, é difícil dizer exatamente como tudo começou, ainda mais quando se tem que repetir tudo direitinho assim... Mas... Eu me lembro... Estava muito escuro quando tudo aconteceu. As trevas não são simplesmente a ausência da luz, sabe? As trevas são uma impossibilidade, sobretudo de entender. Se você olhar bem vai perceber que vivemos nelas sempre e toda essa gama de conhecimento que dizemos que temos e que buscamos, e que idolatramos, e que desejamos, nada mais são do que placebos. Placebos pra não percebermos que estamos na bosta. Na porra da bosta das trevas o tempo todo. O senhor está em busca de um placebo? Não me leve a mal, mas como responsabilizar-nos?

         – O senhor há de convir que houve dano e o dano foi a morte e isso pede uma punição.

         – Entendo o seu silogismo, mas isso não parece ser demasiado? E isso não traz a quem ficou a vida de quem foi. E afinal de contas, não merecem respeito os pobres ratos da estrada?

         – O senhor está desconversando...

         – De modo nenhum, apenas quero lhe dizer, antes mesmo que você emita o seu laudo sobre minha suposta culpabilidade, que todos, absolutamente todos, todos nós somos absolutamente nada. Em que pese o seu laudo ridículo, a caneta do juiz que se coça como se fosse um cu ou qualquer outra coisa, somos apenas como aqueles ratos no meio da noite, os ratos da estrada. Devem ser levadas a sério as Sentenças dadas por ratos no escuro?



(19/06/2015)

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