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domingo, 10 de maio de 2015

Carta a um Jovem Filósofo


Henry Alfred Bugalho

Ontem li algumas cartas de cientistas escritas para elas mesmas quando mais jovens, em algum momento crítico ou desafiador de suas vidas.
Passei então a noite a divagar o que eu escreveria para mim mesmo e para qual período.
Sempre tive muitas dúvidas. Sempre me senti diferente. Sempre esforcei-me para ser diferente.
Entretanto, talvez o momento divisor para mim tenha sido aos dezesseis ou dezessete anos, quando o futuro era uma imensa incógnita e qualquer decisão errada poderia afetar-me pelo resto dos meus dias.
Então, esta é a carta que, se possível, a pessoa que hoje sou escrevia para a pessoa que um dia fui.

Caro Henry,

Deus não existe, ou, se existe, ele não se importa conosco. Sei que você está, neste exato momento, indagando-se exaustivamente: existe algum propósito para estarmos aqui? Qual é o sentido disto tudo? Há destino ou tudo é por acaso?
Não se preocupe, pois um dia você compreenderá que não há respostas absolutas nem eternas. Tudo muda. Tudo se transforma. Tudo morre, e renasce, e morre novamente. Sei que esta constatação pode ser asfixiante e insatisfatória. Você anseia por uma solução, mas não há nenhuma.
Você se conformará com isto. É o que lhe resta.

A sua decisão de cursar Filosofia é a melhor que poderia ter tomado. Você não trabalhará um dia sequer nesta sua área, mas você já devia saber disto.
O mundo não precisa de filósofos; precisa de jogadores de futebol, modelos e atores e apresentadores de TV. As pessoas querem e gostam da ilusão, da falsa sensação de conforto, do riso descompromissado e do vazio. Viver é deixar-se levar, mas esta é uma lição que você nunca aprenderá.
Você descobrirá que tudo precisa ser destruído para ser reconstruído.

Você será feliz. Feliz e livre. Justamente você que nunca imaginou que estas duas coisas existissem, muito menos que pudessem conviver. A sua liberdade é, essencialmente, uma negação. Na privação dos luxos que você nunca ansiou é que residem as asas que o permitirão voar.

Você amará e será amado. Sim, há alguém que o entende e que compartilhará dos seus mais loucos devaneios. Vocês serão bastante diferentes um do outro, mas, mesmo assim, estarão sempre juntos. Se existe alma gêmea (outra de suas grandes indagações), saiba que você terá encontrado. E isto será incrível!

Você aprenderá com os livros e com a vida. E viverá muitas vidas diferentes que valerão por muitas existências. Terá tantas histórias para contar que nem a sua imaginação seria capaz de concebê-las. Verá o mundo e o mundo o verá. Constatará que a fama é uma tolice efêmera, mas se alegrará quando ver o seu rosto na TV ou nas páginas dos jornais.

Sinto lhe dizer que você nunca se tornará um pianista. Você não é bom o suficiente. Não importa quantas horas estude, quanto tempo dedique, quanto se esforce. A música será um prazer para os ouvidos ou um mero passatempo.
Não fique triste.
O seu futuro é a palavra. A escrita. Os livros e literatura.
Você escreverá livros e mais livros. Venderá muitos milhares deles. Um dia, escreverá livros tão bons quanto os que admira. E isto lhe dará uma satisfação muito maior do que tocar a Patética ou a Appassionata.

Pode parecer inacreditável, mas você terá um filho e um cachorro. Aprenderá a dirigir e cruzará a Europa sem rumo com todos dentro de um carro. Como um nômade moderno, você se perderá numa busca incansável por um destino impossível.
Encontrará um descanso um dia?
Ainda não sei responder.

O futuro é assustador. Eu sei. Nunca deixará de ser.
Mas não se preocupe. Tudo dará certo. E se der errado será apenas mais uma lição para colecionar.
Confie em si mesmo.

Bona fortuna, meu amigo, e saiba que o tempo passa muito depressa.

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2 comentários:

Bonito texto, Henry. E seu rosto de pianista jovem está ótimo! rs... Tirando a barba, você não mudou nada. Abraço!

Obrigado pela leitura, Carlos. Na verdade, na foto devo ser um pouco mais velho, talvez com uns 20 anos. Não tenho nenhuma comigo da minha adolescência, estão todas na casa da minha mãe.

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