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domingo, 22 de março de 2015

No pasto

Ergo os olhos e vejo à frente o verde tapete estendido até bem longe, lá onde sua linha borda encosta no azul painel que ora se estampa em algodão branco e sol, ora é cinza úmido, pesado e prestes a cair sobre meu lombo. Respiro e sei que o ar que entra é meu por direito e que quando sai se renova para voltar em outro momento para dentro de mim, novo, limpo. Mastigo, no meu tempo, o suficiente para que o alimento vire uma papa encharcada de saliva e então sei que devo cuspir, olhar, recolher com a boca todo o expelido, tornar a mastigar e depois engolir.

A maior parte dos dias passo andando ao redor, observando o movimento dos homens e das coisas, esperando, ruminando futuros debaixo de sombras de figueiras antigas. Tem ocasiões em que fico apartada das demais, então me tocam por baixo e me espremem até que eu jorre branco. Há dias, no entanto, que me deixam mais eufórica, não sei se é o calor, se são as presenças, os cheiros, eles. Sempre tem um ele para muitas de nós e quando este cansa colocam outro no lugar. Em conjunto temos nossos ciclos, mas sinto que tenho ciclos que são unicamente meus, embora ninguém repare. 

De repente, pode ser manhã tarde ou noite – não depende de mim, ele está dentro. E fica dentro e fora dentro e fora dentro e fora e fim. Após certo tempo, algo em mim – talvez tenha sido esquecido por ele em meu interior – parece inchar minha barriga e me fazer pesar até que um dia finalmente me abandona e sai, na grama, gosmento e quente. Já aprendi que cada porção dessas que expulso me repete em parte. Esperam que eu a cuide e me reconheça nela, mas não sei fazer. Consigo limpar a superfície da pele de minha fração com a língua, e isso é só. É tudo o que tenho condições de ser. Em seguida levanto e saio sem olhar para trás, a me buscar outra vez, antes que o ciclo recomece.

Ontem veio um homem com algo dourado e comprido nas mãos. Aquilo tinha buracos nas pontas, um largo e outro estreito, ligados por um corpo brilhante e retorcido ao modo de serpente, da onde saíam três tetas de bicos brancos, em que cabiam as pontas dos dedos do homem. Ele, o homem, parou diante de mim: levou o buraco menor à boca, inflou suas bochechas e soprou. Eu vi sair do buraco maior um barulho parecido com o que faço se quero chamar as outras, ou reclamar, ou apenas falar com o vazio e ouvir a minha voz retumbante. Era um som. O mais bonito.

Não demorou, as outras se aproximaram. Enfileiradas, todas colaram seus olhos no som que o homem fazia. Ele deu três passos para trás enquanto o som se espalhava. Andamos na direção dele. O homem fazia o barulho quando deu mais passos, desta vez à direita: fomos com ele. À esquerda, fomos ainda. Eu, meio que hipnotizada, só queria esticar o ruído, tê-lo comigo mais e mais, iria com ele para cima para baixo para o Uruguai, se fosse o caso. Então o homem retirou a boca do buraco menor e rompeu o som. Os olhos dele eram nos meus. Mas ele virou de costas e correu para casa. Elas fugiram para longe. Menos eu, que sigo aqui querendo saber para que sirvo.


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