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sábado, 28 de fevereiro de 2015

EPITÁFIO




         Puxado por um carro de boi, abria caminho diante do cortejo o ataúde de seu Tomás Fuleiro. O vento quente e poeirento das tardes de agosto levantava as saias das carpideiras e arrancava os chapéus dos homens que seguiam ao lado da pobre carroça. Cantigas lamuriosas, intercaladas por orações cristãs, enfezavam ainda mais as crianças que iam sem vontade ao lado de suas mães sonolentas e ocupadas na enfadonha tarefa de espantar moscas. Dois urubus e uma matilha de cães vadios escoltavam a multidão como se buscassem entender o propósito daquele passeio de sonâmbulos, sob o molestador sol das onze horas de um domingo sem riso.

         Guardado por um esquife de madeira bruta, que sequer fora lixado ou vira mão de verniz, descansava o corpo do velho que só vivera para fazer troça de qualquer circunstância ou cidadão. Pouco importava ao caçoísta se perderia amizades ou arranjaria declarados inimigos. Vivia somente para contar piadas e atribuir alcunhas, mesmo diante da pior das secas ou da mais dolorosa desgraça.

Por tratar-se de figura quase folclórica na região, a notícia da morte de Tomás Fuleiro confundiu as emoções daqueles que o conheciam, pois não sabiam discernir se o acontecimento fúnebre era razão para tristeza ou alívio. Independente do sentimento que os movia naquele arrastar-se lutuoso, todos se fizeram presentes, até mesmo aqueles que mais lhe rogaram terríveis pragas e, por toda a vida, desejaram ao falecido a pior das mortes: Chica Macarrão, Paulo Tetinha, Liduína Galope, Lalá Boqueira, Brito Pinguelo e até o Afrânio Mãozinha, que havia prometido ao povo de Banabuiú que, se eleito fosse, expulsaria seu Tomás do Sertão Central. A simpatia popular pela folgazona promessa de campanha rendeu-lhe o cargo que ainda hoje ocupa no principal assento da prefeitura.

         Após algumas palavras do padre Carmo Papudinho; Rubem Gilete e Osmar Tremelique depositaram cuidadosamente o caixão dentro da cova aberta na terra seca. A primeira pá de areia foi jogada para dentro da sepultura por Zico Pereba, acompanhada de uma delicada papoula que uma chorosa Jandira Pau Quente arremessou.

         Houve consternação. Todavia, uma vez diante do epitáfio inscrito na humilde lápide, a dor de toda a gente dissipou-se. O povaréu não encontrou recursos capazes de represar a própria inflamação, quando Dorival Calango irrompeu em uma gargalhada, enquanto lia o enunciado gravado no túmulo:


         “Aqui jaz um homem sério”. 


Emerson Braga

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6 comentários:

Muito bom! Adorei esse texto. Parabéns, Emerson Braga.

Adorei. Leitura boa é essa. A gente começa e não quer que termine tão cedo.

Delícia de conto curto! Só aqui "Chica Macarrão, Paulo Tetinha, Liduína Galope, Lalá Boqueira, Brito Pinguelo e até o Afrânio Mãozinha" a gente já vê a criatividade do autor. Final muito bom! E faz rir, o que mostra uma outra faceta do escritor que eu conheço como ácido e incisivo. Quem é bom, é bom!

Valeu pela visita e pelo incentivo, Cínthia! Obrigado!

É sim um texto delicioso. Você esbanja talento na narrativa e descrição do cortejo fúnebre. E morri de rir com a criatividade dos nomes como, por exemplo, Jandira Pau Quente. Você vai longe, Emerson Braga!

O texto é tão bom q fiquei imaginando a cena e até pude perceber aridez da cena.

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