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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Depoimento de uma mulher que apanha


De tudo o que nos incrimina, o que nos condena é a mudez.
(cinthia kriemler)

Eu fico olhando ele dormir toda noite. Ele não faz um ruído, sabia? É uma coisa assustadora. Não ronca, não respira alto. Parece alguém em coma; um semimorto. Como é possível? Isso não é justo. Não está certo ele dormir assim enquanto eu passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor. Cada tapa, cada soco, cada pontapé me deixa toda marcada, está vendo? A minha pele está toda roxa. Tem uns lugares em que os hematomas nem saem mais. Está vendo a minha coxa? É o lugar que ele mais chuta. Acho que é porque essa parte do corpo está sempre coberta e ninguém vê as marcas. Eu nunca mais vesti um short. Nunca mais fui à praia, acredita? Mas as coxas não me preocupam. Na hora em que ele começa a bater eu só me lembro de usar as mãos e os braços para proteger a cabeça. Faço uma espécie de redoma, de escudo. Assim, está vendo? Mas tem hora que ele me pega desprevenida. Eu morro de medo que ele machuque os meus olhos. Ou a minha cabeça. Fico imaginando como seria ficar em cima de uma cama. Dependendo dos outros; dependendo dele. Imagina o que mais ele faria comigo. 
Eu ainda choro. Por que será que eu ainda choro? Não é mais choro de revolta nem de medo, sabe? É uma coisa boa. Que me dá alívio. Andei pensando sobre isso. Eu acho que eu choro porque talvez seja a única coisa em mim que ele não pode tocar: as lágrimas. Ele não pode puxar, apertar, sacudir, espancar as minhas lágrimas. Como faz com o meu corpo. Também não pode manipular, nem controlar, nem abusar delas. Como faz com a minha cabeça. Com a minha vida.
Não, isso não é vida. Eu sei. Eu já estive aqui antes. Já conversei com a psicóloga. Foi bom. Ela me fez pensar. E eu já tinha parado de pensar fazia um tempo. Mas pensar não adianta muito, sabe? A gente se sente pra baixo de novo. Pensando em tudo o que não consegue fazer. E sofre outra vez.
Eu nem sei por que é que eu apanho tanto. Só sei que a coisa vem, e quando vem nunca é pouca. Primeiro ele me olha. É um jeito de olhar que fala. Eu não sei explicar direito. Mas é como se ele estivesse sempre me culpando por alguma coisa que eu não fiz. Como se estivesse procurando uma desculpa para me arrebentar toda. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa mesmo. O cabelo solto, a saia curta, a calça comprida justa, o riso, a unha grande, o decote, o jeito de pendurar a roupa no varal, a máquina ligada muito cedo, a camisa passada do jeito errado, o banheiro ocupado. 
A psicóloga me disse que ele é um abusador. Que ele faz eu me sentir culpada de propósito. Porque é isso que um abusador faz. É verdade. Toda vez que ele me bate fica repetindo que a culpa é minha, que eu mereço apanhar. Não mereço, não. Já tem tempo que eu sei que não mereço castigo. 
Eu casei muito cedo. E ele não me deixou trabalhar nem estudar. Tinha ciúme até da minha mãe. No começo, eu achei graça. Não vou negar que eu gostei daquela vida de não trabalhar. Só depois de um tempo é que eu percebi que era tudo uma armadilha. Eu não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha mais amigos e me afastei da minha família. Eles nunca entenderam o porquê. Nunca aceitaram eu ter parado de falar com eles: minha mãe, meu pai, meus irmãos. A minha irmã mais nova me disse que é benfeito tudo o que me acontece. Porque eu sou burra, covarde, fraca. Eu entendo. Entendo, sim.
Eu não tenho filhos. Não pude ter. Fiquei triste por muito tempo. Porque eu imaginava que se eu tivesse filhos ele não ia mais me bater. Mas depois eu andei lendo sobre uns casos parecidos com o meu e vi a sorte que eu dei. Eu e essas crianças que nunca nasceram. Só que, por causa disso, ele passou a me bater mais ainda. Batia e me xingava. Sua inútil! Sua vaca! Não presta nem pra me dar um filho! 
Foi nessa época que eu pensei em cair fora pela primeira vez. Sem filhos, ele não tinha como me ameaçar. Sem filhos, eu não me importava de não ter estudo nem emprego. E aí eu vim aqui e prestei queixa. Conversei com a psicóloga e ela me disse para eu parar de pensar no que tinha a perder, e começar a pensar em tudo o que eu tinha a ganhar. Foi uma conversa boa. Imaginei tanta coisa. Cheguei a procurar a minha mãe e perguntar se ela me aceitava de volta em casa. Imagina que ridículo! Mulher feita voltando para a casa da mamãe. Mas ela aceitou feliz. Os meus planos é que duraram pouco. Um dia depois ele foi trazido aqui, nesta delegacia, prestou depoimento e foi mandado de volta para casa. Em 2005, ainda não existia a Lei Maria da Penha. Foi aprovada só no ano seguinte. Tarde demais. Na noite em que ele foi liberado pela polícia, me fez uma ameaça. Que se eu viesse aqui de novo ele matava meus pais e meus irmãos. E logo em seguida me deu uma surra tão grande que me quebrou um dente. Esses nove anos foram um inferno.
Mas as coisas mudam. Por isso eu resolvi prestar queixa de novo. Dessa vez, sem volta. Meu pai morreu tem quatro anos. Mas ainda tinha a minha mãe para o desgraçado ameaçar. Agora, ela também morreu. Faz um mês e meio. Antes, eu dei um jeito de ir até o hospital e ficar um pouco com ela. Pedi perdão. Sabe o que ela me disse? Que eu precisava pedir perdão era a mim mesma. Aquilo doeu. E doeu mais ainda quando eu fiquei sabendo que ela deixou a casa para mim de herança. E que os meus irmãos abriram mão da parte deles por mim. Para que eu pudesse ter para onde ir se eu decidisse me separar. Aí eu pensei: é agora ou nunca; não tem mais pai nem mãe pra esse filho da puta ameaçar. Eu conversei com os meus irmãos. Contei tudo para eles. E eles me disseram para não me preocupar que eles se garantem. Acho que a única covarde sou eu mesma.
Hoje, quando eu estava saindo de casa, ele veio atrás de mim. Adivinhou o que eu ia fazer. E me ameaçou, revólver na mão. Eu continuei caminhando, sem me virar. Pensando que o tiro não podia me matar mais do que eu já estou morta. Mas não era para ser. Não, não era para eu terminar em silêncio. 


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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


26 comentários:

Novamente, aqui, trazendo a magia de seus belos textos para denunciar o que, infelizmente, ainda e um tema atual. Parabens, Cinthia!

Bárbaro! Um conto onde, infelizmente, mulheres sofrem com a violência doméstica! É de arrepiar! Parabéns!

Adorei! Você deu voz a milhares de mulheres que passam por isso e ainda são julgadas e incompreendidas. Parabéns, querida, mais uma vez! Bj grande.

Impressionante não só pela descrição brilhante como em todos os seus textos, como porque é exatamente isso que que uma mulher humilhada por um homem sem escrúpulos deve sentir.você descreveu exatamente a dor e o desespero de milhares de mulheres. Parabéns, Cinthia. Texto que vai na alma.

Um texto pra ninguém botar defeito. Um texto que deveria ser publicada no grande mídia. Que câncer maldito esse que não consegue ser extirpado da sociedade.

Obrigada, Cecilia! Beijo.
E um beijo Maria de Fátima!

Obrigada, Maria Silvia, Francine e Vânia Diniz! Beijos

Uma gama de sensações, todas mais do que verdadeiras. Quisera fosse apenas ficção.
Muito bom, Cinthia.

Inquietante, meu coração palpitou. Lindo texto, dura realidade... parabéns

Infelizmente, uma verdade que não se cansa de acontecer. Parabéns!!

Sei que n e facil,vivo com um homem que por qualquer motivo me bate.me ajudem

Passo por tal situação agressão psicológica e física, socos, tapas, puxões de cabelo, enforcadas, cuspidas na cara, ameaça de morte.
Policia não resolve, a pessoa continua solta, te cerca na rua, te bate, as pessoas veem e não fazem nada, só olham.
Ja pensei em matar ele, ja pensei em me matar, não tenho mais vida, não tenho paz de espírito. O tormento nunca acaba.

Anônima: Denuncie e peça abrigo numa Casa Abrigo. Você vai acabar morrendo. Aliás, já está morrendo lentamente. Tente, não desista. Tome cuidado. Torço por você!

Tenho 18 anos e sou casada e hoje apanhei o que mais me DOI é que eu amo ele ele me bateu por que esquecir de fazer um café brigamos sentei e coloquei o pe em cima da poltrona ele deu dois murros em minha perna e me enforcou me acho o pior lixo do mundo DOI tanto chorei tanto lendo sua história espero ter força como você teve pra eu me livrar dessa vida vida não mas um inferno

Maria, espero que você saia dessa situação. 😥

Cai fora tao novinha e ja sofrendo isso

- Boom eu já tô a 4 anos com a pessoa que eu decidi ficar pra vida toda mas infelizmente não sei se escolhi o cara certo no começo foi tudo muito boom mas depois de 1 ano tudo começo eu lembro como se fosse agora a minha primeira agressão que sofri um tapa na cara bom eu achei que era brincadeira e não levei a sério mas hoje percebo que se eu tivesse sido mas forte e esperta não viveria o inferno que vivo hoje pois eu já passei por pessadelos acordadas que e horrível só de lembra oque vooc nunca apanho de um pai e uma mãe vooc acaba na mão de um homem que te espanca e não quer nem saber se vai te matar elle só quer saber de te machucar e fazer vooc sofrer isso não é Amor Amor não machuca , a partir de hoje sai escondida e registrei um b.o apesar disso quase não valer nada mas e melhor vooc ter algo que comprove que vooc quer distância e ser feliz longe de quem só quer ver seu mal eu desejo a todas que passam passaram por essa situação que não tenha vergonha nem medo pois é isso que eles querem nois deixar sem chão sem rumo pra sempre sermos seus saco de pancada todo mulher tem sua força com caráter e força de querer pois fez uma fazerão sempre pode demorar mas sempre acontece de novo eu falo por experiência propia não se deixe enganar por um simples pedido de desculpas ou perdão quase nunca são verdadeiros levante a cabeça e vamos seguir em frente pois conseguimos basta queremos

Estou péssima. Fui agredida por socos, tapas, empurrões e ao chamar a polícia e ao fazer exame de corpo e delito, o mesmo não foi preso, porque eu o arranhei e ele ficou c marcas ao me defender. Estamos na mesma casa em quartos diferentes e disse que estou louca... que não me agrediu hora nenhuma... que eu o agredi e ele só me segurou. Não sei dizer que personalidade é essa que ele tem. Brigamos antes e decidimos nos separarmos... mas ao pedir para sair do quarto, para deixá-lo para mim... virou essa confusão. A minha alma doi... até estou me perguntando o porque ele não assume o que fez... ela nem diz que não se lembra... só diz que não aconteceu nada. E está alheio ao meu sofrimento... dorme como se nada tivesse acontecido. E ainda diz que dorme porque tem a consciência limpa. Eu não sei como disfarçar tanta dor... só sei chorar... morro de vergonha. Eu achei que era amada!

A você que me repassou o seu relato de violência doméstica, eu quero dizer uma coisa: nenhum homem tem o direito de bater, sob nenhum pretexto, numa mulher; nenhuma mulher "merece" ou tem culpa de apanhar ou de provocar a situação que levou esse homem a bater; ninguém consegue ser feliz "dando um jeito" ou "aprendendo" a viver com um homem desses.
Homens (os de verdade, gentis, companheiros, equilibrados) existem, sim.
MULHERES NASCERAM PARA SER O QUE ELAS QUISEREM. E isso inclui ser feliz.
No seu tempo, com as suas forças, faça o que tem que fazer por si mesma. Sempre é hora de parar de ser um saco de pancadas. Não deixe ninguém diminuir você. Você é linda e importante! Para você mesma em primeiro lugar.
Não acredite nesse homem que diz "foi só dessa vez", ou "a culpa foi sua por eu ter batido em você", ou "você não tem para onde ir". Nada disso é verdade!
Olha, na sua frente, lá fora, a vida acontecendo longe da violência. Cria coragem. É parar sa vida bonita que você merece ir. Vai! Beijos e força!

Fiquei com um cara quatro anos, ele sempre me agrediu, mas não era frequentemente era uma vez e nunca. Nesta última briga que tivemos, saímos na porrada, foram três pessoas para segura-lo meu cunhado mandou eu sair de casa antes que desse merda. Sai sem rumo. Nisso ele levou minhas coisas para a casa da minha mãe e se fez de inocente. Terminamos. Mas ele ainda me manda mensagem dizendo que se arrepende e que me ama e que ele vai mudar, cansei de dar novas oportunidades pra ele e sempre acabar nisso. Dessa vez eu cansei não quero mais, só que ao mesmo tempo o "amor" que sinto, as lembranças boas me assombram e tentam fazer eu mudar de ideia. Estou confusa, e pra terminar descobri que estou grávida dele. Preciso de conselhos 😔

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