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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ressaca institucional


Não viajou no feriadão do Natal e não arredaria pé da cidade na virada do ano. Viveu em dois dias o calor mais intenso da vida inteira, justo na ocasião em que a parentada deveria confraternizar. Teve medo de morrer de mal-estar, pressão esmagada na sola dos pés, para depois vir chuva, vento, frio e cinza e confirmar que tudo ia bem, igual, como em todas as semanas anteriores até essa última de 2014. Não tinha motivo para cumprir horas a mais no expediente em janeiro se podia fazer a carga horária normal no trabalho durante aquele recesso, em que parou quem quis. Salas e corredores da instituição desertos, pois, pelo jeito, os colegas pensaram ao contrário de Guilherme.

Sozinho no escritório, Guilherme colocou muito serviço em dia e ainda leu jornais, arrumou armários, regou todas as plantas da repartição esquecidas pelos donos e respondeu e-mails. Ele, que até então, vinte e oito de dezembro, fim de tarde, não se tinha deixado contaminar pelo clima apocalíptico que toma conta das pessoas nessa época, sucumbiu. Quem mandou abrir a caixa de e-mails institucional nesses dias, criatura? Guilherme se perguntava e já se respondia: procurando sarna para se coçar, abobado. No fundo era bem isso que querias, farelos de atenção desse povo que sempre abana, diz bom dia-boa-tarde e vezenquando convida para uma cerveja do bar do Lulu, e não passa disso. Será que a Lisi da administração também lembrou de me desejar boas festas? Não, animal, ela não lembra de ti nem quando enguiça a bombona da água mineral, não seria agora que. Ou seria? 

Sessenta e oito e-mails não lidos, a maioria com a palavra “feliz” em caixa alta no título. Entre eles, um de Lisiane Fonseca Rocha. Opa, opa, o estômago quente e pulsante, um clique e pronto. Mensagem animada, cheia de sinos, velas e estrelas, trenó e renas, sinceros votos de blá, blá, blá para toda a lista de funcionários. Não foi dessa vez, Guilherme. E já que estava ali, diante das dezenas de recados pedindo lida e ainda faltavam duas horas para assinatura do ponto, entrou no jogo e respondeu um por um, criativa e honestamente. 

Passou a mão na câmera fotográfica, nos canetões e nas folhas em branco da impressora e caprichou. Guilherme era péssimo de palavras, mas ótimo no desenho. Improvisou cartões personalizados com o que tinha de melhor, de bem seu, o traço. Fotografou-se agarrado às peças, anexou as imagens às mensagens e enviou, seja o que deus quiser. Sempre torceu o nariz para o ponto de exclamação, evitava o uso, achava forçado aquele risco vertical com pingo embaixo se não estivesse expressando gritos por escrito. A representação de contentamento, por exemplo, não combinava com aquele sinal, apesar da convicção da professora da 2ª série. Mas e daí? Estava mergulhado naquela atmosfera festiva e iria até o fundo no ridículo. Daria aos colegas provas irrefutáveis de sua normalidade. Vários cartões patéticos recheados de felicitações, de 2015, da palavra “repleto” e de pontos de exclamação coloridos. Deixou sua sala quinze minutos além do necessário e foi direto ao bar do Lulu. Precisava beber para esquecer a ressaca institucional que estava por vir.   

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