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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Aperitivos



Joaquim Bispo

Miniconto, microconto, nanoconto são variantes narrativas que diferem do conto, genericamente dito, pelos tamanhos progressivamente menores, cada uma com os seus próprios cultores. As fronteiras não estão bem definidas, mas as modalidades menores, pressionadas pelas novas tecnologias, pretendem escrever uma ficção completa que caiba numa mensagem SMS (160 caracteres) ou mesmo num “post” no Twitter, ou seja, 140 caracteres. Saramago sentiu-se obrigado a declarar que “Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação.”
Não é só em tamanho que conto e miniconto diferem. Este não é apenas um "conto pequeno". Embora o espírito do conto se mantenha, a escassez de tamanho condiciona algumas características: No miniconto, muito mais importante que mostrar é sugerir, deixando ao leitor a tarefa de "preencher" as elipses narrativas e entender a história por trás da narrativa escrita. É paradigmático o nanoconto do guatemalteco Augusto Monterroso intitulado “O dinossauro”, de apenas trinta e sete letras:

Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.


Os concursos literários, pressionados pelas multidões de concorrentes e respetivas avalanches de contos a concurso, vão progressivamente fazendo exigências de textos mais pequenos, sendo vulgar o limite máximo de duas páginas, para contos. Os mini, micro e nanocontos vão também fazendo o seu caminho em concursos, até com publicação de coletâneas daí resultantes. Abaixo, algumas tentativas minhas com limite de três linhas e sujeitas a tema:

Cebola:
Dona Ália Cebola

A anca larga e sensual ofuscava o pescoço alto e esguio. Enlevado, libertou-a da capa cor de mel. Arrebatado, arrancou-lhe mais dois véus translúcidos. Alcançou, então, emocionado, o corpo níveo que procurava, enquanto as lágrimas lhe rolavam cara abaixo.

(Publicado no jornal literário virtual Olaria das Letras)

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E-mail:
Agora, só escrevo cartas

“Não julgar Bush por crimes contra a Humanidade é a prova da subserviência mundial à razão da força.” – escrevi eu, a um amigo, por e-mail. No dia seguinte, as secretas revistaram a minha casa, por suspeitas de atividades terroristas.

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Caracol:
Vertigem

Foi a subir a escada em caracol atrás de ti que eu fiquei com a cabeça à roda.

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Muro:
Conflito de gerações

O muro: cinco andares de gavetas numeradas. Na pequena urna da 602, as caveiras do casal face a face; as tíbias em diagonal a separá-las; os outros ossos encaixados a rigor. Silêncio e paz final? — Vieram outra vez pôr flores nos da 3719... — Mimados!

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Vento:
Alentejo

Ninguém teme o vento. Ninguém acredita que é ele que me enlouquece. Ninguém percebe como ele manobra sorrateira e incansavelmente nos ouvidos, até conseguir o que quer. Vou-me rir tanto quando começarem a cortar as orelhas e a furar os tímpanos!

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Vermelho:
O outro lado do Natal

Ao ver o Pai-Natal do centro comercial, o miúdo, vermelho de indignação, correu a dar-lhe uma canelada. Repreendido, justificou: — Este ano, ele não apareceu e o meu pai teve de me comprar a prenda com o dinheiro do almoço de Natal! Aldrabão!

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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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