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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A pequena arte da felicidade


Quando nasci, um anjo baldio desses
que fingem brincar de Deus disse:
Vai, Tarlei, ser feliz na vida!
 E eu fui!


Rubem Alves (1933–2014) deu ao último de seus livros o título A grande arte de ser feliz. Não é por discordar do título, mas gosto de pensar que a felicidade é a arte do pequeno. Quando se diz grande arte, subentende-se uma grande soma de empenho na busca da felicidade. E aqui lembro uma frase de Jorge Luís Borges: “A leitura é uma forma de felicidade e a felicidade não deve requerer muito esforço”. Quero me concentrar na segunda parte da frase: “A felicidade não deve requerer muito esforço”. Eis tudo o que penso. Começa que a felicidade é um estado geral de contentamento com a vida. Nesse sentido, a felicidade já está dada, já está dentro da gente. Se não estiver dentro, não estará em nenhum outro lugar. Penso que a felicidade vem mais dos genes (a nossa fortuna gratuita!) do que de sabedoria para viver a vida. Uma vez predispronto à felicidade, aí é ficar por conta do que possa pronunciar essa felicidade dentro da gente. E a lista do que pode pôr um arco-íris na nossa alma é sem fim. Pode ser uma música, um filme, um livro, uma rosa, um beijo, um sorriso, um abraço, uma madeleine, uma saudade, um amor, uma viagem, um sonho, uma conquista, um doar-se, um “contentar-se de contente” – repito: a lista é sem fim. A verdade é que há muitas formas de ser feliz – e eu prefiro todas. Minha felicidade é feita de tão pequenas coisas, tão reduzida ao essencial, tão recolhida em si mesma, que quase posso dizer que sou feliz por nada. Entendo que ser feliz por nada é não depender de nenhum acontecimento exterior para estar feliz. É como me sinto. Sou o tipo que acha sempre muita graça na vida, que fica feliz por qualquer acontecimento ordinário. Isso não quer dizer que eu não tenha cá os meus buracos, meus tormentos, minhas tristezas, minhas angústias... O contentamento de viver, no entanto, se mantém para além de qualquer adversidade. Afinal, “uma pessoa feliz não tem o melhor de tudo; ela torna tudo melhor” (autoria não localizada). Não entendo a razão da minha felicidade, mas sei bem o quanto sou feliz. Estou com o Rosa quando diz: “A gente só sabe bem aquilo que não entende”. Quem poderá entender a alquimia que faz a felicidade nascer do banal, do corriqueiro, do ordinário?! Não é mesmo coisa de entender, só de saber, de sentir. Sinto que o melhor da felicidade vem de graça – ou quase. A felicidade é um pouco camaleoa. Pode estar naquele cheirinho de café recém-coado que inunda a manhã e funciona como um despertador olfativo. Naquele pão-com-ovo que se come feito príncipe. Naquele arroz-com-feijão-bife-salada saboreado com régia majestade. Naquela música que toca no rádio e faz rima perfeita com o lugar e o momento. Naquele caminhar na praia com o mar lambendo areia e pés. Naquele sopro de maresia banhando pulmões e alma. Naquele abraço que chega antes mesmo dos braços se abrirem. Naquele sorriso que vem tanto do rosto e dos olhos quanto dos lábios. Naquela rebeldia de guardar no armário todas as urgências que gritam sua pressa e pegar um cineminha no meio da tarde. Naquele livro que você abre e, a bordo de suas asas, viaja para dentro do inabarcável coração da vida. Naquela alegria que, vinda do nada, de si mesma toma mais alegria. Naquele barulhinho de chuva na madrugada que, ao te acordar, é mais um convite ao sono. Naquele sonhar acordado (“Se você pode sonhar, você pode fazer” – Walt Disney). Naquele sono constelado de sonhos bons (“Sonhar é acordar-se para dentro” – Mario Quintana). Pode estar em tanta coisa mais! Tudo está em pôr em prática uma máxima latina que diz: “Felicidade é desejar o que se pode, e poder o que se deseja”. Para além da verdade dessa máxima, o certo é que quem é feliz mesmo, pra valer, é feliz por nada – ou quase nada. Comungo por inteiro com essa linhagem. 

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