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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

BURACO NEGRO (conto inédito)

BURACO NEGRO




|Mario Filipe Cavalcanti




De repente me deu um medo de ficar louco. É como se... Não, não é como. Mas foi sendo. Aquela coisa veio vindo em meio aos calhamaços de papel. Como se nos calhamaços da papelada daquele processo morasse o gênio demoníaco que assola os felizes. Aquilo era felicidade? “Aquilo era”, eu digo e te pergunto sem noção do que falo. Usando essa linguagem, essa linguagem que é o modo, o meio, o tudo. A linguagem que se me é e eu não consigo sem ela. Ninguém consegue sem ela. Mas naquele momento é como se eu não quisesse. Não, é como se eu não pudesse com ela. E o que eu queria? Saber o que se quer pode ser a chave, mas eu havia perdido, havia me desencontrado de todas as chaves. Havia caído e caído cada vez mais dentro do calhamaço de papel.

Eles me disseram que o delegado era inocente. O delegado Fragoso era uma vítima do sistema. Um sistema atroz onde o processo tem o cheiro de Joseph K. O processo tem o cheiro, o gosto e o medo do senhor K. E também tem o beco onde envergonhado, como um cão, como um cão vira-lata, ele morreu. Mas eu não acreditava muito no delegado Fragoso. Eu descria nele, como descria em todos os homens. Li, li todo o processo do delegado Fragoso. Sabia de cada palavra por trás daquelas acusações que lhe dirigiam. Sabia o que era e o que não era. Mas eu não queria o que teria sido. Queria a verossimilhança. Queria a aparência. E me olhava no espelho enquanto estudava o processo administrativo do delegado Fragoso e eu não era eu. Eu era uma máquina que digitava no computador uns argumentos a levantar contra o Estado. Uns argumentos de um peixe contra um boi. Um camarão contra uma baleia. Mas a baleia, o Estado, o Leviatã, esse monstro maquinal era composto de vários camarões, de vários peixinhos que juntinhos pareciam um peixe grande, como num cardume. E no fundo era sempre culpa nossa. Era sempre culpa nossa tudo aquilo. Eu acreditava no eu? EU, EU, EU, não sei.

E aquilo foi me vindo. Era como um momento, um instante absoluto de pausa e de luta e de anulação do tempo e do espaço. Aquilo era como uma fome que de repente aparece e nos toma. E eu fui sendo vassalo da suserania do medo que me deu. Mas primeiro não veio o medo. Primeiro o medo não é, depois ele vem sendo, depois ele. Sim, somente isso: depois ele. O instante do medo louco. Mas no meu caso louco não foi o medo. Louco foi o instante.

Inocente – inocente – inocente era só essa a fórmula argumentativa da minha lógica informal. Eu tinha que provar que o delegado Fragoso estava agindo no estrito cumprimento do dever legal, mas eu não sabia o que as palavras podiam querer de mim, se diante do papel, as linhas tortas e pretas no fundo branco talvez dissessem ao juiz justamente o contrário. Mas essa não era a minha preocupação. Essa não fora. E eu ia, ia, ia chegar na concatenação mais perfeita da argumentação jurídica. Eu tinha a sanha de convencer, eu sempre tive. Era o líderzinho dos meninos amarelos que eu guiava no fito da brincadeira. Eles não sabiam como, mas eu inventava o jogo, eu inventava as estórias e punha todo mundo pra acreditar nelas e brincar e ser e fazer com que o faz de contas fosse. Mas é que eu não podia. Eu não sabia nem como era o rosto do delegado Fragoso. Como eu podia defender alguém que eu não vira nem o rosto? Por que ele seria digno de nota? Por conta da palavra escrita no papel, nas duas mil folhas de processo administrativo em que se dizia A é B e depois A não pode ser B, mas C. Ora, aquilo era vida pra mim. Aquilo era uma vida possível. Um destino pra mim.

E de repente me veio um medo de ficar louco. Aquilo me veio vindo enquanto eu olhava o calhamaço de papel. E me tomou todo. O peito. Meu peito foi ficando estufado e eu fui sentindo o segredo do mundo. Eu fui sentindo a chave da advinha. Mas o que era? Não, não aches isso. Não era coisa de se saber, era apenas de se sentir e eu não queria, sim, eu não queria utilizar a linguagem. Jogara fora Descartes, Locke e Wittgenstein, todos os três à puta que os pariu! E não tinha mais nada, nada que não fosse aquele momento de insanidade. A fome que eu ia sentindo, uma fome de loucura, uma fome que era uma saída. A fome que representava toda a controvérsia da vida. A vida era a fome que eu sentia e que ia matando aos poucos. Mas eu sabia, eu sabia que não podia ficar satisfeito. Eu sabia que ficar satisfeito era o princípio do fim, que eu podia cair no buraco e morrer, levar uma topada e ser lançado para fora da órbita da Terra. E se um buraco negro me tragasse? “O buraco negro de nossa galáxia está anos-luz de distância de nós”, uma merda! O buraco negro está em nós. E eu sentia aquela atração dos corpos que se anulam. Mas eu não podia cair em mim. Não assim sem nenhuma proteção, sem nenhum preparo. E era como se eu fosse ficando satisfeito é que estivesse sendo tragado pelo buraco negro e acabasse como tudo o que acaba em seu bojo: satisfeito. Se eu estivesse satisfeito, eu seria a matéria morta com tempo e espaço anulados. Eu seria o não-ser e o não-estar do buraco negro. Eu seria a antimatéria, chocando-se com o corpo delgado, entre amarelo e marrom, sensual que eu era. “O buraco negro não é um buraco, é mais um saco que um buraco”, vi na revista científica e ri. Ri como um doido. O b-u-r-a-c-o n-e-g-r-o O. Tudo isso são palavras, são somente palavras e aquela coisa a que chamam buraco negro é o ralo do universo. Aquela coisa é um botão reset. Aquilo é a descarga do universo e eu sei, eu sei que se eu ficasse satisfeito eu estaria me resetando, estaria me matando muito mais que o matar da fome. É que restaria morta a fome de vez.

E eu tinha a fome que se mata dia após dia. Mas aquilo me pegou despercebido e eu senti a vontade. O mundo, não sei se é vontade de potência, mas é vontade, é tanta vontade que eu amo. É tanta vontade, vontade de comer os olhos, a boca, o respirar, até aquela voz, aquela voz que ouvia na conversa, vontade de não sei. Mas a minha vontade veio vindo sem escrúpulos e sem a capa do saber. Eu olhei pro calhamaço de papel e não vi, não ouvi, não nada, não nada, porra nonada! Meu peito se encheu de ar e eu fiquei estufado e me veio. Senti vontade e me deu depois o impulso de levantar da cadeira aos pulos e gritar, gritar, gritar, bater nas paredes, derrubar todo mundo, bater, bater e só usar a linguagem pra dizer AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!. Você sente isso, você sente? Não, pelo amor de deus, não entenda isso. Não quero que você entenda, quero apenas que sinta. Sentir? Não sei, não sei o que quero contigo, mas eu precisava dizer, ir dizendo, ir dizendo, ir falando, ir, ir, ir, ir. E daí levantei a cabeça assustado, ao meu redor ouvia a zoada do teclado dos outros. Os advogados teclavam o direito dos outros. Assim: tec, tec, tec, tec, tec, tec. Aquilo era a dignidade da Justiça. E eu abaixei o olhos com medo de Thêmis. Eu baixei os olhos porque ela tudo vê e tudo julga. Thêmis é uma inconclusão. Mas ela é.


Eu não sou. Nunca fui e nunca serei. E me contive. Eu contive dentro de mim a vontade. E esperei. Esperei a morte da minha loucura. Esperei que cessasse dentro de mim aquela vontade de ficar louco. Fui descansando como no fim do sexo. Fui assentando o juízo como quem goza. Era como se eu estivesse no instante do buraco negro e agora eu me fosse dissolvendo. E eu olhei para mim e estava novamente de gravata. Eu estava de terno e gravata e eu estava bonito, com a barba feita e os cabelos cortados. E então eu estava quase satisfeito. E então morri.

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2 comentários:

Além do discurso da corrente de consciência, sensível e eloquente, gostei sobretudo da força visual e metafórica da seguinte descrição: «Um camarão contra uma baleia. Mas a baleia, (o Estado, o Leviatã), esse monstro maquinal era composto de vários camarões, de vários peixinhos que juntinhos pareciam um peixe grande, como num cardume.»

Caro Joaquim, fico agradecido por sua observação. Certamente um conto forte. Tão forte que a dormência dos membros e do corpo foi a segunda consequência da catarse no autor. A arte é essa coisa que pulsa tão vivamente, que fico pensando se certo deveras não estava o Antonin Artaud...

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