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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma cuia pro compadre Saint-Hilaire



Isso de atribuir nomes às coisas, e a cientificidade que a botânica e a biologia assumiram para si desde o século XVIII de nomear cientificamente tudo o que é vivo, isso teve (tem) um impacto profundo nas demais ciências, em especial nas que pouco tinham de biológicas, que ainda viriam a nascer, as Sociais e as Humanas, mas que adotaram seus métodos. Hoje, a custo e aos poucos, se está livrando dessa herança. 

Pensando assim, meio a esmo nas palavras e nas coisas, (e em As palavras e as coisas, do Foucault) e em como a história dos nomes é relevante para a cultura e a identidade de uma forma que a gente tem pouco conhecimento (e ainda menos controle), acabei chegando, no meu devaneio, ao chimarrão: coisa mais identitária da gauchidade não há.

Que a nossa famosa erva-mate tem o nome científico de Ilex Paraguariensis, isso se aprende desde cedo (e desde que o indivíduo sinta curiosidade de ler o pacote de erva, esse que já está custando quase dez pila). O que até hoje eu não sabia (e acho que pouca gente sabe - isso não está no pacote da erva) é que quem atribuiu essa palavra à coisa erva-mate (que, bem, já tinha nome entre os índios... mas a ciência tem suas regras) foi o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire. 

Saint-Hilaire, em uma de suas incursões para o interior do Brasil (Viagem à comarca de Curitiba, 1820) conheceu a erva, e descreveu todo o processo do cultivo, a origem - que supunha paraguaia, daí o nome - e até algumas questões administrativas e de faturamento das fazendas em que se plantava a erva.

Mas é na viagem ao sul do país (Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821) que Saint-Hilaire descreve, numa postura entre observador naturalista e orgulhoso mateador, o hábito de tomar chimarrão, e como se tornou, ele próprio, apreciador do amargo.
Estância de José Correia [próximo a Rio Grande], 22 de setembro de 1820. – Ainda tomei dois mates antes de partir. O uso dessa bebida é geral aqui: toma-se mate no instante em que se acorda e, depois, várias vezes durante o dia. A chaleira cheia de água quente está sempre ao fogo e, logo que um estranho entre na casa, oferecem-lhe mate imediatamente. O nome de mate é propriamente o da pequena cuia onde ele é servido, mas dá-se também à bebida ou à quantidade de líguido contido na cabaça; assim diz-se que se tomaram dois ou três mates, quando se tem esvaziado a cuia duas ou três vezes. Quanto à planta que fornece essa bebida, chamam-na erva-mate ou simplesmente erva. A cuia pode conter cerca de um copo d'água; enche-se de erva até a metade e, por cima, põe-se a água quente. Quando a erva é de boa qualidade, pode-se escaldá-la até dez ou doze vezes, sem renovar a erva. Conhece-se que esta perdeu sua força e que é necessário mudá-la quando, derramando-se-lhe água fervente, não se forma espuma à superfície. Os verdadeiros apreciadores do mate tomam-no sem açúcar, e então se obtém o chamado mate-chimarrão. A primeira vez que provei tal bebida, achei-a muito sem graça, mas cedo me acostumei a ela e, atualmente, tomo vários mates seguidamente com prazer, até mesmo sem açúcar. Acho no mate um ligeiro perfume misturado de amargor, que não é desagradável. Muito se tem elogiado esta bebida; dizem que é diurética, combate dores de cabeça, descansa o viajor de suas fadigas; e, na realidade, é provável que seu sabor amargo a torne estomacal e, por isso, seja talvez necessária numa região onde se come enorme quantidade de carne sem mastigá-la convenientemente. Aqueles que estão acostumados ao mate não podem privar-se dele, sem sofrerem incômodos.(1)



(1) Auguste de Saint-Hilaire
Viagem ao Rio Grande do Sul - 1820-1821 (2002)
trad. Adroaldo Mesquita da Costa
Brasília: Senado Federal, 2002 
Coleção "O Brasil visto por estrangeiros"
p. 131

imagem: 
"Ilex paraguaiensis A. St.-Hil."
Gilg, Ernst; Schumann, Karl 
Das Pflanzenreich Hausschatz des Wissens (1900)


Texto publicado originalmente no blog do V. em 7 set. 2014.

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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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