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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

RESENHA: As mulheres do nazismo, de Wendy Lower


Nos últimos anos, uma nova leva de estudos mostrou o sofrimento que Hitler impingiu aos seus próprios alemães arianos, no final da guerra. À medida em que os soviéticos avançavam em direção a Berlim (e mesmo depois de seu término, como conta Tony Judt no seu extraordinário Pós-Guerra), ondas de estupros coletivos e assassinatos indiscriminados alcançavam alemãs de todas as idades - dos 3 aos 80... Acertos de contas entre invadidos recém-libertados e invasores que não tiveram como voltar para a Alemanha.

Lançado recentemente pela editora Rocco, As mulheres do nazismo, de Wendy Lower, não nega nem relativiza esses dados. Apenas afirma que, de um modo geral, as mulheres alemãs se dedicaram com afinco no projeto nazista de expansão para o leste e criação de uma geração de arianos aperfeiçoados. Nada, também, que não se soubesse. A diferença é que a autora mostra como esse comportamento nada teve de apolítico, e sim parte fundamental para a implantação da Grande Alemanha.  Não se tratava de mulheres que iam, heroica e estoicamente, para o leste, criando seus arianos enquanto os maridos se dedicavam à conquista do território. Motivadas pelas mais variadas razões: ambição, busca por marido, aventura etc, mais de 500 mil mulheres atenderam à ordem de Hitler para a colonização ariana de áreas principalmente na Polônia e na Ucrânia, cientes de que possuiam uma missão a cumprir.

Muitas chegavam com funções definidas: secretárias, professoras, enfermeiras. Participavam de toda a engrenagem nazista. Com variados graus de responsabilidade, estavam lá para trabalhar para o Reich. Lower se dedica especialmente às enfermeiras - "Dentre todas as profissionais femininas, ela foi a mais mortal", lembrando-nos que sua ação começou na própria Alemanha, bem antes da guerra: os bebês deformados e adolescentes inválido, que receberam doses cavalares de barbitúricos, injeções de morfina, além de serem privados de água e comida. A eutanásia era essencial para a formação de uma raça biologicamente superior. A eles, somam-se os fuzilamentos de pacientes psiquiátricos. 

Mas havia uma outra "categoria". As esposas dos homens da SS não tinham qualquer função direta na divisão do trabalho que possibilitou o Holocausto. E, no entanto, a proximidade com os assassinos e o fanatismo ideológico fez de muitas delas verdadeiras máquinas de matar. 

O caso mais emblemático, talvez, seja o de Vera Wohlauf, grávida e esposa do capitão Julius. Os Wohlauf passaram sua lua de mel em cenários de guetos, execuções em massa e deportações. No dia 25 de agosto de 1942, o capitão deveria comanda uma companhia na liquidação do gueto de Miedzyrzec-Podlaski, mas estava atrasado, por alguma razão. 11 mil judeus estavam reunidos no mercado; os que resistiam à deportação eram espancados e mortos a tiro, quase mil corpos ficaram empilhados nas ruas, cerca de 60 vagões, cada um com cerca de 140 judeus, foram utilizados para levá-los a Treblinka. 

Vera sabia que o marido estava atrasado e foi ao mercado. Ficou circulando por lá, brandindo um chicote e humilhando as vitimas. Curiosamente, seu comportamento foi criticado pelos próprios alemães: Vera cruzou, por vontade própria, uma linha de divisão dos papeis no Reich. Ela deveria se restringi ao papel de grávida. Mas estava longe de se tornar um caso único. A mulher do comandante do campo de Jaktorow, na Ucrâna, era sempre vista com seu pastor alemão. Ela se divertia mandando-o atacar as crianças judias que trabalhavam no jardim do campo.

A autora é enfática - esse é, diga-se, seu ponto principal: nenhuma delas era obrigada a matar. Recusar-se a matar judeus não lhes impunha nenhuma punição. Desde que, claro, não se metessem a salvá-los - Lower traz alguns casos em que os tribunais alemães se mostraram implacáveis com tal conduta. E termina com a investigação do que aconteceu a estas mulheres no pós-guerra, quando a maioria voltou à vida civil (a última frase: "O que aconteceu com elas? A resposta mais curta é que a maioria se deu bem", diz bastante).

A obra foi recebida com críticas, tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra. Muitos questionam a representatividade do universo por ela tratado (são treze mulheres individualmente estudadas); outros, de que seu texto é superficial, sem maiores incursões nos estudos anteriores sobre o tema.

Uma última observação: a edição brasileira, ao optar pelas "mulheres do nazismo", abriu mão do título original - "Hitler's furies", as Fúrias de Hitler. Poderia tê-lo mantido. As Fúrias habitavam o Tártaro e perseguiam até o Hades as almas pecadoras... nem morto o sujeito ficava em paz. 

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Fabio Bensoussan
Nasceu no Rio de Janeiro (1973) e hoje mora em Belo Horizonte, com sua esposa e os dois filhos. É procurador da Fazenda Nacional e recentemente começou a escrever contos e a traduzir textos literários.
todo dia 04


1 comentários:

Boa resenha,me despertou o interesse pelo livro.Irei ler!

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