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terça-feira, 22 de julho de 2014

Que bonito seria se pudesse voar

Gira o copo entre os dedos e o resto de líquido amarelo se agita em redemoinho. É o último gole do whisky roubado do pai. A garrafa atirada no tapete pinga o fim da bebida formando uma pequena poça, suficiente para encher a sala de um cheiro adocicado que faz arder o nariz. Mas Augusto nem repara mais. Tem a garganta aquecida e uma vontade constante de vomitar. E de morrer. O que vier primeiro está de bom tamanho para ele, parado no canto da ampla janela do oitavo andar, nu, a cabeça encostada no vidro há mais de três horas. Augusto olha o mais para baixo que pode e acompanha o movimento dos carros da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, da bifurcação para longe, e imagina que bonito seria se pudesse voar, dali, e pousar no topo da antena telefônica que fica atrás do posto de gasolina. Só para sentir o sol nas costas e o vento nos joelhos enquanto observa o trânsito de uma distância em que o silêncio abafa as buzinas e suas ideias feias. 

Augusto acha que tem ideias feias. Ele próprio, de fora, não é feio inteiro. As orelhas de abano se disfarçam muito bem entre os cabelos desalinhados e compridos. Os lábios grossos, rosados, e os grandes olhos castanhos compensam com sobra a perna ligeiramente mais curta do que a outra. Ele escorado numa parede, ninguém diz. Faz um tempo, aparecem na cabeça de Augusto uns pensamentos-apito, daqueles que soam de repente e depois estancam, como que produzidos por um sopro forte. Não são iguais, mas tem por constância o objetivo de dolorir. Se Augusto se demora em pensar, quer explodir o açougue do João com garrafa de álcool gel e fósforos longos; quer cortar os tornozelos do padre com a tesoura de podar; quer vazar os olhos da diarista com a agulha de costura da mãe, depois de cavoucar a mãe pelo umbigo com a faca de churrasco; quer ver pane no semáforo para os carros baterem de frente; quer martelar a testa do vizinho enquanto ele dorme. Quereres que não cessam. 

Desde ontem cresce uma vontade nova, finalmente um pensamento para si. Já entendeu que precisa escrever e vai usar a pele em lugar de papel. O que registrar ainda não decidiu. Uma carroça carregada de areia grossa e pedra brita cruza a rua e some na esquina. De onde está, vê com nitidez a cola preta abanar enquanto o cavalo caga verde no asfalto. Que bonito seria se pudesse voar e pousar entre as orelhas do animal, cogita Augusto, que bonito. O copo já vazio escorrega das mãos e se estilhaça no piso frio. Os cacos transparentes estão por toda parte. Augusto, descalço, não se move: paralisa. Quer dominar o desejo absurdo de sambar que o inunda, hoje eu vou tomar um porre não me socorre que eu tô feliz. Não consegue. Samba. Samba feito passista nascida e criada em barracão do Rio de Janeiro. Que bom seria se pudesse voar e desprezar os pés que agora ardem, ardem, ardem. Então cata um pedaço pontiagudo de vidro e risca, começando entre os mamilos em direção à barriga, “Que bom seria se pudesse voar”. O sangue escorre pelas pernas. Augusto se afasta da janela uns cinco passos. Convencido de quão bonito é ser livre, toma impulso, corre, atravessa a vidraça e voa.

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Andréia Alves Pires
Nasceu em Rio Grande, cidade ao sul do Rio Grande do Sul, é jornalista, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.
todo dia 22


4 comentários:


Forte e impactante, como sempre. A dor e o tormento de se enxergar nos "quereres que não cessam", gerando a insensatez. Meu naipe de texto. Parabéns!

Cinthia, querida, obrigada! :)

Que ótimo texto!!! um beijo Andréia

:D Outro, Daniel! Obrigada pela leitura! :)

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