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domingo, 22 de junho de 2014

E agora José?


Sabia que esse momento chegaria. O dia do branco. Eu aqui, diante da página vazia, o prazo acabado, uma ponta de desespero. E agora, José? Na falta de abertura decente para o texto da próxima edição, Lauro resolve improvisar. Deveria ter deixado para depois a cerveja e a churrascada com os amigos da capital que vieram passar o feriadão no balneário, mas resistência não era com ele. Meio quilo de salsichão e um isopor forrado de gelo e de latinhas, argumentos suficientemente fortes para convencê-lo a protelar trabalho. Escrevo antes de dormir, disse para si, colocando o compromisso no final da lista mental de tarefas inadiáveis. Para quê? Como quem pede socorro ao Samu no meio da madrugada, entre um plano e outro para salvar sua pele, interrogava o interlocutor célebre de uma conversa que não era a sua, na tentativa de agarrar a inspiração pela perna e grudá-la de uma vez no papel: e agora, José?

Consciente do estrago que sua displicência certamente causaria, insistiria até ser vencido pelo sono. Caso não bolasse uma história coesa até quatro da manhã, provavelmente faria o relato, tal e qual, do dia de nostalgia que viveu com os parceiros na beira da praia. Se bem que aquelas barrigas caídas, aquelas carecas, aquelas tatuagens desbotadas, símbolos das bandas de heavy metal que preencheram a adolescência, talvez fossem impublicáveis. E agora, José? Corria os olhos pela lombada dos livros, pelos títulos das caixas de remédio sobre a bancada, pela relação de nomes na agenda do celular e nada. Nem faísca de ideia, um lampejo sequer. Estava em branco, completamente. 

Será que estou entrando no Ciclo seco, que o C.F.A. descreveu uma vez? Não convêm misturar as referências, melhor respeitar a figura a que recorri primeiro. Cadê o poema, cadê o livro, google em Drummond e: José. E agora? E agora me ferrei bonito. Não posso acreditar que faltou luz. Pelos meus cálculos, resta ainda uma meia hora de bateria, essa história precisa nascer nem que seja a fórceps. O suor de Lauro molha a gola da camiseta e faz rodelas na costura abaixo dos sovacos. Uma sequência de frases dirigida a José e serei acusado de plágio, descarado. Deu de festa, de luz, de mulher, de discurso, de bebida, de bonde e de riso. Estou arruinado. Vão me dar gancho ou me demitir direto. E agora, José? E agora, Joséééé? Nem que eu jogue nessas quarenta e tantas linhas, espaço simples, parágrafo justificado, todo o sentimento do mundo que escondo em algum lugar inóspito de mim dou conta de um roteiro honesto. Sou uma farsa. 

Então, ocorre a Lauro narrar o assombro de alguém insone, sozinho, no escuro, ao deparar-se com o estranho que caminha desorientado tateando paredes, fazendo barulho, com a chave na mão. Pode ser que cole. Começa assim, escrevendo que não há porta a ser aberta pelo homem que vaga cego, mudo, surdo e doido pelo corredor do apartamento. Condena o personagem ao primeiro parágrafo, sem saber o que fazer com ele, que não grita, não geme, não dorme, não cansa, não morre. Um José duro na queda, e agora? No meio da dúvida, Lauro cai no sono e o notebook, sem bateria, dá por perdidos os documentos não salvos.

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