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quarta-feira, 25 de junho de 2014

A égua e eu


Joaquim Bispo

Estão a passar os 100 anos da primeira publicação de “Platero e eu”, do espanhol Juan Ramón Jiménez (1881–1958), que foi Nobel da Literatura em 1956. «Desenvolveu a ideia de “poesia pura”, uma poesia de inspiração platónica, habitada por um ideal superior de beleza e separada de todo o conteúdo ideológico, político ou social. Jiménez pretende-se um poeta do refinamento e da nuance, ansioso por desenvolver novas pesquisas estéticas e rítmicas, na expressão de uma doce melancolia.» Teve funções diplomáticas em Washington durante a Guerra Civil Espanhola e viveu exilado o resto da vida, sobretudo em Porto Rico.  
“Platero e eu”, escrito em prosa lírica, é a obra pela qual Jiménez é mais conhecido. É um conjunto de 136 pequenos textos de 20–30 linhas, narrados na primeira pessoa, como num diário,  cuja personagem central é o burrico Platero [prateado]. O contexto é o ambiente campestre, rústico e romântico, ingénuo e sadio, da Espanha rural do princípio do século XX, a sua Moguer natal, na Andaluzia. Os textos parece não procurarem contar histórias com enredo minimamente surpreendente, mas serem simples apontamentos impressionistas das vivências simples do espaço rural, com muitas observações da mágica vida de plantas e animais, em que o Homem é um afortunado convidado. Desprendem-se deles essas imagens aliciantes dos espaços encantados, essa força singela dos tempos primordiais, essa harmonia dos paraísos perdidos. Saboreie-se este extrato do primeiro texto:




«Platero é pequeno, peludo, suave; tão brando por fora que se diria todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.
Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia debilmente com o seu focinhito, roçando-as apenas, as florzinhas cor-de-rosa, azuis e amarelas… Chamo-o docemente: “Platero!”, e vem ter comigo num trotezinho alegre que parece rir-se, com não sei que som de guizos ideal…»

Ou estes, do texto CXXXI:

«Olha para ela, Platero. Deu, como o cavalinho do circo pela pista, três voltas ao jardim, branca como a única leve onda de um doce mar de luz, e voltou a atravessar o muro. Imagino-a no roseiral silvestre que há do outro lado e quase a vejo através da cal. Olha, já está aqui outra vez. Na realidade são duas borboletas: uma branca, ela; outra preta, a sombra dela.» (…)
«Olha que bem voa, Platero! Que regozijo deve ser para ela voar assim! Deve ser, como é para mim, poeta verdadeiro, o deleite do verso.»

Ou ainda estes trechos do texto LVII:

«O céu azul, azul, azul, asseteado pelos meus olhos em êxtase, ergue-se, sobre as amendoeiras carregadas, até às suas últimas glórias. Todo o campo, silencioso e ardente, brilha. No rio, uma velazinha branca eterniza-se, sem vento.» (…)
«Quando, entre um cheiro a laranjas, se ouve o ferro alegre e fresco da nora, Platero zurra e retouça alegremente. Que simples prazer diário! Já no tanque, encho o meu copo e bebo aquela neve líquida. Platero some na água sombria a sua boca e beberrica, aqui e ali, no mais límpido, avaramente…»

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Há 60 anos, mesmo há 50, os burros faziam parte da paisagem habitual dos espaços rurais portugueses. A perda de importância do setor primário nas economias ocidentais fê-los quase desaparecer. Enquanto continuam a estar muito presentes na paisagem dos países islâmicos, em Portugal sobrevivem quase exclusivamente em pequenos santuários mantidos por entidades conservacionistas, algumas vezes tornando-se rentáveis pela demanda citadina do exótico que estes animais já suscitam.
Os burros, no entanto, já estiveram no centro da História: por volta de 2350 a.C. Sargão I, de Acad, conquistou as cidades sumérias da Mesopotâmia à frente de um exército montado em onagros, ou burros selvagens, instituindo naquela região a governação e a cultura de um povo semita. Habituados que estamos à imagem guerreira dos cavalos, que a Arte nos transmite, temos dificuldade em imaginar a verosimilhança de tal força bélica. Na verdade, os cavalos só surgem na História pela mão belicamente eficaz dos Hititas, uns sete séculos depois, na mesma região.

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A égua e eu

[A ideia era fazer um pastiche de “Platero e eu”, mas rapidamente dei por frustrada a tentativa. Prosa poética não é bem o estilo em que me sinto à vontade. Mantive, no entanto, o tema dos paraísos campestres perdidos.]

Há cinquenta e poucos anos, num entardecer quente de meados de junho, eu calcorreava os quatro ou cinco quilómetros de caminho rural que separavam a estrada que me trouxera da cidade, em camioneta ou boleia automóvel, do monte agrícola de meus pais. Duas pequenas ribeiras e um couto de caça repleto de moitas de carvalhiços eram metas intermédias e de fácil mas excitante atravessamento. A zona mais silvestre deste, com cheiros de húmus e rosas albardeiras e onde retouçavam coelhos em magotes, anunciava as proximidades dos meus bem-amados espaços.
Após ultrapassar um pequeno outeiro que o caminho cruzava junto a um zambujeiro, a paisagem da encosta a terminar na ribeira, com o vulto amigo da serra em fundo, atingiu-me em pleno na carência de afetos, pela ausência prolongada. De todas as vezes que ali chegara, a mesma ternura pelo espaço familiar e querido fazia mover o meu espírito. Lá ao fundo, à esquerda, a estreita faixa de pinhal, silencioso e escuro, que delimitava o monte a oeste e provia a exploração com alguma madeira; à frente, os dois pequenos grupos de edificações, sendo um deles apenas a queijeira e o forno; sobre a direita, o declive de olival que terminava na faixa ainda viçosa da beirada, generosa provedora de todas as culturas, limitada pelo verde-escuro dos amieiros da ribeira. A envolver-me, a espessura heterogénea dos cheiros, em que sobressaíam os dos fenos.
E os sons. Há muito que a azáfama musical das cigarras me acompanhava, mas a partir dali era suplantada pela estridência mais aguda dos grilos, em apelos de acasalamento no meio da seara. A regularidade da cadência só era quebrada pelo restolhar assustado de alguma lagartixa ou pelo estalar propagador das vagens ressequidas das giestas que bordejavam o caminho. E pelo chilreio múltiplo e disperso da passarada. Flutuante e preguiçosa, a melodia distante dos chocalhos do rebanho.
Já perto da casa da família, com o palheiro anexo onde também se guardavam a junta de vacas e a égua, cheguei ao lameiro onde esta pastava, peada ou presa a uma estaca por uma corda longa. Cumprimentou-me com um vigoroso levantamento de cabeça e um leve relincho. Sem dúvida, eu chegara a casa, o local onde era feliz nas longas férias de verão, onde estava a minha família, onde até os animais me reconheciam. Quando o mundo exterior fosse muito hostil, ali teria sempre abrigo, ali seria sempre aceite.
Como o dia estava no fim, meti mãos à tarefa de recolher a égua. Soltei-a das prisões, enrolei bem ao meu pulso a corda que lhe atava o pescoço, a fazer de rédea, firmei-me e saltei-lhe para o dorso. Talvez por ela começar logo a andar, talvez pelos meses de ausência, o salto foi curto e ineficaz. Estatelei-me no chão numa situação de grande perigo, devido à estupidez de me ter prendido à rédea. Se a égua se tivesse assustado, ou por urgência de voltar ao estábulo desatasse em galope, eu seria arrastado e ficaria muito maltratado. Mas ela estacou de imediato, voltou a cabeça para trás, olhou-me com um olhar meigo de compreensão, como se dissesse “Então, miúdo!”, e esperou que me levantasse e acertasse a tentativa seguinte.

Pouco depois chegava à casa de telha vã onde recebi os mimos paternos, que se toldaram um pouco quando tive de lhes anunciar que chumbara o 4º ano do liceu.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


3 comentários:

mas tens que ser dar cabo dum texto que ia tão bem na senda do Platero que te deu o mote lírico'
é que essa última frase nem era preciso (!) que a gente tivesse conhecimento tão prosaico...dispensava-se... :)

Comecei a ler e pensei : “finalmente, Joaquim se permite a prosa poética, o lírico!”.
Adoro os seus registros históricos, os resgates da História da arte, as picardias políticas e outras coisas do seu variado repertório, mas, sinceramente, um texto como este, tão doce, tão saudoso, tão lindo, me emociona muito mais. Aos outros textos seus saúdo pela inteligência e pela cultura que demonstram. Mas o relato de hoje me enterneceu, tocou as minhas próprias lembranças. Foi como esta frase, na qual fiz pausa especial : “...atingiu-me em pleno na carência de afetos, pela ausência prolongada”.
Muito bom!

Fátima, o lírico não exclui contratempos. E acho que aquela informação ajuda a explicar outras partes do texto. Mas compreendo a tua posição.

Cinthia, Lírico não sou, corro o risco de ser lamechas. Obrigado por tantos géneros elogiados. Adoraria atingir sempre o leitor, não necessariamente pela via do enternecimento. Quem não adoraria?

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