Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Demonstrações de uma natureza desumana

Fotografia de Mike Bitzenhofer
Ainda que eu não queira
sinto
que deveria escrever
algo
- triste
revoltado
fatídico
dramático, talvez
um poema
ou um texto qualquer
disforme -
sobre a morte
da mulher
de ontem
linchada
na rua
por sacrificar criancinhas
em rituais de magia negra

é o que dizem
uns

exceto que ela não fazia
qualquer maldade
com criancinhas

é o que dizem
outros

e depois seguem falando e falando e falando
sobre fraude, petróleo, dia das mães e copa
do mundo
e eu aqui
tentando seguir
a leitura
mas essa página
vermelha parece
que nunca vira...

Não é de hoje que
os jornais estão cheios disso
mortes e de-
monstrações
de uma violência descabida
- não que eu consiga imaginar
uma justificativa qualquer
que faça caber
em minhas mãos
uma pedra

e se a mulher
a vítima
a morta
fosse mesmo uma assassina?
de criancinhas inocentes
de animais
de rua
a bruxa
da magia negra?

ah... não sejamos hipócritas.
ah, se ela fosse mesmo aquilo
que pensavam
naquele momento
mereceria uma pedrada
uma pedradinha só...
uma pedrada de leve
ingênua, de raspão!
sem a intenção de
matar...

a intenção de matar
a intenção
de:
matar.

como se aqueles que protagonizaram
o espetáculo do último coliseu
moderno de que se teve notícia
tenham pensado
em criancinhas
ou justiça
ou vingança
ou qualquer coisa!
foram conta-
minados
por algo que é intrínseco
da natureza humana

(algo que, com leis, dogmas, um tanto de sorte,
e outras correntes mais fortes mantemos latente
a maior parte do tempo - alguns, por toda uma vida)

homens
sendo homens
em seu pior estilo

os jornais andam cheios disso
nós andamos
cheios
disso
somos como balões
colocados cuidadosamente
em caixas de pregos
cheios ao ponto de estourar
caso sejamos excessivamente
pressionados
pela multidão
que se acumula
ao nosso redor.

Estamos todos presos
dentro de uma mesma caixa
pressionada pelos mesmos pregos
mais o calor do balão ao lado

cansados das tantas agulhadas
que recebemos e julgamos
não merecer e tememos
não suportar
desistimos por um instante
de pensar
um instante
anestesiados pelo absurdo
no qual estamos imersos

e folheamos a página
com força
suficiente para
banalizar a monstruosidade
que infla o balão ao lado
pois sabemos que qualquer um
- a vítima
- o monstro
- o medo dentro de ambos
qualquer um deles poderia
ser um de nós

e é.

O fato é que
há mulheres sacrificando criancinhas
a todo momento
nesse exato momento
em rituais de magia negra
em quartos
em dias e noites
de escuridão
e tudo quanto é tipo de inanição
que se pode supor

só que aquela
não era uma delas
não era
mas
e e se fosse?

(pausa para um pensamento que nos monstrifica)

É duro viver
tendo que lutar
contra aquilo
que
- por melhor que gostemos
de pensar que somos-
não se pode
deixar
de ser.

Share


Ju Blasina




todo dia 07


3 comentários:

Um suspiro contido no fim, sufocado de tanto saber e preferir não-saber o que a vida nos mostra a cada segundo. Somos milhares buscando a natureza, outros maltratando-a, mas todos fugindo do horror de reconhecer-se nessa pintura que grita. Lindo, Ju.

Obrigada, Gi! Pela lida e pelo comentário! Beijo

O nosso horror não tem fim.

Postar um comentário