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segunda-feira, 14 de abril de 2014

VICO

                                                                                                                   VICO

Cecília Maria De Luca                                          

Quando o vi pela primeira vez, mal cabia na palma da minha mão estendida. Trocamos olhares desconfiados, aquela bolinha de algodão e eu. Passados cinco minutos eu já estava apaixonada, enquanto aqueles dois olhinhos de jabuticaba ainda me fitavam com medo e desconfiança. Meia hora depois, restou vencido, cheio de amor por mim. Já daquele tamanhinho correu pela casa toda, reconhecendo o terreno e marcando território.    Em poucos dias aprendeu onde fazer suas necessidades, mas, quanto ao local de dormir, não teve jeito, sempre foi no tapete, bem ao lado da minha cama.

Como era inteligente aquele danadinho.  Conhecia o timbre da minha voz e sabia exatamente o que fazer quando lhe ordenava qualquer coisa. Sabia quando eu estava triste, alegre, preocupada, brava, enfim, conhecia-me mais do que qualquer pessoa e reagia sempre da maneira mais acertada. Era a minha sombra adorada.

Quando eu estava trabalhando eu o sabia em casa me esperando. Ao chegar, era uma festa só, quase me sufocava, tanto latia e me lambia, seu rabinho girando loucamente. Quando eu viajava, eu o sabia em depressão. Ao regressar, me olhava ressabiado, ofendido com tanta ausência e era eu quem quase o sufocava de tanto que o abraçava e beijava pedindo perdão.  E ele sempre perdoava, voltando a me lamber e a abanar o rabo.

Vez em quando me tirava do sério. Era assim quando exigia que eu lançasse sua bolinha, incansavelmente, por mais de hora seguida, ou quando latia desesperado de ciúme ao ver-me abraçar um amigo ou brincar com outro animalzinho qualquer.

Vico era um lorde. Era um cão diferenciado, tal a sua elegância. Tinha a mania de levantar uma das patas dianteira antes de enfrentar qualquer terreno ou pessoa desconhecidos. Fazia esse gesto com tal graciosidade que era impossível não arrancar um sorriso de quem quer que fosse. Parava as pessoas na rua para admirá-lo. Enchia-me de orgulho.

Era o xodó no “pet shop” onde tomava banho, mas detestava quando lhe punham uma gravata ou o enfeitavam de qualquer forma. Enquanto não arrancava tudo, não sossegava. Era como se sua dignidade ficasse arranhada. Eu entendia e não permitia que lhe vestissem qualquer coisa. Afinal, Vico era um cão, tinha orgulho de assim ser e era assim que queria ser tratado. E como era valente o meu amigo! Enfrentava cachorro grande como se grande ele fosse. Chegava a ser agressivo com estranhos. Quando eu ralhava com ele, me olhava com olhos de orgulho de macho. Só de uma coisa o meu machinho tinha medo. Era do barulho de foguetes e trovões. Aliás, até com o estalido de bombinhas ele se apavorava. Nessas horas se achegava com o rabinho entre as pernas, tremendo feito vara verde, e me olhava com olhos de pavor. Eu o pegava e o acariciava até que se acalmasse.

Nunca mais me esqueço do dia em que chegou. Naquele mesmo dia, à tarde, perdi uma grande amiga. Reagi como sempre reajo quando alguém que amo muito vai embora. Costumo sentar no chão, encostar-me à parede e chorar desconsoladamente.  Acho que é um mecanismo inconsciente. Um precisar de algo sólido, firme o bastante, que segure minha alma, impedindo que ela escape me levando junto.  Vico ficou sentadinho na minha frente, inclinando a cabecinha ora para um lado, ora para outro, me olhando com olhos de presença. Parecia saber que só de tê-lo ali, pertinho de mim, já era um grande consolo.  E, nesses quase doze anos de convivência, sempre foi assim. Nesses doze anos perdi amigos, pais, irmãos e sempre, nessas horas terríveis, ali estava o Vico, perto de mim, inclinando a cabecinha de um lado para o outro, lambendo minhas lágrimas, me olhando com olhos de amor.

Nos momentos alegres, e foram muitos, Vico também estava ali, saltitando, dando voltas, correndo de um lado para o outro, me olhando com olhos de vida plena. Na casa de campo era uma festa. Todas as árvores, plantas e flores foram batizadas e rebatizadas por ele. Corria pelo jardim feito um corisco e que alegria ver aquela mancha branca como a neve contrastando com o verde intenso do gramado! Que paz senti-lo no colo ao apreciar o por do sol!  Que delícia, nas noites frias ou quentes, ir ao jardim antes de dormir, hábito meu, olhar para o céu estrelado, para a lua cheia ou minguante, sempre com ele ao meu lado. Nessas noites, quando me demorava a entrar, ele ia para a porta, latia e me olhava com olhos de sono.  Ah, Vico, que amigão você era!

Vico foi um cão saudável. Só visitava o veterinário para as vacinas de praxe e para limpar os dentes. Não me dava o menor trabalho nesse sentido.  Entretanto, um belo dia, quando ele já tinha oito anos de idade, percebi que, depois de uma corrida, arfava mais do que o normal. A partir daí, quando se assustava, sua língua, sempre vermelhinha, adquiria um tom arroxeado e, nessas horas, parecia que ia desfalecer.  O diagnóstico foi “traqueíte congênita”, e a receita, evitar corridas e sustos. Escondi a bolinha, mas era impossível segurar o Vico quando ele via uma cadelinha na rua, ou evitar que ele pulasse feito cabrito quando eu chegava do trabalho. Era impossível também impedir o barulho dos trovões ou dos foguetes. Contudo, e apesar de tudo, Vico e eu convivemos com sua “traqueíte” sem problemas, levando uma vida, que poderia dizer, normal.

Vico foi envelhecendo comigo. Seu focinho negro, antes tão brilhante, começou a raiar de branco. Ameaçava correr quando via algo que o interessasse na rua, mas logo desistia e me olhava com olhos de cansaço.  Seus passos foram ficando mais lentos e lá, no campo, já não corria pelo gramado, já não me acompanhava ao mirante para apreciar o céu. Ia, no máximo, até a varanda onde ficava a me esperar para entrar. Depois, nem isso. Preferia ficar deitado sob a cama ou no tapete da sala quando lá eu ouvia música ou assistia à televisão. Trocávamos olhares longos e angustiados. No entanto, como eu disse, Vico era valente. Foi vivendo assim, sempre a me fazer companhia, eu já aposentada. De manhã, única hora do dia em que ele esboçava algum entusiasmo, caminhava pelas ruas, só que agora devagarzinho, quase parando.

Dia desses aí atrás, fim de inverno, Vico estava bem. A mim me pareceu que ele até criara alma nova. Andou mais ligeiro pela casa e, não fosse pelo fato de que se recusara a comer, eu diria que Vico ficaria comigo mais uns dois anos. Foi dormir como sempre, na hora em que fui para o quarto, deitando-se ao meu lado.  No meio da noite, Vico latiu. Um latido só. Pensei em acender a luz e verificar se estava bem. Mas ele se aquietou, então eu dormi.  E Vico também dormiu. Só que eu amanheci e Vico não.  Até para morrer ele foi elegante. Deixou para mim seus olhinhos abertos, fixos e cristalinos como dois cristaizinhos a me olhar com olhos de adeus. Um fio vermelho discreto riscava seu pelo branco no canto da boca. Chorei desconsoladamente, como sempre sentada no chão e encostada à parede. Só que desta vez, Vico estava inerte nos meus braços. Não mais sentado à minha frente, a inclinar sua cabecinha de um lado para o outro, a me olhar com olhos de consolo, a lamber minhas lágrimas de saudade.

E agora Vico? E agora que não o sei em lugar algum, como é que eu fico? Como andar pelas ruas, pelo jardim do chalé, passar por todos os seus territórios, sem você? Como dormir sem ouvir o seu ressonar ou os seus passinhos pelo quarto? E agora Vico? Cadê você? Sabe, ainda estamos no verão. Temporada de chuva com raios e trovões. Será que você os ouve? Será que ainda tem medo?

Meu grande companheirinho, vou lhe contar um segredo. Quando chove como hoje, quando os relâmpagos riscam o céu, seguidos pelos estrondos, eu fico a tremer, também com medo. Só que agora não preciso fingir que sou corajosa. Você não está no meu colo, você não está mais aqui e isso de certa forma me consola... Consola?!
 
Ah, Vico, quanta ausência, quanta dor, quanta saudade!

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18 comentários:


Chorei de me acabar aqui! Muito mesmo! Sou alucinada por cães e meu Beethoven morreu tem dois anos, velhinho. Linda história, de imensa sensibilidade. Eles duram tão pouco, não? É a gente fica com a saudade desses serezinhos que só sabem nos amar. Adorei, Cecilia, mesmo com a tristeza da morte. Porque o que o Vico lhe deu em vida foi só alegria. Existe uma história/lenda bonita que contam entre os que gostam de cães. Quando eles morrem, vão para a ponte do arco-íris, onde vivem sem dor e sem fome, sempre brincando. Então, no dia em que seus donos morrem, diz a lenda que aquele cãozinho para de repente e começa a farejar o ar. Corre em seguida para a ponte e vem receber seu dono, e eles se juntam para sempre. É lenda, mas é bonita, não?

Sei bem o que é amar um cachorrinho e depois ele partir. Eles fazem parte da família, é como perder o melhor amigo, confidente, aquele que sempre está a seu lado sem pedir nada em troca! Lindo, tocante, vivi cada linha que escreveu, como se o Vico fosse meu, principalmente na hora da sua morte! Amei, como sempre, e como sempre vou amar tudo o que escreve, pois é delicado, verdadeiro e intenso! Beijos, Má

complimenti Cecilia, la lettura dei tuoi racconti è sempre molto piacevole e la presenza in questa rivista esalta la sua ottima qualità. Bruno

Cinthia, obrigada pela leitura, amiga querida. Suas palavras me fizeram chorar tudo de novo. A lenda que você contou é linda e eu acredito, ah, que acredito. Obrigada, também Maria Silvia e Bruno, vocês são um encanto!

Por meus amigos Leão, Taylor, Prequitita, Ralph, Liliu, Lilico, Birimbelo, Único, Pidoga, Ninívea, Madruguinha, Cavernosa e Preazinha... Muitíssimo obrigado, Cecília! Obrigado mesmo, de coração. Eles merecem a emoção que senti ao ler seu texto. Pensei muito neles. Obrigado. Mingau ainda está comigo... E espero que ainda por muitos anos!

Ah nem, Cecilia!!! Pára de me fazer chorar!!!!!!!!!!! Lindo texto! Doce, amoroso. Falar de lealdade e de amor puro é sempre tocante! E vc escreve de modo que nos coloca sentados no chão com você!!

Que texto lindo! Como é de seu estilo, delicado, sentido, tocante e impregnado de amor. O Vico se foi, mas deixou doces lembranças e isto vale muito. Cecília, adoro te ler. Esse texto com certo tom de melancolia, ainda assim, me acalentou e me acolheu. Que delícia!

Tivemos um cachorro que sumiu quando eu tinha 4 anos. Era um viralatas hipermegaultra inteligente e amigo e eu o amava de tal forma que nunca mais quis outro. Fico grata por seu texto - tão sensível! - me fazer lembrar dele, Cecilia... Um abraço misturado com saudade (do 'Japonês', também - e nem me pergunte a origem do nome do totó: já estava lá quando nasci).

Eu mesmo fiquei com saudades do Vico,que sequer conheci.
Parabéns novamente Cecília!

Obrigada, amigos. Muito feliz aqui pelos comentários.

Ah, chorei aqui, pelo Vico, por todos os Vicos que lambem a dor, balsamizam feridas, são cúmplices, amor puro e Divino, ah, eu chorei, Cecilia, sem um Vico para me olhar inclinando a cabecinha de um lado para o outro... Emocionante relato de um amor incondicional, esses são anjos de quatro patas a nos acompanhar... Lindo, parabéns pelo texto rico de sensibilidade e amor!!

quem teve um amigo, sabe o quanto é dolorida essa partida. Mais uma vez LINDO!!! Sentimento transbordando nas palavras.

Rita Dheka, que bacana você ter visitado essa página. Obrigada, querida!

Querida Cecília. Mas um texto para deixar minha emoção na florzinha da pele... Belíssima homenagem que você prestou ao Vico, seu leal companheiro, com esse texto transbordando amor. Parabéns! E como sempre, aproveito para agradecer a Revista Samizdat por nos proporcionar momentos tão prazerosos através de suas crônicas. Patrícia Gontijo de Andrade

Os Vicos já foram promovidos a "filhos fieis, amigos e sempre sedentos de carinhos"
Belíssimo, emocionante e de provocar lágrimas nos nossos 74 anos de vida.
Anonimo

Querida Cecília. Belíssima homenagem ao seu leal companheiro Vico. Parabéns pelo texto repleto de amor. Patrícia Gontijo de Andrade

Obrigada, Patricia, minha grande incentivadora! Obrigada, também, Marcílio. Vico merecia essa homenagem.

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