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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Desdémona


Joaquim Bispo

Quando Iago chegou a casa, a mulher, Emília, apressou-se a dar-lhe as novidades:
– Já se começa a perceber muito bem qual vai ser o aspeto final do retrato da minha senhora. Ela está deitada num leito, toda nua, e do alto tomba uma chuva de ouro. Ao lado da cama, há uma velha que tenta apanhar algum desse ouro. Mestre Ticiano diz que o conjunto representa a figura mitológica de Dánae, engravidada por Júpiter sob a forma de chuva dourada.
– Excelente! – rejubilou Iago. – Quando volta Desdémona a posar?
– De hoje a uma semana. A minha senhora não quer dar azo a que o marido desconfie de nada.
«Ah! Mal posso esperar para insinuar indignidades aos ouvidos de Otelo», congeminava Iago. «Se eu for bastante persuasivo, Desdémona será repudiada e não ficará em posição de ser insensível aos avanços de Rodrigo.»

Uma semana depois, em casa de Otelo, este desvenda a Iago alguns dos aspetos militares que o preocupam:
– O Turco está cada vez mais atrevido. Veneza está a pontos de perder Chipre e até de deixar de ser senhora do Adriático. O Conselho está a ultimar uma aliança com o Papa e com Filipe II de Espanha. Se esta aliança conseguir reunir uma grande armada, partiremos, a confrontar os asquerosos otomanos, nem que tenhamos de lhes dar batalha nas costas da Grécia. – Pensativo, continuou: – Não temo a batalha, mas constrange-me ficar tanto tempo longe da minha adorada.
– Podeis ir descansado que ela não se sentirá infeliz, isto é – gaguejava Iago –, terá o coração choroso, mas tudo faremos para que não pense muito em vós, isto é, que se distraia e só pense em coisas agradáveis, isto é, outras que não vós.
– Meu bom Iago – esclarecia Otelo –, ela ficará bem com certeza, mas vós ireis comigo. Não vos esqueçais que sois o meu alferes.
– Sim, ficará bem. Disso não duvido. Ficará até muito bem. Não que eu tenha alguma notícia que vós não saibais…
– Que quereis insinuar? – espevitava-se o general. – Que sabeis, que eu não saiba?
– Eu? Nada. Falei por falar. E mesmo que soubesse – espicaçava Iago –, jamais a minha boca se abriria para denunciar a senhora da minha esposa.
– A maneira como falais parece indicar que algo menos honroso se passa. Pela obediência que me deveis, dizei: o que sabeis? – impacientava-se Otelo. – E não temais pela vossa esposa, que sempre terá fidalgas a quem assistir.
– Se assim me intimais – condescendia Iago – só vos posso confidenciar que Desdémona se tem encontrado com um velho, a quem se expõe como Deus a deitou ao mundo. Não sei por que o faz, se por lascívia, se por comércio.
– Quê? – esbracejou Otelo, sentindo-se atraiçoado. – Pois ela entrega-se a outrem? Provai o que dizeis ou despedi-vos da vida.
– Não mateis o mensageiro, senhor! Perguntai antes à vossa amada onde vai todas as semanas, neste dia.
– Sim, sim, chamai-a já, que quero esclarecer este caso!
– É inútil chamá-la – devolvia Iago – porque neste momento está ela a ser acariciada pelo olhar de Mestre Ticiano na Scuola Grande de S. Rocco. Parece que o Mestre tem predileção por corpos jovens e manifesta mesmo algum entusiasmo quando os seus pincéis acariciam a superfície da pintura, talvez fantasiando que acaricia a própria pele branca e sedosa de vossa esposa.
– Pintura? Ticiano? Mas, pelas bombardas de popa, o que é que o velho quer de minha mulher? – surpreendia-se o general.
– Os velhos, às vezes, são os piores – aproveitava Iago. – Ele está a retratar vossa esposa como Dánae, engravidada pela chuva dourada de Júpiter. Isto não parece muito decoroso.
– Oh, com mil raios da procela, que indignidade! Vou expor esse quadro na praça de S. Marcos, para que Veneza abomine essa devassa.

De regresso a casa, Desdémona vê-se confrontada com a ira do marido:
– Muito folgo de vos ver vestida – ironizou Otelo. – Tanto quanto sei, ainda há pouco oferecíeis o vosso corpo à lascívia dos olhares de quem o deve conhecer melhor do que eu.
Desdémona quedou-se muda e de olhar perplexo. Olhou em volta à procura da criada que lhe recusou o olhar.
– Contai-me vós – continuou Otelo – por que vos expondes nua ao olhar de Ticiano!
– Nua? – contrapôs Desdémona. – Nunca Mestre Ticiano viu o meu corpo. O meu rosto aparece num corpo nu, mas esse corpo foi o que preferi, num conjunto de desenhos e gravuras que Mestre Ticiano me deu a escolher, quando contratei a feitura do meu retrato. Só vou a S. Rocco para que ele retrate o meu rosto aplicado ao corpo escolhido.
Agora, era a vez de Otelo ficar sem palavras. Mas, logo quis saber:
– Afinal, por que bizarria andais nessas andanças? Por quê, esse retrato?
– Era para ser um segredo – explicou Desdémona, voltando a passar o olhar por Emília. – Vai fazer um ano que eu e vós nos unimos pela carne. Essa união do viço duma jovem como eu, com a força de um deus como vós, frutificou. Estou grávida. Sim, grávida – confirmou sorridente, perante o olhar assombrado do marido. – Quis fazer-vos uma surpresa e oferecer-vos uma imagem alegórica que evoque, todos os dias, esse primeiro encontro dos nossos corpos, e o que dele resultou. O tema de Dánae foi ideia de Ticiano.
Otelo ficou um bocado em estupor. Depois, berrou:
– Iago! Estareis sempre na proa do barco dianteiro. Quero que os otomanos fiquem a conhecer as vossas feições. Podeis precisar dessas amizades no Inferno!

Caprichosamente, quem não voltou da batalha foi Otelo, trespassado por uma bombarda turca. Desdémona, desgostosa, não resistiu à perda do seu amado. O seu corpo foi encontrado a boiar no Canal Grande. O quadro, no qual ela punha tanto empenho, acabou por ir parar a Madrid, oferecido por Ticiano a Filipe II, em agradecimento pelo apoio militar a Veneza.





Imagem: Ticiano, Dánae recebendo a chuva de ouro, Museu do Prado, c. 1553.

(Este conto foi publicado anteriormente no nº 31 da revista Samizdat)

Inspirações: Otelo, de Shakespeare; Dánae, de Ticiano.


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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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