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domingo, 2 de fevereiro de 2014

BALANÇO DO VENTO


 
 
(carta endereçada a Riobaldo encontrada em meio aos pertences de Reinaldo, jagunço do bando, e entregue ao chefe, lacrada)

 
Tatarana, meu líder e amigo,
            Riobaldo, meu amor,

 
Estamos perto do momento de encontrar a corja do Hermógenes, e não sei como isso tudo vai acabar. Como vosmecê, não sei nada, mas também desconfio de muita coisa. E tenho algo pra lhe revelar, mode vosmecê compreender meu comportamento estranho.

Riobaldo, desde que o encontrei às margens do rio, naquele barco, quando nós éramos dois moleques, eu soube que vosmecê fazia parte do meu destino. Mesmo quando segurei sua mão gelada de medo, sabia que seu sangue era quente, e que vosmecê só não conseguia ainda trazer o calor da coragem pra ponta de seus dedos. Ainda não era a hora de vosmecê descobrir tanta coisa, não de uma vez, mas sei que não terei muito tempo e que nossa tropa vai se desfazer logo.

Não concordei com a sua decisão de trazer esse menino e esse cego pra andar com o nosso bando. Criança e inválido não guerreiam, só servem pra atrasar o grupo. Mas quando vi os dois andando emparelhados com vosmecê, um de cada lado, eu entendi. Eles são seus guias, Riobaldo, e estarão ao seu lado mesmo quando eu não estiver mais por aqui.

Eu guardo um segredo, Tatarana. Um segredo que poderia mudar a nossa vida, mas que eu não podia revelar. Até hoje.

Sei que vosmecê pensa que sou filho de Joca Ramiro, o maior chefe que o sertão já conheceu. E lhe afirmo, Riobaldo, que Joca Ramiro nunca foi pai de filho homem. Ele é meu pai, sim, antes que vosmecê me tome por impostor. Mas a menina que Joca Ramiro pegou nos braços no primeiro choro deixou de existir, Riobaldo. Maria Deodorina, ou Diadorim, como vosmecê conhece, calou seu choro e secou nas pedras das veredas. Sou como o cacto do deserto, Riobaldo. A umidade de meu choro está escondida, e só poderia mostrar a vosmecê. Jagunços só podem ver meus espinhos, que escondem e protegem meu segredo mais precioso.

Cego Borromeu descobriu tudo, e tenta lhe contar o tempo todo. Mas vosmecê é homem prático, acostumado à secura do sertão, e não entende a música que ele canta. Ainda bem. É mais seguro assim. Ele fica triste por vosmecê, mas sabe que caminho é que nem cruz, é coisa pra ser trilhada pelo próprio, e que não dá pra fazer pelo outro.

Moleque Guirigó acho que também desconfia. Faz muitas perguntas, sem parar. Às vezes, anda atrás de mim até que Borromeu o chama. Prometa que sempre os trará ao seu lado, Riobaldo. Cegos veem o invisível, e vosmecê precisa treinar os olhos da alma. Leve Guirigó também. Vosmecê vai casar com a senhorinha – ai, como dói dizer isso –, e lá na fazenda sempre terá lugar para o menino. Cultive a sabedoria e o silêncio do velho e a curiosidade espontânea da criança. Caminhe no vão entre a escuridão da cegueira, mas que vê a alma, e os olhos abertos, que denunciam. Com a serenidade do velho e a leveza do menino, não haverá trilha ou vereda que vosmecê não consiga transpor.

Sei que a senhorinha o fará feliz. Depois que eu não estiver mais aqui, sua jornada será ao lado dela. Eu não sou nem a mulher-dama nem a donzela, Riobaldo. Eu sou o Tudo e o Nada, mas não há lugar pra mim na sua vida. Mire e veja. Não carece explicar mais.

Aquele pacto que vosmecê pensa que fez com o tinhoso está só na sua cabeça. Que o demo, quando surge, não marca hora nem lugar. Ele vige o tempo todo, no meio do redemoinho que arranca as coisas de nós. Ele está nos crespos do homem. Não o alimente, que ele deixa de existir.

Um senhor chegará, e pedirá a sua história. Conte a ele. Não deixe que outras pessoas tenham que viver escondidas dentro de si como tivemos que fazer. E aí vosmecê ouvirá minha voz e saberá que estou bem.

Quando o vento soprar na curva do rio e vosmecê se lembrar de mim, será com o alívio das frutas cheias de sumo, não com secura e aridez. Quando o vento soprar na curva do rio, imagine meus cabelos longos, que tive que sacrificar, e mire a liberdade que terei então. Deixe-os balançar ao sabor do vento e, como eles, permita-se ser feliz.

Da sua (embora sem vosmecê saber)

Diadorim

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Tatiana Alves
Tatiana Alves é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

todo dia 02


5 comentários:

Tatiana, Rosa deve estar sorrindo de orelha a orelha. Se não estiver, eu estou. Extasiada. Parabéns. Mesmo.

Belíssimo. Uma carta que deveria fazer parte de Grande Sertão Veredas. Parabéns.

Nossa! Extasiada fiquei eu, com os comentários de vocês. Muito obrigada pela leitura e pelas palavras.

Este comentário foi removido pelo autor.

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