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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Gerações

Não sei dizer se isso é um ensaio, um tratado, uma teoria, ou, pura e simplesmente um acordo comigo mesma. Acho que é reflexão, filosofância... Versar, mesmo em prosa ou drama de atuar, é coisa séria. E as regras desse brinquedo de contar nunca são muito claras, conferindo um sabor especial à brincadeira. 

O drama de toda escrita consiste na página em branco. Curiosa essa afirmação, afinal a ausência de palavras não soa [para mim] como ameaça, muito pelo contrário: é terreno seguro. Depois da primeira linha rompida por uma ideia, um cheiro ou uma constatação, tudo bem. É só encontrar as peças corretas: o que buscarei dessa vez? Solidez de conteúdo? Solidez de conteúdo aliado a um bom movimento sonoro, rimando coisas no meio das grandes cadeias de significação? Quem sabe... 

Isso porque já se disse tudo. As palavras são exploradas tal como uma floresta tropical. É possível tirar muito delas, embora alguém já tenha dito que somos seus servos – acho até que sim. Expressar algo totalmente inovador... – a cabeça dói e nada vem. Se eu ao menos soubesse de onde viemos e para onde vamos, seria uma coisa original, mas ficariam todos tão impressionados com tais respostas que nem prestariam atenção na minha perspicácia e iriam correr para algum lugar, provavelmente o parapeito de um prédio bem alto e dizer adeus. 

Ser original não é fácil e quando repetimos alguns temas, parece até coisa de cientista, genética, né? O olho é do pai, o temperamento é da mãe. E assim, os poetas, as leituras, os pensamentos vão transmitindo o seu gérmen curiosamente roedor e criador, mola propulsora do movimento dos relógios sem sair do lugar. Uma página remete a outra e a outra e mais outra e não nos é estranho a sobrevivência do mito do labirinto, visto que somos ele mesmo. Descer até o mundo aonde a luz não chega, tentar ao máximo escavar esse mistério o qual responde uma pergunta fazendo dez mais.

Por essa razão, responder as questões elementares é inútil. Destruiriam a literatura. 

Sei a resposta de tudo aquilo que nos assola, destrói, constrói e tudo o mais.

Contudo, não confesso.

Preservação da espécie. 

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1 comentários:

Texto suave e bom para refletir sobre a escrita. Gostei.
Abraços.

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